segunda-feira, 31 de agosto de 2009

DISCOS ESSENCIAIS - II


POSES

No ano de 2001, Rufus Wainwright lança “Poses”. Se o primeiro disco homônimo era já uma pedrada, o segundo o confirma e o amplia ainda mais.

Esteve no Brasil em 2008, junto de sua mãe, irmã e cunhado, tocou em várias cidades e no Rio de Janeiro passou pela sala Cecília Meireles. Um showman.

Não precisaria mesmo de muitos músicos, o que confirmou em sua estada aqui no Brasil, se apresentando só com piano, violão e contrabaixo. Aliás, faz parte de seus planos um disco só com piano.

A questão é que Rufus é múltiplo e isso lhe dá singularidade. Diferentemente de Anthony Hegarty, o que o faz contemporâneo é justamente esse ecletismo: trabalhou como ator no filme de Denny Arcand - “A Era da Inocência”; musicou neste ano 24 dos 154 sonetos de Shakespeare para o espetáculo de Bob Wilson – “Sonetos” -, onde foi apresentado em Berlim na sede da “Berliner Ensemble”, grupo fundado por Bertold Brecht; compôs uma ópera, “Prima Dona”, baseado em Maria Callas, tendo sido apresentada em julho deste ano no Reino Unido; ambientalista até debaixo d’água; militante gay; apaixonado por Judy Garland, chegando ao ponto de reproduzir o concerto que ela deu em 1961 no Carnegie Hall. Acrescente a isso, sua dependência por metanfetamina cristal, justamente no período de “Poses”. Se pensarmos em Brian Wilson, o líder dos Beach Boys, cuja influência é visível, principalmente nas harmonias vocais; e, se pensarmos nos pais, ligados ao folk music... bem, poderíamos falar também em Burt Bacharach, com quem tem uma parceria – “Go Ask Shakespeare”; poderíamos enfim citar as trilhas de “Shrek” , “Moulin Rouge” e “O Segredo de Brokeback Montain”... das quais participa.
E tudo isso se reflete em “Poses” – já está lá como prenúncio.

Sua voz anasalada e de barítono, influenciam uma interpretação clara, pra fora. Aliás, é interessante o compararmos com Jeff Buckley na música “Hallelujah” de Leonard Cohen. Enquanto Buckley apresenta uma interpretação densa, torturada, já em Rufus a música se torna clara, visível, cristalina e tecnicamente perfeita.

Não dá pra fazer vistas grossas ao passado da música americana em Rufus. E aí se inclui Cole Porter, Gershwin e até Sinatra. É música de primeiro mundo.

Pode ser até que, por isso, muitos torçam o nariz. Mas é o que permite a sua extrema flexibilidade, passando pelo folk music do pai (On Man Guy), pelo orientalismo (Greck Song), pelo pop elegante (“Shadows”, “Califórnia”, “Grey Gardens” e “The Tower of Learning” – secundadas por Alex Gifford do Propellerheads), pelas orquestrações de “Evil Angel” e pelo piano arquipresente e poético.

Talvez seja uma característica da pós-modernidade esse diálogo com tempos e estilos diferentes. Daí porque muitos críticos terem salientado o seu caráter barroco. Rufus Wainwright, nesse sentido, é mais híbrido do que o próprio Anthony Hegarty, em cujo disco paticipa na faixa “What can I do?”.

Muitas de suas referências vêm de filmes, discos e livros. Um exemplo é “Grey Gardens”, canção na qual menciona o documentário do mesmo nome (mansão em ruínas onde moravam a prima e a tia de Jacqueline Kennedy) e onde menciona também Tadzio, personagem de “Morte em Veneza” de Thomas Mann e filmado por Luchino Visconti.

Na música “Califórnia”, uma das mais irônicas, há um festival de referências, entre elas, Bea Arthur (atriz americana), “Rhoda” (seriado americano da década de 70) e “That’s Enterteinement” (documentário que aborda os antigos musicais americanos).

