segunda-feira, 29 de junho de 2009

CIRCUITO FORA DO EIXO - GOMA


Concluindo a minha passagem por Uberlândia, uma foto de minha apresentação com a banda Juanna Barbêra - na foto, a guitarrista da banda. A apresentação se deu no espaço GOMA que é também um coletivo integrando o Circuito Fora do Eixo. E agora uma entrevista que eu fiz com um dos integrantes do GOMA: Victor Maciel. Acredito que o Circuito Fora do Eixo é uma das coisas mais interessantes que vem acontecendo no Brasil nos últimos tempos. A secretária de cultura do município do Rio de Janeiro, Jandira Feghali, deveria ler essa entrevista.

O que é um coletivo e economia solidária? O GOMA está dentro dessa categoria?

Economia Solidária é um contraponto à lógica produtiva capitalista. Ao contrário da ordem econômica vigente, pautada na reprodução do capital, a Economia Solidária propõe uma alternativa que preza pelo cooperativismo e associativismo, ao contrário dos modelos de competição e concorrência do capitalismo, valorizando, assim, a capacidade produtiva do ser humano e, o mais importante, seu reconhecimento no resultado deste trabalho, superando o processo de alienação causado pelo trabalho assalariado. O GOMA, assim como o Circuito Fora do Eixo como um todo, trabalha nessa filosofia de trabalho coletivo e de autogestão no setor da economia da cultura. Cada um dos coletivos articulados a esta rede cooperativa do Fora do Eixo vislumbra do desenvolvimento de moedas complementares, tecnologia social pautada nos moldes da Economia Solidária que intermedia trocas nesta cadeia produtiva autopoiética, ou seja, que gera e consome suas próprias riquezas, serviços e bens.



Além do GOMA, tem a experiência de CUIABÁ. Eles foram pioneiros? E o ACRE, também tem coletivo? Quantos coletivos funcionam hoje no país?

A experiência do Espaço Cubo, em Cuiabá, teve início há sete anos e foi o grande referencial metodológico e prático para os trabalhos do Fora do Eixo. Este processo de democratização de informações, experiências e tecnologias dentro da rede são fundamentais para a criação de uma inteligência coletiva que facilita as tomadas de decisão, acelerando a capacitação e o crescimento dos níveis de excelência no trabalho dos coletivos. Um exemplo disso foi o GOMA colocar em circulação sua moeda complementar, o GOMA Card, pouco mais de um ano após o surgimento do coletivo, algo que o Espaço Cubo demorou seis anos para fazer com o Cubo Card. Atualmente são cerca de 40 coletivos em todas as regiões do país, do Rio Grande do Sul a Roraima. O Catraia, Ponto Fora do Eixo em Rio Branco, Acre, foi um dos coletivos que encabeçaram o processo de articulação da rede e serão os anfitriões do 2º Congresso Fora do Eixo, no segundo semestre de 2009. Atualmente, Daniel Zen, Coordenador de Planejamento do Catraia, é Secretário de Cultura do Acre e Presidente do Fórum Nacional de Secretários de Cultura, uma prova de como o Circuito Fora do Eixo, em menos de 4 anos de existência, tem crescido e ocupado espaços rapidamente.



Além dos coletivos, tem outras associações: das bandas independentes, dos festivais independentes... Pode me falar dessas e de outras associações? E quais seriam as relações entre elas?

A cadeia produtiva da música independente é composta por diversos agentes que agregam bandas, mídias, festivais, casas de shows, selos e uma série de outras categorias produtivas que se inter-relacionam cotidianamente e, aos poucos, começam a se organizar em associações. Já existem uma Associação Brasileira de Festivais Independentes – Abrafin – e uma Associação Brasileira de Casas de Shows Independentes – Casas Associadas. É fundamental que as demais categorias de produtores, músicos, distribuidores e agentes de mídia deste segmento também se organizem para que este setor da economia se desenvolva e para que a música independente brasileira se fortaleça ainda mais. Uma prova de como estas práticas associativas impulsionam seus envolvidos é o próprio Festival Jambolada, realizado em Uberlândia. A primeira edição, em 2005, atraiu cerca de 600 pessoas em um fim de semana de shows e debates. No ano passado, o Jambolada, já consolidado como um dos principais do país, com um orçamento bem maior, realizou uma semana inteira de shows, debates, palestras e oficinas, atraindo mais de 10 mil pessoas e mídias de todo o país. E a previsão para 2009 é de um festival ainda maior e mais abrangente.



Me fala de sua experiência pessoal com o som e do seu contato com o GOMA.

