domingo, 31 de janeiro de 2010

ROBERTO PIVA



Eu soube através do blog do poeta Ademir Assunção, ESPELUNCA - http://zonabranca.blog.uol.com.br/
que o grande Roberto Piva não vai nada bem. Acometido de Mal de Parkinson, está no Hospital das Clínicas em São Paulo. Está havendo inclusive uma campanha para fazer doações em sua conta particular.
Abaixo um poema seu que está no livro PARANÓIA de 1963:


A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos

E para vê-lo falando sobre poesia:
http://www.youtube.com/watch?v=hS7nYQ0_WfM

CHORO TRICOLOR

Primeiramente, parabéns à urubuzada.

Mas esse post é de tricolor para tricolor.
Portanto, que não me ouçam os torcedores que não sejam FLU.
Vamos lavar roupa suja em casa.

É o seguinte: que jogo foi esse????
Diante do fiasco dos times pequenos, a derrota de hoje representa jogar a semifinal com o Vasco. Certo?
Ou seja: mil vezes pior do que pegar o Botafogo.
Ora, esse jogo de hoje era então importantíssimo. Certo?
E qual é o raciocínio da comissão tecnica?
Vamos poupar o Fred porque tem ainda muitos jogos pela frente (palavras do Cuca na entrevista coletiva).
Tudo isso por causa de um dedão do pé, ao qual ele nao deu muita importância no jogo contra o Duque de Caxias no meio da semana. Certo?
Ora, não era então mais importante poupá-lo nesse jogo do meio da semana, visando a sua recuperação para o Fla X Flu?
Me desculpem, mas eu não consigo entender.

Uma outra coisa: o time tricolor tá precisando de um psicólogo com urgência.
Eles precisam entender que segurar um resultado não é se acomodar em campo.
O exemplo com o Coritiba diz isso: segurar um resultado é dar o sangue.
Claro que a torcida do urubu faz diferença e no segundo tempo o Fla passou a atacar aonde a torcida estava.
Mas levarem dois gols permitindo facilmente o empate... no mínimo a atitude a tomar em seguida seria partir pra cima, o que não significa desguarnecer a defesa, e impor o seu ritmo pra recuperar a vantagem. Isso é o mínimo que se pode esperar de um time grande. Mas aí baixou o espírito de timinho - questão para psicólogos.
O time deu sinais que estava satisfeito com o empate. Aí foi fatal.

Claro, Maicon teve que sair (aliás, tá sempre metido em contusões). Julio Cesar não jogou nada. Fred, mais uma vez, nos faltou (diferentemente de Adriano que tá sempre presente). E essa prata da casa (Maicon e Alan) é ainda muito pouco para um time que em algumas situações precisa reverter o resultado.
Esse jogo era muito importante.
Ficou a sensação de mais uma frustração.

sábado, 30 de janeiro de 2010

A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO DO MAL

O Globo Esporte me formulou cinco perguntinhas às quais respondi brincando:

http://colunas.globoesporte.com/bolanascostas/2010/01/29/entrevista-2/comment-page-2/#comments

Mas é brincando que se falam as verdades, já dizia minha vó.
O interessante, porém, não foi nem as perguntas nem as respostas. O mais curioso foi os comentários.
Eu por exemplo sou apaixonado por comentários.
Leio todos, estejam eles no blog, no orkut, no myspace.
Se não fossem os comentários, a internet perderia o sentido.
O que escreveram, após as minhas respostas ao Globo Esporte, é a mais pura expressão do preconceito, da paixão, do humor e da mentalidade de uma sociedade. Longe de mim condenar esse tipo de expressão. Nunca ri tanto.
Prefiro essa espontaneidade ao pseudo-intelectualismo.
Daí porque curto tanto futebol.
Domingo vai ter um jogo importante aqui no Rio. Briga de cachorro grande.
Tentei comprar ingresso mas nao consegui.
A venda virtual continua cheia de problemas.
Vou tentar amanhã nas Laranjeiras (esse negócio da bilheteria fechar às 17:00 horas é outro problema). Além disso, Maracanã não vende mais em dias de jogos.
Mas acredito no FLU.
Começa amanhã a decadência do Império do Mal.

domingo, 24 de janeiro de 2010

THE LOVE SONG - NICK CAVE

Palestra de Nick Cave, Viena - 25/12/1999
“The Love Song”

Senhoras e senhores,
Ser convidado para vir aqui e ensinar, palestrar, difundir o conhecimento que tenho recolhido sobre poesia, sobre escrever canções me deixou com uma série de sentimentos contraditórios. A mais forte, mais insistente dessas preocupações, meu falecido pai que era um professor de literatura inglesa na escola que estudei na Austrália.

Eu tenho memórias muito claras de quando tinha doze anos, sentado como vocês estão agora, numa sala de aula, assistindo meu pai que estaria de pé aqui onde eu estou, e pensando sobre mim mesmo, melancólico e miserável, por, no geral, eu ser uma criança melancólica e miserável: “Realmente não importa o que eu faço da minha vida enquanto eu não acabar (sendo) como o meu pai”. Aos quarenta anos de idade parecia que praticamente não existia qualquer ação minha que não me fizesse chegar mais perto dele, que não me fizesse mais parecido com ele. Aos quarenta anos eu me tornei meu pai. E aqui estou eu lecionando.

O que eu quero fazer aqui é conversar um pouco sobre a Love Song, falar sobre minha aproximação pessoal com esse tipo de composição que eu acredito que seja o centro da minha busca artística particular. Gostaria de me debruçar sobre algumas outras obras, que, por qualquer motivo, penso que são sublimes realizações nesta mais nobre das perseguições artísticas: a criação da grande canção de amor.

Olhando para trás, nestes vinte anos, prevalece uma certa clareza. Entre o caos e a loucura, eu parecia dar murros num tambor particular. Vejo que minha vida artística é centrada numa tentativa de articular a natureza de um sentimento quase palpável de perda que estabeleceu a alegação da minha vida. Um grande buraco explodiu o meu mundo pela morte inesperada do meu pai quando eu tinha dezenove anos de idade. O jeito que aprendi a preencher esse buraco, esse vazio, foi escrever. Meu pai me ensinou isso como se me preparasse para sua própria morte. Escrever me permitiu acesso direto à minha imaginação, inspiração e em última instância a Deus. Achei através do uso da língua que eu escrevi, que Deus existia. A língua se tornou o cobertor que eu joguei no homem invisível, dando forma a ele. A atualização de Deus através da Love Song continua minha motivação principal como artista. A Love Song talvez seja o mais verdadeiro e mais distintivo dom humano para reconhecer Deus e um dom que Deus precisa. Deus nos deu esse dom de falá-lo e cantá-lo vivo porque Deus vive dentro da comunicação. Se o mundo fosse ficando silencioso repentinamente Deus seria desconstruído e morreria. Jesus Cristo disse em uma de suas citações mais bonitas: “Onde houver dois ou mais reunidos, eu estarei no meio de vocês”. Ele disse isso porque onde houver duas ou mais pessoas reunidas haverá fala.