Mas se todas essas citações, muitas delas repletas de ironia, o localizam numa estética contemporânea, dentro da qual, inclusive, afirma sua identidade gay, existe no entanto o outro lado. É o da decadência, do coração partido e da solitude (anjos do mal e cemitérios... com seu piano e orquestrações clássicas):

“ All these poses of classical torture
ruined my mind like a snake in the orchard
I did go from waiting to be someone
now I’m drunk and wearing flip-flops on Fifth Avenue”

Esse contraponto faz a beleza de “Poses”.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

DISCOS ESSENCIAIS - TRILOGIA


I AM A BIRD

Como eu sou um aficionado por listas, pensei numa trilogia dos discos essenciais.
Será que a sua trilogia coincide com a minha?

Com uma foto de Candy Darling em seu leito de morte – foto de Peter Hujar - o disco “I am a Bird” de Anthony and The Johnsons, de 2005, é o primeiro da minha trilogia.

Candy Darling foi a superstar de Andy Warhol. Travesti americana, no cenário underground nova-iorquino dos anos 60, chegou a ser título de músicas do Velvet Underground.

Com esse disco, o segundo de Anthony and the Johnsons, a banda passa a ser reconhecida mundialmente e fatura o Mercury Music Prize de 2005 – o prêmio de 29 mil euros foi votado por um painel de especialistas da indústria, jornalistas e artistas, e é tido como uma distinção que recompensa a originalidade e a criatividade em vez do número de vendas.

A banda é formada por Julia Kent (violoncelo e cordas), Doug Wieselman (metais), Parker Kindred (bateria), Jeff Langston (baixo), Maxim Moston (violino, arranjos) e Rob Moose (guitarra e violino).

Já Anthony Hegarty (voz e piano) é um capítulo à parte: músico, poeta, artista plástico e performático. Inglês de nascimento, de West Sussex, mas vivendo nos EUA desde os 10 anos de idade, passou a morar em Manhattan em 1990, participando ativamente da cena avant-guarde. Foi ali que formou o coletivo de performances chamado “Blacklips Performance Cult” e teve como parceira a artista performática Johanne Constantine, além de outras figuras como punks, drag-queens e travestis. Esse coletivo em 1996 passou a se chamar “Anthony and the Johnsons”.

Foi com seu primeiro disco homônimo de 2000 que chamou a atenção de pessoas como Lou Reed, que o requisita em seguida para participar de seu projeto “The Raven”, em 2003, regravando “The Perfect Days”.

E foi em clubes de Nova York como o “Joe’s Pub”, que se deu o início ao fenômeno Anthony Hegarty – seu terceiro disco “Crying Light” de 2008, estreou em primeiro lugar na parada da Bilboard Européia.

O transexualismo é sua grande marca. Mas em momento algum, ao menos nas canções de seu disco maior, I am a Bird, vamos encontrar ecos de luta política. É Laury Anderson que sublinha um caráter inequívoco no trabalho de Anthony: ausência de ironia. Nada é tão exposto quanto. Por mais que encontremos linhas de continuidade com o glam rock e ainda que no próprio site do artista vamos nos deparar com os temas que desenvolve tal qual uma plataforma política, a poesia no entanto, a intensidade dos seus versos e a melancolia de sua voz, é de cortar os pulsos.

Não é um trabalho que esteja voltado ao experimentalismo do som, até porque a música não vive só de experimentalismos.

“I am a Bird” é um disco convencional e tira sua beleza justamente daí. Não é um disco voador. É um disco metafísico porque a voz marca sua presença e centraliza tudo.

Já a idéia do transexualismo, ao contrário, descentralizador enquanto duplicidade de gêneros, explode com a integridade individual, tão fundamental para o cristianismo quanto para o capitalismo.

Anthony Hegarty vive essa duplicidade aguda, da mesma forma que a viveu Oscar Wilde. No caso de Anthony: a voz e a transexualidade; o mesmo e o outro; o cristianismo e o instinto.

É significativa a presença no disco de Júlia Yasuda, artista performática japonesa, albina e hermafrodita, falando os versos de “Free at Last”, hino gospel:
“ I thank God, I’m free at last
Me and my Jesus going to meet and talk”.

Essa mesma duplicidade ora se reflete no disco seguinte, voltado agora mais para o exterior em comparação com I am a Bird, ora se reflete em seu trabalho de artes plásticas. Em um conjunto de retratos fotográficos, Hegarty projeta imagens antigas de sua bisavó sobre o seu próprio rosto, como se entre ele e ela houvesse uma linha contínua: “estive pensando no meu canto, não como expressão fechada de mim mesmo, mas dando também voz a um ancestral – deixar minha trisavô cantando sozinha”, diz Hegarty à Ray Rogers no BlackBook. Ou seja, como artista, você pode esticar-se além de si mesmo e convidar os fantasmas a serem uma parte de seu processo criativo.