Minha experiência começou do público mesmo. Eu era um espectador e comecei a perceber que algo de interessante vinha acontecendo em Uberlândia desde o surgimento e crescimento do Jambolada, culminando com o surgimento do GOMA enquanto casa de shows e coletivo. Comecei a escrever um blog que dialogava com esta cena e a partir daí que se deu minha inserção no coletivo, mais especificamente no Núcleo de Comunicação. A experiência com o GOMA e o Fora do Eixo é um processo de aprendizado e crescimento intenso e cotidiano. Para mim, tem sido uma paixão pela música e pela arte que tem se transformado em militância e projeto de vida. Entendo esse movimento como uma vanguarda que ainda tem muito o que crescer, enfrentar e, sem dúvida nenhuma, ainda vai dar muito o que falar, mais do que já tem dado.



Vc acredita que esse modelo de gestão dos coletivos possa vir a se espalhar pelo resto do país? Ou eles ficariam restritos a cidades de pequeno porte?

A grande indústria fonográfica vive uma crise profunda e tem precisado se reinventar com o advento da Internet. Sem contar que temos assistido o Neoliberalismo quebrar a cara desde o ano passado. Isso tudo tem preparado um terreno muito fértil para o crescimento de práticas coletivas, cooperativas e associativas em detrimento de modelos de competição e repetição. A proposta inicial de produtores de cidades do porte de Cuiabá, Uberlândia, Rio Branco e Londrina já começa a se espalhar também por capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Goiânia, Manaus, João Pessoa, Natal... O nome “Fora do Eixo” já é um título muito mais conceitual do que necessariamente geográfico.



Qual a relação entre o GOMA e a JAMBOLADA?

O 1º Festival Jambolada, em novembro de 2005, foi o momento histórico onde todo esse lance de Circuito Fora do Eixo de fato começou. Foi a primeira vez que o Espaço Cubo saiu de Cuiabá para debater seu modelo de gestão com outras cenas e foi numa conversa entre Pablo Capilé, Coordenador de Planejamento do Espaço Cubo, e Talles Lopes, hoje Coordenador de Planejamento do GOMA, após uma oficina do Jambolada na Universidade Federal de Uberlândia, que surgiu a ideia. Foi também com o surgimento do Jambolada que a cena autoral da cidade e seus agentes envolvidos começaram a ganhar uma cara. Atualmente, o Jambolada é uma das ações do GOMA em parceria com outro coletivo da cidade, o Valvulado, sendo hoje a grande vitrine, não só para os artistas da cidade, como também para este modelo de gestão.



No tocante a curadoria do festival, existe risco de corporativismo? Quero dizer, vc é a favor de várias associações funcionando e cada uma puxando a sardinha pro seu lado, como se fosse uma agremiação política? Ou vc acha que a curadoria tem que ser aberta, convocando inclusive bandas completamente desligadas da luta política de vocês?

Entendo um festival enquanto um momento nobre para as discussões acerca da cadeia da música independente. Momento onde é possível aglutinar, num mesmo tempo e espaço, uma quantidade gigantesca de artistas, jornalistas, produtores, selos e público. E é por isso que acho que os festivais sejam momentos de diálogo e trocas, não de corporativismo. Uma vez que se entende o festival enquanto um espaço de exposição não só de bandas, como também de um modelo de gestão, a curadoria deve estar atenta tanto àquelas bandas que têm ao menos disposição para o diálogo com este modelo, quanto àquelas que estão prontas, enquanto artistas, para se apresentarem num evento cujo porte exige certo profissionalismo e capacidade de quem sobe em cima do palco. Caso contrário, todo conceito e trabalho despendido no festival perde seu sentido.



Vamos pensar nas músicas de protesto da década de 60. Geraldo Vandré é um exemplo clássico. Vc acha que música e política dá certo? O GOMA não deixa de ser uma associação política. Ou não?

A música é um instrumento de expressão humana e por isso, por si só, já é um instrumento político. A própria postura “apolítca” favorece algum interesse... político, o de manutenção das coisas como estão e por aí vai. O Brasil já teve diversas bandas e movimentos estéticos com seu discurso político explícito em suas artes. O GOMA é uma célula de um movimento cultural que coloca seu discurso político não necessariamente em letras de músicas, mas que propõe mudanças nas estruturas de sua cadeia produtiva. Nosso protesto não está no grito, mas sim na prática. Se Geraldo Vandré nos anos 60 “caminhava, cantava e seguia a canção”, hoje os Fora do Eixo caminham, cantam, carregam caixa, suam e dão a cara a tapa!

Valeu, Victor.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

LOKI


Mais uma vez o cinema brasileiro surpreende. Dessa vez com um documentário sobre a vida do mutante Arnaldo Batista. Tenho sempre afirmado aqui a vocação do nosso cinema pro documentário. Ao invés de comédias bobocas que visam claramente a bilheteria, deveria-se investir mais em documentários.

