

Wet foi uma revista de vanguarda americana, sediada em Los Angeles. Era bimestral e durou entre 1976 e 1981. A revista de número 24, maio/junho de 1980, com Mick Jagger na capa, traz uma entrevista com Captain Beefheart que eu acabei de traduzir. Nesse período, ele ainda estava na ativa. Hoje, sofre de esclerose múltipla. Um dado interessante: na entrevista, em momento algum ele menciona Frank Zappa. Estranho, se pensarmos em discos como Trout Mask Replica (produzido por Zappa) e Bongo Fury. Mas as brigas entre eles eram públicas. Com vocês, a entrevista.
Captain Beefheart é um visionário, louco, gênio, que faz notavelmente música original. Um escultor, pintor, poeta, filósofo da linhagem surrealista primitivista, Beefheart nunca se confinou ao comumente aceito reino das possibilidades. Percebendo o universo com olhos mágicos e alegres, ele expeliu pela janela as abordagens convencionais da linguagem e da música, colocando em seu lugar um espantoso sistema concebido por ele. Sua música de forma assustadoramente irregular, junta suas narrativas rurais do folk com vodoo, livre associação, Dada e um espectro de som que vai da música americana de Charles Ives, Jazz e blues ao som do deserto do Monjave onde vive. Beefheart é um homem sem limites de imaginação e espírito heróico e deve-se a isso os sete álbuns próprios que ele fez.
Ele tem 39 anos, nativo da Califórnia, e vive numa casa móvel no deserto com sua mulher Jam. Ele é notoriamente recluso mas foi generoso suficiente para vir ao escritório da Wet, em Venice, Califórnia, para uma entrevista (a última vez que ele esteve em Venice, estava bebendo com Lenny Bruce).
Ele veio ao centro como um maravilhoso xamã, - provavelmente achou seu caminho com uma vareta adivinhadora – e chegou sobrecarregado de livros, desenhos, gravador e uma mala cheia de chá, lápis e diversos ítens. Trouxe charutos para todos e como nós nos despedimos num estacionamento às 3 horas da manhã, ele tocou um cassete de Jimy Durante com a música “I ma Vulture for Horticulture”. Todas as coisas grandes e pequenas tomam um profundo brilho em companhia de Don Van Vliet.
- Você acha que todo mundo nasce com um apetite igual de vida?- Eu não sei. Isso é realmente uma boa pergunta. Só posso falar por mim, mas eu tenho lutado pra não deixar isso ficar me remoendo. Muita gente torna-se aborrecida por medo da dor, mas a dor é uma forma de sensibilização. Uma porção de pessoas não querem estar mais conscientes e do jeito que as coisas vão, mais e mais pessoas não querem saber.
- Eu ouvi dizer que você tentou mergulhar no La Brea Tar Pits quando era garoto? (piscinas de piche quente que borbulham da superfície da Terra e que aprisionaram fósseis por milhares de anos, tornando-as o lugar mais conhecido do mundo para fósseis da Era do Gelo. Fica em Los Angeles)- Sim, quando eu tinha 3 anos de idade, minha mãe me levou ao Tar Pits e ela devia ter me colocado um arreio. Eu estava longe dela e tentei mergulhar lá – quase ela fez isso também. Ficou algum em mim. Foi legal. Que lugar agradável. Eu estava vendo essas bolhas. Que bela música. Você quase não pode ouvir mais isso por causa dos carros.
- Você parece estar mais em contato com sua memória do que a maioria das pessoas. Por que você acha que acontece isso?- Bem, atualmente eu não acho que esteja. Você deve estar em torno de mim a mais tempo. É muito difícil pra mim dirigir. É difícil chegar em casa porque tenho me distraído com as coisas ao meu redor. As coisas mudam tanto. E se eu vou a algum lugar, eu nunca retorno ao mesmo lugar – é alterado com o tempo.
- Tem alguma coisa que perturba você? - Não, eu adoro.
- Imaginação é um músculo que pode se desenvolver, ou é um caso que alguns têm e outros não?- Eu penso que a falta de oxigênio na infância é um verdadeiro fator decisivo. Quer um chiclete?
- Não, obrigado. Quer dizer, a imaginação é um simples caso de biologia?- Pode ser uma alergia.
