segunda-feira, 25 de maio de 2009

JOHN ZORN - DOCUMENTO


Esse é o cara.
Catei essa entrevista numa revista americana JAZZ TIMES.
Ela é de março de 2000.
Passada quase uma década, a gente se pergunta: o Homem acertou muito em suas previsões?
Isso é com vocês.
Quem o entrevistou foi Bill Milkovski.
Dizem que blogueiro não lê textos grandes.
Os meus não têm essa de grande ou pequeno.
Entrevistas com John Zorn são preciosidades. Ele simplesmente não dá entrevista.
Daí porque catei essa e traduzi para vocês.

Dos começos humildes como uma das figuras chaves da cena jazzística de Nova York nos finais dos anos 70, o compositor saxofonista John Zorn tem emergido como uma importante e influente figura da cena vanguardista e experimental.
Os triunfos de Zorn nos últimos 20 anos têm sido vários, incluindo o funcionamento de sua próspera gravadora independente, Tzadik. Quando eu o conheci em 1981 ele estava soprando duck calls em baldes de água de locais da periferia tais como 8BC. Roulette, Chandelier e seu pequeno clube, The Saint.
Em meados dos anos 80 ele tinha desenvolvido uma série de teorias de jogos que envolviam regras estritas, jogos, prompters com flashcards, tudo em nome de fundir estrutura e improvisação sem nenhuma costura. A descoberta foi sua peça Truck & Field, a qual foi realizada em 1984 por uma dezena de músicos no prestigiado Teatro Público.
Como essas experiências começaram a ser levadas a sério pela comunidade crítica, seguiram-se várias exibições em New Music América, na Academia de Música de Brooklin e no Whitneu Museum. Sentindo que Zorn estava emergindo como uma voz significativa – a imagem do garoto pós-moderno, como uma vez ele foi satirizado – Elektra Nonesuch Records assinou com ele um lucrativo contrato e lançou uma porção de trabalhos importantes incluindo: THE BIH GUNDOWN, meditação de Zorn de 1985 sobre o compositor Ennio Morricone; SPILLANE, com Albert Collins e The Kronos Quartet; SPY VS SPY, a música de Ornette Coleman em 1988; e NAKED CITY em 1989, com Zorn na frente de uma super banda com Bill Frisell na guitarra, Joel Baron na batera, Fred Frith no baixo e Wayne Horvetz nos teclados.
Desde a formação da Tzadik em 1995, Zorn tem sido incrivelmente prolixo como compositor. Ele tem criado uma variedade de trabalhos, incluindo vários quartetos, concertos de piano, peças de câmera, música para criança, e, uma nova música para esse brilhante acústico klezmer (música judaica)-free-jazz band MASADA, com Dave Douglas no trumpete, Joey Baron na bateria e Greg Cohen no baixo.
A atual discografia da Tzadik é de mais de 150 discos e inclui material original e provocativo de pessoas afins tais como o baixista Bill Laswell, tompetistas Wadada Leo Smith, Steven Bernstein e Dave Douglas, violinista Eyvind Kang, e, baterista Milford Graves, com quem Zorn tem feito alguns duetos livres e brilhantes nos últimos dois anos.
Ele tem também tocado e gravado com o power trio PAINKILLER, continua em tour freqüente com MASADA e também toca ocasionalmente com o harmolodie punk-funk band THE YOUNG PHILADELPHIANS.
Eu falei com Zorn no conforto de seu apartamento do East Village, onde ele tem vivido nos últimos 22 anos. Cercado por sua imponente e bastante vasta coleção de discos, ele falou abertamente sobre: o estado de sua arte; a natureza do mercado e as perspectivas de aventureiros; arte consciente independente de rótulos.

- Geralmente as pessoas olham cada novo ano como uma oportunidade para se reinventar. E eu acho esse ato ainda mais simbólico quando nós entramos num novo milênio.

- Todo dia é uma chance de se reinventar, mas o problema é que nós temos sido tão escravizados pelo poder, que as pessoas estão felizes de estarem dormindo agora. O que tenho visto é realmente deprimente e não vejo nenhuma possibilidade de mudança. Eu vejo enormes corporações agindo como senhores de escravos, como se fosse o retorno dos Faraós. Vejo cooptação por toda parte. Mac Donald por todo lado. Vejo a destruição do que eu e você amamos, a pequena matriz e pequenas lojas de discos – pessoas que amam a música e é por isso que elas têm suas lojas. Vejo que estão sendo substituídas por Tower, HMV, Virgin. Vejo conglomerados; corporações gigantes se fundindo para ficarem ainda mais poderosas, como aconteceu com a Polygram e a Universal. Então o que nós vamos ter nos próximos 100 anos? Vamos ter o mundo pertencendo a uma corporação. Nós vamos ter todos os artistas assinando para um único selo e quem não o fizer será considerado ilegal. Vamos ter policiais correndo por aí à procura de pequenos selos e artistas independentes que estão desgarrados. E nós vamos ter uma inquisição. Isto é, nós basicamente temos uma inquisição hoje.

- Mas há pessoas como você e Tim Berne que têm feito pressão para que os artistas se expressem segundo seus próprios termos, através de seus selos independentes.

- Concordo, mas nós somos muito poucos. Isto é, estou fazendo o que eu acredito. Eu estou tentando fazer o que penso ser a coisa certa, a mais digna. Eu estou tentando apoiar a música que eu acredito porque nenhum outro é tão capaz ou interessado nisso. Mas eu acho que isso no novo milênio estará comandando? Não, eu não sou tão ingênuo em acreditar que nós poderemos mudar o mundo. Eu penso que essa é a maneira que o mundo tem sido desde que o primeiro homem das cavernas pegou uma pedra e golpeou alguém na cabeça e disse: “eu sou o rei da montanha”. Ganância é a parte básica do Homem em seu conjunto e pessoas gananciosas são usualmente aquelas que empurram todo mundo em volta. No tempo dos Faraós isso era feito com violência. Hoje isso é feito de maneira mais insidiosa. É feito com lavagem cerebral e controle das mentes. Esses caras do marketing que estão à frente dessas companias, eles são realmente os que estão dando a coisa mastigada pra todo mundo. Eu não vejo realmente muita esperança na mudança porque eles vêm pensando em nos foder tanto que nós nem podemos imaginar. Eles pensam tanto nisso quanto nós pensamos em fazer boa música.