Com o apoio do Canal Brasil, o jovem cineasta Paulo Henrique Fontenelle trouxe a baila uma discussão que já havia se iniciado no Canal Brasil com um programa sobre Arnaldo. O filme aprofunda essa discussão, aproveita algumas imagens do programa e faz um filme de 2 horas que passam correndo.

Uma coisa que documentários históricos ressaltam, é a passagem do tempo. E com ela, a mudança, o outro que nos tornamos. Ver Sergio Dias na época e vê-lo hoje. O próprio Arnaldo. Se Rita tivesse aparecido no filme seria outro choque: vê-la no que se transformou.

Alguns depoimentos são espetaculares, como o de Rogério Duprat, padrinho e arranjador da banda. Segundo Duprat, tudo que aconteceu na música brasileira a patir de 67, deve-se única e exclusivamente a Arnaldo Batista. Outros depoimentos são melancólicos, como o de Menescal, que realmente não compreendeu nada do fenômeno Mutantes, só faltando chamá-los de crianças irresponsáveis, ainda que tenha sido ele o responsável pela gravação de Loki.

O que aconteceu a Tom Zé guarda algumas semelhanças com Arnaldo. Acho inclusive que poderíamos mudar o mapa oficial do tropicalismo: ao invés de Caetano e Gil, Tom Zé e Arnaldo. Porque em ambos existe uma morte e um renascimento. Em ambos, também, a presença estrangeira de David Byrne. E nada mais justo. O gesto de Byrne é a contraface da antropofagia. Se Tom Zé e Arnaldo foram marcados pelo gesto enobrecedor de acolher o exterior, contra toda a xenofobia nacional, nada mais justo que a retribuição desse gesto inaugural. No filme, Sean Lennon e Devendra Banhart cumprem esse papel.

Mas acho também que há diferenças profundas entre os dois, da mesma forma que havia entre Oswald e Mário. O olhar de Tom Zé estava voltado para o exterior, na direção de uma música nova que se contrapunha à música nacionalista. O estudante de música da Bahia bebia na fonte de Koellreutter, seu professor. E sua "morte", deve-se ao abandono do mercado diante do seu trabalho. Seu retorno, pelas mãos de Byrne, reafirma sua vocação para uma música nova.

Quanto a Arnaldo, os Beatles são o modelo. Mas aqui, a questão não é tão intelectual quanto o era em Tom Zé. A contra-cultura e os novos comportamente dão o tom. Havia música, LSD, a namorada na banda (Rita Lee). Ou seja, o pessoal invade o profissional. Se a música era importante, o modo de vivê-la era tão importante quanto. Daí porque no filme tem-se a impressão que apesar da música inteligente dos Mutantes, tem algo mais importante que a música, o que viríamos chamar de atitude, existência, comportamento. A "morte" de Arnaldo está conectada ao seu tempo ou a intensidade de como foi vivido. Não é tanto uma questão de abandono do Mercado mas de “mergulho” existencial.

São os dois vértices do tropicalismo: inteligência e existência. Tom Zé e Arnaldo Batista. Houve um terceiro vértice também que foi o do show-business, ao qual Rita Lee se rendeu – menos nobre, mas substancial no sentido de se fazer visto, consolidando inclusive no exterior a música popular brasileira.

Assim como o renascimento de Tom Zé ratificou sua música, período em que produziu grandes discos, o de Arnaldo consolidou sobretudo a sua vida. A interferência do pessoal em sua carreira sempre foi uma constante: o fim de seu casamento com Rita Lee acabou decretando o fim da banda; o suicídio, não tão simbólico quanto o de Tom Zé, é novamente a interferência do pessoal no músico; e finalmente, entre a vida e a morte, o aparecimento de uma mulher anônima que o ajuda a retomar sua vida. Isso me faz lembrar um dito irônico de Tom Zé, ao ver o rumo que o tropicalismo tomava: “não se morre mais”. Arnaldo Batista é um contra exemplo e justamente isso o faz eterno.

domingo, 21 de junho de 2009

MEMÓRIA 4

Eu a conheci pela internet, o que, à rigor, pouca diferença faz se viéssemos a nos conhecer numa balada, num jogo de futebol ou na puta que pariu. O que importa é se, depois do blá-blá-blá, depois que você ficou nua diante da cam e bateu uma siririca, houve química. Vocês foram para cama? Ela fez au au? Ficou gemendo que nem cachorrinho no cio?

Claro que era desnecessário informá-la da gonorréia que contraí com uma puta paraguaia. Ou que dei o rabo pra ver como é que era e gostei. Mas isso não é revelado a não ser que o postulante a escritor confunda realidade e ficção, e faz de sua privada entupida uma forma de espetáculo.