- Uma vez você ficou sem dormir por um ano e meio. Como e por que você fez isso?- Jejum mental. Eu precisava me purgar de toda a atenção que meus pais tinham me dado, eu não fui negligenciado quando criança. Eu tinha uma bolsa de arte, mas meus pais não queriam que eu fosse escultor porque, bem, você sabe, todos artistas são esquisitos, tanto que eles me mandaram para o Deserto de Monjave. A minha mãe ainda se sente culpada por mudar-me pra lá, mas eu falo pra ela esquecer isso. Conheci uma porção de americanos orientais morando lá, super simpáticos – eles foram enviados pra lá na Segunda Guerra. Não é ruim sustentarem essas pessoas lá.
Eu continuo a viver no meio do deserto. Eu demorei duas horas de condução, antes de chegar no asfalto para vir aqui. Vivo numa móbile home, eu nunca tive uma casa, com exceção de uma vez. Aluguei uma cabana feita de toros de madeira. Imagine alugar uma casa assim. Eu não tenho vizinhos senão animais e Joshua Trees (tipo de vegetação do deserto). Eu não pareço uma pessoa do deserto porque permaneço dentro de casa a maior parte do dia e vago à noite. É o que os animais do deserto fazem – eles não têm um bronzeado.
De qualquer forma, quando eu fiz jejum mental, eu realmente não critiquei nada. Andava pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, e só comia fruta.
- Como seus pais sentem agora a sua carreira como artista?- Como uma ameba. Meu pai se foi. Morreu há muitos anos atrás. Isto é, eu amo o povo. Eu escrevi um poema que descreve como eu me sinto: “um ninho rola, depois outro, até que não haja mais qualquer pássaro; uma língua chicoteia a outra até que não haja mais palavras; eu adoro quando não falta nenhum pássaro”.
- Você foi guiado para a Igreja quando estava crescendo?- De jeito nenhum. Eu era um escultor, eu lembro. Mas eu tinha estado em algumas maravilhosas igrejas, então eu vi algumas pessoas fora morrendo de fome.
- O que você faz todo dia?- Bem, eu corro 6 milhas em forma de caminhada lenta dentro de casa que me leva cerca de 1 hora e 45 minutos. E escrevo muito. Escrevo bastante todos os dias. Você gosta dos meus sapatos (de couro com cor carmuça)? Eu tive esses em Beverly Hills. Tenho 3 pares. Tive que ficar com eles. Na época que os comprei, estava fumando Black Russian Sobrani Cigarettes, uma marca simples, e eu pensei que seria engraçado os cigarros indo aqui em cima e os sapatos lá embaixo.
- Você acredita no amor romântico?- Se você ama alguém e está lá com esse alguém, então não é ilusão. Eu sou um romântico com certeza.
- É uma benção ou uma maldição?- Uma benção. E para as mulheres, a pior coisa que tem é o final da relação. Eu sou uma mulher louca, sou definitivamente tudo para as mulheres. E só tenho conhecido homens.
- Por que você acha que é isso?- Sabe, eu me pergunto sobre isso e acho que o elemento esportivo pode ter algo a ver com isso – “ superar a oposição”. Competição e todo aquele jazz. E sobre Charles Mingus? Ele não deveria ter tocado naquele álbum absurdo de Joni Mitchell. Eu acho que ele fez isso porque queria fazer uma última tentativa. Mas ele era um homem maravilhoso e um grande baixista, um dos melhores que existiu. Ele fez músicas sobre o horror absoluto a que foi apresentado ao ir para o mercado.
- Você viu muito desse horror? Você cresceu na natureza e houve sempre arte na sua vida.- Bem, eu posso ver horror num maço de cigarro, em qualquer lugar. Eu sou definitivamente esquizofrênico.
- Por que você acha isso?- Porque quando eu vejo algo, eu o vejo em não sei quantas centenas de formas.
- Você acha que isso é um problema?- Oh não, eu gosto disso, mas é definitivamente um problema quando se está fazendo negócio.
- Você foi sempre visto dessa maneira?- Sempre.
- Você acha que isso é genético?- Provavelmente é. Eu não acho que artistas são feitos, acho que eles nascem artistas.
