Aí vai um texto que eu traduzi e que consta da revista francesa JAZZMAGAZINE de junho/2008. Dedico ao meu amigo Fábio Massari. Se ele tivesse me procurado hoje para participar de seu livro "Zappa: Detritos Cósmicos", eu teria fornecido esse texto e não aquele de ficção que acabou sendo publicado. Boa Viagem.
FRANK ZAPPA: UM FALSO ROQUEIRO OU UM VERDADEIRO JAZZMAN ?
Outubro de 1969: sobre o palco do festival de Almogies na Bélgica, durante cinco dias, se sucedem Pink Floyd, L Art Ensamble of Chicago, Tem Years After, Archie Shepp, Gong, Don Cherry, The Pretty Things, Soft Machine, etc. E no papel de mestre de cerimônias, Frank Zappa, apresentando os grupos e tocando com eles. Num tal quadro, vê-se bem que o muro, separando o rock e o jazz, caiu. É nessa zona porosa, que serve doravante de fronteira, que vai estar Frank Zappa, fazendo até parte dos bastidores do festival. Porque se ele não se sente nem de um lado, nem de outro, ele sabe que as soluções de sua música se acham numa parte e na outra. Então Zappa é jazz ou não? Nós reunimos especialistas para falar disso e interrogamos também uma testemunha privilegiada: Glenn Ferris, que tocou no concerto de ‘Petit Wazoo”, disponível em cd há alguns meses no site
http://www.zappa.com/ . Ele não responde a questão, mas nos ajuda a compreender porque o jazz não deixa de sofrer a influência desse singular músico.
MESA REDONDA
Já que o cd “Zappa/Wazoo”, gravado em Boston em 1972, documenta o capítulo mais jazzístico da obra de Frank Zappa, nós reunimos, em redor de Glenn Ferris que foi um dos seus músicos dessa época, três especialistas em Zappa – Christophe Delbrouck, Perrijean Gaucher e Jean-Luc Rimey-Meille – para debater as relações de Zappa com o jazz. Mesa redonda presidida por Guy Darol.
APRESENTAÇÃO
Glenn FerrisFormado em Los Angeles por intermédio de Don Ellis que o fez trombonista de sua big band, ele se engajou em 1972 com Frank Zappa na turnê do Grand Wazoo. Levou em seguida uma carreira totalmente direcionada, de Harry James à Billy Cobham. Em 1980 ele passa a freqüentar a Europa e se instala em 1982 em Paris onde colabora com a Orquestra Nacional de Jazz, Aldo Romano, Henri Tekier, o BFG trio (com Emmanuel Bex e Simont Goubert). Dirige igualmente seu próprio trio (com Bruno Rousselet e Jeff Boudreaux) e o “Pentessence Quintet” onde se juntaram Philippe Milanta e Jean-Michel Cabrol.
Cds: BFG trio, “Here & Now”, 2001, naive
Gleen Ferris Trio, “Chrominance”, 2001, enja/harmonia mundi
Pentessence Quintet – “ X Actimo !”, 2006, naïve
Net:
http://www.glennferris.com/Guy Darol
Leitor, romancista, ensaísta, jornalista (de “Liberation” à “Jazz Magazine” e “Muziq”, passando pelo “Le Magazin Litteraire”), ele sempre foi um aficcionado por excêntricos ou singulares, sejam eles escritores como André Hardellet e Emmanuel Bove, sejam eles músicos como Alberto Marcoeur e Frank Zappa. Consagrou três livros a esse último e um quarto que está para sair.;
Livros: “Frank Zappa, la parade de l homme Wazoo”, ed. le castor astral;
“Zappa de Z à A”, com Dominique Jeunot, le castor astral;
“Frank Zappa ou l Amerique em déshabillé”, le castor astral;
“Frank Zappa/One Size Fits All, Cosmogonie du sofa, le Mote t le rest” – a sair
net:
http://www.guydarol.fr/Jean-Luc Rimey-Leille
Percussionista clássico (Orquestra Nacional de Lion, Orquestra da Ópera Nacional, “Ensamble Orchestral Contemporain”), improvisador (com Daunik Lazro, Denis Badault, François Corneloup, etc) e compositor. É membro fundador das “Percussões de Teclados de Lion” com as quais realizou “We are not Alone”, com músicas de Frank Zappa em 2003. No próximo mês (julho de 2008), no “Jazz Vienne”, convidará Jean-Luc Ponty a participar do The Big Note, novo espetáculo em redor das músicas de Zappa, criado em 10 de janeiro de 2008 no “Fórum de Flers” com a Orchestre Régional de Basse-Normandie.