Depois, vocês sabem no que veio a dar as núpcias: quando um gritava de um lado, o outro respondia em falsete. Leandro e Leonardo. Alvarenga e Ranchinho. Zezé de Camargo e Luciano.

Ela era do lar. Um eufemismo sem dúvida. E foi engordando (ela e eles). Afinal, pra que serve um parco salário? Rico viaja, pobre fica gordo.

Quando tirei o “pé na cova”, dava gosto ver. Estávamos gordinhos que nem João e Maria. Havia uma gaiola imaginária, uma velha bruxa e um caldeirão.

Foi no que pensei quando ficamos noivos.

Depois aleguei viagem à trabalho, parti para a Zona Franca de Manaus, me envolvi em política, fui assessor do grande governador Amazonino Mendes.

Numa expedição à selva amazônica, peguei maleita.

Curado, subi o Carajás, enriqueci, joguei na bolsa e perdi.

Passaram-se muitos anos e eis que me deparo com ela de novo em sonhos: cheia de leitõezinhos em torno. Uma lua bojuda iluminava a gaiola, enquanto uma bruxa, de costas, a remexer o caldeirão, me dava uma nostalgia dos diabos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

LULA FALOU ASSIM...

Adoro ouvir o Lula falando de improviso.
Herbert Vianna, também. Falando de improviso, é espetacular.
Mas a partir de hoje, começo a colecionar as pérolas do presidente.
Hoje, se referindo às críticas "injustas" ao Senador Sarney, Lula falou assim:
"O senador Sarney não é uma pessoa comum".
Seja qual for o sentido da frase, ela é perturbadora, ela é totalmente Lula.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

UBERLÃNDIA - 2

Se não fosse o movimento Mangue Beat, Chico Science existiria? Se não fosse o Cinema Novo, Glauber Rocha existiria? Se não fosse o Tropicalismo, Caetano existiria? E se não fosse o Modernismo, Mário e Oswald existiriam?
Existiriam.
Eles existiriam de qualquer maneira. Pode ser que o movimento tenha dado a eles uma visibilidade inicial. No entanto, mais cedo ou mais tarde, com ou sem movimento, eles se afirmariam. E sobrepujariam o movimento. E dariam visibilidade ao movimento, que não seria nada se não fossem eles.
Quem é Raul Bopp, Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo, Tarsila do Amaral, Pagu, Di Cavalcanti...?
Muito pouco ao lado do que representaram Mário e Oswald. Nem Villa Lobos, cuja genialidade só viria a ser afirmada anos mais tarde.
Acho que o mesmo raciocínio eu posso aplicar aos outros movimentos, que tiveram ao menos uma nobre função: trazer à cena, o gênio.

Bem, tudo isso vem à propósito de uma conversa no carro com o Vitor, integrante do Goma. Estou me referindo a minha estadia em Uberlândia. Além de ter conhecido o Robinho e sua banda o "Juanna Barbêra", que me surpreenderam com uma versão de "Você vai continuar Fazendo Música" de "tirar pica-pau do oco", tive o prazer de conhecer o GOMA e recebi uma lição de como se faz política cultural. O "Movimento Fora do Eixo" é talvez uma das coisas mais interessantes que vêm acontecendo nesse país e é com eles que eu quero dialogar aqui. Vou abrir um canal de discussão neste blog com Cuiabá, Acre e Goiânia. Quero falar de política cultural, de parcerias com o poder público através de leis de incentivo a cultura. E por aí vai.
Eu não sou um bom exemplo.
Meu trabalho foi feito à margem de movimentos, nunca recebi incentivo cultural nenhum e ainda assim fui levando, aos trancos e barrancos. Nada vai me impedir de fazer minhas coisas.
Mas quando fui à festa do GOMA e vi aquelas garotas gostosas dançando e a vontade de afirmar e ser o que se quer na expressão de cada um que frequenta aquele coletivo, porra, me deu tristeza, me deu vontade, me deu desejo... e eram tantas garotas gostosas...
Acabei não conversando com o Thales, uma figura importante do movimento e foi uma pena.
Mas falei com seu irmão e com o Victor, que me prometeu uma entrevista aqui no blog.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

UBERLÂNDIA (MG) - VAMOS NESSA

Amanhã, sábado, dia 13/06, vai rolar o lançamento do livro de poesias de Robisson Sete - "13 poemas ácidos no bolso da calça". Vai ser em Uberlândia (MG). E eu vou estar presente na vernissage, às 20:00 horas. Casa da Cultura, Praça Coronel Carneiro, 89. Na ocasião, vai haver leituras de poemas e eu vou ler alguns meus, presentes no livro "Debaixo das Rodas de um Automóvel". Depois, rola show da banda Juanna Barbêra, de Uberlândia, no Goma, av Floriano Peixoto, 12, às 23:00 horas. Eu vou cantar três músicas de minha safra. Quem for lá verá.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

CARTA ABERTA À JANDIRA FEGHALI


Oi, Secretária.
Escrevo esta carta aberta dirigida a vossa ilustríssima pessoa, mas sem nenhuma esperança de que possa ser lida por vossa excelência. Blog, a senhora sabe como é, né? Escrevo nesse estilo sem eira nem beira, como quem conta estrelas no céu sentado numa cadeira elétrica.