- Sabe alguma coisa sobre sua ascendência?- Sim, eu tinha um parente chamado Peter Van Vliet, que foi um pintor holandês que andava com Rembrandt. Mas ele era muito difícil de lidar e teve uma porção de problemas com reis e rainhas. E Richard Halliburton, que escreveu “Golden Voyage”, tinha parentesco comigo. Halliburton era um homem audacioso – ele pulou na cova dos adoradores do sol (olhando a capa da Wet). Eu posso tirar isso?
- Você acha desinteressante?- Sim, é horrível. Quem iria querer ver algo como isso? Também um pouco brilhante pra mim (vendo por dentro da Wet). Sabe, se você quer fazer algo por mim, tem que ser melhor que isso. Hummm James Brown na mesma revista com Shakespeare...
- Você acha isso realmente?- Não. James Brown é importante porque ele decora o relógio corretamente e ele é bom em matemática inferior. Não me interpretem mal – ele é bom. Eu gosto de James Brown – mesmo com o “Grande Dançarino” (olhando para um pôster na parede). Isso é nojento ! Que tipo de pessoa anormal põe aquilo lá? Meninas coçando as costas uma das outras. Há coisas maravilhosas em relação a coçar – eu faço isso o tempo todo porque eu gosto dessa sensação, mas certamente não acho que deveria haver um cartaz com isso. Muita gente não pode lidar com esse tipo de coisas. Alguém poderia vir em você e te coçar por causa de um pôster e ser muito burro para compreender como isso é defeituoso. Eu não gosto dessas coisas da S & M. Isso é explorado apenas para fazer dinheiro e sobretudo às custas das mulheres.
- Por que o público consome isso?- Eles são muito burros. Se isso acontecesse diante deles, eles não gostariam.
- As pessoas parecem estar intimidadas pela mídia ao querer fazer as coisas direito, ao ponto delas seguirem qualquer instrução.- Eu tenho medo que seja verdade – foi o que aconteceu na Alemanha nazista e tanto espero que isso nunca aconteça quanto sei que pode acontecer de novo. POSTER COMO ESSE NA PAREDE DA Wet certamente não é um bom sinal. Por outro lado, eu realmente não acredito que nós estamos indo para o apocalipse. Sempre em tempos de eleição somos levados a acreditar que há um apocalipse na próxima esquina, ainda assim eu não acredito. Você sabe, eu posso sempre dizer quando nós estamos numa eleição porque as pessoas da estrada ficam sempre defronte a minha casa. As formigas ficam preocupadas e entram, então eu dou a elas um pouco de açúcar.
- Você alimenta suas formigas?- Claro. Eu nunca mataria uma coisa viva, embora eu provavelmente tenha matado inadvertidamente, dirigindo automóveis. E eu odeio ver essas mariposas no pára-brisas.
- Mas isso não faz parte da ordem natural?- Sim, mas eu não sou capaz de negociar qualquer parte da natureza. Isso é tão violento, deus, isso é violento.
- Quando visto num esquema geral, então, os seres humanos têm sido capazes de controlar a si próprios bem satisfatoriamente.- Não é mau. Não é mau, no fundo. Mas ainda a maioria dos perigos são produzidos pelo Homem. Homem tem feito muito para se tornar perigoso e os animais ficam com o pior de tudo isso. Mas o Homem é também um animal.
- Poderia ser melhor para nós se estivéssemos conscientes disso.- Sim, evidentemente. Mas as pessoas usam ridiculamente papel higiênico porque significa que são ricos se o papel é perfumado – e eu acho que papel higiênico perfumado causa câncer no cu. Você pode quase imaginar como uma pessoa faz sexo pelo tipo de papel higiênico que usa. Vá em qualquer casa de rico e você verá algumas coisas estranhas coloridas na parede.
- Que tipo de música você tem ouvido?- Eu não ouço nada – eu não tenho necessidade. Bob Dylan me impressiona tanto quanto... bem, eu ia dizer uma lesma mas eu gosto de lesmas. “Você tem que servir alguém” – merda, poesia suja. Muito LSD. Você sabe, eles geralmente fazem isso – vão diretamente à Jesus. E acerca de Buda? Parece ser muito mais divertido.
