Meus poemas cumprem o mesmo destino
que os de um poeta esquecido
cujos versos viraram ruínas.
E ele reconhece
o que antes era seu estilo:
buracos na superfície do texto;
zigue-zagues; non-sense.
Tudo isso ele reconhece
por trás do que restou.
A ruína faz vir à tona
o que já estava implícito.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
domingo, 18 de abril de 2010
ELA É LINDA
Ela é linda
e tem buço,
pêlo nas axilas,
nos braços, na bunda,
na barriga
e na virília,
pêlos pubianos
dentro do qual me perco
e não me encontro.
Mata densa e fechada.
Sem saída.
Pêlos negros
como um tufo envenenado,
onde a fera devora aos poucos
e sem nenhuma pressa
quem como eu,
curioso e mórbido,
adentra sua flora
exótica e tropical.
Quantas vezes não alentei
o ar livre,
escalando os pêlos eriçados do seu corpo?
E tal como um Sísifo,
após chegar quase ao topo,
escorregava e caía
e subia e caía
num movimento sem fim.
Desde então me encontro aqui,
em cativeiro.
E essa carta é como um poema
numa garrafa em alto mar.
Não deixem se levar pelo exótico.
Lutem contra o vício
(e lá vai a garrafa boiando
até chegar a praias desertas).
Na mata fechada do seu corpo,
pouca luz entra.
Um cheiro de mofo
advém de suas entranhas
cheias de fluidos.
Vez por outra
levanto os olhos
em direção a seu rosto
e rogo-lhe piedade.
Mas ela,
surda aos meus apelos,
se diverte com minhas sucessivas quedas.
Chego mesmo a pensar
que isso a excita,
tal o modo como sua pele se arrepia.
Ninguém diria pudesse ser verdade
o que venho passando todos esses dias.
É o final da minha vida,
minha última melodia.
E por um efeito retroativo,
faz todas as músicas serem parecidas
a esse hino de amor e perdição.
Ela é linda.
skylab/abr/2010
e tem buço,
pêlo nas axilas,
nos braços, na bunda,
na barriga
e na virília,
pêlos pubianos
dentro do qual me perco
e não me encontro.
Mata densa e fechada.
Sem saída.
Pêlos negros
como um tufo envenenado,
onde a fera devora aos poucos
e sem nenhuma pressa
quem como eu,
curioso e mórbido,
adentra sua flora
exótica e tropical.
Quantas vezes não alentei
o ar livre,
escalando os pêlos eriçados do seu corpo?
E tal como um Sísifo,
após chegar quase ao topo,
escorregava e caía
e subia e caía
num movimento sem fim.
Desde então me encontro aqui,
em cativeiro.
E essa carta é como um poema
numa garrafa em alto mar.
Não deixem se levar pelo exótico.
Lutem contra o vício
(e lá vai a garrafa boiando
até chegar a praias desertas).
Na mata fechada do seu corpo,
pouca luz entra.
Um cheiro de mofo
advém de suas entranhas
cheias de fluidos.
Vez por outra
levanto os olhos
em direção a seu rosto
e rogo-lhe piedade.
Mas ela,
surda aos meus apelos,
se diverte com minhas sucessivas quedas.
Chego mesmo a pensar
que isso a excita,
tal o modo como sua pele se arrepia.
Ninguém diria pudesse ser verdade
o que venho passando todos esses dias.
É o final da minha vida,
minha última melodia.
E por um efeito retroativo,
faz todas as músicas serem parecidas
a esse hino de amor e perdição.
Ela é linda.
skylab/abr/2010
terça-feira, 13 de abril de 2010
RICHARD RORTY

“O poeta é a vanguarda da espécie”. A pessoa que assim pensa e nos formula tal sentença é Richard Rorty, filósofo americano. Por que vanguarda da espécie? Seu pensamento é cristalino: o poeta é um gerador de metáforas; e as metáforas seriam instrumentos novos e melhores para lidar com o mundo. Para determinados fins que não estão pré-estabelecidos mas são diferentes de fins anteriores, se requer nova instrumentação ou novas metáforas. Mas quando essas novas metáforas geram teorias, elas se tornam literais. Será preciso então a geração de novas metáforas e assim continuamente. Ou seja, no início dessa cadeia está o poeta, antes mesmo do teórico ou do cientista. Daí a imagem de vanguarda que lhe é proposta.