Queria falar do Viradão.

Foi um motivo de júbilo saber que o Rio de Janeiro seguiria o exemplo de São Paulo. Sou testemunha ocular do evento paulistano até porque participei duas vezes: em 2007 e 2009.

Não vou fazer parte do coro dos descontentes. Li o texto da atriz Camila Amado no Jornal do Brasil e discordo profundamente do seu teor. http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/05/31/cultura/em_que_nos_interessa_essa_festa.asp
Desconfio dos que apregoam “as nossas raízes culturais”. Quais são elas? Quem conhece o mínimo de História sabe o quanto é arriscado mencionar tais raízes. Corre-se o risco de esquecer a pluralidade de nossa formação.

Nada pode justificar o imobilismo: nem os salários atrasados dos funcionários dos teatros do município, nem o uso político da festa, nem o populismo. A iniciativa do seu secretariado deve merecer louvores e que o Viradão venha pra ficar.
Aproveito apenas o momento para algumas reflexões.

Claro que a Virada Cultural em São Paulo não tem nada de original. É ela uma cópia da que existe em Paris e não vejo nenhum mal nisso. Coisas boas são feitas para serem copiadas, nenhum demérito ao copista. Achei apenas que as modificações introduzidas na copia, isto é, no Viradão, frustraram os resultados esperados.

Em primeiro lugar, não ficou claro a participação da Rede Globo no evento. Não que sejam mal vindas as parcerias, os patrocínios, muito pelo contrário. Mas que eles sejam transparentes pra sociedade. Isso porque, se a escolha dos artistas teve o dedo da “telinha”, aí fica comprometido o espírito que deveria nortear o evento. Nesse sentido, devemos novamente lembrar o exemplo de São Paulo: antes de serem definidas as atrações, foi aberta uma consulta e todos puderam manifestar suas preferências. Não seria aqui ingênuo em afirmar que essa participação definiu o corpo geral das atrações, mas foi um canal a mais.
Isso talvez tenha sido um dos motivos pelos quais o nosso Viradão ficou tanto com cara de déjà-vu. Nos palcos principais, parecia um programa da Globo.

Outra questão que não me pareceu bem resolvida, Secretária, foi as 42 horas. O curioso é que nas 24 horas de São Paulo a quantidade de atrações foi bem superior. E aumentar o número de atrações é fundamental porque só assim abre-se de fato o leque dos estilos. Uma pergunta singela, Secretária: teve rock no Viradão? Samba eu sei que teve e longe de mim questionar a arquipresença do samba. Muito benvindos o Funk, a música clássica, a bossa-nova, a MPB, o pop... e o rock? Mesmo nos estilos citados, foi bem pequena a representatividade deles, se comparado ao Samba. Se a idéia do evento é abri-lo a todos os segmentos, dando a idéia de pluralidade, acho então que o Viradão,em sua primeira versão, ficou a desejar.

Outra problema: virada significa horas ininterruptas. Aí é que está o curioso no evento, a sua diferença específica. Não foi o que aconteceu com o Viradão. A idéia de compactar é interessante. As 42 horas acabaram por dispersar o evento. E aí vai uma sugestão, Secretária, se me permite: porque não concentrar um maior número de palcos no centro da cidade? Veja, não estou me referindo nem à zona sul nem ao subúrbio, que poderiam ter nas lonas culturais suas participações. Imagine, secretária, as ruas do Centro tomadas de pessoas, com vários palcos, tendo cada um deles, diferentes shows. Palco na Praça XV, na Cinelândia, na Tiradentes, na Carioca... O efeito seria menos dispersivo e dentro das vinte e quatro horas ininterruptas.

Secretária, gostaria de ter participado da festa, principalmente, enquanto carioca. Mas em momento algum, a minha ausência me levaria a aumentar o coro dos descontentes. O Viradão é uma grande iniciativa e veio pra ficar. Que seja aperfeiçoado.

Pra terminar, a relação das atrações em apenas um palco do centro de São Paulo na última virada cultural. Esse modelo infelizmente não foi seguido pelo Viradão.


Av. São João

Palco para grandes shows e numerosa platéia, tem temática variada que transita do erudito ao rock, do regional ao balanço, do MPB ao pop.

Um guindaste por sobre a cena será o suporte de números aéreos circenses tradicionais e contemporâneos durante todo o evento.