Johnny Rotten. Ele é um grande fã meu. Eu costumava vê-lo na platéia na Inglaterra e ele estava sempre de pé e aos gritos. Ele é engraçado. Esperto também e um cara legal. Não acho que ele seja um idiota porque ele não é. Muito ruim que ele tivesse aquela coisa Sid Vicious acontecido a sua volta. Aquele Sid Vicious era obviamente um esquizofrênico, um tipo de espécie também.
- O que você acha de compositores como Philip Glass e Steve Reich.- Eu acho isso besteira. Não acho eles muito criativos. Havia uma menina chamada Pauline Oliveros que tinha uma peça que eu gostava. E muito da boa música eletrônica vem da Alemanha, Stockhausen por exemplo.
- Tem ouvido muita música de outras culturas?- Um pouco, mas eu sempre achei que de alguma forma, falta alguma coisa nesse tipo de música. Eu acho que Shakespeare é único. Palavras como música e música como palavras. Tudo que ele escreveu é bom, o que é realmente assustador. Shakespeare. Sob o céu da ficção tem muito da realidade.
- É difícil para você achar pessoas que toquem da mesma forma que você ouve na sua cabeça?- Muito difícil. Eu fui muito feliz de qualquer maneira por parecer ser capaz de executar coisas longe das pessoas, da forma que eu queria. É muito egoísmo, mas para tocar comigo você tem que ser capaz de esquecer o que você aprendeu antes. Mas a mente humana faz isso automaticamente.
- Há coisas que têm estado na sua cabeça por um longo tempo, que você nunca foi capaz de colocar na gravação?- Oh, sim, muitas coisas. O vento é um som difícil de se conseguir. Está sempre mudando.
- Você acha que ouve diferentemente das outras pessoas?- Eu sei que estou aqui diferentemente das outras pessoas, mas eu não sei se ouço diferentemente. Eu acho que as pessoas cortam sua capacidade auditiva e porque elas fazem isso é uma coisa que eu tenho muita curiosidade em saber. O que você acha que é o maior animal vivo? Bem, vou te dizer: é a mente humana ausente.
- Pra que é o som?- Eu nem sei o que é o som, muito menos pra que ele serve. Não é para fazer dinheiro, isso é certo. Eu não tenho feito nenhum.
- Você é mais atraído para o sistema de sons naturais ou sons musicais?- Sons naturais, com exceção de Stravinsky. Ele foi brilhante em todos os sentidos. Ele convidou-me a visitá-lo antes de morrer, mas eu estava fazendo “Trout Mask” e perdi a chance. Se eu tivesse que viver de novo, eu teria encontrado Stravinsky e não teria lançado “Trout Mask”.
- Quem está trabalhando agora que seja de comparável talento?- Eu.
- Quem mais no passado?- Quem no passado? Quem no inferno. Eu acho que a pintura foi mais longe que a música. Trouxe alguns livros de alguns pintores que eu gosto. Oh Yeah!
- Você acha que nós estamos passando por um pequeno período de direita agora, longe dos grandes pensadores?- Acho que não. Eles parecem estar dormindo no momento.
- Como você tem se relacionado com a fama?- Com luva de pelica. Eu tenho gastado muito tempo assinando “amor acima do ouro”, esperando que as pessoas sigam. Eu tenho obtido alguns autógrafos. Lenny Bruce, Durante, Mort Sahl, Dick Gregory, John Coltrane. E Rolandi Kirk. Ele era maravilhoso. Tinha uma grande facilidade em seu instrumento, mas nunca deixava isso sobrepujar ele – sempre exprimia o verdadeiro sentimento. De qualquer maneira, eu tenho conseguido meus autógrafos num livro e olho-o ocasionalmente e me lembro das pessoas.
- Você parece ter um intenso vínculo com a natureza. Você acha que isso acontece por você ter crescido no deserto?- Não, acho que é porque eu sempre soube que sou um animal.
- A maioria das pessoas lutam para bloquear o conhecimento exterior. Como você tem mantido esses canais abertos?- Tenacidade. E a verdade é tão óbvia – é impossível estar fora da terra porque a força da gravidade nos mantém nela e dela. Você não pode escapar à força da gravidade.
(entrevista concedida a Kristine Mekenna em 01 de maio de 1980, revista WET)