segunda-feira, 27 de julho de 2009

CORAÇÃO VAGABUNDO


Num tópico que escrevi sobre ROBERTO CARLOS, eu dizia de 30 segundos imprevisíveis, num show de mais de 2 horas no Maracanã, em comemoração aos 50 anos de carreira. Foram apenas 30 segundos em que o rei ficou nu diante do seu amigo Erasmo Carlos. E foram suficientes pra uma pessoa como eu que sempre almejou a nudez.

Quando fui assistir Coração Vagabundo, não esperava me deparar com o mesmo tema. E é por uma frecha da porta que as câmeras flagram Caetano nu.

Nesse caso, não foram 30 segundos. Foi o filme todo.

Foi essa a idéia de seu diretor, Fernando Grostein de Andrade: captar Caetano na intimidade e ao mesmo tempo no exterior (a maior parte do filme, Caetano permanece no exterior). Se pensarmos que estamos em plena turnê de “A Foreign Sound”, disco com canções americanas, esse exterior se duplica. Se pensarmos então em China e Japão, duas cidades onde acontece a filmagem, esse exterior fica mais exterior ainda. Pois é justamente nessa exterioridade, que o filme capta a intimidade de Caetano, estabelecendo um elo entre o fora e o dentro. Como se não houvesse mesmo local melhor para o desnudamento do que o totalmente fora.

Fala-se do Brasil mas de fora. Nesse caso, desmistifica-se o discurso nacionalista de esquerda (Caetano num táxi em Nova York, comentando sobre 68, sobre a resistência que sofreu por parte de alguns segmentos da esquerda nacionalista, e, da importância que o tropicalismo concedeu ao rock, na época, tido por muitos como sub música e apenas um efeito de moda). Mas, sobretudo, a polêmica com Hermeto Paschoal, serve no filme para desmistificar a idéia ingênua de que a música brasileira é a melhor do mundo (Hermeto teria discordado de uma declaração de Caetano que afirmava ser a música americana a melhor de todas, seguida pela cubana; no comentário de Hermeto a essa declaração de Caetano, o velho albino afirma que a nossa música é a primeiríssima e que a música de Caetano é “musiquinha”). Na réplica, Caetano afirma que gênios como Hermeto são exceções no Brasil e que a diferença americana viria da grande quantidade de músicos do nível de Hermeto, o que por si só, justificaria a posição de vanguarda da música americana.

Mas se estar no exterior serve pra olhar o Brasil de fora, isto não faz Caetano endossar o que vê fora. E talvez um dos pontos chaves do filme, é quando pelas ruas de Tóquio, faz a crítica ao obscurantismo, tal como ele o viu no ritual budista. E essa sua observação o levaria logo depois a condenar a idéia de religião e a afirmar a lucidez. Talvez seja esse o núcleo do filme.

A idéia de intimidade se liga então a estar fora , seja ele um exilado, um trabalhador ou um turista – aliás, segundo Baumann, somos todos hoje turistas e vagabundos. Esse pequeno filme, lembra pequenos livros, tais como “Incidentes” de Roland Barthes.

O desnudamento, inclusive dos discursos de sua juventude, dos ismos a que sua figura acabou se vendo ligada via tropicalismo, foi o maior mérito do filme. Maior ainda se considerarmos a pouca idade do seu diretor.

É um filme sobre Ética.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

VOMITO OU ENGULO?




Esse é um dos trabalhos da artista plástica Solange Venturi.
Pra quem me acompanha de longa data, sabe que as fotos de capa dos meus discos são de sua autoria.
Dona de um trabalho instigante, vocês poderão comprovar isso através da net: ela criou há pouco tempo um blog e pretende postar lá boa parte de sua obra.
Pra quem quiser conferir: www.solangeventuri.blogspot.com

quarta-feira, 22 de julho de 2009

E LULA FALOU ASSIM

Essa é mais uma pérola do nosso presidente. Falando pro Ministério Público, disse assim: "na investigação, precisamos considerar, sobretudo, a biografia do investigado".
Espetacular.
As pessoas não são iguais perante a lei.
Só mesmo um operário ressentido pra pensar assim.

terça-feira, 21 de julho de 2009

PAULO VANZOLINI - UM HOMEM DE MORAL


Mais um filme nacional a que me rendo. E não poderia deixar de ser um documentário sobre música. Afinal, foi a coisa mais interessante que aconteceu ao cinema nacional nos últimos tempos. Já que a nossa indústria cinematográfica não consegue produzir filmes de ficção que prestem (não é, Daniel Filho?) , que venham então os documentários.