Essa valorização da metáfora difere-se da metáfora romântica, que seria uma faculdade da imaginação, localizada no centro do Eu. Para os românticos, a metáfora tem um fim em si: é uma evolução para “a consciência de si”. Já para os positivistas e platônicos em geral, as metáforas são inúteis pois não representam o mundo. Segundo Rorty, ao contrário, é um instrumento para lidar com o mundo e não é teleológica – não tem um fim a ser cumprido. Ou seja, é uma evolução às cegas.
Deixo com vocês um trecho importante do livro “Contingência, Ironia e Solidariedade”, que define melhor esse conceito de metáfora. Ao menos servirá para que se pense duas vezes antes de se proceder à seguinte indagação: “o que você quis dizer com essa música?” A minha resposta tem sido sempre a mesma: “eu não quis dizer nada”.
“ Galileu, Hegel e Yeats, eram pessoas em cujas mentes se desenvolveram novos vocabulários, com isso equipando-as com ferramentas para fazer coisas que nem sequer eram imaginadas antes de se dispor dessas ferramentas. Para aceitar essa imagem, entretanto, precisamos ver a distinção entre o literal e o metafórico tal como Davidson a vê: não como uma distinção entre dois tipos de significados, nem como uma distinção entre dois tipos de interpretação, mas como distinção de usos conhecidos e não conhecidos de ruídos e marcas. Os usos literais de ruídos e marcas são aqueles que podemos manejar com nossas antigas teorias sobre o que as pessoas dirão em diversas ocasiões. Seu uso metafórico é o tipo que faz com que nos ocupemos com o desenvolvimento de uma nova teoria.
Davidson enuncia isso dizendo que não se deve pensar nas expressões metafóricas como dotadas de sentidos distintos de seus sentidos literais. Ter significado é ter lugar num jogo de linguagem. As metáforas, por definição, não o têm. Davidson nega, em suas palavras, “a tese de que, associado a uma metáfora, há um conteúdo cognitivo que o autor deseja transmitir e que o intérprete precisa aprender, se quiser compreender a mensagem”. A seu ver, jogar uma metáfora numa conversa é como interrompê-la de chofre, por tempo suficiente para fazer uma careta, ou tirar uma fotografia do bolso e exibi-la, ou para apontar para uma faceta dos arredores, ou esbofetear o rosto do interlocutor, ou dar-lhe um beijo. Jogar uma metáfora num texto é como usar grifos, ilustrações, ou pontuações, ou diagramações esquisitas.
Tudo isso são meios de produzir efeitos no interlocutor ou no leitor, mas não de transmitir uma mensagem. A nenhum deles é apropriado responder com “o que você está tentando dizer, exatamente?”. Se a pessoa quisesse dizer alguma coisa – se quisesse enunciar uma frase dotada de sentido -, é presumível que o tivesse feito. Em vez disso, porém, ela achou que seu objetivo se transmitiria melhor por outros meios. O fato de alguém usar palavras conhecidas de maneira pouco familiares – em lugar de tapas, beijos, fotos, gestos ou caretas – não mostra que o que ela diz deva ter um significado. A tentativa de declarar esse sentido seria uma tentativa de encontrar um uso conhecido (ou seja, literal) das palavras – uma frase que já tivesse lugar no jogo de linguagem – e afirmar que seria igualmente possível ficar com ele, mas o caráter não parafraseável da metáfora está justamente na inadequação de qualquer frase familiar desse tipo para o propósito que a pessoa tem.
Enunciar uma frase sem lugar fixo num jogo de linguagem é, como disseram com acerto os positivistas, enunciar algo que não é nem verdadeiro nem falso – algo que não é, nos termos de Ian Hacking, um “candidato a valor de verdade”. Isso porque ela é uma frase que não se pode nem confirmar nem infirmar, nem defender nem refutar. Pode-se apenas saboreá-la ou cuspi-la, mas isso não significa que, com o tempo, ela não possa tornar-se uma candidata ao valor de verdade. Se for saboreada, e não cuspida, a frase poderá ser repetida, captada, circulada. Então exigirá aos poucos um uso habitual, um lugar conhecido no jogo de linguagem. Com isso terá deixado de ser uma metáfora – ou, se preferirem, ter-se-á transformado no que é a maioria das frases da nossa linguagem – uma metáfora morta. Será apenas mais uma frase da língua, literalmente verdadeira ou literalmente falsa. Em outras palavras, nossas teorias sobre o comportamento linguístico de nossos semelhantes bastarão para permitir que lidemos com sua enunciação da mesma forma impensada que lidamos com a maioria de seus outros enunciados.”
sábado, 10 de abril de 2010
DIA HORRÍVEL
Caro leitor, imagine você sendo acordado por Maria Gadu.