Net: thebignotefrankzappa.over-blog.com
Pierrejean GaucherApós ter estudado alguns meses na Berklee Colege de Boston em 1981, ele se consagrou a partir de 1986 com seu grupo “Abus Dangereux”, com o qual ele gravou oito álbuns e compôs abundantemente. Em 1992, com Daniel Yvinec e André Charlier, criou o “New Trio”. Em 2000 funda o “Phileas Charlier”, depois, no ano seguinte, um duo com o guitarrista Christophe Godin. Em 2005, consagra um novo projeto “Fables de la Fontaine”. Dos seus primeiros discos com “Abus Dangereux” até o “Fables”, passando por seu projeto “Zappa Zappa”, não cessou de tirar conclusões pessoais da obra de Frank Zappa.
Cds: - “Abus Dangereux”, the best of – 1979-1989,
http://www.guitareuroshop.com/- “Zappa, Zappa”, 1998,
http://www.guitareuroshop.com/- “La Fontaine e le Gaucher”, 2002-2005 – Nocturne (BD jazz)
net:
http://www.pierrejeangaucher.com/Christophe DelbrouckEspecialista em Zappa, tanto enquanto músico, quanto escritor-jornalista. Diretor artístico, baixista, corista e percussionista do “Nasal Retentive Orchestre”, que se consagrou no repertório de Zappa, é autor de “Weather Report, uma história do jazz eletrônico”, e é autor também de uma gigantesca biografia de Zappa em três volumes.
Cd: “Music For Hungry People”, 2007 – independente
Livros: Frank Zappa & les Mères de l invention;
Frank Zappa et la Dînette chromatique;
Frank Zappa & l Amèrique parfaite
Net: nasalretentive.free.fr/albums.htm
MESA REDONDA
“UM ROQUEIRO QUE FAZ JAZZ”
Mesa redonda presidida por Guy Darol.
GD - Quando se fala do estilo de Zappa, fala-se freqüentemente de influências exercidas por Edgard Varèse, o rythm and blues ou o bebop. O jazz ocupa um lugar mais discreto. No entanto, Zappa iniciou-se no jazz muito cedo. É portanto útil relacionar as cirscunstâncias desse seu encontro com o jazz...
CD- Seu primeiro choque jazzístico, ao meu ver, é a “História do Soldado” de Stravinsky. Mas seu primeiro encontro com um jazzista foi em 1962. Ao final de um concerto de Miles Davis, Zappa vai ao camarim para o felicitar e Miles lhe vira as costas. Zappa então deduz que não tem mais nada a fazer com os jazzistas. O que não o impede de aparecer como um guitarrista de jazz em 1963. Desde o início, Zappa quer ser reconhecido como tal, ainda que sua performance não seja muito boa no jazz clássico. Então ele passa ao blues, onde alcança bastante êxito.
PG – Procurando o que pudesse ligá-lo ao jazz, não encontrei nas revistas senão raras alusões. Num número especial da Guitar Play americana, ele cita Wes Montogomery. Francamente, eu não vejo muito onde se ache Montogomery na guitarra de Zappa, com exceção talvez de um concerto de 1973 com Jean Luc Ponty e George Duke, época de “Over-Nite-Sensation”, onde Zappa improvisa sobre “Satin Doll” de Duke Ellington.