- Eu me lembro quando cheguei em Nova York em 1980, havia muita excitação no ar no que se refere à cena musical. Columbia tinha acabado de assinar com James Blood Ulmer e Arthur Blythe, e, parecia haver um resto de esperança que os principais selos pudessem negociar em termos melhores com os artistas.

- Mas o que aconteceu? Eles puseram no mercado vários discos e abandonaram todo mundo. Aquilo foi um ciclo que acontece de 15 em 20 anos.

- E então veio Wynton Marsalis.

- Bem, eu não quero chegar em personalidades e contrapor uma com a outra. Eu penso que muito do que Wynton está fazendo é bom. Penso no solo que ele toca no disco Citizem Tam – você ouviu? Que se foda o smokin! Esse cara pode mostrar seu rabo. Mas nós não estamos falando de músicos. Acho que a maior parte dos músicos são santos. Eles dão, dão e dão e recebem muito pouco de volta. E se alguém consegue ter alguma coisa de volta, eu apoio. Eles merecem tudo que podem alcançar porque eu acho que eles realmente colocam suas vidas na linha e descarregam. Estou falando mais do mundo em que vivemos, das armas que nós temos para a luta. Eu acho que a história será reescrita nos próximos cem anos ou mais, como sempre foi. Pessoas que foram realmente populares em seu tempo, no final das contas foram desaparecidas e esquecidas. E pessoas que lutaram de maneira difícil e concentrada na música e tentaram fazer algo grande, no final das contas o trabalho delas veio à luz. Isso acontece muitas vezes bem depois que elas morreram. Isso raramente acontece em vida e se acontecer é no final da vida, como Harry Smith ganhando um prêmio no ano em que morreu. Isso é maravilhoso num certo sentido e uma maldita tragédia também. E, claro, a maioria das pessoas que estão desperdiçando sua vida em cima de algum trabalho significativo, nunca vi nenhuma foto delas. Esse é o mundo em que nós vivemos. Não vejo nele mudança. Nós temos que aceitar. É muito injusto mas isso não vai mudar. Nós não vamos ter um mundo justo em cem anos. Talvez vejamos o colapso do capitalismo como nós o conhecemos. Talvez a democracia muito lentamente venha a se tornar alguma coisa que as pessoas sonham. Mas eu acho que as pessoas que estão no poder, esses tipos de pessoas vão estar sempre no poder. Elas estão sempre empurrando todo mundo em volta, enchendo seus bolsos com o dinheiro dos outros e esvaziando os bolsos dos outros, alimentando todo mundo de informações porque acreditam que as pessoas querem ser informadas do que fazer... E o que é triste, a maioria das pessoas fazem o que são informadas a fazer. Elas não querem sair fora disso e passar a fazer coisas por si-mesmas. Isso é outra parte da natureza humana. Sempre foi e sempre será.

- Mas agora há mais oportunidade para selos independentes e artistas terem suas coisas ouvidas através de diferentes mídias como a Internet.

- Você quer um raio de esperança no que eu estou dizendo, não é?



- Bem, estou vendo isso acontecer.
- Oh, veja o que aconteceu nos anos 70. Foi a grande explosão dos selos alternativos, novamente quando a New Music Distribution estava por perto. New Music Distribution forneceu um incrível serviço para centenas de selos independentes nos anos 70 e 80. Foi incrível. E foi incrível também que tenha desaparecido. E a razão disso ter acontecido foi a ganância. Decidiu-se não pagar aquela distribuição, não foram pagos os artistas consequentemente, e todo mundo se fodeu. Agora as pessoas podem fazer seus próprios cds em bem pequenos selos de forma bem barata – mais barata do que era com o vinil. Eles podem distribuí-los através da internet a nível mundial; nós temos MP3, nós temos coisas que podem ser obtidas via download. Informação vai ser comercializada. Mas meu palpite é: quem vai querer isso quando todo mundo está tendo lavagem cerebral por esses caras que estão gastando 24 horas por dia pensando em certos grupos de pessoas, como controlá-las para quererem coisas? Esse é o grande problema – os Faraós nos controlando. Claro, haverá artistas independentes sempre. Mas eles estarão sempre à margem. E em cada 15-20 anos, essas grandes corporações decidirão: “Vamos tentar uma coisa nova”, e eles irão insinuar um Blood Ulmer ou insinuarão o 13 th Floor Elevators ou o Captain Beefheart. Eles dão a isso uma chance mas nunca realmente funciona porque o número que eles esperam está além do que esse tipo de artista é capaz.


- Algumas pessoas pensaram que a Columbia assinando com David S Ware (saxofonista da vanguarda) era um sinal de esperança.



- Não é bem esperança. Isto é uma aberração. É a mesma aberração que aconteceu quando Tim Berne assinou com a Colúmbia ou quando Blood assinou com a Colúmbia ou quando eu assinei com a Nonesuch. Isto é, Nonesuch talvez seja um pouco diferente. Talvez (pensando Nonesuch) Bob Hurwitz tenha um pouco mais de integridade que os grandes selos. Ele realmente acredita no que está fazendo. Mas ao mesmo tempo, se ele não estivesse vendendo milhões de cópias da sinfonia do Gorecki ou alguma aberração do comércio, estaria fora do mercado também. Eu não acho que essas companias percebem que elas precisam de mais credibilidade no mercado de arte. Blood assinou porque os executivos pensaram que se venderiam 100 mil cópias do disco. E então, depois percebendo que ele venderia apenas 50 mil, good-bye. Não há chance para esse tipo de música complexa passar num mercado de arte. Sem chance. Então, por que se incomodar com isso? Por que gastar o dinheiro comercializando isso? “Isto venderá o que vender e se não for suficiente, largue-os”. Esta é a atitude que prevalece na maioria dos selos e acabei de ver que está ficando pior, pior e pior.


- E ainda assim, o artista independente persiste ferozmente em face dessa adversidade e em alguns casos continua a prosperar.- Haverá sempre artistas independentes, haverá sempre loucos que dizem: isso não está certo, eu vou fazer isso do meu jeito. Haverá sempre música experimental. Haverá sempre pessoas que querem ouvi-la. Mas eu simplesmente não os vejo tomando o mundo. Talvez quando tinha 22 anos pensasse que nós tomaríamos o mundo, que essa era a música verdadeira. Mas agora, que eu tenho uma perspectiva e tenho 46 anos, olho para trás e digo: olhe a história!! Olhe os milhares de anos como têm sido e como pessoas são manipuladas e como a ambição funciona em nossa sociedade.