Achei que a linguagem se tornou um cataplasma para os ferimentos sofridos pela morte do meu pai. A língua se tornou o remédio para a ânsia. Embora a Love Song tenha várias formas - sons de louvor, sons de raiva e desespero, sons eróticos, sons de abandono e perda - todos eles são destinados a Deus, para as premissas de ânsia que a verdadeira Love Song habita. É um grito no vazio, por Amor e por conforto e isso vive nos lábios de uma criança chorando por sua mãe. É uma música de um amante que precisa de sua amada, a vibração do louco, suplicante pedindo por seu Deus. É o choro encadeado pela terra, pelo ordinário e pelo mundano, desejando voar; um vôo dentro da inspiração e da imaginação e divindade. A Love Song é o som de nossos empenhos para nos tornarmos parecidos com Deus, para nos erguermos acima dos limites terrenos e do que é medíocre.

A perda do meu pai, eu acho, criou um vácuo na minha vida, um espaço em que minhas palavras começaram a flutuar e coletar e encontrar seus efeitos. O ótimo W.H. Auden disse: “A chamada experiência traumática não é um acidente, mas a oportunidade que as crianças têm esperado pacientemente - não tendo isso ocorrido, terão de encontrar outra - a fim de que sua vida se torne um assunto sério”. A morte do meu pai foi uma “experiência traumática” como Auden disse, do buraco deixado por Deus para ser preenchido. Como é bonita a noção que nós criamos para nossas catástrofes pessoais, nossos instrumentos de criação para isso são as forças criativas dentro de nós. Cada um de nós tem a necessidade de criar e a tristeza é um ato criativo.

A Love Song é uma música triste, é o próprio som da tristeza. Todos nós experimentamos dentro de nós o que os portugueses chamam saudade, que se traduz como uma sensação inexplicável de ânsia, algo sem nome, um anseio enigmático da alma. E isso é o sentimento que vive nos domínios da imaginação e da inspiração, solo fértil para a música triste, para a Love Song, é a luz de Deus, lá no fundo, soprando através das nossas feridas.

Na sua palestra brilhante intitulada “The Theory and Function of Duende”,Frederico Garcia Lorca tenta lançar alguma luz na misteriosa e inexplicável tristeza que vive no coração de certas obras de arte. “Tudo onde há sons escuros há um quê de duende”, ele disse, “cujo poder misterioso todos sentem, mas nenhum filósofo pode explicar”. No rock contemporâneo, a área em que eu trabalho, a música parece pouco inclinada a ter em sua alma, inquieta e estremecida, a tristeza falada por Lorca. Excitação, muitas vezes; raiva, algumas, mas tristeza real, raramente. Bob Dylan sempre teve isso. Leonard Cohen promovia isso especificamente. Prossegue Van Morrison como um cachorro preto e embora ele tente, não pode fugir dela. Tom Waits e Neil Young podem citá-la. Ela assombraPolly Harvey. Meus amigos no Dirty 3 têm isso como carga pesada. A banda Spiritualized é louca por isso. Tindersticks querem-na desesperadamente, mas em todos pareceria que o duende é tão frágil para sobreviver à brutalidade da tecnologia e na sempre crescente aceleração da indústria musical. Talvez não haja dinheiro na tristeza, não haja dólares no duende. Tristeza ou duende precisam de espaço para respirar. Melancolia odeia perdas e flutua no silêncio. Isso deve ser manuseado com cuidado.

Toda canção de amor deve conter duende. Para a Love Song nunca se é totalmente feliz. Deve começar abraçando o potencial de dor. Essas músicas que falam de amor sem uma dor ou suspiro em seus versos não são músicas de amor, são todas músicas de ódio disfarçadas de amor, não se deve acreditar nelas. Essas músicas negam nossa humanidade e o direito que Deus nos deu de sermos tristes e as ondas de ar são cheias delas. A Love Song deve ressonar como um sussurro de tristeza, os sinos soando luto. O escritor que se recusa a explorar as regiões mais escuras do coração nunca será capaz de escrever algo convincente sobre a maravilha, a mágica e a alegria do amor, assim como a bondade não pode ser confiada a alguém que já respirou o ar do mal - a metáfora resistente de Cristo crucificado entre dois criminosos vem à mente aqui - tão dentro do tecido do Love Song, dentro de sua melodia, sua letra, tem um sentido, um aviso de sua capacidade de sofrer.

Na música notável de Lou Reed “Perfect Day” ele escreve como em forma de diário os eventos que combinados fazem um dia perfeito. É um dia que vibra com a beleza nítida do amor, onde ele e sua amante sentam no parque e bebem sangria, alimentam animais no zoológico, vão ao cinema etc. Mas são as linhas que espreitam a escuridão no terceiro verso, “eu achei que fosse alguém, alguém bom” que transformam essa música sentimental de outra maneira em uma obra-prima de melancolia que é. Não só essas linhas doem com insucesso e vergonha, mas elas nos lembram em termos mais gerais de caráter transitório o amor a si mesmo - que ele terá o seu dia “no parque”, mas, como a Cinderela, deve voltar à meia-noite para a fuligem e as cinzas do seu mundo desencantado, de modo que ele deverá regressar ao seu antigo eu, seu eu ruim. É fora do vazio que esse som “aflora”, vestido de perda e ânsia.