GD – Na biblioteca de Antelope Valley, ele consulta tratados de música e pega discos como os de Ornette Coleman e Eric Dolphy. Seus gostos se dirigem para uma música livre, ao ponto dele rejeitar categoricamente a influência de Charlie Parker.
PG – Ainda que ele evoque sempre com muito respeito Thelonious Monk e Duke Ellington, observo que ele se inflama sobretudo com os rebeldes dos anos 60: Eric Dolphy, Ornete Coleman, Archie Shepp. O que o entedia no jazz é seu lado acadêmico. Zappa sempre preferiu músicos que quebravam barreiras.
GF – Zappa era um músico de jazz frustrado. Eu o achava ressentido. Ele adorava jazz, se cercava de jazzistas, mas era um roqueiro dotado de um gênio que o impelia sempre além.
CD – Uma coisa é certa, ele teve um bloqueio ao jazz tradicional após ter tocado no início dos anos 60 de terno e gravata borboleta. Para ganhar a vida, ele reuniu um grupo de jazzistas principiantes e pedia para eles tocarem de forma próxima a Caravan e outras bandas semelhantes. Foi uma situação que ele viveu muito mal.
JLRM – Todavia, os músicos de jazz dos quais se cercava eram o que havia de melhor para fazer a ponte entre a qualidade de seu trabalho e a música que inventava. Por outro lado, os jazzistas eram mais acessíveis em comparação aos que vinham do clássico.
GD – Duke Ellington e Frank Zappa são freqüentemente comparados, notadamente pelo fato de que Duke Ellington escrevia para pessoas precisas, enquanto que as peças de Zappa eram transformadas conforme eram tocadas na bateria por Chester Thompson ou Vinie Colaiuta. Essa aproximação lhes parece pertinente?PG – O que era em comum entre eles é que ambos amavam a orquestra tanto quanto o instrumento. Para Zappa, a orquestra é o último instrumento.
GF – Eles criavam uma música para músicos. Duke Ellington sempre escolheu seus músicos em função do som deles. Da mesma forma, quando da minha primeira audição, Zappa me perguntou qual era a nota mais aguda que eu podia tocar, depois a mais grave. Dessa forma, ele ia poder escrever a música que eu seria capaz de tocar.
JLRM – Um músico clássico tem a atitude de ser dirigido e é o chefe de orquestra que faz o o colorido do som. Ora, Zappa trabalha diferentemente. Ele escreve em função de seus músicos.
PG – É preciso se lembrar dessa frase que ele adorava repetir: “eu sou um compositor de música séria que toca guitarra numa banda de rock para ganhar a vida”. Zappa compreendeu muito rapidamente que ele não poderia ir muito longe continuando no jazz. Por outro lado, ele estava frustrado ao final dos anos 60 pelos limites técnicos dos Mothers. A chegada dos músicos de jazz no início dos anos 70, lhe permitiu desenvolver a complexidade de suas composições porque ele podia enfim trabalhar com músicos que sabiam improvisar.
CD – Os primeiros Mothers, é verdade, não eram excelentes músicos. Foi sem dúvida o que lhe deu a idéia de os fazer tocar em estúdio de maneira fragmentada. Ele podia assim construir peças em estúdio aparentadas ao jazz mais contemporâneo. “Project X” poderia ser o resultado do que vem fazendo hoje Louis Sclavis. Por tocar no cenário que ele mesmo fabricava, acabou criando uma banda com dez músicos. Mas os recursos lhe faltaram rapidamente e ele teve que suspender a aventura. Recrutou então Flo e Eddie (ex-Turtles) e se pôs a tocar música pop. Mas desde que se achou numa cadeira de rodas, após a queda no fosso do Rambow Theatre, remontou uma big band de jazz. Ele sabia que ia perder dinheiro. Mas isso não impede que ele retorne ao fogo. E essa é a história do Grand Wazoo e do Petit Wazoo.
