quinta-feira, 16 de julho de 2009

A REPORTAGEM DA TRIP



Ronaldo Bressane, escritor e jornalista, escreveu um texto interessante e problemático na revista Trip: “Ninguém é de Ninguém”. Para quem quiser ler na íntegra, aí vai: http://revistatrip.uol.com.br/revista/178/especial/ninguem-e-de-ninguem-a-nova-realidade/page-1.html

O texto aborda a nova música brasileira e seleciona nove nomes: Kassin, Junio Barreto, Hélio Flanders, Thalma de Freitas, Rômulo Fróes, Ganjaman, Tatá Aeroplano, Catatau e Céu.

Nove nomes porque o texto foi inspirado numa reportagem da revista REALIDADE de 1966 que trazia na capa “Os Novos Donos do Samba”, também em número de nove: Rubinho Barsotti, Jair Rodrigues, Nara Leão, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Magro do MP4, Paulinho da Viola e Toquinho.

Malgrado a semelhança da imagem (Catatau ocupa a posição de Caetano, Tatá a de Magro, Leonardo Fróes a de Paulinho da Viola), na verdade, a semelhança é apenas externa. E isso, o texto deixa claro: a estrutura da música na década de 60 estava baseada no paradigma da difusão, como a rádio-difusão e os festivais; já no novo século, é a dinânica das redes (online e interativa).

O interessante da reportagem foi referir-se a uma outra reportagem e apresentar em relação a ela uma semelhança externa e uma diferença interna. Isso sempre me chamou a atenção como modus-operandi: compor músicas que façam referência a outras, mudando completamente o sentido original. É a Monaliza de Duchamp. Matador de Passarinho, nesse sentido, é uma música emblemática – uma perversão de “Passaredo” do Chico Buarque e Francis Hime.

A grande questão é a arbitrariedade do corte.

Porque se você vive numa rede e todos estão conectados, quais vão ser os critérios para você estabelecer o corte. Vai ser o critério de vizinhança? É o conceito de compossível em Leibniz: A pra chegar a C tem que passar por B, logo, A é compossível a C. Entre os nove nomes selecionados, o fato de muitos deles tocarem entre si, ou, os parceiros de um tocarem com os parceiros do outro, não me parece um bom critério para estabelecer o corte. Muito pelo contrário: é empobrecedor, é previsível. E por mais que haja diferença de estilo entre uns e outros, acaba sendo mais variações que diferenças. O fato de freqüentarem os mesmos lugares, de terem amigos comuns (é isso que define o conceito de vizinhança) acaba por interferir no próprio processo de composição – o que nos trás a sensação de estarmos ouvindo sempre a mesma coisa, por mais variáveis que elas sejam.

Nesse sentido, o corte de 66 foi mais criativo: Jair Rodrigues, Rubinho Barsotti e Caetano Veloso, constituiam uma junção muito mais insólita na época do que os 9 da revista Trip.

Esse me parece o teor problemático da reportagem. Ao invés do critério de vizinhança, poderia se privilegiar tribos completamente diferentes entre si, ainda que conectadas à rede. O critério do corte poderia ser o da diferença.

16 comentários:

Leonardo Tessitore disse...

Acho que além da problemática da reportagem mto bem destacada Rogério, outro ponto que vejo, é que esses nomes citados não parecem ser criadores de novos caminhos como os citados na reportagem de 66, me parecem mais diluidores da estética e do conteúdo da mpb,uma continuação meio que "frouxa" suavizada e modernizada. Fazer Samba de branco-apolineo-bunda-mole, formar grupos que toquem covers revisitados ou tocar Dorival Caymme em versão folk-comportada não me parece mto excitante. Nada surpreende ali.
Mesmo navegando fora do esquema gravadora-mídia de antigamente que parecia a grande causa da repetição da formula, não vejo esse teor essencial nos citados.Mesmo que a forma de propagar a musica e a forma dos artistas se relacionarem tenham sofrido uma mudança radical, a ruptura artística que parecia inerente aos avanços tecnológicos e as mudanças do mundo parecem não ter acompanhado. Concorda Rogério? abraços

Anônimo disse...

Esse troço de Identidade e Diferença dá pane no cérebro.

Völz disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Völz disse...

"E não sou contra retirar tudo o que é igual para deixar a diferença"

Se vc retira tudo o que é igual vc não deixa a diferença, você não deixa nada. Diferença não é caos mudo.