- Como você vê seu lugar nesse esquema?- Eu olho pro mundo e vejo o caos. E isso é mais um tipo de fórmula para ser um outsider. Você não quer ser um outsider, você quer pertencer e está sobrecarregado com essas fragilidades humanas. Você precisa de companheirismo; você precisa de comida e bebida. Você precisa de um lugar pra dormir; você quer ser entendido mesmo pensando que está fazendo uma coisa um pouco difícil; você quer que seu trabalho seja apreciado; você quer ser amado. Estamos sobrecarregados com isso. Mas o que estamos fazendo é: estamos criando algo que é um pouco assustador para a maioria das pessoas. Porque contesta a visão delas. A maioria das pessoas acha o mundo um lugar perfeitamente ordenado e gostam que seja assim. Já o outsider olha o mundo e diz: “cara, isso é caos; isso não faz sentido”. Então, ele tenta dizer a verdade. Ele é compelido a dizer a verdade por algum senso de responsabilidade.


- Mas você é visto por ser próspero em contrariar a forma como as coisas são.


- Eu não estou particularmente triste onde estou agora ou com a cena em si. Eu acho esse um momento incrivelmente excitante para a música verdadeira. Eu penso que há uma porção de coisas em curso. E eu vejo uma nova geração chegando a ser influenciada por algumas coisas que eu fiz e por algumas pessoas que essa cena deu a luz. E isso é maravilhoso. Isso significa que nós nunca iremos morrer. Significa que a morte é impossível uma vez que esse espírito experimental conseguiu passar pela realidade de forma significativa. A verdade estará sempre aí mas não se pode forçar ela a passar pela goela abaixo. As pessoas de um modo geral precisam estar preparadas para ver isso. E você sabe, há a máquina e aqui nós estamos. E eu não acho que isso será revertido. Eu percebo que é muito mais fácil manter sua cabeça livre da ganância se você não está envolvido em uma grande corporação. Quando eu estava trabalhando com a Nonesuch por um curto período de tempo, estava ocupado em saber “ por que Bill Frisell tinha um orçamento maior que o meu?”. Isto é, como pensar a respeito disso? Eu sentia a ambição crescendo em mim como um câncer. E para mim, pessoalmente, é muito difícil lidar com esse tipo de coisas. Talvez Wynton Marsalis possa lidar com isso, talvez Bill Laswell possa lidar com isso. Você sabe, Bill pode sentar com os braços cruzados e rir daqueles babacas e com eles, sair para um passeio com eles... É um grande falador. Mas isso me faz mal ao estômago. Eu estou melhor como um independente. Estou melhor fazendo o que faço com meus próprios termos. Eu me pergunto o que teria acontecido a Wynton se ele iniciasse sua própria compania e fizesse seu caminho. Que, eu acho, seria uma coisa muito excitante – se ele não tivesse que responder a ninguém ou ouvir alguém que faz a sutil lavagem cerebral – você sabe o que eu quero dizer? Ele só teria que responder a si mesmo. Isso é o que eu gostaria de ver, mais que isso. Uma porção de pessoas, que estão no poder, tomando a iniciativa de fazer as coisas por conta própria sem a ajuda desses desgraçados gananciosos. Porque você sabe, money is money. Mas é dinheiro corrompido. Há alguma coisa realmente perversa nessas corporações multinacionais.


- O termo jazz é ainda válido?

- O termo “jazz”, por si, é sem sentido pra mim de certa maneira. Músicos não pensam em termos de embalagem, rótulo. Eu sei que jazz é música. Eu a estudei. Eu adoro ela. Mas quando eu sento e faço música, uma porção de coisas vem junto. E, algumas vezes, cai um pouco para o lado clássico, outras vezes cai um pouco para o jazz, outras vezes cai para o rock, outras vezes não cai em lugar nenhum – fica flutuando na margem. Mas independente da forma que toma, é sempre freak. Realmente não pertence a lugar algum. É algo único, fora do coração. Não está conectada com essas tradições.

- Qual tradição você se sente próximo?

- A vanguarda. Eu gostaria de ver a vanguarda, a música experimental sendo aceita como um gênero em si. Gostaria de ver seções de “vanguarda/experimental” nos maiores conglomerados de lojas de discos. Não somente em lojas que têm clientes inteligentes como Other Music ou Amoeba na costa oeste – pequenas lojas que são geridas por pessoas que acreditam, por pessoas contratadas que conhecem música, onde você pode ir à loja e falar: “diga-me alguma coisa interessante” e elas dizerem. Se lembra? Era a época das grandes lojas de discos.

- Você trabalhou em uma – Music Soho Galeria – no início dos anos 80.
- Lojas de discos usadas para ser uma poderosa fonte de informação. Eu costumava ir à Discophile quando era adolescente e dizia: “o que há de novidade no experimental/clássico na loja?” E o cara dizia: “você tem que ouvir isso; é incrível”. Em 82 eu fui à loja de disco “Bleecker Bobs” e disse: “ o que você tem ouvido? qual é o hardcore mais diferente que você tem ouvido?”. E ele dizia: “ você tem que ouvir esse disco “Die Kreuzen”; ficou no meu som por 6 meses, não podia deixá-lo fora”. Agora você vai a Tower e você encontra esses idiotas que trabalham por salário mínimo e nem sequer sabem onde Phil Glass está. Ou seja, eles não sabem nada sobre Shinola e estão trabalhando em lojas de discos. Algumas vezes, eles mesmo são os compradores e não sabem do que estão falando. Então ninguém está adquirindo educação. Eu estou falando das verdadeiras bases da educação, Isto é, onde eu aprendi a maioria das coisas importantes – ouvindo, falando com as pessoas, trocando informações. De novo, eu penso realmente que essa música que faço teria melhores chances de alcançar o público que aprecia isso e vendendo melhor, se houvesse seção de “vanguarda/experimental” em Tower ou HMV. Seria um grande ato de clarificar de onde essa música vem. Felizmente, isso acontecerá no futuro.