UM HOMEM DE MORAL presta homenagens à Paulo Vanzolini. O seu diretor, Ricardo Dias, já tinha trabalhado com Vanzolini em dois filmes: No Rio das Amazonas - documentário (1995) e Os Calangos do Boiaçú – curta (1992). E foi apresentando imagens de arquivo do seu documentário sobre o Amazonas, que temos, em Um Homem de Moral, um dos momentos chaves para se compreender a música de Vanzolini. No meio da selva, ele assim diz: “A mata é uma dessas coisas em que o todo é mais do que a soma das partes. Não é só essa luz, essas plantas, esses bichos, essas vozes, mas é esse todo que penetra a gente”.

O cientista impregna a música. Porque assim como as expedições científicas lhe são fundamentais, recolhendo espécimes que lhe servirão de estudo, as ruas também lhe servirão enquanto observador atento do comportamento humano. Quantos tipos não perpassam suas canções? Não só personagens como canções: capoeira, chorinho, sambas cariocas, músicas folclóricas, sertanejas, valsas, boleros... E tudo isso, lembra muito Mário de Andrade com suas viagens pelo interior do país para estudar o Brasil. Como integrar suas partes num todo, numa nação? A japonesa no Karaokê cantando Ronda, num ambiente totalmente kitsh, dá bem essa idéia: as diferenças existem mas estão integradas num conjunto maior, que é a população urbana de uma grande cidade.

Os vários rostos anônimos, captados pela câmera do filme, dão bem essa dimensão. São tão variáveis os tipos, que Vanzolini parece mesmo estar com uma câmera oculta fazendo a ronda pela cidade.

É um universo em trânsito. Mas que precisa distância para observar. Da mesma forma que um olhar científico precisa estar protegido da aproximação deformadora.

A presença de Adoniram Barbosa no filme serve para ilustrar esse mesmo samba paulistano a que Vanzolini pertence, mas também como contraponto. Porque são dois olhares distintos ainda que dirigidos ao mesmo ponto. Em ambos, o homem comum está presente. Mas em Adoniran não há distância, e se houver, é mínima. Já em Vanzolini temos uma grande angular, o que propicia uma maior extensão de tipos e um sentido geral.

É que a variedade tem o objetivo de abarcar o todo. Desde Ronda, passando por “Valsa das 3 da Manhã”, Volta por Cima, Cravo Branco, temos a dialética do movimento e da parada, vida e morte, como um ciclo que se fecha. E em SAMBA ABSTRATO “A linha do mundo é uma reta fechada/Périplo, ciclo/Jornada de luz consumida e reencontrada”.

A observação de Martinho da Vila, um típico representante do samba carioca, quanto aos “sambas duros” e sem ritmos de Vanzolini, sublinha uma pseudo-deficiência. Porque se é limitadora, quando comparada a malemolência carioca que aspira ao infinito, tem por outro lado um poder de síntese que só uma canção em seu sentido pleno é capaz.

É sintomático que, no final do filme, ao comentar “Volta por Cima”, Vanzolini valorize mais a queda e reconheça que, diferentemente à sua escala de valores, o senso comum valoriza “a volta por cima”. A "queda" conclui, interrompe a longa caminhada, dá o sentido. Simetricamente, no início do filme, ele afirma que gosta do povo como um todo e não individualmente, confirmando-se então a sua perspectiva de grande angular. Chico Buarque é seu grande herdeiro.

Escutem aí um das canções mais bonitas do filme, quando Paulinho Nogueira interpreta VALSA DAS 3 DA MANHÃ, acompanhado pelo bandolim de Isaías Bueno:

http://rapidshare.com/files/258536916/02_Valsa_Das_Tr_s_Da_Manh_.mp3

OBS: O filme mostra as gravações de "Acerto de Contas", conjunto de 4 cds lançados pela Biscoito Fino, e os bastidores do show homônimo no Sesc Vila Mariana, realizado para marcar o lançamento da antologia.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A REPORTAGEM DA TRIP



Ronaldo Bressane, escritor e jornalista, escreveu um texto interessante e problemático na revista Trip: “Ninguém é de Ninguém”. Para quem quiser ler na íntegra, aí vai: http://revistatrip.uol.com.br/revista/178/especial/ninguem-e-de-ninguem-a-nova-realidade/page-1.html

O texto aborda a nova música brasileira e seleciona nove nomes: Kassin, Junio Barreto, Hélio Flanders, Thalma de Freitas, Rômulo Fróes, Ganjaman, Tatá Aeroplano, Catatau e Céu.