As dez canções de I am a Bird resvalam nesse mesmo tema – desmaterialização, libertação do espírito, vôo. Mas a condição prévia é a fragilidade, a infância ou a ruína. Em “Firfull of Love”, com participação de Lou Reed, até o sadomasoquismo é por amor.

Mas se o desamparo sofre um processo de sublimação, que é a própria música de Anthony Hegarty, existe também a pura aposta. Em “Spiraling”, que tem a participação de Devendra Banhart, Anthony diz:
“I’ve got all my fille
I’ve got all my ones to choose from”
Essa música, certamente a mais contundente do disco, acena para um sentido original: a pura aposta, a escolha que o sujeito empreende como um ato livre.

E novamente nos vemos diante da dupla face de seu trabalho: ora como aposta, ora como desmaterialização. Tanto a transexualismo quanto sua música tem ambos os aspectos.

OBS: Em 2007 estiveram no Tim Festival e eu perdi.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O RACIOCÍNIO PELO ABSURDO



Conforme Alain Badiou, o fomalismo lógico tem dois operadores de conexão fiel: o “modus ponens” e a “generalização”. O “modus ponens” diz respeito à idéia intuitiva de implicação (se “A” acarreta “B” e “A” é verdadeiro, “B” deve ser verdadeiro também); a generalização diz respeito à idéia intuitiva de universalidade (se “A” é verdadeiro para um “X” qualquer - pois “X” é uma variável – é que ele é verdadeiro para qualquer “X”).

Essa pobreza de regras que estabelece a passagem de um enunciado a outro, tornando-os equivalentes, marca a monotonia da fidelidade ontológica. Mas esse formalismo lógico encobriria vieses mais sinuosos tais como o raciocínio hipotético e o raciocínio pelo absurdo (Badiou fala mesmo à certa altura, que a dedução é, como ponto de vista formal, a forma tardia em que veio a se constituir, restando-nos saber então o que teria sido encoberto).

Vamos aqui nos deter no raciocínio pelo absurdo.

Para provar a verdade de “A”, supomos a de “não-A”, e que inferindo dessa suposição algum absurdo, alguma contradição com verdades já estabelecidas, conclui-se que, decididamente é “A” que nos convém (ou seja, é um raciocínio que prefere aventurar-se por caminhos desconhecidos e tortuosos, para só no final provar sua verdade):

1- Eu quero provar a verdade de “A”;
2- “não-B” faz parte da situação real (é uma verdade já estabelecida);
3- aos axiomas da teoria (T), eu adiciono ficticiamente o enunciado “não-A”, ou seja, eu nego a minha hipótese inicial que é a verdade de “A”;
4- obtenho com isso um “B” que contradiz uma situação real, já estabelecida. Portanto, “não-A” implica “B” dentro da situação “T”. Esse é o acaso de um enunciado que contradiz um resultado já estabelecido que é “não-B”;
5- Segundo um axioma lógico – “a contraposição” – se um enunciado “C” implica “D”, se eu nego “D” implico então “não-C”. Daí que, voltando ao nosso problema, se “não-A” implica “B”, logo, “não-B” implica a negação de “não-A” . A dupla negação confirma, ao menos segundo os clássicos, a afirmação de “A”, demonstrando assim sua verdade.

Esses cinco passos demonstram pelo raciocínio do absurdo a verdade que queremos demonstrar. Absurdo porque parte, ficticiamente, de algo que é negado pelas condições iniciais. Ou seja, para demonstrar algo, eu parto de sua negação.

Enquanto o raciocínio construtivo não se subtrai à lei da apresentação, o raciocínio pelo absurdo instala de saída a ficção de uma situação que supõe incoerente (“T”+ “não-A”) até que essa incoerência se manifeste ao acaso de um enunciado que contradiz um resultado “não-B” já estabelecido – “não-A” implica “B” dentro da situação “T”.

