
Num tópico que escrevi sobre ROBERTO CARLOS, eu dizia de 30 segundos imprevisíveis, num show de mais de 2 horas no Maracanã, em comemoração aos 50 anos de carreira. Foram apenas 30 segundos em que o rei ficou nu diante do seu amigo Erasmo Carlos. E foram suficientes pra uma pessoa como eu que sempre almejou a nudez.
Quando fui assistir Coração Vagabundo, não esperava me deparar com o mesmo tema. E é por uma frecha da porta que as câmeras flagram Caetano nu.
Nesse caso, não foram 30 segundos. Foi o filme todo.
Foi essa a idéia de seu diretor, Fernando Grostein de Andrade: captar Caetano na intimidade e ao mesmo tempo no exterior (a maior parte do filme, Caetano permanece no exterior). Se pensarmos que estamos em plena turnê de “A Foreign Sound”, disco com canções americanas, esse exterior se duplica. Se pensarmos então em China e Japão, duas cidades onde acontece a filmagem, esse exterior fica mais exterior ainda. Pois é justamente nessa exterioridade, que o filme capta a intimidade de Caetano, estabelecendo um elo entre o fora e o dentro. Como se não houvesse mesmo local melhor para o desnudamento do que o totalmente fora.
Fala-se do Brasil mas de fora. Nesse caso, desmistifica-se o discurso nacionalista de esquerda (Caetano num táxi em Nova York, comentando sobre 68, sobre a resistência que sofreu por parte de alguns segmentos da esquerda nacionalista, e, da importância que o tropicalismo concedeu ao rock, na época, tido por muitos como sub música e apenas um efeito de moda). Mas, sobretudo, a polêmica com Hermeto Paschoal, serve no filme para desmistificar a idéia ingênua de que a música brasileira é a melhor do mundo (Hermeto teria discordado de uma declaração de Caetano que afirmava ser a música americana a melhor de todas, seguida pela cubana; no comentário de Hermeto a essa declaração de Caetano, o velho albino afirma que a nossa música é a primeiríssima e que a música de Caetano é “musiquinha”). Na réplica, Caetano afirma que gênios como Hermeto são exceções no Brasil e que a diferença americana viria da grande quantidade de músicos do nível de Hermeto, o que por si só, justificaria a posição de vanguarda da música americana.
Mas se estar no exterior serve pra olhar o Brasil de fora, isto não faz Caetano endossar o que vê fora. E talvez um dos pontos chaves do filme, é quando pelas ruas de Tóquio, faz a crítica ao obscurantismo, tal como ele o viu no ritual budista. E essa sua observação o levaria logo depois a condenar a idéia de religião e a afirmar a lucidez. Talvez seja esse o núcleo do filme.
A idéia de intimidade se liga então a estar fora , seja ele um exilado, um trabalhador ou um turista – aliás, segundo Baumann, somos todos hoje turistas e vagabundos. Esse pequeno filme, lembra pequenos livros, tais como “Incidentes” de Roland Barthes.
O desnudamento, inclusive dos discursos de sua juventude, dos ismos a que sua figura acabou se vendo ligada via tropicalismo, foi o maior mérito do filme. Maior ainda se considerarmos a pouca idade do seu diretor.
É um filme sobre Ética.