Nove nomes porque o texto foi inspirado numa reportagem da revista REALIDADE de 1966 que trazia na capa “Os Novos Donos do Samba”, também em número de nove: Rubinho Barsotti, Jair Rodrigues, Nara Leão, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Magro do MP4, Paulinho da Viola e Toquinho.

Malgrado a semelhança da imagem (Catatau ocupa a posição de Caetano, Tatá a de Magro, Leonardo Fróes a de Paulinho da Viola), na verdade, a semelhança é apenas externa. E isso, o texto deixa claro: a estrutura da música na década de 60 estava baseada no paradigma da difusão, como a rádio-difusão e os festivais; já no novo século, é a dinânica das redes (online e interativa).

O interessante da reportagem foi referir-se a uma outra reportagem e apresentar em relação a ela uma semelhança externa e uma diferença interna. Isso sempre me chamou a atenção como modus-operandi: compor músicas que façam referência a outras, mudando completamente o sentido original. É a Monaliza de Duchamp. Matador de Passarinho, nesse sentido, é uma música emblemática – uma perversão de “Passaredo” do Chico Buarque e Francis Hime.

A grande questão é a arbitrariedade do corte.

Porque se você vive numa rede e todos estão conectados, quais vão ser os critérios para você estabelecer o corte. Vai ser o critério de vizinhança? É o conceito de compossível em Leibniz: A pra chegar a C tem que passar por B, logo, A é compossível a C. Entre os nove nomes selecionados, o fato de muitos deles tocarem entre si, ou, os parceiros de um tocarem com os parceiros do outro, não me parece um bom critério para estabelecer o corte. Muito pelo contrário: é empobrecedor, é previsível. E por mais que haja diferença de estilo entre uns e outros, acaba sendo mais variações que diferenças. O fato de freqüentarem os mesmos lugares, de terem amigos comuns (é isso que define o conceito de vizinhança) acaba por interferir no próprio processo de composição – o que nos trás a sensação de estarmos ouvindo sempre a mesma coisa, por mais variáveis que elas sejam.

Nesse sentido, o corte de 66 foi mais criativo: Jair Rodrigues, Rubinho Barsotti e Caetano Veloso, constituiam uma junção muito mais insólita na época do que os 9 da revista Trip.

Esse me parece o teor problemático da reportagem. Ao invés do critério de vizinhança, poderia se privilegiar tribos completamente diferentes entre si, ainda que conectadas à rede. O critério do corte poderia ser o da diferença.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