A diferença do raciocínio pelo absurdo comparado ao construtio, deve-se menos ao emprego da dupla-negação que à qualidade estratégica (ordem+desordem). O paradoxo desse raciocínio deve-se ao fato de se deduzir com rigor – utilizando táticas fiéis de conexão entre enunciados – exatamente ali onde supomos a incoerência (“não-A”). Segundo o raciocínio pelo absurdo, “T” implica “A” e “não-A”. É o encontro da regra com a contradição.

Essa combinação de zelo pela fidelidade e do acaso do encontro, da precisão da regra e da consciência da nulidade de seu lugar de exercício, é o traço mais notável do procedimento.

Ver: “O Ser e o Evento”, meditação 24 – “Dedução como operador da Fidelidade Ontológica”, Alain Badiou, ed. Jorge Zahar Editor.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

CAPTAIN BEEFHEART - DOCUMENTO



Wet foi uma revista de vanguarda americana, sediada em Los Angeles. Era bimestral e durou entre 1976 e 1981. A revista de número 24, maio/junho de 1980, com Mick Jagger na capa, traz uma entrevista com Captain Beefheart que eu acabei de traduzir. Nesse período, ele ainda estava na ativa. Hoje, sofre de esclerose múltipla. Um dado interessante: na entrevista, em momento algum ele menciona Frank Zappa. Estranho, se pensarmos em discos como Trout Mask Replica (produzido por Zappa) e Bongo Fury. Mas as brigas entre eles eram públicas. Com vocês, a entrevista.


Captain Beefheart é um visionário, louco, gênio, que faz notavelmente música original. Um escultor, pintor, poeta, filósofo da linhagem surrealista primitivista, Beefheart nunca se confinou ao comumente aceito reino das possibilidades. Percebendo o universo com olhos mágicos e alegres, ele expeliu pela janela as abordagens convencionais da linguagem e da música, colocando em seu lugar um espantoso sistema concebido por ele. Sua música de forma assustadoramente irregular, junta suas narrativas rurais do folk com vodoo, livre associação, Dada e um espectro de som que vai da música americana de Charles Ives, Jazz e blues ao som do deserto do Monjave onde vive. Beefheart é um homem sem limites de imaginação e espírito heróico e deve-se a isso os sete álbuns próprios que ele fez.

Ele tem 39 anos, nativo da Califórnia, e vive numa casa móvel no deserto com sua mulher Jam. Ele é notoriamente recluso mas foi generoso suficiente para vir ao escritório da Wet, em Venice, Califórnia, para uma entrevista (a última vez que ele esteve em Venice, estava bebendo com Lenny Bruce).
Ele veio ao centro como um maravilhoso xamã, - provavelmente achou seu caminho com uma vareta adivinhadora – e chegou sobrecarregado de livros, desenhos, gravador e uma mala cheia de chá, lápis e diversos ítens. Trouxe charutos para todos e como nós nos despedimos num estacionamento às 3 horas da manhã, ele tocou um cassete de Jimy Durante com a música “I ma Vulture for Horticulture”. Todas as coisas grandes e pequenas tomam um profundo brilho em companhia de Don Van Vliet.

- Você acha que todo mundo nasce com um apetite igual de vida?- Eu não sei. Isso é realmente uma boa pergunta. Só posso falar por mim, mas eu tenho lutado pra não deixar isso ficar me remoendo. Muita gente torna-se aborrecida por medo da dor, mas a dor é uma forma de sensibilização. Uma porção de pessoas não querem estar mais conscientes e do jeito que as coisas vão, mais e mais pessoas não querem saber.

- Eu ouvi dizer que você tentou mergulhar no La Brea Tar Pits quando era garoto? (piscinas de piche quente que borbulham da superfície da Terra e que aprisionaram fósseis por milhares de anos, tornando-as o lugar mais conhecido do mundo para fósseis da Era do Gelo. Fica em Los Angeles)
- Sim, quando eu tinha 3 anos de idade, minha mãe me levou ao Tar Pits e ela devia ter me colocado um arreio. Eu estava longe dela e tentei mergulhar lá – quase ela fez isso também. Ficou algum em mim. Foi legal. Que lugar agradável. Eu estava vendo essas bolhas. Que bela música. Você quase não pode ouvir mais isso por causa dos carros.