- O que você acha do potencial do MP3, onde cada músico tem seu site, onde as pessoas podem fazer download da nova música, como a de John Zorn?
- Isso é uma maravilhosa idéia. Mas você realmente acha que essas grandes corporações vão deixar que isso aconteça? Porque eles são uns filhos da puta insaciáveis e vão achar um meio de foder todo mundo. Pessoas que sabem manipular outras pessoas estão sempre por perto e acabam sempre, trabalhando nessas empresas, sabendo como rodopiar algum objeto brilhante na frente de alguns artistas, publicando eles, deixando-os fora de sua independência.com, e, levando-os para a Warner Bross. Todo mundo teria sua própria compania de disco, não custa tanto fazer isso sozinho. Mas eu recebo telefonema o tempo todo, fico com fitas o tempo todo e eu falo pra eles: “cara, você deve colocar isso sozinho. Eu calcularei tudo abaixo pra você, sobre como fazê-lo”. E você sabe? Eles não querem fazer isto. “Cara, tudo que eu quero é fazer música, eu não quero pensar sobre negócio”. E eles ficam preparados para serem roubados. A maioria das pessoas é realmente assim. Eles são músicos honestos, íntegros, que simplesmente não querem lidar com o negócio. Eles não querem ter seus próprios.com. E enquanto as pessoas são assim, são vítimas. Isso vem acontecendo desde o começo.


- Mas mais músicos estão assumindo responsabilidade de tratar em seu próprio nome.
- Cara, eu amaria pensar assim. Mas eu não penso isso. Isto é, eu amaria pensar que em 500 anos todo mundo vai ter seu próprio web-site, todo mundo vai ter suas próprias coisas. Mas, não importa se coisas materiais desaparecem do planeta e nós estamos lidando apenas com ondas cerebrais, vai haver alguém que ainda assim sabe como manipular e fazer mais dinheiro do que ninguém. Você sabe o que eu estou dizendo? O poder é uma droga. O dinheiro é parte disso. Mas é só um instrumento do poder. Não importa se não há nada em todo planeta e nós somos apenas espíritos, vai haver algum espírito filho da puta que vai querer mais do que eu e um próximo.


- Você tem ganho muita notoriedade ultimamente com Masada..
- É uma maravilhosa banda, uma poderosa banda.


- Você já estranhou estar num festival de jazz com Masada?
- Masada diz respeito à música de jazz. É um prazer tocar essa música nesses projetos. De fato, é emocionante. E quem nunca ouviu isso nesses festivais, pode, de repente, se ligar. Como no Chicago Jazz Festival, aonde tocamos há duas semanas atrás. É um festival ao ar livre e havia mais de 10 mil pessoas lá ouvindo-nos. Nós tocamos num projeto com Phil Woods, que é um dos meus heróis de todos os tempos. E eu me travei um pouco, o que foi ótimo. Mas isso está acontecendo mais e mais? Não, isto é uma loucura, é um num milhão. Para gerar um homem diferente, um show louco acontece só de vez em quando. As pessoas ouvirão, devem se divertir. Talvez elas mesmas saiam, comprem um disco e esqueçam. Ou talvez elas continuem a ouvir. Mas nós estamos falando de um número insignificante de pessoas.


- Você tem viajado muito com Masada e propaga o compromisso de levar música para o povo, muito semelhante à forma com que Frank Zappa espalhou sua própria mensagem.
- Zappa era uma pessoa muito especial. Ele era realmente articulado; ele realmente se preocupava com política. Era uma porção de coisas que tentava conseguir. Eu não posso pisar com os sapatos de Zappa. Eu não sou politicamente consciente. Eu não leio jornais, não leio revistas, não vejo televisão. Então, eu não tenho idéia. Zappa estava por dentro de todas as coisas. Ele era realmente impressionante. Eu não sou articulado, não sou politicamente consciente, transmitindo pensamento próprio: desejando o mundo de um jeito ou de outro. Eu não sou uma entrevista interessante nesse sentido. Eu desejaria que fosse. Eu gostaria que houvesse alguém que ocupasse o lugar de Zappa. Eu não sou o cara. Pra mim, é mais sobre fazer coisas que ficar fofocando acerca disso. E essa é uma outra razão pela qual eu abandonei as entrevistas. Eu não só sentia que estava sendo manipulado ou deturpado ou cortado, eu também sentia que, em geral, não tinha muita coisa a dizer, realmente. Eu faço música. E muitas vezes eu não entendo plenamente o que eu estou fazendo no momento. Dez anos depois é que eu vou entender o que era. Eu tenho ido na intuição muitas vezes. Não posso sempre explicar articuladamente, exatamente, o que é que eu estou fazendo com essa nova peça. Estou trabalhando com uma peça agora. Eu nunca tinha feito nada parecido com isso, nunca tinha composto desse jeito, realmente. E eu sinto que estou tendo algumas chances. Mas não tenho as respostas para o que essa peça vai ser ou o que eu suponho ser. Eu sinto como indo numa viagem e descobrindo ao longo do caminho. Você pode voltar de uma viagem e não entender plenamente o que havia visto até alguns anos mais tarde, e então perceber: oh, aquilo é como me tocou, aquilo é como me afetou.


- E, resumindo, com a finalidade de categorizar a música para caber num rótulo, de uma certa forma você nega a viagem.
- Bem, essas pessoas que categorizam estão no negócio de vender. Há um negócio em todo essa loucura, afinal, nós temos de lidar com isso. Eles estão se preparando para vender isso, de modo que nós precisamos comunicar a eles um estilo. É por isso que estou esperando que talvez haja uma seção experimental num grande conglomerado de lojas, num futuro próximo.


- Você tem conhecimento de como você tem influenciado jovens músicos apenas com seu exemplo, vivendo da maneira como você vive e produzindo música com seus próprios termos?


- Bem, isso é maravilhoso em palavras. Espero que seja verdade.