Mais ou menos com vinte anos, eu comecei a ler a Bíblia e encontrei a prosa brutal do Velho Testamento, no sentir de suas palavras e no seu imaginário uma fonte interminável de inspiração. “The Song of Solomon”, talvez a maior canção de amor já escrita, houve um enorme impacto sobre mim. É de natureza abertamente erótica, a jornada metafórica tida entre o corpo dos amantes - peitos comparados a cachos de uvas e veados jovens, cabelos e dentes comparados a rebanhos de cabras e ovelhas, pernas como pilares de mármore, o umbigo, um cálice redondo, a barriga, um monte de trigo - sua imaginária escala nos remete a um mundo de pura imaginação. Embora os dois amantes estejam separados fisicamente - Salomão é excluído do jardim onde sua amada canta - são as selvagens, obsessivas projeções de um amante ao outro que os fazem um ser único, construído a partir de uma série extasiante de metáforas de amor.
“The Song of Solomon” é uma música de amor extraordinária, mas foi a série notável de canções de amor/poemas conhecidos como Salmos que me prenderam de verdade. Eu achei os Salmos, que lidam diretamente com a relação entre o homem e Deus, cheios de todo o desespero, ânsia, exultação, violência erótica e brutalidade que eu poderia esperar. Os Salmos são embebidos em saudade, encharcados em duende e banhados em uma violência de espírito sangrento. De muitas formas estas canções se tornaram o modelo para muitas das minhas canções de amor mais sádicas. O Salmo 137, meu favorito em particular, que foi transformado em um gráfico atingido pela banda Boney M é um exemplo perfeito de todos os que tenho vindo falar.

“Às margens dos rios da Babilônia, nós estávamos sentados lá
nós choramos, quando nós lembramos do Sião
Quando o mal nos traz de longe em escravidão
querendo de nós uma canção
agora como nós devemos cantar a canção do mestre numa terra estranha
Deixe as palavras de nossas bocas e as meditações de nosso coração
serem aceitáveis às suas vistas aqui hoje à noite
Às margens dos rios da Babilônia, nós estávamos sentados lá
nós choramos, quando nós lembramos do Sião
Às margens dos rios da Babilônia (escuras lágrimas da Babilônia)
Nós estávamos sentados lá (você tem que cantar uma canção)
Ye-eah nós choramos, (cante uma canção de amor)
Quando nós lembramos do Sião
Às margens dos rios da Babilônia (margens da Babilônia)
Nós estávamos sentados lá (você ouve as pessoas gritando)
Ye-eah nós choramos, (elas precisam de seu Deus)
Quando nós lembramos do Sião. (ooh, ter o poder)”

A Love Song deve ter nascido na área do irracional, absurdo, distraído, melancólico, obsessivo, o insano da Love Song é o barulho do amor e o amor é, claro, uma forma de loucura. Quer se tratando do amor de Deus, ou romântico, ou erótico - há manifestações da nossa necessidade de ser rasgado pelo racional, de sair de nossos sentimentos e então ser dito. Canções de amor têm muitos disfarces e são aparentemente escritas por várias razões - como declarações ou feridas - eu componho por todos esses motivos - mas ultimamente a Love Song existe para preencher, com a linguagem, o silêncio entre nós mesmos e Deus, para diminuir a distância entre o temporal e o divino.

No Salmo 137 o poeta encontra-se mesmo cativo num “país estranho” e é forçado a cantar uma canção de Sião. Ele jura seu amor à sua terra natal e sonhos de vingança. O Salmo é medonho em seus sentimentos violentos, assim como ele canta por amor à sua terra natal e seu Deus e ele pode se sentir feliz por assassinar os filhos de seus inimigos.

O que eu acho sempre na Bíblia, especialmente no Velho Testamento, era que versos de êxtase e amor poderiam guardar dentro de si sentimentos opostos - ódio, vingança, crueldade etc, eles não eram mutuamente exclusivos. Esta idéia já deixou uma impressão duradoura nas minhas composições.

Dentro do mundo da música pop moderna, o mundo que trata ostensivamente a Love Song, mas na verdade faz um pouco mais que arremessar creme cor de vômito de bebê pelos ares, a verdadeira tristeza não é bem-vinda. Mas de vez em quando uma música vem escondida por detrás de plástico descartável, letras de amor em proporções verdadeiramente devastadoras. “Better The Devil You Know” escrito pelos hitmakers Stock, Aitken e Waterman e cantada pela sensação pop australiana Kylie Minogue é uma dessas canções. A revelação do terror do amor num pedaço de estupidez, inócuo à música pop é um conceito intrigante. “Better The Devil You Know” é uma das músicas pop com letra de amor das mais violentas e angustiantes.

“Melhor que o diabo, você sabe
Diga que não vai mais me deixar / Eu terei você de volta / Sem mais desculpas, não, não / Porque eu já ouvi todas antes / Cem vezes ou mais / Eu vou perdoar e esquecer / Se você disser que nunca irá / Porque é verdade que eles falam/ Melhor que o diabo você sabe / Nosso amor não era perfeito, eu sei / Eu disse que eu sei o placar / Você diz que me ama, garoto/ Eu não posso pedir mais / Eu irei caso você me chame / Eu estarei lá todos os dias / Esperando seu amor aparecer / Porque é verdade o que eles falam / Melhor que o diabo você sabe / Eu terei você de volta / Eu terei você de novo”

Quando Kylie Minogue canta essas palavras há uma inocência na voz dela que faz o horror dessa letra picante ficar mais atraente. A idéia apresentada dentro dessa música, escura e sinistra e triste, é que todas as relações de amor são de natureza abusiva e que o abuso, seja ele físico ou psicológico, é bem-vindo ou encorajado - mostra como sempre a mais inofensiva das canções de amor tem o potencial de esconder verdades humanas terríveis. Tal como Prometeu preso à sua pedra, de modo a que a águia pôde comer seu fígado toda noite, Kylie se torna o cordeiro de sacrifício trazendo um fervoroso convite para o lobo esfomeado que pode devorá-la sempre, no ritmo e na batida de techno. “Eu terei você de volta, eu terei você de novo”.