- Você parece estar mais em contato com sua memória do que a maioria das pessoas. Por que você acha que acontece isso?- Bem, atualmente eu não acho que esteja. Você deve estar em torno de mim a mais tempo. É muito difícil pra mim dirigir. É difícil chegar em casa porque tenho me distraído com as coisas ao meu redor. As coisas mudam tanto. E se eu vou a algum lugar, eu nunca retorno ao mesmo lugar – é alterado com o tempo.

- Tem alguma coisa que perturba você?

- Não, eu adoro.



- Imaginação é um músculo que pode se desenvolver, ou é um caso que alguns têm e outros não?
- Eu penso que a falta de oxigênio na infância é um verdadeiro fator decisivo. Quer um chiclete?

- Não, obrigado. Quer dizer, a imaginação é um simples caso de biologia?- Pode ser uma alergia.

- Uma vez você ficou sem dormir por um ano e meio. Como e por que você fez isso?

- Jejum mental. Eu precisava me purgar de toda a atenção que meus pais tinham me dado, eu não fui negligenciado quando criança. Eu tinha uma bolsa de arte, mas meus pais não queriam que eu fosse escultor porque, bem, você sabe, todos artistas são esquisitos, tanto que eles me mandaram para o Deserto de Monjave. A minha mãe ainda se sente culpada por mudar-me pra lá, mas eu falo pra ela esquecer isso. Conheci uma porção de americanos orientais morando lá, super simpáticos – eles foram enviados pra lá na Segunda Guerra. Não é ruim sustentarem essas pessoas lá.
Eu continuo a viver no meio do deserto. Eu demorei duas horas de condução, antes de chegar no asfalto para vir aqui. Vivo numa móbile home, eu nunca tive uma casa, com exceção de uma vez. Aluguei uma cabana feita de toros de madeira. Imagine alugar uma casa assim. Eu não tenho vizinhos senão animais e Joshua Trees (tipo de vegetação do deserto). Eu não pareço uma pessoa do deserto porque permaneço dentro de casa a maior parte do dia e vago à noite. É o que os animais do deserto fazem – eles não têm um bronzeado.
De qualquer forma, quando eu fiz jejum mental, eu realmente não critiquei nada. Andava pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo, e só comia fruta.

- Como seus pais sentem agora a sua carreira como artista?

- Como uma ameba. Meu pai se foi. Morreu há muitos anos atrás. Isto é, eu amo o povo. Eu escrevi um poema que descreve como eu me sinto: “um ninho rola, depois outro, até que não haja mais qualquer pássaro; uma língua chicoteia a outra até que não haja mais palavras; eu adoro quando não falta nenhum pássaro”.

- Você foi guiado para a Igreja quando estava crescendo?
- De jeito nenhum. Eu era um escultor, eu lembro. Mas eu tinha estado em algumas maravilhosas igrejas, então eu vi algumas pessoas fora morrendo de fome.

- O que você faz todo dia?
- Bem, eu corro 6 milhas em forma de caminhada lenta dentro de casa que me leva cerca de 1 hora e 45 minutos. E escrevo muito. Escrevo bastante todos os dias. Você gosta dos meus sapatos (de couro com cor carmuça)? Eu tive esses em Beverly Hills. Tenho 3 pares. Tive que ficar com eles. Na época que os comprei, estava fumando Black Russian Sobrani Cigarettes, uma marca simples, e eu pensei que seria engraçado os cigarros indo aqui em cima e os sapatos lá embaixo.

- Você acredita no amor romântico?
- Se você ama alguém e está lá com esse alguém, então não é ilusão. Eu sou um romântico com certeza.

- É uma benção ou uma maldição?
- Uma benção. E para as mulheres, a pior coisa que tem é o final da relação. Eu sou uma mulher louca, sou definitivamente tudo para as mulheres. E só tenho conhecido homens.

- Por que você acha que é isso?

- Sabe, eu me pergunto sobre isso e acho que o elemento esportivo pode ter algo a ver com isso – “ superar a oposição”. Competição e todo aquele jazz. E sobre Charles Mingus? Ele não deveria ter tocado naquele álbum absurdo de Joni Mitchell. Eu acho que ele fez isso porque queria fazer uma última tentativa. Mas ele era um homem maravilhoso e um grande baixista, um dos melhores que existiu. Ele fez músicas sobre o horror absoluto a que foi apresentado ao ir para o mercado.