ROBERTO CARLOS


O rei está nu.
Isso durou apenas alguns segundos. Provavelmente tenha passado despercebido pra muitos. Aconteceu no último sábado, no Maracanã, comemorando os cinqüenta anos de carreira.
O rei é o rei em sua majestade. E o show foi impecável. Nem a chuva que caía torrencialmente, sem dar tréguas, foi capaz de emperrar a engrenagem.
Mas vocês sabem, isso não foge ao olhar de um perverso, um bárbaro. Foram apenas alguns segundos.
Quando digo “bárbaro” estou sendo específico. O bárbaro é estrangeiro. Não tem nenhum direito. É menos que um cidadão. O escravo por exemplo é mais importante pra cidade, participa de sua engrenagem. Já o “bárbaro” é como os índios: é meio homem, meio fera. Não tem alma.
Fazendo uma analogia, no reino da música popular brasileira, eu sou um bárbaro. Vocês já viram Rogério Skylab tocando numa novela? Já viram Rogério Skylab gravado por alguém? Já o viram pisando em alguma gravadora? Então vejam: Rogerio Skylab não existe.
Mas quando assim o digo, não existe traço de rancor. Um “bárbaro” não tem mesmo cidadania. O que importa para um ser tão desprovido de direitos é tão somente corpo e desejo. O mundo das formas foi abolido para um bárbaro. Ele habita as regiões abissais.
Seu maior divertimento é desconstruir as formas.
Não é à toa a presença de tantos personagens públicos na minha música. Não é um ato gratuito, muito menos revolta. Se eles estão presentes com o nome próprio, é simplesmente pra servirem ao processo de desconstrução, desnudamento, deformação.
Não me interessa o José da Silva.
O personagem público, sim. Porque será despido.
Quando compus “Chico Xavier e Roberto Carlos” não lhes acrescentei nenhuma máscara. A minha preocupação era antes desmistificá-los, deixá-los nus. E não posso concordar que tenha havido desrespeito. Um bárbaro só enxerga corpo e desejo.
Daí o paradoxo que significa aparecer diante das câmeras.
Pra quem vem me acompanhando mais a contento, deve bem lembrar das minhas primeiras aparições no Programa do Jô. Lembro-me da segunda vez, quando cantei URUBU. Ainda hoje, quando assisto, me vem a sensação de ridículo. E o pior, eu levava tudo muito a sério. Ainda levo.
Diante de tanta bizarrice, só havia mesmo duas atitudes: ou a gargalhada ou a indiferença. Se fosse em Cuba, paredão.
Tive a sorte de nascer no Brasil.
Com o tempo, fui aprendendo a ser mais discreto, me vestir melhor. E muitos reclamaram. Ainda assim, não há como reprimir um bárbaro. No menor descuido...
Não podia mesmo fugir ao meu olhar aqueles poucos segundos em que o rei desabou. Faz parte do meu metier, do meu olhar lúbrico.
Diante do seu amigo Erasmo Carlos, o rei chorou, desafinou... foi algo fora de controle. A gente sabe que existe o choro fingido, mas dessa vez as câmeras flagraram o real, um acontecimento, principalmente em se tratando de sua majestade.
O que o fez chorar?
Bem, como vocês todos sabem, o rei está muito bem conservado. Sua voz permanece cristalina, apesar da idade. É super exigente, não erra, e teve o bom gosto de escolher suas melhores músicas para o Maracanã. Ao contrário de Erasmo. O seu amigo de fé camarada está velho, careca, sem voz e parece doente. Quando o rei olhou seu amigo é como se tivesse deparado diante do espelho. Aquele par não apresentava uma homologia, havia uma discrepância. O par não combinava. O espelho refletia uma imagem diferente do rei, como se em lapsos de segundo, Roberto tivesse compreendido a máscara e o real.
O desmascaramento foi rapidamente encoberto, mas suficiente para provocar um estrago. Foram só quinze segundos, mas o bastante para um olhar bárbaro.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ISTO AQUI NÃO É UM SONETO

Isto aqui não é um soneto
(estamos num sítio arqueológico).
Ruína de uma forma poética
surgida na Renascença.

Forma esvaziada, de cuja estrutura
temos uma longínqua idéia.
Isto aqui não é um soneto,
nem sua réplica.

Uma carcaça carcomida
que um guia turístico informa
pertencer a um antigo soneto,

escrito por Petrarca, Shakespeare ou Luís de Camões.
Exposto a visitações públicas num blog,
essa forma espúria é retrato dos tempos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

SLAVOJ ZIZEK


Slavoj Zizek é esloveno, lacaniano e filósofo. Tem alguns livros traduzidos em portugues como "Benvindos ao Deserto do Real", "A Visão em Paralaxe", e, "Arriscar o Impossível" - esse último, sendo entrevistado por Glyn Daly. Amante da sétima arte, é impossível um texto seu que não cite vários filmes como exemplos. Aliás, o seu estilo é ímpar justamente por juntar conceitos elaboradíssimos e exemplos corriqueiros. Recomendo para quem se inicia em Zizek, o livro "Arriscar o Impossível" (conversas com Zizek) editora Martins Fontes. Aqui, Zizek discorre sobre vários temas como o multiculturalismo, a ética de Kant e Sade, globalização, biogenética, Mac Donald, Deleuze, Badiou, Levinas, leninismo. No texto que selecionei, Zizek fala da idéia de vítima que a cultura contemporânea leva às últimas consequências. Se pensarmos na bolsa ditadura, nas indenizações que correm à solto ("cuidado ! você não pode falar nada - te processam!"), na figura cult do loser... contra tudo isso, esse pequeno trecho:

Será que não há uma certa ironia: à primeira vista, a cultura liberal de hoje parece erigir-se em torno da idéia da autonomia individual, quando, na realidade, a ênfase parece recair cada vez mais no Outro como responsável pelo que acontece com os indivíduos?