Realmente. Aqui a canção de amor se torna um veículo para um retrato angustiante da humanidade não diferente daquele dos Salmos do Velho Testamento. Ambos são mensagens de Deus que clama um bocejo no vazio, na angústia e na auto-aversão, para a entrega.
Como eu disse mais cedo, minha vida artística é centrada no desejo, ou mais especificamente, na necessidade de articular vários sentimentos de perda e angústia que tem apitado através dos meus ossos e zumbido em meu sangue, durante minha vida. No processo eu tenho escrito aproximadamente duzentas canções, a maioria das quais eu diria que eram canções de amor. E depois, por minha definição, canções tristes. Fora dessa massa de material considerável, um punhado delas se destacam de outras como exemplos verdadeiros de tudo o que eu disse. “Sad Waters”, “Black Hair”, “I Let Love In”, “Deanna”, “From Her to Eternity”, “Nobody’s Baby Now”, “Into My Arms”, “Lime Tree Arbour”, “Lucy”, “Straight To You”. Eu tenho orgulho dessas músicas. Elas são minhas melancólicas, violentas, crianças de olhos escuros. Elas sentam sozinhas tristemente e não brincam com as outras músicas. Principalmente elas eram descendentes de gestações complicadas e de nascimento difícil e doloroso. A maior parte delas estão enraizadas na experiência pessoal direta e foram concebidas por uma variedade de razões, mas este grupo separado de canções de amor é, no fim, a mesma coisa - linhas da vida atiradas nas galáxias do divino por um homem afogado.
As razões pelas quais me sinto obrigado a sentar e escrever canções de amor são uma legião. Algumas delas se tornaram claras para mim quando eu sentei com um amigo meu, que a bem de seu anonimato vou me referir a ele como JJ, e nós admitimos um ao outro que ambos sofríamos com a desordem psicológica que a classe médica chama de erotografomania. Erotografomania é o desejo obsessivo de escrever cartas de amor. Meu amigo me disse que ele tinha escrito e enviado, nos últimos cinco anos, mais de sete mil canções de amor para sua esposa. Meu amigo parecia esgotado e sua vergonha era quase palpável. Eu sofro da mesma doença, mas felizmente ainda não alcancei o estágio avançado como meu pobre amigo JJ.

Discutimos o poder da carta de amor e descobrimos que era, não surpreendentemente, muito semelhante à da canção de amor. Ambas serviam como meditações estendidas a um ser amado. Ambas serviam para encurtar a distância entre o escritor e o destinatário. Ambas guardavam dentro delas a permanência e o poder que a palavra falada não tem. Ambas eram exercícios eróticos em si próprias. Ambas tinham o potencial para reinventar, através das palavras, como Pygmalion com sua obra criada na pedra, seu ser amado. Mas mais do que isso, ambas tinham o poder interior de encarcerar o ser amado, unir suas mãos com linhas de amor, amordaçá-los, cegá-lo; para as palavras se tornarem o parâmetro que mantém os entes ligados por uma corrente de poesia. Infelizmente, a forma de correspondência mais afetuosa, a carta de amor, assim como a canção de amor sofreram nas mãos da velocidade fria da tecnologia, com a negligência e a falta de alma da nossa era. Eu gostaria de analisar, finalmente, uma de minhas músicas gravadas no álbum The Boatmen’s Call. Essa música, sinto, exemplifica muito do que eu falei hoje. A música se chama “Far from me”.

“Longe de mim
Por você querida, eu nasci / por você eu cresci / por você eu tenho vivido e por você irei morrei / por você estou morrendo agora / Você era minha pequena amante louca / Num mundo onde todo mundo fode com qualquer um / Você quem esta longe de mim / Longe de mim / Tão longe de mim / De alguma forma atravessa algum frio mar neurótico / Longe de mim / Eu falaria pra você todo o sentido das coisas / Com um sorriso você responderia / Então o sol deixaria seu rosto lindo / E você retiraria da frente dos seus olhos / Eu continuaria ouvindo o que você faz de melhor / Eu espero que seu coração bata feliz em seu peito infantil / Você está tão longe de mim / Longe de mim / Longe de mim / Não há como saber, mas eu sei / Não há nada pra aprender naquela voz de férias / Que viaja comigo em toda linha / Do ridículo ao sublime / É bom ouvir que você está tão bem / Mas realmente você não pode encontrar alguém que você possa ligar e dizer / Você já / Se preocupou comigo? / Você sempre estará / Lá para mim? / Tão longe de mim / Você disse que ficaria do meu lado / Através do espesso e do fino / Essas foram suas várias palavras / Minha amiga do tempo-justo / Você foi meu coração valente-amante / No primeiro gosto de problema correu de volta para a mãe / Tão longe de mim / Longe de mim / Suspensa no seu mar sombrio e sem peixes/ Longe de mim / Longe de mim”

“Far From Me” levou quatro meses para ser escrita, que foi a duração da relação que ela descreve. O primeiro verso foi escrito na primeira semana do caso e é cheia de drama heróico de um novo amor, uma vez que descreve a totalidade do sentimento, embora reconhecendo o potencial de dor. “Por você estou morrendo agora”. Isso estabelece os dois amantes e os coloca contra o descrito mundo insensível - um mundo que fode com todo mundo - e traz a noção de distância física sugerida no título. Estranhamente, porém, a canção, como se aguarda a “experiência traumática” de que falei há pouco acontecer, não iria permitir-se concluída até que a catástrofe tivesse ocorrido. Algumas músicas são delicadas como essa e é aconselhável manter o seu juízo sobre você quando se lida com elas. Acho que muitas vezes eu escrevo canções que parecem saber mais do que acontece na minha vida do que eu mesmo. Tenho páginas e páginas de versos para essa música, escritos enquanto a relação ainda navegava alegremente.

Um dos versos foi:

A camélia, a magnólia / Tem essa bela flor / E os sinos de St. Marys / Nos informam a hora.

Palavras bonitas, palavras inocentes, que desconhecem que qualquer dia o fundo seria abandonar o conjunto todo. Canções de amor que se ligam a experiências reais, que são a poetização de eventos reais, tem uma beleza peculiar dentro delas. Elas ficam vivas da mesma forma que as memórias ficam, elas crescem e sofrem mudanças e se desenvolvem. Uma canção de amor como “Far from me” encontrou uma personalidade além daquela que eu dei originalmente. Com o poder de influenciar os meus sentimentos reais ao redor do próprio evento. É uma coisa extraordinária e um dos benefícios maravilhosos e reais de compor. As canções que eu escrevi e que lidam com relações passadas se tornaram as próprias relações. Além dessas canções eu me tornei capaz de mitologizar os eventos comuns da minha vida, levantando-os a partir do plano temporal e arremessando-os para as estrelas. A relação descrita em “Far from me” se foi, mas a canção vive, continua pulsando através do meu passado. Essa é a beleza singular de compor músicas.

