segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DEPOIMENTO PARA A NOVELA DAS 8

Há 40 anos atrás
eu pagava um boquete
e um fiapo de pentelho ficou preso na minha garganta.
Não subia nem descia.
Eu tossia, ele não saía.
Eu bebia, ele não descia.
Os anos foram passando
e eu fui me acostumando.
E por mais que cantasse
o fiapo de pentelho continuava preso na minha garganta.
Me casei, tive 3 filhos
e hoje me considero um homem feliz e realizado.
Mas o fiapo de pentelho continua preso na minha garganta.
Não sobe, nem desce.
Eu tusso, ele não sai.
Eu bebo, ele não desce.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

MÚSICA INDEPENDENTE - 2009

Este é o último post do ano.

Se fizéssemos um balanço do que aconteceu em 2009, eu não teria aqui espaço suficiente. Tenho dito em algumas entrevistas que foi um ano atípico pra mim em função de três lançamentos: SKYLAB IX (meu primeiro dvd), SKYGIRLS e o ROGERIO SKYLAB & ORQUESTRA ZEFELIPE . Isso nunca havia acontecido em meus quase 20 anos de carreira.

Uma outra coisa que me marcou definitivamente foi ter entrado em contato com o GOMA de Uberlândia e consequentemente o Movimento Fora do Eixo. Acho mesmo que pra música independente, esse movimento foi a coisa mais importante que aconteceu. E a tendência é crescer cada vez mais, articulando-se com os pontos mais distantes do país. Sugiro a entrevista que fiz com a galera do GOMA e que está transposta aqui no blog. http://godardcity.blogspot.com/2009/06/circuito-fora-do-eixo-goma.html#links

Porcas e Borboletas, por exemplo, é uma banda que vem de Uberlândia, afinada a esse movimento, e lançou disco recente com participação de Arrigo Barnabé entre outros convidados. Não preciso dizer mais nada. Outra banda que nasceu das entranhas do Fora do Eixo é o Macaco Bong.
Se fosse só isso a música independente, estaríamos ao menos bem encaminhados. Mas não é.

Conversando com um “intuitivo genial”, esse também independente até a alma, ele me apresentava um estranho argumento justificando sua alergia pela visibilidade. Confesso que até hoje não entendi nada. Mas suspeito que é um raciocínio às avessas para justificar a ausência de reconhecimento por parte do público. Tirando meia dúzia de aficcionados por seu trabalho, o “intuitivo genial” permanece entocado em sua caverna. É um revoltado, como ele mesmo me diz. Se pudesse explodir o Cristo Redentor, ele o explodiria, penso eu. Mas algo me diz também que o “intuitivo genial” espera mesmo é pelo reconhecimento que nunca vem. Daí produz raciocínios mirabolantes e insiste que foge das luzes.

Um raciocínio inverso produz outro representante da música independente. Segundo este, é tanta luz que o banha, que chega a se sentir no cenário internacional. Para tanto, não faz mal que viaje para a Europa tendo que custear a própria passagem e a estadia. O que importa para esse representante da música independente e “planetária” é fazer muitos shows e dar a esse fato máxima divulgação. A questão é que se a Maria Bethânia faz show em Portugal, ela de fato está abrindo mercado e isso lhe dá um imenso retorno. Já o nosso “independente delirante”, faz show na Alemanha pra meia dúzia de malucos e alardeia aos quatro cantos da mídia a sua fenomenal viagem. Não abre mercado nenhum. Mas chego a desconfiar que o nosso delirante acredita na própria mentira, o que já é um caso de psiquiatria.

O desafio da música independente é se fazer bem distribuída. Como tocar na rádio sem jabá? Como quebrar o monopólio das grandes gravadoras que ainda mantém seu predomínio na mídia?
A não ser que você faça música pra ninguém, isto é, pra permanecer nas sombras.
Como eu acho que o sentido da arte é o outro, o que é muito diferente de fazer algo para agradar, penso sempre em como fazer a minha música chegar às pessoas. E essa me parece ser a maior questão da música independente. A Música Livre, através da internet, tenta solucionar essa questão – ela sabe que mais importante do que um retorno financeiro imediato é a divulgação do trabalho.

Daí porque acho que o Movimento Fora do Eixo é quem enfrenta melhor esse problemática. Sem delírio e sem falsas argumentações.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

MATÉRIA DO "MONDO BACANA"

Pra quem quiser dar uma conferida na minha passagem por Curitiba, aí vai uma texto sobre o meu trabalho e uma análise do show no Ópera 1.
http://www.mondobacana.com/musica-dezembro-2009/rogerio-skylab.html

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

SKYGIRLS - COMO COMPRAR?