- Porque você tem 46 anos e músicos vêm sendo ferozmente independentes hoje por causa do terreno que você estabeleceu há 20 anos. Eu estou pensando no saxofonista Briggan Krauss, que mencionou você em entrevista como uma enorme influência. Por exemplo, você tem ajudado ele e outros músicos jovens a serem corajosos suficiente para fazer o que fazem contra todas as probabilidades.
- Yeah, bem, isto é o que é preciso – coragem. É preciso mais coragem do que a maioria tem. Há menos que um por cento de pessoas assim, mas o mundo não poderia existir sem eles. O mundo não avançaria sem eles, e eu realmente acredito nisso. Eu acho que todos os outsiders, os individualistas, as pessoas que têm a messiânica crença em si-mesmas, são capazes de permanecer em suas visões a despeito de todas as desvantagens – e acredite Bill, todo dia na minha vida eu sou assombrado e atormentado por vozes que dizem em minha orelha: “talvez você esteja errado”. Mas as pessoas que permanecem nessa, são as únicas que vão fazer diferença no mundo. Elas sempre estão em pequeno número e eu sempre aspirei a ser um deles. E penso em relação a pessoas que eu admiro, pessoas como Jack Smith, que viveu num pequeno apartamento aqui na First Avenue e morreu de Aids há dez anos atrás. Eu trabalhei com ele durante 8 anos no final dos anos 70, ajudando ele no seu teatro performático que nunca tinha mais que 10 espectadores. E essa foi uma das maiores coisas que eu já experimentei. Era um cara com minha idade atuando para 10 pessoas. E eu penso em John Cage não recebendo concessão de orquestra senão quando completou 51 anos. Quando ele era da minha idade, estava ainda trabalhando como ajudante de cozinha. Eu penso sobre isso e digo: “esses são os meus modelos; eu tenho que viver assim”. E se eu posso de alguma forma inspirar alguém, então a linha foi passada e isso é maravilhoso. Isso é ótimo. Eu realmente espero que isso aconteça.


- Você acha que essa música, chamada de vanguarda/experimental, pode ser devidamente promovida e vendida em maior número?
- Volta e meia aparece alguém que acha que eles podem vender essa música para um grupo grande de pessoas, mas isso nunca acontecerá. Por definição, isso é para um grupo pequeno de pessoas. E eu estou perfeitamente de acordo com isso. Eu não tenho amargura.


- O que é certo é que esse continuum irá, através de seus mentores, de você para a próxima geração.



- Esse continuum acontecerá, mas ficará sempre pequeno. O jazz, até quando ele é inquieto, o qual é muito diferente do tema do meu continuum, está em mãos de pessoas conservadoras e ambiciosas. E parece muito sombrio. Ainda assim, haverá sempre algumas pessoas com aquele incrível solo que Wynton faz no disco “Citizen Tam”. E é ótimo que haja aquilo. Eu desejava que ele fizesse aquilo o tempo todo. Mas se ele fizesse aquilo o tempo todo, talvez não tivesse um grande contrato com uma gravadora, talvez tivesse de renunciar muitas coisas que ele é incapaz de se apartar hoje. Ou talvez ele apenas não fizesse esse tipo de música. Seja como for, é a escolha dele. Ele é uma pessoa inteligente. Mas eu sinto que se envolvendo com essas pessoas ambiciosas, esses controladores de escravos, esses faraós, possa ser muito prejudicial pra saúde. Você pode pegar essa doença. Ganância é uma coisa muito infecciosa. E você tem que ser realmente isolado e cuidadoso – manter sua cabeça clara para evitar isso.


- E você conseguiu fazer isso ao longo de 20 anos.
- Porque eu não lido com esses filhos da puta. É como eu tenho feito. Mas se estivesse ainda fazendo gravações para um grande selo, estaria tão doente quanto eles. E frustrado. Eu me isolei completamente, deliberadamente. Porque eu me perguntei: quanto mais tempo vou estar neste planeta? Quanto tempo ainda eu vou ter? Então escolhi não assistir TV. Em vez disso, optei por trabalhar. Decidi que eu tenho que abandonar todas as distrações para poder concentrar no que é importante. E ficar nesse apartamento tem realmente me ajudado nisso. Eu poderia ter me deslocado para um lugar bacana na cidade, comprado um triplex, com um jardim de inverno e uma coisa toda grande. Mas estou feliz aqui. Aqui realmente é onde eu tenho feito todo meu trabalho criativo – acontece sempre nesta sala, sabe. Foi aqui que eu concebi “Cobra”, foi aqui que concebi “Spillane”, foi aqui que eu escrevi “Aporias”. Ou seja, é uma grande sala. Eu estou feliz aqui. E isso me mantém focado. Como Jack Smith, que viveu em seu pequeno apartamento na First Avenue, isto me mantém em contato com o que é importante, com as pessoas que me nutriram. Esse é um grande bairro, com muita energia. Quando esse prédio foi construído era para imigrantes chegados, que não podiam agüentar o inferno fora desta vizinhança, mas tinham muita esperança aqui. Esse era o investimento principal para quem havia tido sucesso lá fora, vindo da Europa e fugido do nazismo. E aquele sentimento de esperança ainda está contido neste prédio. Eu sinto isso. Guinberg e Kerouac viveram num apartamento do segundo andar. Há um pouco de história lá. Há história incrível neste bairro. Bird morou na rua. Esse tipo de energia não vai embora, mesmo com todos esses yuppies morando por aqui e as pequenas lojas se transformando em cadeias de lojas. Isso é que é assustador, a coopção do mundo. Daí porque às vezes eu penso isto – o mundo vai se tornar uma grande corporação e eles vão caçar pessoas como eu e você que não fazem parte. Insurreição é um sonho, mas isso não vai acontecer. Não enquanto estiverem vivos. Eles têm tantas formas de nos manter sob controle, com drogas, com a mídia, com a linguagem. Ou seja, esses caras têm pensado sobre isso por décadas e décadas – ou séculos – como controlar as massas. Eu não me surpreenderia se houvesse um chip em todo micro que estivesse sendo vendido hoje, feito realmente de uma câmera e de um microfone, de modo que todo mundo pudesse ser monitorado. Seria tão fácil, você entende?


- Isso tem sido profetizado no Big Brother, não?
- Absolutamente. Mas você pode ir contra toda essa coisa. Isto é, eu não sou aquele out. Eu me isolei mas eu ainda vivo aqui na cidade. Eu não estou em nenhuma cabana longe, pensando e planejando fora de toda essa engrenagem.