Vinte anos de composição se passaram e o vazio ainda continua bem aberto. Ainda há uma tristeza inexplicável, o duende, a saudade, o descontentamento divino persiste e talvez ele vai continuar até eu ver o rosto de Deus. Mas quando Moisés desejou ver o rosto de Deus, Êxodo 33 - 188, ele respondeu que não podia suportar, nenhum homem pode ser seu rosto e viver. Bem, eu, não me importo. Estou feliz em ser triste. Para o resíduo expresso em off nessa pesquisa, as minhas músicas, minhas crianças remoídas de olhos tristes, reunidas do seu jeito, me protegem, me confortam e me mantém vivo. Elas são as companheiras da alma que é levada ao exílio, que salvam o superpoder ansiado pelo que não é desse mundo. Os desejos imaginários se alteram por meio da escrita da Love Song, um senta e janta com perda e ânsia, loucura e melancolia, êxtase, magia, alegria e amor com igualdade de respeito e gratidão. A busca espiritual tem muitas faces - religião, arte, drogas, trabalho, dinheiro, sexo - mas raramente faz a busca servir a Deus tão diretamente e raramente as recompensas são tão grandes em fazer isso.

Obrigado.

Nick Cave

THE BOATMAN'S CALL



João Gilberto é repetitivo? Uma velha fórmula que não se renova? Ou é criador de um estilo que será reafirmado a cada novo disco?
Pensei em João Gilberto como poderia ter pensado em Tom Jobim, Tim Maia, Arrigo Barnabé, Bob Dylan ou mesmo Nick Cave.
Nesse último caso, com mais de trinta anos de atividade, o questionamento acima sofre um acréscimo. Além da acusação de repetitivo, existe uma outra: Nick Cave comete um desvio que, para alguns, é imperdoável.

O australiano, após um início desorientador e original, seja com o The Boys Next Door, sua primeira banda, seja com o Birthday Party, e mesmo com o The Bad Seeds em seus primeiros discos, cometeria depois, segundo alguns xiitas de plantão, um desvio inexplicável: da cacofonia para o convencional.

The Good Son é um marco decisivo: gravado no Brasil em 1990 no estúdio Cardan em São Paulo, onde passa a residir, o disco abandona sua estética pós-punk e investe numa sonoridade mais melódica e convencional, onde o piano passa a ter grande importância.

Esse é o marco decisivo: é quando a canção substitui o som vanguardista e industrial de seus primeiros anos (não podemos esquecer a importância do guitarrista alemão Blixa Bargeld, oriundo da banda alemã Einstuzend Naubauten, para a formatação do som de Nick Cave em seus primeiros discos).

Diante desse desvio, houve quem fizesse cara feia para as baladas de Cave. Mas The Good Son, se foi o início da mudança, não foi ainda o seu auge. Logo em seguida, com Henry’s Dream, o som volta a ficar pesado e depois em Let Love in as canções reaparecem e dão o seu tom. Com Murder Ballads, seu disco mais conceitual, sobre mortes e assassinatos, Cave volta a ficar pesado, ainda que consiga obter neste uma mistura harmoniosa de peso e melodia. E por fim, The Boatman's Call, quando o estilo da canção se cristaliza. Esse trecho de sua carreira, entre The Good Son e The Boatman's Call, é o que me chama mais a atenção não só porque é o seu momento de transição como também porque a mudança de um disco a outro, ora mais pesado, ora mais suave, longe de denotar decadência ou insegurança, vai dar sentido a sua obra. Basta lermos a palestra que proferiu em 1999, Viena, dois anos após The Boatman's Call (para ler a palestra, consultar o próximo post).

II


“Canções de Amor” é o seu título. Um texto perturbador porque se não põe em cheque os seus primeiros anos, ao menos lhe dá um novo sentido. Sobretudo nos dá a idéia de uma longa caminhada até desembocar em The Boatman's Call, quando seu estilo se cristaliza.

Alguns pontos chamam a atenção nesse texto: o fundo da canção de amor é a tristeza; a canção de amor é a base de sua busca estética; a canção de amor não se coaduna com o barulho, preferindo a este o silêncio.

Claro que, mesmo no rock, Cave relaciona nomes que trouxeram essa marca para suas criações, sobretudo Dylan e Lou Reed. Mas o que mais sobressai em seu estudo é quando tenta delinear a estrutura da canção de amor: a comunicação entre duas pessoas, mesmo que, muitas vezes, seja uma comunicação impossível

Esse caráter dual é que vai impedir a univocidade e é o que vai conceder complexidade às canções de amor. Sua análise de “Perfect Day”, de Lou Reed, é um exemplo. Por trás de um dia feliz com sua namorada, a constatação de que ele é um homem ruim – essa simples frase pondo em questão todo o seu “perfect day”.

O Velho Testamento, seja nos salmos, seja na Canção de Salomão, outra fixação de Cave, vai trazer a idéia de que essa comunicação através da linguagem é a própria atualização de Deus.

As cartas passam a ter nesse contexto grande importância; os fatos ocorridos, idem. As tão propaladas estórias de Cave são na verdade alguém contando algo para alguém. E esse processo de contar é tecido na distância, no espaço vazio através do qual uma ponte é construída.

A idéia de ponte carrega em si uma transição, uma passagem, que a música de Cave expressa. E parte-se do real mais concreto: a carne, os cabelos negros, os olhos verdes, a linguagem de bas-fond (numa visão macro de sua obra, os primeiros discos expressariam esse momento). Mas pra completar sua estilística, tem também a canção, sem a qual estaria eliminado o processo de comunicação da linguagem.

O que a palestra dada em Viena indica é que, sem um dos lados, o seu processo estético se esvazia. E longe de ser uma decadência, a canção é que completa seu ato inicial. Nesse sentido, The Boatman's Call tem a importância de completar um gesto.


III


“Eu não acredito em um Deus intervencionista” é a frase que inicia “Into My Arms”, primeira música de The Boatman's Call. Um Deus intervencionista aboliria a complexidade de um gesto livre. Deus participa iluminando o caminho, mas quem empreende o ato da caminhada, da amada em direção ao amante, não é Deus. Aqui estão presentes duas dimensões que se interpenetram e concorrem juntos para o gesto.

Em Lima Tree Arbour, novamente uma duplicidade: a mão da amada e a mão de Deus. Em People Ain’t no Good, o véu da noiva é agora a cortina que o vento balança. Em Where we go now but nowhere, dirigindo-se a sua ex-amada com um pungente refrão – “acorda, amor”, fala-se de algo concreto, facilmente localizável – no caso, o romance com a brasileira Viviane Carneiro, seu filho Lucas e o Brasil. Cave parte de algo bem referente para transformá-lo em poesia, tendo sempre um interlocutor. É o caso também de Idiot Prayer e Far from Me. Mas esse interlocutor está ausente: ou morto (Brompton Oratory, Idiot Prayer) ou ausente (Where do we go now but nowhere).