GD – Não se põem freqüentemente ligados Zappa e Miles Davis. No entanto, Zappa dizia muito bem de “Nefriti”.
PG – Eles têm em comum terem utilizado jovens talentos para retomarem as fontes. Zappa através da composição, Miles através da cor e as ambiências do grupo.
GD – Glenn, como se vem a fazer uma audição com Zappa?Não havia regras senão que os músicos que ele se aproximava lhes fossem recomendados por outros músicos. Sobretudo ele queria ouvir aquele que fosse capaz. Em Los Angeles, eu assisti audição de bateristas. Ele procurava pessoas capazes de lerem uma partitura e de decifrarem composições difíceis de serem lidas. Ele era muito exigente com essas pessoas. No entanto, se gostasse de alguém, então perdia tempo em formá-lo, mas sempre com a condição de que fosse capaz de improvisar.
PG – É o caso de Aynsley Dunbar, um baterista que não sabia ler mas que possuía uma memória prodigiosa.
GD – Em 1969, numa turnê organizada por Geoge Wein, os Mothers of Invention se encontraram ao lado de Roland Kirk, Duke Ellington e Gary Burton. Zappa assiste a uma cena em que Duke Ellington implora um adiantamento de dez dólares. Situação aflitiva que levará Zappa a pronunciar essa fórmula: “jazz é a música do desempregado”. O que ele queria dizer com isso?
CD – Ele levou dois anos para realizar “Uncle Meat” em diferentes estúdios de Nova York e Los Angeles. Faltou grana pra realizar o filme homônimo. Mas o que ele propunha era um jazz vizinho da música contemporânea, com muitas improvisações. Ele partiu em turnê com um grupo que tocava em amplis de 20 watts um material totalmente estranho. Na época, ele apresenta “Eric Dolphy Memorial Barbecue” e “Project X” diante de um público hostil. Final de 68 ele registra o balanço. Para ele, realmente o jazz era música para desempregado.
PG – Somente o rock lhe permite ganhar dinheiro.
CD – E se o Grand Wazoo pôde existir, foi porque Zappa tinha feito discos de ouro com “Filmore East 1971”, e, “Just Another Band From L.A”. Seu esquema é sempre esse: ele ganha dinheiro mas esse dinheiro é imediatamente reinvestido numa aventura onde ele vai correr riscos.
PG – É somente a partir de “The Yellow Shark” que ele começa a ser pago para tocar a música que ele sonhava. Antes, ele retirava de seu bolso para pagar orquestra e copistas. O contemporâneo e o jazz são para ele sinônimos de ruína.
GD – As ocorrências da palavra “jazz” são bastante numerosas na obra de Zappa, mas com um sentido particular: “jazz from hell”, The jazz discharge party hats”, “Make a jazz noise here”, e em Be-Bop Tango, ele parece dizer assim: “o jazz não está morto mas tem um cheiro estranho”. O que é que o faz associar o jazz a um ruído, um odor ou às chamas do inferno?
J-L-M-R - No que concerne ao ruído, eu vejo principalmente sua relação com Varèse. Desde quando se interessou pelo jazz, seu interesse estava voltado ao ruído. De toda maneira, seu gosto o leva sempre para a vanguarda, seja no rock, seja na música erudita.
CD – A fórmula - “jazz não está morto mas tem um cheiro esquisito” - era uma gíria particular e endereçada à George Duke que acabara de montar um trio com Billy Cobham. Era uma maneira dele dizer: “você quer fazer jazz-rock. Ok.Ciao”.
PG – Mas é também uma frase que faz eco à Miles Davis quando ele afirmava na mesma época que o jazz não existe mais.