Mas o tema do texto é mais a discussão sobre a possibilidade de se realizar um corte no já dado em direção ao novo, não? Seria um corte então, também, o texto de 66 com a orientação de um novo samba, mas de um diferente modo, um corte que representa não a possível perversão na repetição de um modelo (como na trip), mas sim uma ruptura com o samba já instituído. Isso serve de parábola para explicar a superioridade total daquela época em relação a atual (Sem ressentimentos na minha fala)

Curiosidade: tem algo à dizer sobre Tom Waits?

Anezio Fernandes disse...

Völz, na verdade eu queria dizer "E não sou A FAVOR DE retirar tudo o que é igual para deixar a diferença"...

Foi erro de digitação, vou até apagar e mandar de novo corrigido...

Foi mal...

Anezio Fernandes disse...

REENVIANDO, corrigindo o erro que o Völz apontou!


Concordo contigo em uma coisa, Rogério... Todos os citados são representantes de uma mesma coisa... De um mesmo ramo de arborescência nesta rede... Mas isso, é claro, se olharmos para a rede com olhos de quem quer ver, nesses certos ramos, raízes...

É preciso entender, na minha opinião, que estas figurinhas são elementos de UM DOS DEVIRES da atual música brasileira... Não gosto dessa mania de demonizar o "igual"... Respeito mas não gosto... Porque é uma questão de tratamento... VIROU igual, pelo tratamento homogeneizante... Se o que nós (você, eu ou qualquer outro) enxergamos como diferença fosse tratado homogeneamente, o nosso DIFERENTE seria o IGUAL...

O que temos aqui é apenas a homogeneização de UMA das POSSIBILIDADES DA DIFERENÇA...

E não sou A FAVOR DE retirar tudo o que é igual para deixar a diferença (a parábola cristã de "queimemos o joio branco-apolineo-bunda-mole e deixemos o trigo diferença")...

Então... Acho bom criticarmos o que despotencializa, mas acho essencial fazermos alianças com o que é potente, com o que faz a vida ser mais vida...

Além das figuras da capa da revista (ou só foto, não entendi bem), há outras que poderiam entrar... Não é tirar todas as figuras da capa pra fazer a ditadura da diferença... Talvez tirar algumas, ou umas 8, sei lá, porque existem muitas outras formas de ser rede diferentes desta representada aí...

Mas no final das contas, ter 9 representando uma rede infinita já é uma roubada...

A representação mata a diferença... assunto bobo, o nosso, né?


Rogério, vc tem essa reportagem de 66, ou sabe como achar?

Anezio Fernandes disse...
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eliane sp disse...

belo texto Zéu Britto muito bom finalmente ter descoberto o teu blog
gostei da sua entrevistas no jo!! e virei tua fã
um bejo Zéu fique com deus

José Flávio Júnior disse...

Fala, Skylab
Só uma correção: não é o Milton Banana na capa da Realidade. É o Rubinho Barsotti, do Zimbo Trio, talvez o maior baterista brasileiro vivo. A Trip fez uma cagada e nomeou errado o cara.
Abraço

rogerio skylab disse...

Valeu, Zé.
E eu embarquei na cagada da TRIP.
Vou corrigir.

Diego El Khouri disse...
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Diego El Khouri disse...

Não sei se sou um cara muito alienado ou fora do eixo mas não conheço nenhum desses cantores da nova leva da música popular brasileira.
Acho q só ouvi mesmo o nome da Thalma de Freitas em algum lugar.
Pra mim eles não fedem nem cheiram e não revolucionaram em nada a música como os cantores da leva passada.

19 de Julho de 2009 06:58

MJr___ disse...

se esses nomes que a trip mencionou sao os novos representantes da musica brasileira, eu me sinto inclinado a consumir cada vez mais musica nao-brasileira.

Rafaé disse...

Interatividade, globalização, conexão, link.... destruição de culturas e estilos definidos. Não é questão de ser tradicionalista, mas essa 'obrigação' da era digital de interagir o tudo com qualquer coisa me preocupa, hoje em dia, quem somos nós? Quem foram aqueles, o que são hoje? Caetano Veloso 60 ou Zii e Zie? Essa misturada de hoje em dia me confunde e me irrita.

Balaio The Gato disse...

Como já disseram,não adianta querer condensar o que está acontecendo na música brasileira atual em meia dúzia de nomes,no caso meia dúzia e meia...alé, de dar a impressão de "panelinha" pelos motivos já citados,em pobrece e muito o cenário musical atual que é muito vasto e muito rico atualmente...

Balaio The Gato disse...

Como já disseram,não adianta querer condensar o que está acontecendo na música brasileira atual em meia dúzia de nomes,no caso meia dúzia e meia...alé, de dar a impressão de "panelinha" pelos motivos já citados,em pobrece e muito o cenário musical atual que é muito vasto e muito rico atualmente...