Um dia que começa assim não pode terminar bem. E foi exatamente isso que me aconteceu: uma vizinha louca ouvia Maria Gadu nas alturas. Não desejo isso pro meu pior inimigo. Esse cão chupando manga é a bola da vez, senhoras e senhores. E dá-lhe Maria Gadu. De manhã, de tarde, de noite. Maria Gadu enfiada pela goela abaixo. Maria Gadu pra fazer companhia a Zélia Duncam e Ana Carolina. É foda. E é muito ruim. Mas o que fazer? É a bola da vez.
Aí resolvi ir ao Maracanã.
Fodeu.
Uma péssima idéia.
Fluminense foi eliminado pelo time mais medíocre do campeonato carioca. E corre o risco de vir a ser ele o campeão do estado. Sim, não é pesadelo. É aliás bem merecido. Um campeonato como esse não podia ter “melhor” campeão.
É bom mesmo que o Flamengo seja eliminado.
Aí o Fogão passa a ser a expressão de um estado decadente, cujo campeonato de futebol, outrora tão charmoso, é hoje o pior do Brasil. Nada mais justo ser ele o campeão.
Outra coisa: por que não fazer logo um quadrangular?
Os times de menor expressão e nada é a mesma coisa, não é mesmo?
Vergonha é o que sinto quando olho pra São Paulo.
E o Fluminense, hein?
E o Horcades?
E o Cuca?
E o Julio César, o Mariano, o Gum, o Alan..., o Leandro Euzébio... podemos incluir também o Rafael, por que não?
E o Branco, hein?
Não tem essa de ficar lembrando águas passadas, como a reação espetacular no Brasileirão ano passado. Nem alimentar falsas expectativas em relação a Copa do Brasil. O Flu perdeu o Campeonato Carioca e isso é triste. É sinal de que o time não vai nada bem. E já dava sinais disso no primeiro turno: a derrota para o Flamengo, depois de sair com a vantagem de 3X1 no primeiro tempo, é muito parecida com o que aconteceu hoje na semifinal da taça Rio. Na ocasião, eu dizia que os jogadores tricolores precisavam de um psicólogo urgente. É inadmissível um time ceder a vantagem obtida no primeiro tempo com tanta facilidade assim. Essa foi a marca do nosso tricolor. Uma lerdeza, um toque pra cá e um toque pra lá que deu nos nervos. A derrota pro Vasco por 3X0 já era um prenúncio.
Me lembro que no início da taça Guanabara nos orgulhávamos por ter a defesa menos vazada. Uma ilusão. Ao final do campeonato carioca sabemos que é o nosso ponto mais vulnerável.
E o Cuca, hein?
Ah, deixa pra lá. O Cuca é um velho conhecido dos cariocas. Só não vê quem não quer.
Um dia que começa assim não pode terminar bem. E foi exatamente isso que me aconteceu: uma vizinha louca ouvia Maria Gadu nas alturas. Não desejo isso pro meu pior inimigo. Esse cão chupando manga é a bola da vez, senhoras e senhores. E dá-lhe Maria Gadu. De manhã, de tarde, de noite. Maria Gadu enfiada pela goela abaixo. Maria Gadu pra fazer companhia a Zélia Duncam e Ana Carolina. É foda. E é muito ruim. Mas o que fazer? É a bola da vez.
Aí resolvi ir ao Maracanã.
Fodeu.
Uma péssima idéia.
Fluminense foi eliminado pelo time mais medíocre do campeonato carioca. E corre o risco de vir a ser ele o campeão do estado. Sim, não é pesadelo. É aliás bem merecido. Um campeonato como esse não podia ter “melhor” campeão.
É bom mesmo que o Flamengo seja eliminado.
Aí o Fogão passa a ser a expressão de um estado decadente, cujo campeonato de futebol, outrora tão charmoso, é hoje o pior do Brasil. Nada mais justo ser ele o campeão.
Outra coisa: por que não fazer logo um quadrangular?
Os times de menor expressão e nada é a mesma coisa, não é mesmo?
Vergonha é o que sinto quando olho pra São Paulo.
E o Fluminense, hein?
E o Horcades?
E o Cuca?
E o Julio César, o Mariano, o Gum, o Alan..., o Leandro Euzébio... podemos incluir também o Rafael, por que não?