Endereço: altura da pça. Júlio Mesquita.

18h10

Concerto para grupo e orquestra (1969) – Jon Lord e Orquestra Sinfónica Municipal - regente: Rodrigo Carvalho

Sinopse:
Legendário tecladista/pianista do Deep Purple desde a fundação da banda, na década de 60, John Lord é uma das figuras mais amadas do rock. Com uma influência assumidamente clássica, é responsável por arranjos que influenciaram gerações em apresentações memoráveis. Separado do Purple desde 2002, desenvolve seu trabalho solo e apresenta seus projetos ao redor do mundo. Na Virada Cultural 2009, John Lord se apresenta ao lado da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo para executar o álbum Concerto para Grupo e Orquestra, do Deep Purple, celebrando 40 anos de sua criação. O espetáculo marcará a abertura da 5 edição do evento.



A Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo formou-se em 1921 juntamente com a Sociedade de Concertos Sinfônicos de São Paulo. Em 1939 a orquestra foi oficializada durante a gestão do prefeito Francisco Prestes Maia e em 1949, seus componentes ganharam a estabilidade funcional. A Orquestra Sinfônica Municipal já se apresentou sob a regência de maestros internacionais como Rostropovich, Ernest Bour, Maurice Leroux, Dietfried Bernett, Kurt Masur e de maestros nacionais como Armando Belardi, Camargo Guarnieri, Edoardo de Guarnieri, Eleazar de Carvalho, Isaac Karabtchevsky, Sergio Magnani, além de vários compositores regendo suas obras como Francisco Mignone, Villa-Lobos e Penderecki.





Concerto para Grupo e Orquestra (1969)



Gravado originalmente pelo Deep Purple e pela Royal Philharmonic Orchestra em 1969, no Royal Albert Hall, este álbum foi considerado um tanto estranho na época. Se hoje é prática recorrente de inúmeras bandas tocar suas músicas ao lado de uma orquestra, há 40 anos compor e se apresentar com uma era algo no mínimo inusitado. Foi exatamente o que o Deep Purple fez, e em dez dias escreveu todo um concerto. Atualmente, John Lord viaja o mundo executando Concert for Group and Orchestra e em cada país, em cada cidade, apresenta-se ao lado de músicos e orquestras locais.

Início: dia 2 às 18h10

21h00

Geraldo Azevedo

Sinopse:
Pernambucano de Petrolina, Geraldo Azevedo é um dos mais respeitados músicos brasileiros. Violinista autodidata, com quase 50 anos de carreira, compôs e tocou ao lado de monstros sagrados da MPB: Geraldo Vandré, Naná Vasconcelos, Teca Calazans, Zé Ramalho e Alceu Valença, com quem gravou seu primeiro disco, em 1972. Geraldo Azevedo tem uma obra marcada pela variação de ritmos e balanços, tirando de seu violão uma mistura de harmonias sofisticadas com ritmos quentes do nordeste, indo de melódicas canções românticas a frevos escaldantes.

É autor de Dia Branco, Caravana, Juritis e Borboletas, Tempo Tempero, Bicho de 7 Cabeças, Arraial dos Tucanos, entre muitas outras.

Início: dia 2 às 21h00

00h00

Marcelo Camelo

Sinopse:
Proveniente da banda Los Hermanos, Marcelo Camelo sempre chamou a atenção pela força de suas canções, despontando definitivamente como um grande compositor da música popular brasileira nos últimos anos, sendo comparado a Renato Russo e Chico Buarque. Sou, seu primeiro álbum solo, teve uma de suas músicas, Janta (interpretada por Mallu Magalhães), considerada a melhor composição de 2008.

Início: dia 3 às 00h00

03h00

Tim Maia Racional (1975) – Instituto, Bnegão, Thalma e Dafé

Sinopse:
O Coletivo Instituto apresenta o show de tributo a Tim Maia em sua fase Racional. Com um time de 11 músicos — bateria, baixo, guitarras, percussões, teclado, saxofone, trompete, trombone e DJ — o show se transforma numa grande celebração. O espetáculo conta com as presenças de BNegão, Thalma de Freitas e Carlos Dafé.

Início: dia 3 às 03h00

06h00

Roots Reggae(1995) – Tribo de Jah

Sinopse:
Se o reggae fez da capital do Maranhão a Jamaica Brasileira, foi a Tribo de Jah um dos grandes agentes da consolidação dessa transformação. Fruto do encontro entre quatro músicos cegos e um com visão parcial, vindos da Escola de Cegos do Maranhão e o paulista Fauzi Beydoun, a Tribo de Jah cresceu da mesma forma que o reggae conquistou São Luís: pela força de seu estilo e a sinceridade de suas músicas. Aos poucos, a Tribo conquistou seu público assim como a reggae venceu resistências conservadoras e o preconceito na capital maranhense. Hoje, o quinteto tem 13 CDs gravados e faz shows em todo o Brasil e no exterior – a despeito da mídia que nunca lhe deu a devida atenção. Na Virada Cultural 2009, a Tribo de Jah toca na íntegra seu álbum de estréia, Roots Reggae, de 1995.