- Mas o ponto é: você tem eliminado a distração na sua vida para que possa focar somente no seu trabalho.
- Certo. Eu estou isolado. Eu acho que as pessoas necessitam de isolamento. Da mesma maneira que falava antes, de como o outsider olha o mundo e vê o caos. As pessoas que estão no mundo com valores burgueses regulares, eles vêem a existência ordenadamente. Eles estão isolados em seus caminhos porque não querem acordar e olhar a verdade. Já o outsider está isolado em seu caminho para que aquele caos não o destrua. E esse é o caminho mais difícil. Você sabe, a ignorância é a felicidade. É difícil permanecer do lado de fora querendo ficar do lado de dentro, subindo a falésia apenas pendurado por suas unhas. Todo ano eu ouço como mais um músico ficou quebrado, como este ou aquele desistiu porque estava tão frustrado ou foi suicidado pela sociedade. É difícil. Eu queria que houvesse mais suporte, mais energia positiva do mundo importante em direção àqueles que estão realmente na ponta tentando fazer coisas. Gostaria que houvesse mais atenção dada a essa música. É duro tudo ao redor e nós só temos que ficar juntos. E nós ficaremos. Eu não vou pra qualquer lugar.


- Quais são as suas metas pessoais para o próximo milênio?
- Uma das coisas maravilhosas na minha vida é que eu não tenho metas. Eu apenas trabalho todo dia e faço minhas coisas. Eu não sonho com óperas no Metropolitan, eu não sonho aquela concessão filarmônica. Eu trabalho com os meus materiais que tenho aqui em minha mãos, com os músicos que estão aqui e eu estou muito contente dando pequenos passos, um de cada vez.



- Você não está sonhando com uma casa grande em Engle wood Cliffs, New Jersey, com duas garagens?
- Não, não. Eu estou feliz aqui com meu pequeno apartamento duplex. Tenho estado aqui há 22 anos. E estarei aqui por toda minha vida. Eu tinha um apartamento em Tóquio por um tempo e aquilo era um sonho. Era um pequeno lugar e não era muito maior que este, e custava 300 dolares por mês, mas eu tive que deixar. Algumas vezes eu penso na Indonésia – tendo uma pequena cabana ou algo assim. Mas ora, eu sou nova-yorkino. Eu não tenho planos de ficar 20 horas sentado numa praia por uma semana. Isso é um pesadelo. Tanto que eu não tenho muito realmente. Eu não sou esse tipo de sonhador.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

FLUMINENSE SEMPRE


Com o Maracanã lotado, Fluminense e Corinthians empataram ontem à noite, num jogo cheio de alternativas, vindo a definir finalmente o adversário do Vasco. Parreira, foi mais uma vez ovacionado pela torcida tricolor, repetindo o que já tinha acontecido em São Paulo, semana passada, quando os dois times se enfrentaram na primeira partida. A aplicação tática e a garra tricolor vêm sendo decisivas para o bom desempenho do time de Álvaro Chaves. Vejam aqui um compacto com os melhores lances.
http://www.flumania.com.br/videos/Brasil%201984/84mmomentosFLU0x0COR.wmv

terça-feira, 19 de maio de 2009

SIMONAL - NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI



O filme de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, afirma a vocação nacional pro documentário e, ao mesmo tempo, a falta de ficcionistas brasileiros a altura de uma estória tão complexa como a de Wilson Simonal. Porque nunca um personagem real foi submetido com tamanha intensidade às forças culturais. Contar a sua estória é de certa forma trazer pro proscênio o mecanismo das forças sociais, escancará-lo, quando na maior parte das vezes permanece escondido.

O filme na verdade é a expressão cínica da desculpa, ainda que os depoentes tivessem sido sinceros em suas declarações. Vejamos quem fala: Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral, Nelson Motta, Boni, Toni Tornado, Bárbara Heliodora, Arthur da Távola, Chico Anísio, Ricardo Cravo Albim, Simoninha, Max de Castro, Sandra Cerqueira, Raphael Viviane (contador de Simonal) e sua respectiva esposa em off, Miele, Pelé, Castrinho e Mário Sabá do Som 3. Marília Pêra também participa, como cena de arquivo do filme "É Simonal" dirigido por Domingos de Oliveira.

A escolha dos que atuam, fazendo depoimentos, foi uma escolha problemática. Isso fica evidente e talvez seja o maior mérito do filme: trazer à cena não apenas os que desfrutavam da companhia do artista, mas também aqueles que lhe foram mais perversos. Colocá-los lado a lado, tal como Jaguar e Simoninha, por exemplo, é como se, no final das contas, fossem todos iguais e tivessem ambos a mesma parcela de responsabilidade na tragédia. Em outras palavras, todos são culpados e todos pedem desculpa.

O riso cínico de Jaguar é a melhor expressão do filme, um riso sem graça, um riso patético. O riso de quem pede desculpa e de quem diz: foi mal. Nesse sentido, o cartaz atrás de Nelson Motta, “Seja Marginal, Seja Herói”, de Oiticica, traduz também a ambigüidade do gesto acolhedor. O depoimento de Nelson desmascara o cinismo que sempre foi uma marca de seu jornalismo: o ex-jurado do programa Flávio Cavalcante, também era tropicalista, bossa-novista e onde soprasse o vento. Aliás, associar a pilantragem com a lambada, como uma forma de picaretagem, é demais da conta. De qualquer maneira, está no filme dando seu depoimento, o que mostra ao menos um gesto de simpatia para com o rei do swing. Teria sido mais coerente se permanecesse em silêncio, mas o filme foi tão cínico quanto ele ao convidá-lo.

Se a temática é o cinismo, já o uso político, seja da direita seja da esquerda, é o que melhor o ilustra. Fazer uso político é ser pragmático, é arma de guerra (depois de usado, joga-se fora). Daí porque o cínico e o pragmático são tão afins: ambos têm dupla face.

Vejamos o caso da ditadura, craque em fazer uso político do futebol. Aproveitaram a potencialidade que Simonal tinha para aglutinar multidões e ser de fato muito popular, basta lembrarmos o Maracanãzinho no Grande Festival da Canção e no show de Sérgio Mendes, e o cooptaram como um propagandista do milagre brasileiro. É interessante os sinais que o filme indica na relação de Simonal com: a seleção de
70, o que já era uma prévia dessa relação entre política e futebol; e, como garoto-propaganda da multinacional americana. Nesse sentido, Simonal, sem ter a mínima idéia do que estava lhe acontecendo, torna-se a expressão do conluio entre a ditadura brasileira e o capital privado americano.

A segunda parte do uso político que exerce a ditadura foi terem-no descartado quando não mais lhes interessavam. Boni, nesse sentido, faz um importante depoimento: a mídia estava nas mãos dos militares; se eles impusessem a Globo manter Simonal na programação, os diretores de programação teriam que engolir o sapo. Ou seja, o SNI deu de ombros e deixou Simonal entregue à sua própria sorte.