- Você viu muito desse horror? Você cresceu na natureza e houve sempre arte na sua vida.
- Bem, eu posso ver horror num maço de cigarro, em qualquer lugar. Eu sou definitivamente esquizofrênico.

- Por que você acha isso?
- Porque quando eu vejo algo, eu o vejo em não sei quantas centenas de formas.

- Você acha que isso é um problema?

- Oh não, eu gosto disso, mas é definitivamente um problema quando se está fazendo negócio.

- Você foi sempre visto dessa maneira?- Sempre.

- Você acha que isso é genético?
- Provavelmente é. Eu não acho que artistas são feitos, acho que eles nascem artistas.

- Sabe alguma coisa sobre sua ascendência?
- Sim, eu tinha um parente chamado Peter Van Vliet, que foi um pintor holandês que andava com Rembrandt. Mas ele era muito difícil de lidar e teve uma porção de problemas com reis e rainhas. E Richard Halliburton, que escreveu “Golden Voyage”, tinha parentesco comigo. Halliburton era um homem audacioso – ele pulou na cova dos adoradores do sol (olhando a capa da Wet). Eu posso tirar isso?

- Você acha desinteressante?

- Sim, é horrível. Quem iria querer ver algo como isso? Também um pouco brilhante pra mim (vendo por dentro da Wet). Sabe, se você quer fazer algo por mim, tem que ser melhor que isso. Hummm James Brown na mesma revista com Shakespeare...

- Você acha isso realmente?- Não. James Brown é importante porque ele decora o relógio corretamente e ele é bom em matemática inferior. Não me interpretem mal – ele é bom. Eu gosto de James Brown – mesmo com o “Grande Dançarino” (olhando para um pôster na parede). Isso é nojento ! Que tipo de pessoa anormal põe aquilo lá? Meninas coçando as costas uma das outras. Há coisas maravilhosas em relação a coçar – eu faço isso o tempo todo porque eu gosto dessa sensação, mas certamente não acho que deveria haver um cartaz com isso. Muita gente não pode lidar com esse tipo de coisas. Alguém poderia vir em você e te coçar por causa de um pôster e ser muito burro para compreender como isso é defeituoso. Eu não gosto dessas coisas da S & M. Isso é explorado apenas para fazer dinheiro e sobretudo às custas das mulheres.

- Por que o público consome isso?
- Eles são muito burros. Se isso acontecesse diante deles, eles não gostariam.

- As pessoas parecem estar intimidadas pela mídia ao querer fazer as coisas direito, ao ponto delas seguirem qualquer instrução.- Eu tenho medo que seja verdade – foi o que aconteceu na Alemanha nazista e tanto espero que isso nunca aconteça quanto sei que pode acontecer de novo. POSTER COMO ESSE NA PAREDE DA Wet certamente não é um bom sinal. Por outro lado, eu realmente não acredito que nós estamos indo para o apocalipse. Sempre em tempos de eleição somos levados a acreditar que há um apocalipse na próxima esquina, ainda assim eu não acredito. Você sabe, eu posso sempre dizer quando nós estamos numa eleição porque as pessoas da estrada ficam sempre defronte a minha casa. As formigas ficam preocupadas e entram, então eu dou a elas um pouco de açúcar.

- Você alimenta suas formigas?
- Claro. Eu nunca mataria uma coisa viva, embora eu provavelmente tenha matado inadvertidamente, dirigindo automóveis. E eu odeio ver essas mariposas no pára-brisas.

- Mas isso não faz parte da ordem natural?- Sim, mas eu não sou capaz de negociar qualquer parte da natureza. Isso é tão violento, deus, isso é violento.

- Quando visto num esquema geral, então, os seres humanos têm sido capazes de controlar a si próprios bem satisfatoriamente.
- Não é mau. Não é mau, no fundo. Mas ainda a maioria dos perigos são produzidos pelo Homem. Homem tem feito muito para se tornar perigoso e os animais ficam com o pior de tudo isso. Mas o Homem é também um animal.

- Poderia ser melhor para nós se estivéssemos conscientes disso.
- Sim, evidentemente. Mas as pessoas usam ridiculamente papel higiênico porque significa que são ricos se o papel é perfumado – e eu acho que papel higiênico perfumado causa câncer no cu. Você pode quase imaginar como uma pessoa faz sexo pelo tipo de papel higiênico que usa. Vá em qualquer casa de rico e você verá algumas coisas estranhas coloridas na parede.