Um dos grandes topoi da crítica "desconstrucionista" da ideologia é que a idéia do sujeito autônomo, livre e responsável é uma ficção jurídica, cuja função é construir um agente a quem possa ser atribuída a responsabilidade pelos atos socialmente inaceitáveis, com isso obscurecendo a necessidade de uma análise mais rigorosa das circunstâncias sociais concretas que dão origem a fenómenos percebidos como deploráveis. Quando um afro-americano desempregado, que sofreu uma série de humilhações e fracassos, furta para alimentar a família, ou explode numa violência incontrolável, não será um cinismo evocar sua responsabilidade como agente moral autônomo? No entanto, a velha regra concernente à ideologia também se aplica aí: a inversão simétrica de uma proposição ideológica é igualmente ideológica - por acaso não lidamos, hoje em dia, com a tendência inversa, de pôr a culpa (e, portanto, a responsabilidade legal) em agentes externos?

Recentemente, um homem processou os gigantes das cadeias de fast-food dos Estados Unidos porque a comida vendida por eles "tornou-o obeso". A mensagem subjacente dessa queixa é clara: não tenho nada com isso, não sou eu, sou apenas uma vítima passiva das circunstâncias, a responsabilidade não é minha - e, já que não é minha, tem que haver um outro que seja legalmente responsável por minha desgraça. Isso também é o que há de errado na chamada Síndrome da Lembrança Falsa: o esforço compulsivo de fundamentar os distúrbios psíquicos atuais em alguma experiência real de abuso sexual no passado. Mais uma vez, o que realmente está em jogo nessa operação é a recusa do sujeito a aceitar a responsabilidade por seus investimentos sexuais: se a causa de meus distúrbios é a experiência traumática de assédio, então, meu investimento fantasístico em meu imbróglio sexual é secundário e, em última instância, irrelevante.

A pergunta, aqui, é: até onde é possível avançar nesse caminho? Até muito longe, de acordo com o noticiário recente. Não é significativo que, quando se menciona o holocausto nos meios de comunicação, em geral a notícia diga respeito a uma indeniza-ção financeira, ao valor que as vítimas ou seus descendentes devem receber dos sucessores legais dos criminosos? E, visto que os judeus são o grupo injustiçado por excelência, não é de admirar que outros grupos injustiçados estejam fazendo reivindicações similares. Veja a seguinte notícia da American Press, datada de 17 de agosto de 2002: "Comício em prol de reparações aos escra¬vos - Centenas de negros reuniram-se em frente ao Capitólio,no sábado, para exigir reparações pela escravatura, dizendo que o ressarcimento pelos males causados por essa instituição é uma dívida de longa data. 'A América parece dever muito aos negros, por tudo que suportamos', disse à multidão Louis Farakhan, diretor da [organização] Nação do Islã. 'Não podemos aceitar uma ninharia simbólica. Precisamos de milhões de acres de terra onde os negros possam trabalhar. Não estamos pedindo esmolas aos brancos, mas apenas exigindo o que é justificadamente nosso'". E não seria perfeitamente lógico imaginarmos, nessa mesma linha, o fim da luta de classes? Depois de longas e árduas negociações, representantes da classe trabalhadora e do capital global chegariam a um acordo sobre quanto a classe trabalhadora deve receber, a título de compensação pela mais-valia apropriada pelos capitalistas ao longo da história. Assim, se tudo parece ter um preço, por que não haveríamos de ir até o fim e exigir do próprio Deus um pagamento, por Ele ter feito um trabalho atamancado de criação e, com isso, causado nosso sofrimento? E se, quem sabe, Ele já tiver pago esse preço, ao sacrificar seu único filho, Cristo? Essa reductio ad absurdum também deixa claro o que há de fundamentalmente errado nessa lógica: ela não é radical demais, porém não radical o bastante. A verdadeira tarefa não é obter uma compensação dos responsáveis, mas privá-los da posição que os torna responsáveis. Em vez de pedir uma compensação a Deus (ou à classe dominante, ou a quem quer que seja), deveríamos perguntar: será que realmente precisamos de Deus?