CD – É ao mesmo tempo uma brincadeira e um cutucão em seus músicos para colocá-los numa situação delicada. Zappa estava muito próximo de Miles quando levava seus músicos a reagirem.
PG – Eles não suportavam que seus músicos se instalassem no conforto de seus clichês estilísticos. Zappa freqüentemente dizia ser o II/V/I, a progressão harmônica típica do jazz clássico, que tinha matado o jazz. Como Miles, ele exigia ser surpreendido todo dia.
CD – Quando ele monta o Grand Wazoo, ele pede que um instrumentista faça slide-guitar para criar um contraste, uma desordem no grupo. É uma época em que ele está totalmente consciente de que os músicos de jazz estão entre aqueles que têm o espírito mais aberto, particularmente quando vinham da orquestra de Don Ellis.
GF – Zappa diz ter sido inspirado por Don Ellis com referência a eletrônica e aos músicos indianos. No álbum “Zappa/Wazoo”, essa influência é evidente.
CD – Don Ellis e Zappa se conheciam desde 1962. Eles haviam tocado com Don Preston. A música indiana, assim como as assimetrias, vêm de Don Ellis.
GD - Uma das características da obra de Zappa é sua dimensão satírica ou burlesca. Tem-se chamado aliás algumas de suas peças de “cartoon jazz”.
PG – A razão pela qual muitos jazistas detestam Zappa, é a falta de humor deles, a ausência de segundas intenções neles.
GF – O humor é o que eu mais aprecio nele. É uma esponja que absorve tudo, notadamente Spike Jones que encarna o “cartoon music”. Sua curiosidade é tão grande que ele pode integrar Stravinsky, o free-jazz e Spike Jones, sob um olhar satírico sobre a sociedade americana. Tudo isso faz o som e o tom tão particular de Zappa.
CD – No palco ele dava indicações como signos codificados que correspondiam a uma ação precisa. . Um deles consistia em dizer ou fazer dizer “muito interessante” num tom muito esnobe. Quando um solo se tornava excessivamente entediante, ele usava essa fórmula e isso reduzia a nada o solista.
PG – Se ele dava curso livre ao humor na cena, em compensação ele era sempre sério na composição. Momentos como “Big Swift” ou “For Calvin” não são especialmente divertidos. Ele quer uma coisa no fundo: não tocar seriamente uma música rigorosamente séria.
J-L R-M – Mas talvez veja-se humor lá onde ele não colocava. Seu humor vinha provavelmente do fato de que ele propõe um estilo, que não defende mas perverte, para que isso soe Zappa.
PG - Em Zappa o humor é um meio dele se proteger. Ele tinha um problema com a emoção. Entre suas melodias que poderiam ser clássicos do jazz como “ The Idiote Bastarde Son”, vê-se bem que ele escolheu um título para nos fazer esquecer a beleza do trecho. Notar-se á que a maior parte de suas baladas meio jazz, geralmente num ritmo de valsa, portam um título provocador. O humor trai nele um pudor.
GD - Costuma-se dizer que Hot Rats (1969) é o primeiro álbum a ter posto a marca de um novo estilo denominado jazz-rock. Que vocês pensam disso?
J-L R-M – Zappa não faz um jazz binário mas sim uma música que mistura binário e ternário com um senso de improvisação, loucura, liberdade, que numa época como essa do Hot Rats, o rock não era tão livre assim. Com esse álbum ele chega a um novo som que abre um novo campo.
CD – O jazz-rock é uma invenção de comerciantes que aproveitam a admiração de jazzistas pelo eletrônico e pelo pop-rock. Don Ellis tinha já iniciado isso. Nesse domínio, as referências são “Bitches Brew” e “In a Silente Way” de Miles Davis.
GF – Não se pode por etiqueta na música de Zappa. É um mundo à parte e que lhe pertencia completamente. Mesmo o business não conseguiu classificá-lo. Ele não era e nunca foi marketing.