- Que tipo de música você tem ouvido?
- Eu não ouço nada – eu não tenho necessidade. Bob Dylan me impressiona tanto quanto... bem, eu ia dizer uma lesma mas eu gosto de lesmas. “Você tem que servir alguém” – merda, poesia suja. Muito LSD. Você sabe, eles geralmente fazem isso – vão diretamente à Jesus. E acerca de Buda? Parece ser muito mais divertido.
Johnny Rotten. Ele é um grande fã meu. Eu costumava vê-lo na platéia na Inglaterra e ele estava sempre de pé e aos gritos. Ele é engraçado. Esperto também e um cara legal. Não acho que ele seja um idiota porque ele não é. Muito ruim que ele tivesse aquela coisa Sid Vicious acontecido a sua volta. Aquele Sid Vicious era obviamente um esquizofrênico, um tipo de espécie também.

- O que você acha de compositores como Philip Glass e Steve Reich.- Eu acho isso besteira. Não acho eles muito criativos. Havia uma menina chamada Pauline Oliveros que tinha uma peça que eu gostava. E muito da boa música eletrônica vem da Alemanha, Stockhausen por exemplo.

- Tem ouvido muita música de outras culturas?
- Um pouco, mas eu sempre achei que de alguma forma, falta alguma coisa nesse tipo de música. Eu acho que Shakespeare é único. Palavras como música e música como palavras. Tudo que ele escreveu é bom, o que é realmente assustador. Shakespeare. Sob o céu da ficção tem muito da realidade.

- É difícil para você achar pessoas que toquem da mesma forma que você ouve na sua cabeça?
- Muito difícil. Eu fui muito feliz de qualquer maneira por parecer ser capaz de executar coisas longe das pessoas, da forma que eu queria. É muito egoísmo, mas para tocar comigo você tem que ser capaz de esquecer o que você aprendeu antes. Mas a mente humana faz isso automaticamente.

- Há coisas que têm estado na sua cabeça por um longo tempo, que você nunca foi capaz de colocar na gravação?
- Oh, sim, muitas coisas. O vento é um som difícil de se conseguir. Está sempre mudando.

- Você acha que ouve diferentemente das outras pessoas?
- Eu sei que estou aqui diferentemente das outras pessoas, mas eu não sei se ouço diferentemente. Eu acho que as pessoas cortam sua capacidade auditiva e porque elas fazem isso é uma coisa que eu tenho muita curiosidade em saber. O que você acha que é o maior animal vivo? Bem, vou te dizer: é a mente humana ausente.

- Pra que é o som?
- Eu nem sei o que é o som, muito menos pra que ele serve. Não é para fazer dinheiro, isso é certo. Eu não tenho feito nenhum.

- Você é mais atraído para o sistema de sons naturais ou sons musicais?- Sons naturais, com exceção de Stravinsky. Ele foi brilhante em todos os sentidos. Ele convidou-me a visitá-lo antes de morrer, mas eu estava fazendo “Trout Mask” e perdi a chance. Se eu tivesse que viver de novo, eu teria encontrado Stravinsky e não teria lançado “Trout Mask”.

- Quem está trabalhando agora que seja de comparável talento?- Eu.

- Quem mais no passado?
- Quem no passado? Quem no inferno. Eu acho que a pintura foi mais longe que a música. Trouxe alguns livros de alguns pintores que eu gosto. Oh Yeah!

- Você acha que nós estamos passando por um pequeno período de direita agora, longe dos grandes pensadores?- Acho que não. Eles parecem estar dormindo no momento.

- Como você tem se relacionado com a fama?
- Com luva de pelica. Eu tenho gastado muito tempo assinando “amor acima do ouro”, esperando que as pessoas sigam. Eu tenho obtido alguns autógrafos. Lenny Bruce, Durante, Mort Sahl, Dick Gregory, John Coltrane. E Rolandi Kirk. Ele era maravilhoso. Tinha uma grande facilidade em seu instrumento, mas nunca deixava isso sobrepujar ele – sempre exprimia o verdadeiro sentimento. De qualquer maneira, eu tenho conseguido meus autógrafos num livro e olho-o ocasionalmente e me lembro das pessoas.