Diante de um acontecimento traumático (a morte ou a separação) é que a linguagem tece sua relação impossível. “São linhas de vida atiradas nas galáxias do destino por um homem afogado”, afirma Cave.

Essa ponte no abismo é a melhor metáfora para The Boatman's Call. Erótico e espiritual ao mesmo tempo, optando mais pelo silêncio que pelo esporro, e fazendo transparecer uma tristeza ao fundo que é o duende de Garcia Lorca.

Afirmar esse disco, numa época em que se fala de alegria a torto e a direito, é optar conscientemente pela contramão da nossa velha e boa MPB. É também um gesto contra os xiitas de plantão, que só enxergam a ruptura.

sábado, 23 de janeiro de 2010

ASAS DO DESEJO

Quando esse filme estreou no Brasil foi que eu o conheci.
Referência absoluta.
Nesta cena, ele aparece cantando duas músicas.
No próximo post eu falo dele e de mais um disco essencial.
Completo assim minha trilogia.
http://www.youtube.com/watch?v=MP1dbtho6ew

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

EXCESSÃO

Eu sou excessão:
um excesso grande
e uma exceção.

Difícil de ser escrito.
As duas coisas juntas:
um excesso grande
e uma exceção.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

MÚSICA INÉDITA - ARQUIVO LIBERADO

Uma coisa rara na minha carreira é musicar um poema.
Esse é um excessão.
Chama-se COGITO e é do Torquato Neto.
Apresentei essa parceria póstuma dentro de um projeto chamado BENDITOS MALDITOS, que reunia Luís Carlos Maciel, eu e Jorge Mautner.
Faz tempo.
Nos apresentamos no Café Laranjeiras, aqui no Rio (já não existe mais).
E em São Paulo, no Teatro Hall (também já não existe mais).
Nessa época, Mautner se apresentava com o cantor Celso Sim, que eu nao sei mais aonde está, e com seu fiel escudeiro Nelson Jacobina.
Nessa música inédita, nunca gravada em disco e nunca apresentada em shows, Alexandre Guichard é quem me acompanha no violão:
http://www.mediafire.com/?z2wmmozgkg2

domingo, 17 de janeiro de 2010

SÁTIRA MENIPÉIA


O livro “Rabelais e Joyce – três leituras Menipéias”, de Elide Valarini Oliver, Atelier Editorial, traz à tona a sátira menipéia e discute sua tradição, que vem do Império Romano, chega ao Renascimento via Rabelais, passa por Sterne e Swift, e se estende até ao modernismo com James Joyce.

No post sobre Oswald de Andrade, http://godardcity.blogspot.com/2009/09/serafim-ponte-grande.html#links chego a discutir a recepção crítica da obra de Oswald, mais especificamente Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande – uma recepção problemática, tendo em vista o hibridismo da prosa experimental de Oswald. O próprio Antônio Cândido mostra inicialmente um desconforto, principalmente com Serafim Ponte Grande, acostumado como estava ao gênero romance, o que o fez deferir algumas críticas, rebatidas mais tarde por Haroldo de Campos.

Elide argumenta que a sátira menipéia sofreu em toda sua história o mesmo tipo de resistência. Ainda que a autora, em nenhum momento de seu estudo, não faça menção às duas prosas experimentais de Oswald, o que me parece injustificável, tanto “Macunaíma” quanto “Memórias Póstumas de Brás Cubas” serão lembrados como exemplos nacionais do gênero.

Entre as características mais marcantes dessa sátira, estão: o cômico; a liberdade de invenção filosófica e temática, sem restrições históricas, o que vai gerar peripécias fantasmagóricas; o uso da paródia e da linguagem de bas-fond (bathos); lugares inusitados e paralelos em razão da falta de restrição histórica ou temporal; a sátira, com o uso tanto da linguagem de bas-fond quanto da linguagem falsamente elevada; o fantástico experimental, em razão da falta de restrição espaço-temporal; elementos de utopia social em razão do fantástico e da crítica à sistemas filosóficos; vivência de experiências extremas, sejam elas psicológicas, psíquicas ou morais – o que é o caso das Memórias de Brás Cubas, escritas post mortem; o uso de paradoxos contra as normas estabelecidas e contra a literatura de bom tom; e o uso sistemático de gêneros intercalares – poesias, prosa, cartas, discursos, desenhos...

À essas características, que a autora credita à classificação de Bakhtin, Élide acrescenta o grotesco e a ciclicidade, seja ela temporal, mitológica ou temática.

Essas duas características acrescidas pela autora, corresponderiam à ética da linguagem em luta contra os clichês e a ideologia, respecttivamente o lado passivo e ativo da linguagem estereotipada e habitual.

Enquanto o grotesco expressa o mundo das imagens, produzindo uma deformação fragmentada, o mítico com sua ciclicidade anseia a totalização sem restos, a amplificação cósmica e universal.

Seriam então ambos, opostos que se complementam, o mundo das imagens e dos movimentos: a sátira, a produzir seus demônios pela técnica do gigantismo que o grotesco vai utilizar, exerce uma função negativa (ela corrói o mito e o traz “sub specie temporis nostri”, isto é, num novo contexto e dessa forma sob uma transgressão – essa seria a dívida que o pós-modernismo contraiu com as experiências do modernismo); e a poesia, que resgata o SER do velamento a que esteve submetido pelo uso habitual da linguagem; enquanto o primeiro parodia o mito, o segundo o reconstrói.