É com tiragem limitada que começou a ser vendido o álbum duplo SKYGIRLS. E a originalidade, além das músicas, foi a forma como foi confeccionada a capa (material reciclado e nas mesmas dimensões de um vinil). O responsável por esse empreendimento é o Flavio Lazarino do selo "Psicotropicodelia", pelo qual saiu o álbum. E a forma de comprar é idêntica a forma de compra dos cds pelo site.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ABRAÇOS PARTIDOS E MARIO BORTOLOTTO



Abraços Partidos, último filme de Almodóvar, tem algo em comum com o incidente que ocorreu com o meu amigo e escritor Mario Bortolotto. Tem também algo em comum com o que ocorreu no Couto Pereira em Curitiba. Fala de vingança. Mas fala também da vitória sobre a vingança. Fala de amor e arte.

E na próxima quinta feira, no Espaço Cultural Sérgio Porto, Rio de Janeiro, às 20:00 horas, estaremos fazendo o que nos compete. Estaremos respondendo à nossa maneira, ao ato violento ocorrido, no último sábado em São Paulo, com o escritor e ator Mário Bortolotto.

Não somos a polícia, cuja lógica é enfrentar, apurar e prender os responsáveis. Vamos responder com poesia e música, coisa que o Mario adorava fazer.

O filme de Almodóvar aborda essas duas perspectivas, a vingança e o amor, em três níveis.
O primeiro nível, que diz respeito aos projetos, o filho perturbado do industrial quer fazer um filme sobre vingança (entre filho e pai a relação é de ódio); já o diretor, manifesta o desejo de fazer um filme relacionado à vida de Arthur Miller, que rejeita um filho excepcional, o que não elimina o sentimento de grande amor que esse filho sente pelo pai. A idéia de vingança apresenta a lógica da ação e reação, que o amor desconhece; no que tange ao amor, não está em jogo a relação de oposição ou equilíbrio (a diferença é o seu grande segredo).

O segundo nível, é o filme propriamente dito e o documentário. Em outras palavras, o que o pai conta pro filho (o filme), e o que o filho conta pro pai (documentário). No segundo caso, como existe a ausência da voz dos personagens, vai ocorrer a leitura labial. Uma imagem sem voz: esse é o defeito do documentário. É uma captação incompleta, distante, sem alma. Mas nem por isso será negada: serve ao menos pra captar o beijo final dos amantes e a culpa do documentarista pelo acidente ocorrido. Ao invés de ser descartado como uma espécie de vingança, o documentário, ainda que movido a ódio, vai completar o sentido e vai ser incluído no resultado final do filme.

O terceiro nível, é o filme dentro do filme. O que está sendo produzido com o dinheiro do industrial. Como vingança à fuga da mulher, o industrial realiza o filme com as piores tomadas. E quando o diretor, tenta se vingar por tudo ocorrido, marcando um encontro com o filho do industrial, sua assistente lhe revela que guardara todos os negativos. É a oportunidade para refazer o filme, parte final, quando somos brindados pelo estilo almodóvar de cinema. Essa reconstrução, da qual o seu filho vai tomar parte, reconstituindo as fotos rasgadas pelo filho do industrial, é a vitória final de “Abraços Partidos”.

Vamos responder à barbárie, ao ressentimento, com o CEP 20 000 nesta quinta feira. Cada um na sua. O Estado e a sua política do enfrentamento não é a nossa lógica.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

MISÉRIA DOURADA

Gastamos nossa vida,
pedra engastada.

O futuro se tornou fumo.
Não investimos,
não construímos
e tudo passou.

Ficou apenas um reflexo dourado,
consequência da vista cansada.

