
Concluindo a minha passagem por Uberlândia, uma foto de minha apresentação com a banda Juanna Barbêra - na foto, a guitarrista da banda. A apresentação se deu no espaço GOMA que é também um coletivo integrando o Circuito Fora do Eixo. E agora uma entrevista que eu fiz com um dos integrantes do GOMA: Victor Maciel. Acredito que o Circuito Fora do Eixo é uma das coisas mais interessantes que vem acontecendo no Brasil nos últimos tempos. A secretária de cultura do município do Rio de Janeiro, Jandira Feghali, deveria ler essa entrevista.
O que é um coletivo e economia solidária? O GOMA está dentro dessa categoria?
Economia Solidária é um contraponto à lógica produtiva capitalista. Ao contrário da ordem econômica vigente, pautada na reprodução do capital, a Economia Solidária propõe uma alternativa que preza pelo cooperativismo e associativismo, ao contrário dos modelos de competição e concorrência do capitalismo, valorizando, assim, a capacidade produtiva do ser humano e, o mais importante, seu reconhecimento no resultado deste trabalho, superando o processo de alienação causado pelo trabalho assalariado. O GOMA, assim como o Circuito Fora do Eixo como um todo, trabalha nessa filosofia de trabalho coletivo e de autogestão no setor da economia da cultura. Cada um dos coletivos articulados a esta rede cooperativa do Fora do Eixo vislumbra do desenvolvimento de moedas complementares, tecnologia social pautada nos moldes da Economia Solidária que intermedia trocas nesta cadeia produtiva autopoiética, ou seja, que gera e consome suas próprias riquezas, serviços e bens.
Além do GOMA, tem a experiência de CUIABÁ. Eles foram pioneiros? E o ACRE, também tem coletivo? Quantos coletivos funcionam hoje no país?
A experiência do Espaço Cubo, em Cuiabá, teve início há sete anos e foi o grande referencial metodológico e prático para os trabalhos do Fora do Eixo. Este processo de democratização de informações, experiências e tecnologias dentro da rede são fundamentais para a criação de uma inteligência coletiva que facilita as tomadas de decisão, acelerando a capacitação e o crescimento dos níveis de excelência no trabalho dos coletivos. Um exemplo disso foi o GOMA colocar em circulação sua moeda complementar, o GOMA Card, pouco mais de um ano após o surgimento do coletivo, algo que o Espaço Cubo demorou seis anos para fazer com o Cubo Card. Atualmente são cerca de 40 coletivos em todas as regiões do país, do Rio Grande do Sul a Roraima. O Catraia, Ponto Fora do Eixo em Rio Branco, Acre, foi um dos coletivos que encabeçaram o processo de articulação da rede e serão os anfitriões do 2º Congresso Fora do Eixo, no segundo semestre de 2009. Atualmente, Daniel Zen, Coordenador de Planejamento do Catraia, é Secretário de Cultura do Acre e Presidente do Fórum Nacional de Secretários de Cultura, uma prova de como o Circuito Fora do Eixo, em menos de 4 anos de existência, tem crescido e ocupado espaços rapidamente.
Além dos coletivos, tem outras associações: das bandas independentes, dos festivais independentes... Pode me falar dessas e de outras associações? E quais seriam as relações entre elas?
A cadeia produtiva da música independente é composta por diversos agentes que agregam bandas, mídias, festivais, casas de shows, selos e uma série de outras categorias produtivas que se inter-relacionam cotidianamente e, aos poucos, começam a se organizar em associações. Já existem uma Associação Brasileira de Festivais Independentes – Abrafin – e uma Associação Brasileira de Casas de Shows Independentes – Casas Associadas. É fundamental que as demais categorias de produtores, músicos, distribuidores e agentes de mídia deste segmento também se organizem para que este setor da economia se desenvolva e para que a música independente brasileira se fortaleça ainda mais. Uma prova de como estas práticas associativas impulsionam seus envolvidos é o próprio Festival Jambolada, realizado em Uberlândia. A primeira edição, em 2005, atraiu cerca de 600 pessoas em um fim de semana de shows e debates. No ano passado, o Jambolada, já consolidado como um dos principais do país, com um orçamento bem maior, realizou uma semana inteira de shows, debates, palestras e oficinas, atraindo mais de 10 mil pessoas e mídias de todo o país. E a previsão para 2009 é de um festival ainda maior e mais abrangente.
Me fala de sua experiência pessoal com o som e do seu contato com o GOMA.