Ulysses e Finnegans Wake certamente são dois exemplos de sátira menipéia, ainda que não possamos esquecer que no primeiro caso prevalece a fragmentação dos modelos pela ironia e, no segundo, a reconstrução do mito pela linguagem.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

MAIS CURITIBA

As pessoas falam que Curitiba é artificial.
Mas uma terra que produziu Paulo Leminski não pode ser artificial.
A minha estadia lá até hoje ecoa.
Pra quem curte Stop Motion, aí vai o trabalho que a galera de lá produziu com a música "Moto-Serra":
http://www.youtube.com/watch?v=RgbquGTw5zo

E pra produtora DESTILARIA, meus cordiais cumprimentos. Me levaram para um Ferro-Velho, ou coisa que o valha, e gravaram um clipe com a música O MEU PAU FICA DURO. A forma como foi feita a gravação, sem nenhuma preocupação com figurino, sem eu poder escutar direito o violão, e no meio do barulho que aquele galpão fazia... cara, nao acreditei quando vi o resultado. Se toparem, meu próximo clipe é deles.
http://destilaria.tv/tubodeensaio/tubo-de-ensaio-rogerio-skylab/

CORK

Frank O'Connor estava com James Joyce no apartamento deste e toca a moldura de um quadro na parede. O'Connor pergunta a Joyce o que é aquilo e Joyce responde: Cork. O'Connor replica que sabe muito bem que a fotografia no quadro é Cork porque nasceu lá e reconhece sua própria cidade na Irlanda, mas quer saber o material da moldura do quadro e Joyce responde: Cork (cortiça)

DEIXA FICAR

O então secretário de James Joyce, o recém-chegado de Dublin, Samuel Beckett, estava escrevendo, certo dia, o que Joyce lhe ditava do Finnegans Wake, quando alguém bateu à porta e Joyce disse "come in" (entre). Beckett que não ouvira a batida, escreveu "come in" como se fosse parte do que Joyce lhe ditara; um pouco depois releu a Joyce a parte até então escrita e este estranhou o "come in" ali no meio do texto, perguntando a Beckett o que era aquilo. - "É o que você ditou", respondeu Beckett. Joyce pensou por algum tempo e, percebendo que Beckett não ouvira a batida da porta, disse: - "Deixa ficar". E Beckett escreveu: "deixa ficar".

sábado, 9 de janeiro de 2010

LEITURA DE POEMAS

Quando estive em Curitiba em dezembro, me apresentei no "Rádio Kaos" e li alguns poemas (sei que essa leitura foi gravada e seria maravilhoso que tanto eu quanto vocês pudessem ter acesso a essa gravação; se a galera do Rádio Kaos pudesse mandar esse material, eu poderia colocar aqui no blog). Mas conversando com eles depois, eu me mostrava admirado como aqui no Brasil não se investia na gravação de cds com leituras de poemas. Imaginem se existisse um cd com Carlos Drummond de Andrade lendo seus melhores poemas; outro cd com João Cabral lendo os seus; um outro com Mario Quintana; outro com Haroldo de Campos... e por aí vai. É lamentável que nenhuma gravadora de porte tivesse tido essa idéia. Não precisaria ser uma tiragem grande. Mas com a devida publicidade, esse investimento teria retorno. Enfim, nossos grandes poetas morreram e isso não foi feito. Mas pelo que pude constatar, o Rádio Kaos, lá de Curitiba, tem um acervo invejável. Nunca é tarde.

Aqui no Rio, o CEP 20000 devia pensar seriamente em gravar a participação dos poetas e formar o seu acervo, a exemplo do Rádio Kaos.
Tavinho Paes e seu Action Group tiveram a iniciativa de gravar o último CEP 20000 em homenagem a Mario Bortolotto.
E aí vai a gravação da minha participação:
http://www.youtube.com/watch?v=H_nYzI3APsk

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

POEMA PARA SER REPETIDO VÁRIAS VEZES EM VOZ ALTA

No princípio era o trocadilho,
depois o riso patético,
depois o verbo,
depois me levantei e fui até à janela,
depois liguei a TV,
depois desliguei,
depois abri a gaveta e vi meu 38,
depois fechei os olhos,
depois olhei a foto na penteadeira,
depois caí em si,
depois me levantei e fui até à janela,
depois rocei a pica no parapeito da janela,
depois liguei a TV,
depois abri a gaveta e peguei meu 38,
depois atirei,
depois atirei de novo,
depois morri,
depois abri a geladeira e peguei uma coca-cola,
depois fui ao banheiro e caguei,
depois olhei,
depois puxei a válvula,
depois eu,
depois nem,
depois pensei: fodeu,
depois dei,
depois já é,
depois um cigarro,
depois outro,
depois mais outro,
depois repeti,
depois repeti o que repeti,
depois repeti o que repeti do que repeti,
depois parei,
depois olhei a foto,
depois caí,
depois me levantei e fui até à janela,
depois apaguei a luz,
depois fiquei nu,
depois falei mamãe,
depois Beckett,
depois traí,
depois distraí,
depois você sabe,
depois continuei,
depois parei,
depois voltei ao princípio.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O MEU DIÁRIO DE SINTRA

O que me levou a assistir ao filme de Paula Gaetan, Diário de Sintra?

Voltando aos idos de 80, mais exatamente 1982, a música me era uma realidade distante. Eu cursava Letras na UFRJ e tinha poucos anos de Banco do Brasil. Encarava naquela época a possibilidade de abandonar o Banco. E nas férias de julho parti pra minha primeira viagem à Europa.

Passei 15 dias em Lisboa, 10 em Paris e retornei à Lisboa, permanecendo lá mais 5 dias.

Foi na terrinha que conheci Sintra. E o meu encontro com essa localidade teve como origem a morte de Glauber Rocha. Pela janela de um ônibus li a manchete do jornal, referindo-se a sua morte. O jornal estava exposto numa banca e meu intuito foi descer do ônibus e comprá-lo. Tinha visto há bem pouco tempo “A Idade da Terra”, provavelmente seu filme mais complexo e que me tornou um fã ardoroso de seu trabalho.

Pra minha surpresa, descobri que Glauber estava morando em Portugal e bem pertinho de onde eu estava. Ao retornar ao Brasil, ele já estava nas últimas.

Não pensei duas vezes: rumei pra Sintra de trem e encontrei um lugarejo cercado de castelos.

Viajar sozinho é triste mas tem lá suas conveniências. Uma delas é que não tem ninguém ao seu lado fazendo você dividir sua atenção. Tudo que via era com intensidade porque estava só: um belo rapaz na plataforma de trem lendo Sartre; a praça principal de Sintra e uma confeitaria com as mesas no lado de fora; o hotel também na praça, onde teria Glauber vivido seus últimos dias...

A temperatura era agradável. Sentei-me numa mesa ao lado da que estava um jovem. Tinha um ar melancólico. Parecia um existencialista.

Tentei puxar conversa em vão. Ele pouco respondia. Resolvi então apelar e disse que era jornalista brasileiro e que vinha apurar os últimos dias de Glauber.