Beleza estéril.
Miséria dourada.

sábado, 5 de dezembro de 2009

A ESSÊNCIA DO FLU

Hoje termina o brasileirão.
O campeonato tornou-se inusitado porque pela primeira vez na história as atenções estão voltadas para a parte debaixo da tabela. A grande incognita é: quem vai cair?
A decisão do campeonato perdeu a graça. Só um milagre tira do Flamengo a taça.
A decisão hoje no Maracanã tem cheiro de comemoração e não de disputa.
Já Botafogo, Fluminense e Curitiba tornaram-se o epílogo do campeonato.
Cabem a eles o lance final, a última disputa, o veredito.
E se vocês pensarem bem, o brasileirão só adquiriu esse brilho final graças ao Fluminense. Coube a ele a grande surpresa: o milagre da ressucitação.
Nem mesmo o Fla que acabou atropelando no final, pode ser visto como uma zebra. O seu crescimento foi gradativo. Nem mesmo quando o Palmeiras e o São Paulo estavam na frente, podia-se descartar o rubro negro. Ele sempre teve chances matemáticas para chegar aonde está hoje.
Já o Flu... É o imponderável. Todos já o consideravam morto.
A sua reação foi desesperadora.
O último jogo no Maracanã pela Sul-americana foi a mais pura expressão do FLU no brasileirão: a luta contra o tempo.
Era preciso fazer 4 gols e o tempo passava.
Essa sensação, todo torcedor do FLU conhece bem.
O goleiro fazendo cera, o juiz fazendo cera e o tempo passando.
É desesperador.
E vem a pergunta:
vamos morrer na praia de novo?
Essa pergunta só vamos poder responder daqui algumas horas.
Mas pra mim já valeu e termino aqui a saga tricolor.
Ao final da partida com o LDU, o time foi apaudido.
A gente sabe que essa é a essência do FLU.
Na nossa história nunca tivemos um time de craques absolutos. Essa história é de Flamengo, Santos e Botafogo.
A nossa história é de guerreiros, não de craques (eu já falei no tópico anterior que não curto gênios).
Por isso que sempre cito os nomes de Samarone, Castilho e Pinheiro.
Estava no Maracanã, naquele fatídico jogo com o Botafogo em 1971. Botafogo de Jairzinho e Paulo Cesar Caju (craques absolutos). Bastava o empate para que o alvi-negro fosse campeão estadual e aos 43 minutos Lula fez o gol do título tricolor.
Essa é a nossa essência.
O jogo de logo mais no Couto Pereira vai ser duríssimo.
Seja qual for o resultado, vamos pro campo de batalha como gerreiros.
É a nossa essência.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O INTUITIVO GENIAL

Outro dia, eu conversava com um “moderninho” e me reportava às músicas de um vanguardista reconhecido do underground. Esse compositor era um “intuitivo genial”. Não tinha nenhuma noção de teoria musical e no entanto se metia a construir arranjos arrojados, ligados ao serialismo e à música contemporânea. A questão é que como o nosso “compositor genial” não dominava a técnica, os seus arranjos de um modo geral naufragavam e não conseguiam dar corpo às suas idéias sempre “geniais”.

Diante da minha observação, o moderninho rebateu de pronto: mas não importa que os arranjos não dêem certo; pior seria se não houvesse falha, se não houvesse erro; pior seria se fosse uma composição perfeita e bem sucedida.

Deixei o moderninho e entrei no ônibus preocupado. Se o que vale é a idéia e não sua realização, então bastaríamos viver no reino abstrato, o que por si só eliminaria o sentido da arte.

Por outro lado, se o erro, a falha ou o defeito são mais importantes que a realização da idéia, pra que concebê-la? Bastaria que fôssemos levados ao sabor do acaso, o que significa também tornar-se escravo do acaso. Ser artista seria o mesmo que ser autômato.

Ou seja, segundo nosso moderninho, não há escapatória: ou é o reino absoluto das idéias ou sua ausência; no primeiro caso, eliminariam-se as técnicas e por conseguinte o mundo se tornaria invisível; no segundo caso, não haveria mais nenhuma interferência do Homem na natureza, o que significaria o retorno ao irracional.

São as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda negativa. Que nega o mundo e o destrói sem pôr nada no lugar. Um suicida ortodoxo, um Homem Bomba. Um nazista diante do Museu do Louvre, pronto a pôr tudo para os ares.

Contra essa ortodoxia, eu prefiro escrever minhas canções. E afirmar o mundo. E permanecer bem longe dos gênios. À propósito, me lembro da resposta de Caetano Veloso à Hermeto Pachoal, esse sim um gênio inconteste. A superioridade da música americana, em relação à brasileira, vem justamente do fato de não precisarem de gênios, não precisarem desses “intuitivos geniais”. Toda pujança da música americana é produto de uma educação. Afirmar o “intuitivo genial” é de uma certa forma ser cúmplice dos desmazelos do Estado e do seu descaso com a coisa pública. Nesse sentido, o “intuitivo genial” é tão conservador quanto o moderninho que o defende.