CD – Em “Sur Peaches En Regalia” ele leva rythm and blues. Por outro lado, ele prolonga o jazz-eletrônico de “Uncle Meat” mas, desta vez, vulgariza suas orquestrações e obtém “Hot Rats”, seu maior sucesso comercial.
PG – “Hot Rats” é um fragmento na discografia de Zappa e não é seguramente o álbum que eu levaria pra uma ilha deserta. Quande se fala de jazz-rock, fala-se de “Hot Rats: Waka/Jawaka”, um álbum que ele realizou numa época onde essa noção está largamente derramada em álbuns do Mahavishnu Orchestre, do Weather Report ou do Miles Davis.
GD – Retomando “Zappa/Wazoo”, o concerto de Boston de 1972, Malcolm McNab, que participou do show, ficou impressionado pela capacidade que Zappa tinha de introduzir no seio de uma composição extremamente complexa, formas livres e a inspiração do boogie. A arte de Zappa é a improvisação controlada?
GF- Eu não conhecia todos os álbuns de Zappa mas eu fui apresentada à Zappa/Wazoo e me lembro de uma música complexa com espaços de improvisação. A improvisação, os contrastes de tensão e relaxamento eram muito simples. Não havia acordes complicados a fazer. Os músicos tinham um território muito aberto. Alternava-se um grove rock com momentos free. No todo, tinha-se muita liberdade.
PG – Isso me faz lembrar “Purple Lagoon” em “In Nova York”. Inicialmente há um minuto de composição orquestral, depois Michael Brecker encaixa oito minutos de solo em 7/4. Raramente um músico terá sido mixado tanto num álbum de Zappa. Esse trecho é 95% de improvisação sobre um único acorde.
CD – Tudo mudou a partir de 1973 quando George Duke chegou abrindo as harmonias. Porque o que interessa Zappa na época do Grand Wazoo é antes de tudo trabalhar sobre timbres. A apoteose sendo “Aproximate”, onde ele não define mais a altura das notas, mas unicamente o ritmo.
J-L R-M – Nos primeiros discos, Zappa trabalha essencialmente sobre a banda porque seus músicos não tocam como ele o deseja. Dessa experiência, ele funda um método que consiste em fazer colagens de trechos tocados pela banda. No interior de estruturas complicadas, oriundas das colagens, ele injeta uma linha simples de acompanhamento com um solo. E ele procede assim até o fim. Em “Sinister Footwear” tem-se três partes complexas incluindo dois solos de guitarra sobre uma base rítmica simplíssima.
PG – Quando se fala de improvisação controlada, se remete aos lados yin/yang. Zappa é consciente de que quando seu público se alimenta de três minutos de música delirante, é preciso acalmar o jogo. Por outro lado, quando ele construía seus álbuns, ele tinha no espírito a arquitetura do vinil com seus dois lados a equilibrar. Ele equilibrava no disco o que ele fazia explodir nas apresentações. A partir de “In New York”, encontra-se nele muitas escalas cromáticas. Ele desenvolve escalas descendentes (“Heavy Duty Judy”), ascendentes (“I promise not to come in your mouth”) mas não toca em cima delas. São sempre os seus lados de jazzman que se introduzem aí. Ele se ocupa das partes modais. Zappa tem consciência que é preciso abrir as escalas com um máximo de harmonias e ele as dá em partitura à Eddie Gobson ou a Tom Fawler. Nesse época, ele não toca mais temas. De resto, nunca se arriscou a tocar “The Black Page” na guitarra.
GD – Pode-se evocar sua concepção híbrida de ritmo?