Essa dupla face do cinismo, também se deu na esquerda. No primeiro momento, a rejeição que impuseram ao dedo-duro, tendo com núcleo irradiador o Jornal Pasquim (nesse sentido, o importante depoimento de Ziraldo ao informar a forma de luta que a esquerda impunha aos militares, denunciando as casas de show que programavam Simonal). No segundo momento, o gesto acolhedor, o pedido de desculpas, a reação da nova crítica quanto ao isolamento a que foi imposto Wilson Simonal. O filme, ao mesmo tempo que participa desse gesto acolhedor, denuncia a dupla face do cinismo: seja no exagero com que cada um vai aumentando o número de espectadores no Maracanâzinho, o que nos faz desconfiar da verdade que ali é dita; seja no próprio depoimento da esposa ao informar que Wilson Simonal assistia aos shows dos filhos por trás da pilastra, escondendo-se do público e dos filhos, e, dessa forma, pondo em cheque até mesmo os depoimentos de Max de Castro e Simoninha.

Independentemente de ser um cantor de primeira linhagem, com uma divisão rítmica única (o outro que me lembro agora é Miltinho) e independentemente da cumplicidade de quem é usado (ninguém é totalmente ingênuo), o martírio de Simonal vem do fato de ter sido usado por ambos os lados. O filme não poupa ninguém, nem seus entes mais queridos.

domingo, 17 de maio de 2009

AS 10 MELHORES BANDAS NACIONAIS

1- MUTANTES
2- ARRIGO BARNABÉ E BANDA SABOR DE VENENO
3- CHICO SCIENCE E NAÇÃO ZUMBI
4- MARCELO BIRCK
5- ZUMBI DO MATO
6- JÚPITER MAÇÃ
7- BINÁRIO
8- FELLINI
9- VIOLETA DE OUTONO
10-OS MULHERES NEGRAS

Não foi fácil. Porque enquanto nas piores bandas havia uma abundância, nas melhores havia um espaço em branco. Em compensação, algumas bandas excelentes ficaram de fora (não foram muitas, mas algumas tiveram que ficar de fora e foi difícil).
O critério aqui foi diferente. O que justificava incluir uma banda e tirar outra, ainda que as admirasse tanto? E cheguei a uma conclusão: o lado sonoro foi decisivo. O que prevaleceu na minha escolha não foi nem o poético, nem o performático (esses dois últimos são os mais maltratados pelo Tempo). Tanto que algumas bandas escolhidas já nem existem mais e no entanto permanecem mais vivas do que muitas em atividade.

Aqui também não houve nenhuma obsessão pelo experimental, tipo: quanto mais desconhecido melhor. Nem acredito nisso. Acho esse argumento falho. Se o medíocre tem grande acolhida, o genial também pode ter – e temos muitos exemplos na história.

Por fim, como a numeração não é aleatória, em primeiro lugar e em sétimo, uma banda super conhecida e outra praticamente desconhecida. O que é um bom indicativo do que falei acima: o genial pode ser popular e o desconhecido, genial. Daí porque popularidade ou sua ausência pouco importam (é uma mera questão de sorte ou azar).

quarta-feira, 13 de maio de 2009

ESCLARECIMENTO

Um dia resolvi exterminar com os anônimos, essa praga que infesta a rede. Quis até impedi-los que entrassem neste blog. Tem alguém mais covarde do que um anônimo? Mas aí, alguém, também anônimo, protegendo sua classe, usando de corporativismo, alegou: aqui somos todos anônimos; quem te garante que o João da Silva não é fake?

Isso me fez liberar o blog.

Podem falar o que quiser. Eu leio todo mundo. Às vezes percebo uma censura nas comunidades do orkut. Sou contra. A revolução da internet foi justamente essa: o brilhante e o medíocre juntos, lado a lado. E isso é bom. Têm comentários pra todos os gostos. Acabou a figura do censor, a classe dos que se consideravam superiores. Estamos todos no mesmo barco. E essa revolução é maior que a bolchevique.

Claro que os jornalistas vão gritar (uma multidão de anônimos ocupa o espaço que antes era exclusivamente deles). Alegam que a imprensa virtual abaixou o nível. Será mesmo? E quem se sente satisfeito com a nossa imprensa escrita? Alguém ainda compra jornal?

Vou continuar escrevendo meu blog porque é a coisa mais importante que faço. Alternando poesia, conto, crítica literária, ensaio, entrevistas... Quanto aos comentários... quem sou eu pra fazer julgamentos. Cada um sabe de si.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

EU E CARECA, CARECA E EU (MEMÓRIA 3)

A fita métrica, a fita métrica. Ora, direis ouvir estrelas. Mas eu digo: a fita métrica. Tudo porque o Careca insistia na tese de que o seu era maior. Vamos aos fatos: diante da ciência não existe bazofia. A fita métrica. Ele foi mais longe: quem ganhar, leva. Estávamos só eu e ele – a mãe havia saído, de maneira que só tinha eu e ele: eu e Careca, Careca e eu. Tinha também a mesa de botão a nossa frente. Os meus eram de galalite. Pensei duas vezes: uma roleta russa. Do Careca, eu já tinha ouvido boas. Além do mais, sangue negro. Em um minuto, mil imagens. Se eu perdesse? Recuar agora era entregar o jogo. Mas aceitar suas condições também o era. Tentei renegociar, cortando a segunda cláusula. “Está com medo”, e riu como se me visse entre a cruz e a espada. O tempo passava. De repente, o Careca saiu do quarto. E voltou em seguida, radiante, com a fita métrica. Tudo tramava contra: a mãe que havia saído, filho único, órfão de pai. Estava solto no mundo, apanhava e levantava. E me vinha novamente aquela velha sensação: “to fodido”. Até então, o Careca tinha sido legal: colocou na mesa de negociação suas cláusulas, ficou de saco cheio e arriou o short. Eu olhei os botões à minha frente: meu orgulho. Vice-campeão do torneio de Jacarepaguá, reunindo competidores da zona oeste e adjacências. Uma forma de fazê-los mais escorregadios, era esfregar vela e depois passar flanela. O filho da puta tomava um sacode de 5X0. E o pau do Careca subindo: valha-me Deus, uma vara. Reparei que o dito-cujo era mais escuro que sua pele amulatada. Eu tinha dois beques postados em cada canto do gol, aos quais chamava Galhardo e Altair, minha humilde homenagem ao grande time tricolor da década de 60. Nada disso precisava acontecer e eu poderia a essas horas estar em casa assistindo na televisão o meu seriado preferido: Nacional Kid. O pau do Careca foi aumentando à medida que se masturbava e, a certa altura, pegou a fita métrica e mediu: 22 cm.