Minha experiência começou do público mesmo. Eu era um espectador e comecei a perceber que algo de interessante vinha acontecendo em Uberlândia desde o surgimento e crescimento do Jambolada, culminando com o surgimento do GOMA enquanto casa de shows e coletivo. Comecei a escrever um blog que dialogava com esta cena e a partir daí que se deu minha inserção no coletivo, mais especificamente no Núcleo de Comunicação. A experiência com o GOMA e o Fora do Eixo é um processo de aprendizado e crescimento intenso e cotidiano. Para mim, tem sido uma paixão pela música e pela arte que tem se transformado em militância e projeto de vida. Entendo esse movimento como uma vanguarda que ainda tem muito o que crescer, enfrentar e, sem dúvida nenhuma, ainda vai dar muito o que falar, mais do que já tem dado.
Vc acredita que esse modelo de gestão dos coletivos possa vir a se espalhar pelo resto do país? Ou eles ficariam restritos a cidades de pequeno porte?
A grande indústria fonográfica vive uma crise profunda e tem precisado se reinventar com o advento da Internet. Sem contar que temos assistido o Neoliberalismo quebrar a cara desde o ano passado. Isso tudo tem preparado um terreno muito fértil para o crescimento de práticas coletivas, cooperativas e associativas em detrimento de modelos de competição e repetição. A proposta inicial de produtores de cidades do porte de Cuiabá, Uberlândia, Rio Branco e Londrina já começa a se espalhar também por capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Goiânia, Manaus, João Pessoa, Natal... O nome “Fora do Eixo” já é um título muito mais conceitual do que necessariamente geográfico.
Qual a relação entre o GOMA e a JAMBOLADA?
O 1º Festival Jambolada, em novembro de 2005, foi o momento histórico onde todo esse lance de Circuito Fora do Eixo de fato começou. Foi a primeira vez que o Espaço Cubo saiu de Cuiabá para debater seu modelo de gestão com outras cenas e foi numa conversa entre Pablo Capilé, Coordenador de Planejamento do Espaço Cubo, e Talles Lopes, hoje Coordenador de Planejamento do GOMA, após uma oficina do Jambolada na Universidade Federal de Uberlândia, que surgiu a ideia. Foi também com o surgimento do Jambolada que a cena autoral da cidade e seus agentes envolvidos começaram a ganhar uma cara. Atualmente, o Jambolada é uma das ações do GOMA em parceria com outro coletivo da cidade, o Valvulado, sendo hoje a grande vitrine, não só para os artistas da cidade, como também para este modelo de gestão.
No tocante a curadoria do festival, existe risco de corporativismo? Quero dizer, vc é a favor de várias associações funcionando e cada uma puxando a sardinha pro seu lado, como se fosse uma agremiação política? Ou vc acha que a curadoria tem que ser aberta, convocando inclusive bandas completamente desligadas da luta política de vocês?
Entendo um festival enquanto um momento nobre para as discussões acerca da cadeia da música independente. Momento onde é possível aglutinar, num mesmo tempo e espaço, uma quantidade gigantesca de artistas, jornalistas, produtores, selos e público. E é por isso que acho que os festivais sejam momentos de diálogo e trocas, não de corporativismo. Uma vez que se entende o festival enquanto um espaço de exposição não só de bandas, como também de um modelo de gestão, a curadoria deve estar atenta tanto àquelas bandas que têm ao menos disposição para o diálogo com este modelo, quanto àquelas que estão prontas, enquanto artistas, para se apresentarem num evento cujo porte exige certo profissionalismo e capacidade de quem sobe em cima do palco. Caso contrário, todo conceito e trabalho despendido no festival perde seu sentido.
Vamos pensar nas músicas de protesto da década de 60. Geraldo Vandré é um exemplo clássico. Vc acha que música e política dá certo? O GOMA não deixa de ser uma associação política. Ou não?
A música é um instrumento de expressão humana e por isso, por si só, já é um instrumento político. A própria postura “apolítca” favorece algum interesse... político, o de manutenção das coisas como estão e por aí vai. O Brasil já teve diversas bandas e movimentos estéticos com seu discurso político explícito em suas artes. O GOMA é uma célula de um movimento cultural que coloca seu discurso político não necessariamente em letras de músicas, mas que propõe mudanças nas estruturas de sua cadeia produtiva. Nosso protesto não está no grito, mas sim na prática. Se Geraldo Vandré nos anos 60 “caminhava, cantava e seguia a canção”, hoje os Fora do Eixo caminham, cantam, carregam caixa, suam e dão a cara a tapa!
Valeu, Victor.