Disco de estréia da Tribo de Jah, Roots Reggae é um trabalho fundamental na história da banda de São Luís. Em cada uma de suas faixas, percebe-se a busca pelo reggae raiz, com sua musicalidade dançante numa mistura gostosa do balanço do reggae com um tempero nordestino e com suas letras inspiradas em temas sociais, no amor, na paz e liberdade – temas que acompanharam a Tribo por toda a sua carreira, até os dias de hoje. Embora não tenha sido um trabalho abraçado pela grande mídia, teve uma excelente repercussão na crítica especializada e no público amante do estilo, principalmente em São Luís e outras regiões do norte e nordeste. Com Roots Reggae, o reggae maranhense revigorou-se e voltou a empolgar o público com a mesma força com que os “regueiros” maranhenses foram tomados no início dos anos 80, consolidando a transformação de São Luís na Jamaica Brasileira – processo que se iniciou nos primórdios da década de 70. Ainda hoje o disco é muito ouvido e considerado pelos fãs e pelos amantes do ritmo jamaicano, os “regueiros guerreiros”, como um álbum fundamental para a consolidação do reggae em todo o Brasil, principalmente no Nordeste.





Roots Reggae faixa a faixa:

01 - Babilônia Em Chamas

02 - Babylon System

03 - 2000 Anos

04 - Regueiros Guerreiros

05 - Why Do You Do It?

06 - Neguinha

07 - Breve Como Um Jogo

08 - Song Of Destruction

09 - Babilônia Brasileira

10 - Babylon Lost Man

11 - Roots Civilization

12 - Chanson D’Automne Guerre Tribale En Babylone

13 - Magnatas E Regueiros

14 - Pueblo De Jah

Início: dia 3 às 06h00

09h00

Cordel do Fogo Encantado

Sinopse:
Pernambucanos de Arco Verde, arraigados às suas raízes nordestinas, o Cordel do Fogo Encantando é um grupo que vive intensamente a fronteira entre o teatro e a música. A poesia das letras com o som do violão regional, numa levada que tem um pouco do rock somada à força rítmica e melódica dos seus tambores enchem de vida suas apresentações carregadas de dramaticidade.

Com essa forte presença de palco, o Cordel viaja por todo o Brasil, do interior aos grandes centros, do sertão nordestino à riqueza das capitais do sul do país, levando em sua música e seu teatro as agruras e alegrias, crenças e sonhos, amores e desilusões do povo nordestino. Ouvir Cordel do Fogo Encantando é conhecer um pouco mais do Brasil, é ser um pouco mais brasileiro.

Entre 2001 e 2006, o Cordel lançou 3 CDs (Cordel do Fogo Encantado, produzido por Nana Vasconcelos, de 2001; O Palhaço Do Circo Sem Futuro, de 2002; Transfiguração, de 2006) e um DVD (MTV Apresenta, de 2005), sendo reconhecidos também no além-mar, apresentando-se inúmeras vezes na Europa.

Início: dia 3 às 09h00

12h00

Zeca Baleiro

Sinopse:
Zeca Baleiro é um cantor, compositor e músico brasileiro de MPB. Transferiu-se para São Paulo onde lançou sua carreira. Já teve suas composições interpretadas por Simone, Gal Costa, Vange Milliet, Adriana Maciel, Luíza Possi, Rita Ribeiro, Renato Braz, Charlie Brown Jr, O Rappa e Babado Novo. Muitas de suas canções foram incluídas em diversas telenovelas.

Site: http://www2.uol.com.br/zecabaleiro/

Início: dia 3 às 12h00

15h00

Novos Baianos

Sinopse:
A intimidade musical na execução das canções e dos arranjos aparece logo aos primeiros acordes da guitarra de Pepeu Gomes, nas vozes de Baby do Brasil e Paulinho Boca de Cantor, no swing dos irmãos Jorginho (Bateria) e Didi Gomes (Baixo) e na poesia de Luiz Galvão. A alegria de tocar junto, marca registrada dos Novos Baianos, volta à cena musical brasileira, para matar as saudades.