Vinte e dois centímetros. Era uma marca e tanto. E ele ria, altaneiro, orgulhoso de si. Meu time de botão que me deu tantas alegrias. Fui arriando o calção bem devagar, convicto de que me seria impossível bater a marca: 22 centímetros. Meu time era formado por dois zagueiros, três no meio de campo e cinco no ataque. Era um 5-3-2 inesquecível. Não como o carrossel holandês porque sou do tempo em que cada jogador respeitava sua faixa de campo. E fui tocando punheta até quanto pude, sob o olhar atento e lúbrico do filho da puta. 18 centímetros. Mais um pouquinho. Até machuquei minha piroca cor de rosa na esperança de alcançar a marca. 18,20 cm. Fim de linha.

Naquele instante, a mãe do Careca chegava com as compras: fui salvo pelo gongo. A tarde estava linda. Eu sempre sou salvo pelo gongo. E voltei pra casa, ileso. Devedor mas ileso.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

AS DEZ PIORES BANDAS NACIONAIS

1- CAPITAL INICIAL
2- FRESNO
3- NX ZERO
4- CPM 22
5- CACHORRO GRANDE
6- MOPTOP
7- ENGENHEIROS DO HAWAII
8- AUTORAMAS
9- BNEGÃO & OS SELETORES DE FREQUÊNCIA
10- PITTY

Lista é lista. Todo mundo faz lista. Mas não foi fácil não. Muitas ficaram de fora. Segui alguns critérios tais como o de visibilidade. Não adiantaria incluir bandas pouco conhecidas, sem grande representatividade: não haveria espaço. E que fossem bandas ocupando apenas o segmento do rock. Claro, que vai gerar discordâncias. Mas o barato é esse mesmo.
Olhando o conjunto, vejo dois sub-grupos: bregas e marrentos.

Os bregas são ingênuos: é congênito e cultural. Vão morrer assim, não tem jeito. Por mais que vivamos numa sociedade repleta de informações, nada vai dar a eles senso crítico. Aliás, possuir informação não significa lá muita coisa: você pode conhecer a história do rock, as grandes bandas, os grandes produtores... você pode ser uma enciclopédia falando, e, artisticamente, medíocre. A informação não nos salva do vexame. Os bregas vão continuar sendo sentimentalóides, e consequentemente, vão arrebanhar uma multidão de sentimentalóides; os bregas vão continuar ganhando dinheiro (são os que mais ganham); e os bregas, em razão disso, vão continuar a movimentar a máquina do jabá (são os que mais aparecem na televisão e nas rádios).

Já os marrentos, são aqueles que sabem das coisas, têm inclusive auto-crítica, mas dissimulam. Daí porque são marrentos: se não o fossem, a falta de talento ficaria exposta. O que fazem os marrentos? Se escondem em uniformes, se fazem de difícil, camuflam o tempo todo e conseguem enganar. Mas normalmente, o marrento não atinge grande público: o marrento gosta da segmentação. Tem o seu gueto que com ele se identifica e funciona muito através de brodagem, afinal de contas, o marrento não ganha tanto dinheiro assim pra comprar espaço na mídia.

São portanto dois sub-grupos bem diferentes entre si. O único ponto em comum é a ausência de talento. Não será difícil, leitor amigo, identificá-los nessa série de dez. Acrescentando apenas que a numeração não é aleatória: o número 1 excede a todos - é muito ruim; já o 10 é ruinzinho (coincidentemente, representam, cada um, determinado sub-grupo).

OBS: Os dez melhores vêm aí. Aguardem !!!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

AS TRÊS FASES DO TERROR


Em 1963, Zé do Caixão lança seu primeiro filme, À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA. Em 1974, Tobe Hooper lança O MASSACRE DA SERRA ELETRICA. Ambos, filmes de terror. Ambos, filmes de baixíssimo custo de produção. Mas a semelhança fica por aí. Primeiro, porque Zé do Caixão realmente faz parte dos primórdios do gênero, quando ainda não havia uma platéia formada para esse tipo de filme. Nesse sentido, o nosso Coffin Joe é único.
Mas o que é interessante notar, nesse primeiro filme de Zé do Caixão, é que as cenas de violência se dão através de armas brancas , sexo, sangue e discursos materialistas do protagonista direcionados à platéia. A presença humana está em primeiro plano.

O MASSACRE, na década seguinte, torna-se um clássico do gênero e expressa sua mudança: o terror não está mais centrado numa determinada persona e nem é fruto de um pensamento individual que se contrapõe ao de um grupo social; o uno se divide em quatro personagens de uma família canibal e trás à cena a presença dá psicose, ou seja, o terror não é mais explicado e passa a ser fruto de uma doença. Essa mudança de vetor vai ficar mais nítida nos anos seguintes, quando o filme de terror vai ser marcado pela presença cada vez maior de psicóticos.
De qualquer maneira, O MASSACRE tem como instrumento caracterísico a moto-serra. Nesse sentido, ele marca a transição de um gênero, do humano ao tecnológico. E é justamente essa passagem que vai consolidar definitavamente o gênero terror (O Exorcista é dessa mesma época)

A experiência seguinte de Tobe Hooper, Postergeist, O Filme, cheio de efeitos visuais e com produção de Spielberg, já na década seguinte, marca o início da decadência do gênero. Aqui é a televisão que assume o lugar da serra -elétrica (a criança é levada a uma outra dimensão através do tubo de imagem do televisor).

Como chamar a quem conseguiu expressar essas três fases ao mesmo tempo?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

REVOLUTION 9


Esse álbum que foi organizado pelo Marcelo Froes do International Magazine, contou com vários músicos brasileiros. É o Álbum Branco dos Beatles. A mim coube o Revolution 9. Por que será, hein? Maldição!!! Pois então, tomem:
http://www.youtube.com/watch?v=yOw4HRyA9v8