- Você parece ter um intenso vínculo com a natureza. Você acha que isso acontece por você ter crescido no deserto?

- Não, acho que é porque eu sempre soube que sou um animal.

- A maioria das pessoas lutam para bloquear o conhecimento exterior. Como você tem mantido esses canais abertos?
- Tenacidade. E a verdade é tão óbvia – é impossível estar fora da terra porque a força da gravidade nos mantém nela e dela. Você não pode escapar à força da gravidade.

(entrevista concedida a Kristine Mekenna em 01 de maio de 1980, revista WET)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

DE TRICOLOR PARA TRICOLOR

Desesperado com a situação, pensei em escrever um canto de revolta. Não perdoando ninguém: técnico, jogadores, comissão técnica, coordenador, o vice de futebol, o patrocinador... De tricolor para tricolor, vocês sabem né, a situação é negra. E sem perspectiva de mudança. Não vamos nos iludir. É o samba do crioulo doido: agora tem até Espinosa como auxiliar técnico do Renato Gaucho. Parece um doente em estado terminal apelando pra um Pai-de-Santo.

Mas eu achei um texto que me mostrou o quanto estou errado em pensar assim.


Sonhei que Deus chegava perto de mim e perguntava: - "O que é que você fez na vida?" Tratei de vasculhar todas as províncias do meu passado. Na infância andei roubando goiabas e raspando pernas de passarinho a canivete. Todavia, nem uma coisa, nem outra, me pareceram dignas de menção. Não seria eu o primeiro ladrão de goiaba, nem o primeiro estripador de passarinho. Na idade adulta, andei escrevendo peças, romances, crônicas. Mas nem as peças eram dignas de um Shakespeare, nem os romances dignos de Proust. E a verdade, a lamentável verdade, é que eu não encontrava, em toda a minha biografia, nada que surpreendesse o Altíssimo e merecesse o seu espanto.

Eis, senão, quando, de repente, baixa em mim uma luz genial. Alço a fronte e digo: "Eu promovi, eu consagrei o óbvio!". Aí está o grande feito de toda a minha vida. O óbvio vivia relegado a uma posição secundária ou nula. Fui eu que, com minha pertinácia, arranquei-o da obscuridade, da insignificância. Hoje, o óbvio tem trânsito em todas as áreas, é citado nas esquinas, botecos e retretas. Ainda outro dia, escrevia-me, de Filadélfia, um universitário americano. Queria saber apenas o seguinte - "Quem é esse óbvio tão falado no Brasil? Podia me dizer quais suas obras, seus livros, seus feitos?". Essa consulta, que me chegou de outro continente, prova que o óbvio já adquiriu personalidade internacional. Frank Sinatra não será tão popular nos Estados Unidos.

Todavia, ao apresentar o óbvio, eu fiz a seguinte e fundamental ressalva: - ninguém o enxerga se sujeitos são cegos para ele. E acrescentei: "Gênio, santo ou profeta é aquele que enxerga o óbvio".

Faço esta introdução a propósito do que li sobre o Fluminense.

Diz um colega que o Tricolor está sem níquel para comprar nem mesmo um único e escasso cabeça de bagre. A qualquer momento, nós o veremos numa esquina, tocando realejo, com um periquito de tirar sorte. Eu li e reli. E nada descreve o meu espanto e o meu horror. Tudo o que foi escrito é de uma inveracidade total e estarrecedora. Cabe, então, a pergunta - como pode um jornalista agredir os fatos, como pode ele ignorar a evidência? Explico: - como tantos outros, o colega é cego para o óbvio.

O que é o Fluminense? O maior clube do Brasil e do mundo. Repito - o maior clube do Brasil e do mundo. Isso é o óbvio mais que ululante. Chega a ser cômico falar nos seus problemas. De todos os clubes, o Tricolor é o que tem melhor saúde econômica, melhor saúde financeira. Se ainda usássemos o chapéu, teríamos que tirá-lo em sentida e obrigatória reverência, sempre que falássemos no seu nome. Os outros, todos os outros, estão vergados ao peso de dívidas como uma árvore ao peso dos frutos. O Fluminense, não. O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade. Tudo pode passar, só o Tricolor não passará, jamais. Quem diz é o óbvio ululante.

Nélson Rodrigues