Site: http://www.myspace.com/novosbaianos

Início: dia 3 às 15h00

18h00

Maria Rita

Sinopse:
Com mais de 190 mil CDs vendidos de seu último trabalho, Samba Meu, Maria Rita é sucesso desde seu primeiro disco, lançado em 2003 – que atingiu a marca de um milhão de cópias vendidas em todo o mundo. Única filha mulher de Elis Regina, Maria Rita não se intimidou com as comparações e cobranças de crítica e público e, embora iniciasse a carreira tardiamente, conquistou sua própria platéia. Seu talento é confirmado por inúmeros prêmios conquistados - Grammys Latinos de 2004 e 2006 – e pelas apresentações, sempre empolgantes e muito apreciadas pelo público.

Início: dia 3 às 18h00

Comparem com os três dias cariocas:
http://www.viradaocarioca.com/programacao/dia/05-sexta/

terça-feira, 2 de junho de 2009

A CANÇÃO NÃO MORREU


Muitas pessoas que leram o meu post sobre as novas cantoras brasileiras http://godardcity.blogspot.com/2008/12/as-novas-cantoras-brasileiras.html#links podem ter pensado equivocadamente que eu alimentasse algum tipo de fobia. Longe de mim. Uma das minhas maiores tristezas é não ter uma canção de minha autoria gravada por voz feminina. Naquele post eu me referia mais a um vazio existencial. Cheguei inclusive a mencionar alguns homens que também expressavam esse vazio. Falei da contaminação do mundo fashion. E da estranha sensação de que todas as cantoras pareciam iguais, como se fossem feitas de matéria plástica. Nesse mesmo post eu mencionei vários nomes porque aprendi com Tim Maia a dar nome aos bois.

Pois agora, até pra tirar essa falsa impressão, quero falar de um DVD recentemente adquirido. Chama-se RODOPIO. O seu autor, Luiz Tatit. Bem, pra começo de conversa, quero dizer que esse compositor paulistano, fundador do Grupo Rumo e um dos personagens mais importantes da chamada “vanguarda paulistana”, é das minhas maiores influências. Ana Carolina, Zélia Duncan, já gravaram algumas coisas suas, mas evidentemente não é dessas que eu quero falar. Até porque elas não fazem parte desse mundo (elas são de matéria plástica).

Luiz Tatit é professor de Lingüística da USP e autor de pérolas que recheiam esse DVD. Estudou a forma da canção, tem vários livros publicados e criou o conceito de “cancionista”. Segundo Tatit, o cancionista não é um músico como tradicionalmente conhecemos. Pode inclusive não tocar instrumento algum. Pode inclusive não ter a menor idéia de como se escreve numa pauta. No entanto, o cancionista é um químico, capaz de fazer milagres com a letra e a melodia. O seu terreno é a linguagem falada. É daí que vem o húmus do seu trabalho, sua eficácia, sua comunicação.

Se pensarmos nos trabalhos do Grupo Rumo, muitas vezes nos deparamos com canções que são murmuradas, faladas. Essa absoluta informalidade no entanto é aparentemente simples. Digo “aparentemente” porque por trás da simplicidade existe um conceito. Nada ali é gratuito. Eu diria até que por trás da simplicidade existe uma abundância de informações e melodias. Essa riqueza escondida uma hora vem à tona. Em todas as canções de Tatit existe esse momento em que a melodia dá o salto e aparece. Ela já estava lá, a gente é que não tinha se dado conta.

Se pensarmos que a música popular, a partir dos anos 50, surgia em conluio com a indústria, vindo a se tornar um fenômeno de massas... e se pensarmos que a dada altura, por volta dos anos 80, essa grandiosidade passa a emperrar e a ser um inconveniente (ao invés de expressão popular, um rótulo de laboratório), a vanguarda paulistana através de uma de suas vozes principais, Luiz Tatit, vai buscar justamente o pessoal, o homem comum, sem ego... quase o que foi a bossa nova em seus primórdios. Só que dessa vez, enriquecida dos anos 60 e 70.

O rock brasileiro serviu à indústria e nesse sentido perpetuou os vícios da velha MPB. Foi tão nefasto quanto. Essa indústria continuou alimentando egos. Os gritos das bandas serviram para abafar o que havia de sutileza e pessoal nas canções e viria paradoxalmente dar nisso que hoje conhecemos como a “morte da canção”. Desconfio daqueles que alardeiam tal morte. Afinal, essa morte é conseqüência do antigo conluio entre música e indústria. Só podia dar nisso mesmo.

Pois a música de Tatit acena numa outra direção, como se fosse possível vivermos tempos diferentes e justapostos. E esse talvez seja o grande milagre dos dias de hoje: você pode ouvir a Orquestra Imperial (cheia de egos e plásticos) mas pode também se dar ao luxo de ouvir Ceumar, Ná Ozzetti e Suzana Salles. Muitos com certeza nunca terão ouvido esses nomes, mas elas existem e nada impede que você as conheça. Essa simultaneidade de tempos e de materiais me deixa menos deprimido.