J-L R-M – De um lado, ele relaciona elementos vindos da Ásia e da Europa Central, os ritmos repetitivos e assincrônicos; de outro lado, ele mergulha nos universos de Varèse. É Varèse que lhe dá a idéia de utilizar por exemplo quatro tempos lentos e de introduzir um certo número de notas que não caem no mesmo lugar com uma rítmica que, essa sim, cai no mesmo lugar. Essa poliritmia pode se revestir de quatro camadas diferentes e torna-se então uma coisa muito complicada que, no entanto, não é difícil de tocar. À priori, intocável. “Sinister Footwear” é uma peça relativamente fácil de se tocar, caso se coloque de acordo com o fraseado. A inteligência de Zappa não é tão complexa. Ela reside antes de tudo em sua capacidade de fazer tocar coisas que parecem complexas e não são.
CD – Do ponto de vista do ritmo, uma peça como “Greggery Peccary”, que ele tocava no Grand Wazoo bem antes da gravação do disco, tem quarenta minutos concentrados de pequenos acontecimentos que darão a música futura de “Over-Nite-Sensation”.
PG – Não esqueçamos sua relação ao “Sprechgesang”, tal como aparece no Pierrot Lunaire de Schoemberg. Ele reprovava no jazz a sua redução rítmica às oitavas ternárias e aos triolets. Achava que havia muito mais riqueza rítmica nos discursos falados e ele queria pô-lo em música. Como por exemplo no “The Jazz Discharge Party Hats”: Chad Wackerman me confidenciou que o que ele encontra nas improvisações de Zappa na guitarra é o ritmo de sua composição. Quando ele improvisava, não tinha a consciência intelectual do que fazia. Era muito espontâneo. Em comparação, quando escrevia, tudo era rigorosamente matemático. Wackerman me disse que havia surpreendido Zappa não saber onde estava o primeiro tempo quando queria retomar a música. A sua composição é de poliritmia, o que não é jamais o caso quando ele improvisa.
GD – Existe uma dimensão claramente de jazz na sua maneira de tocar a guitarra?
PG – Em teoria, um guitarrista de jazz não tira as cordas. Fora isso, pra mim, a guitarra elétrica é um instrumento do rock. Zappa era um guitarrista que improvisava como um jazista mas que não tinha a cultura do jazz na guitarra.
GD – Eu gostaria que se dissesse uma palavra sobre “Jazz From Hell”, um álbum desconcertante se fixarmos no título. Trata-se de uma nova brincadeira de Zappa ou antes era um jeito de inventar o eletro-jazz?
J-L R-M – A relação com o jazz está muito longe nesse álbum concebido no sinclavier. O que ele inventa ou reinventa é a relação entre máquina e orquestra, o que remete a isso que foi o piano pneumático no ragtime. Mesmo que os primeiros discos de Zappa fossem criados a partir de um trabalho de estúdio para conseguir o que ele não podia obter de seus músicos então pouco experimentais, uma peça como “G-Spot Tornado”criado no sinclavier será retomada por uma verdadeira orquestra e arranjada por Ali Askin para o projeto “The Yellow Shark” do Ensemble Modern. Em “Civilization Phase III” a peça “América” irá ao fundo dessa lógica, fazendo se entender máquina e orquestra.
CD – Por esse álbum, ele havia sido influenciado por Allan Holdsworth.
PG – Eu vejo a relação com os rolos mecânicos de Conlon Nancarrow mas não verdadeiramente com Holdsworth. Acredito que o sinclavier é um instrumento com o qual ele estourou nos anos 80, mas reconheçamos que isso não é nada ao lado de um Pró-tools ou de um mac operando com lógica. Zappa se entusiamou nessa época como um garoto que descobre a informática. Ele disse que o sinclavier lhe permitia tocar uma música a qualquer hora do dia e da noite sem ser incomodado pelo problema humano da orquestra. E no entanto, em sua última turnê em 1988, ele se cercou de uma big band comparável na forma ao Grand Wazoo. Essa última formação contradiz a hipótese de uma evolução de Zappa para o sinclavier. Malgrado seu fantasma da execução perfeita, ele se deu conta que a máquina é totalmente incapaz de improvisar. E o círculo se fechou.