“Glauber foi assassinado”. Essa era a sua tese: uma assassinato metafórico. Seu nome: Carlos Pinto. Trabalhava com som para cinema e foi um custo fazê-lo se abrir. Também quando pôs-se a confiar, abriu até a porta de sua bela casa. Apresentou-me à João Fonseca e Costa, diretor português e amigo de Glauber. Levou-me até João Ubaldo, que na época morava em Lisboa. E eu sempre com o meu álibi de entrevistá-los para uma reportagem fictícia, tendo como tema Glauber.

Eu e Carlos Pinto nos tornamos grandes amigos. No meu retorno ao Brasil, fez questão de levar-me até o aeroporto e me imbuiu da missão de entregar à Paula, mulher de Glauber, uma carta. Acho que foi João Fonseca e Costa que a escreveu.

Chegando ao Brasil, fui até Ipanema. Paula me recebeu, leu rapidamente a carta e comentou au passant que não retornaria à Sintra. Aquilo me sugeriu duas coisas: 1) os amigos portugueses a convidavam a retornar à Sintra, caso fosse esse o seu desejo; 2) Paula certamente tinha péssimas recordações do lugar (a julgar por sua expressão, considerava absurda a idéia de retorno).

Nunca mais soube de Paula, minha vida tomou outro rumo, abandonei a Faculdade de Letras e mergulhei de forma irreversível na Música. Passaram-se muitos anos e eis que me deparo com o Diário de Sintra em cartaz.

Ver o filme então passou a ser uma necessidade. Imaginei que voltaria a um tempo distante; que novamente sentaria nas mesinhas daquela confeitaria e que comeria um doce cremoso que esqueci o nome mas não o sabor; o rosto de Carlos Pinto já se tornava mais nítido – eu que nunca mais soube notícias suas; João Fonseca e Costa, que fez “Sem Sombra de Pecado”, a me dizer, em seu apartamento, que Glauber buscava nos militares brasileiros o mesmo comprometimento dos militares portugueses com a revolução (coisas de Glauber – “Golbery é o gênio da raça”).

Mas pra minha surpresa e decepção, o filme me disse muito pouco do que procurava encontrar. Apesar do belo elogio de Walter Salles estampado no cartaz, apesar das críticas favoráveis ao filme, e apesar de toda experimentação que Paula traz da vídeo-arte, ficou a sensação de um certo amadorismo.

Depois de Godard, Antonioni, Sganzerla, Bressane, Glauber, o experimentalismo certamente terá que dar andamento a essa tradição, o que nao significa imitá-la. Esse me parece o maior desafio dos “herdeiros” de Glauber: não torná-lo museu.

domingo, 3 de janeiro de 2010

PASSEANDO PELO GOOGLE

Como um flaneur em pleno século XXI, eu ia passeando pelo Google (só mesmo um vagabundo como eu) e descobri por acaso dois textos que me faziam referência e me impressionaram.
Raramente eu cito aqui esses textos por parecer auto-propaganda, mas esses valem a pena.
O primeiro é da Maria Luiza.
De estilo corrosivo, falou de escatologia. Texto livre, agressivo, poético. Lembrou meus primeiros discos, quando eu fazia questão de ressaltar meu confronto com a MPB. Hoje, confesso que é a fase que eu menos gosto. Atualmente quando ouço o SKYLAB II faço careta e não consigo chegar até o fim.
A Maria Luiza me contrapôs à Chico Buarque, Caetano e Djavan (a santíssima trindade da MPB). Só faço um adendo: entendo o espírito de sua análise, concordo em grande parte com ela, me envaideço em alguns momentos, mas eu adoro Chico, Caetano e Djavan.
De qualquer maneira, todo texto deveria ter a força de estilo que o dela tem.
Aí vai pra vocês conferirem:
http://atoouefeito.com.br/escatologia-musical.html

O segundo texto é do Limerson.
Aborda o meu show em Curitiba e fala de performance.
Já mencionei inclusive minhas desconfianças em relação a esse termo. Catalogar meu trabalho como performático é uma forma de reduzi-lo. É quase a mesma coisa que dizer: veja o show, não ouça o disco. Não gosto. Até porque se tivesse que hierarquizar as diversas etapas do meu trabalho, a composição certamente viria em primeiro lugar.
Mas a parte interessante do texto é quando ressalta a performance da banda. Confundir performance com papagaiada é foda. Cheguei a ler alguns comentários sobre a passividade, o desânimo, de meus músicos. Pois essa "passividade" é fundamental no meu trabalho, faz parta da performance, é "passividade" ativa. E isso o texto do Limerson captou.
Confiram aí:
http://limerson.blogspot.com/2009/12/o-que-engloba-performance-de-rogerio.html

sábado, 2 de janeiro de 2010

ENTONAÇÃO

Existe uma banda do cenário independente chamada “Macaco Bong”. Essa banda teve a feliz idéia de abrir mão do vocal. Esse power trio tornou-se marcante justamente por ser instrumental. Com isso, o “Macaco Bong” eliminou, numa só tacada, dois problemas espinhosos para as novas bandas: o texto e o (a)cantor(a).

A questão do canto nas novas bandas não advém necessariamente dos textos. Caetano Veloso por exemplo canta “tapinha não dói” e o transforma numa obra prima sem alterar o texto do funk carioca. O mesmo acontece com Zeca Baleiro cantando uma música do Charlie Brown Junior. A mesma música que na voz de Chorão é primária, com Zeca Baleiro toma novas cores e novos sentidos.

A questão então não é o texto e sim a forma de cantar. Eu diria: a forma de entoar.

A entonação nada tem a ver com afinação. Afinar ou desafinar é uma questão técnica e exterior à entonação. Uma pessoa pode aprender a cantar – independetemente de quem o faça. Já a entonação é puramente individual, não se aprende e não há nada mais revelador de quem canta do que sua entonação.

Ivete Sangalo e Cláudia Leite são capazes de transformar uma obra prima em algo corriqueiro e medíocre. E não porque cantam mal. A entonação de ambas é que é o problema.

A entonação portanto é reveladora e pode botar tudo a perder, por mais que o conceito do trabalho seja legal.

Acredito que esse tem sido um problema permanente das novas bandas. Bem recentemente, a OI FM, que se tornou um selo, alardeou aos quatro cantos a descoberta de uma nova banda. E na verdade, a referida banda tem uma sonoridade legal, mistura estilos inusitados como a polca e o ska, mas basta o cantor abrir a boca e tudo se esvai, tudo escorre pela ralo.

Bem fez o “Macaco Bong”.