E o Branco, hein?
Não tem essa de ficar lembrando águas passadas, como a reação espetacular no Brasileirão ano passado. Nem alimentar falsas expectativas em relação a Copa do Brasil. O Flu perdeu o Campeonato Carioca e isso é triste. É sinal de que o time não vai nada bem. E já dava sinais disso no primeiro turno: a derrota para o Flamengo, depois de sair com a vantagem de 3X1 no primeiro tempo, é muito parecida com o que aconteceu hoje na semifinal da taça Rio. Na ocasião, eu dizia que os jogadores tricolores precisavam de um psicólogo urgente. É inadmissível um time ceder a vantagem obtida no primeiro tempo com tanta facilidade assim. Essa foi a marca do nosso tricolor. Uma lerdeza, um toque pra cá e um toque pra lá que deu nos nervos. A derrota pro Vasco por 3X0 já era um prenúncio.
Me lembro que no início da taça Guanabara nos orgulhávamos por ter a defesa menos vazada. Uma ilusão. Ao final do campeonato carioca sabemos que é o nosso ponto mais vulnerável.
E o Cuca, hein?
Ah, deixa pra lá. O Cuca é um velho conhecido dos cariocas. Só não vê quem não quer.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
JARDS MACALÉ

O filme “Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal”, de Marcos Abujamra e João Pimentel, mais uma realização vigorosa do nosso cinema e vencedor do júri do Festival do Rio de 2008, inicia com um pito sensacional do protagonista aos seus realizadores. Um pito encenado em uma ameaça: eu processo vocês !!! Não vão desconstruir a vida que eu levei anos para construir, hein.
Saber exatamente o que o principal personagem achou da montagem será um mistério. Dizer-se satisfeito não elimina a questão. Ao contrário. Se pensarmos que seu processo criativo foi sempre aberto a novos elementos, muitas vezes contrastantes entre si, aí então fica mais complicado dizer que um filme pudesse dar conta de sua vida.
Será que a falta de reconhecimento por parte do grande público é uma questão?
Se é, ao meu ver, não deveria.
Daí porque a presença de Gil, ao contrário do que possa parecer, e muito longe das intenções dos realizadores, é o que mais esclarece o fenômeno Macalé.
A perspectiva de Gil, assim como de Caetano, principais nomes do tropicalismo, está ligada à profissão e consequentemente às concessões que é necessário serem feitas para tanto. E o Tropicalismo, último movimento de vanguarda, nesse sentido, não se afasta muito do Concretismo – esse, por maior confronto que fizesse ao Sistema, ocupava postos chaves. A história dos baianos não é tão diferente assim: o confronto se dá dentro do Sistema. Estamos ainda no binômio arte/sociedade, como esclarece tão bem Heloisa Buarque de Holanda em seu livro “Impressões de Viagem: CPC, Vanguarda e Desbunde: 1960/1970”. Esse binômio inclui tanto o CPC quanto os movimentos de vanguarda.
Heloisa analisa algumas revistas da época, tais como “Frenesi”, “Vida de Artista” e “Nuvem Cigana”, todas da década de 70 e que de uma certa forma expressariam o que ela chama de Desbunde. Se em “Frenesi” vai predominar ainda o alegórico (recurso literário, tal como a metonímia e a paródia), sublinhando sua ligação ao modernismo e às vanguardas, a “Vida de Artista”, da qual faz parte Cacaso, prenuncia uma mudança significativa. Ao invés do futuro, o instante. Os recursos literários deixam de ocupar a parte mais significativa do texto. A surpresa e o humor substituem o alegórico e a ironia, desfocando o futuro e trazendo à baila o instante.
A radicalização desse processo vai dar na “Nuvem Cigana”, que tem como consequência, em música, a Blitz – o início da década de 80, quando o Rock Brasil se instala. É justo aí a maior crise de Macalé.
II
Junto a seus parceiros principais, Torquato Neto, Capinam e Waly Salomão, Macalé está nessa posição intermediária, entre as vanguardas e o desbunde. E a revista Navilouca é talvez a publicação que melhor expressaria essa perplexidade. Por mais que Macalé em sua música utilize elementos do rigor construtivista, por mais que utilize a técnica em busca do novo, a perspectiva subjetiva impregna sua música. O binômio agora é arte/vida. Tão próximo de João Gilberto e tão longe. É que, se no baiano a história da música popular brasileira é reduzida a seus elementos estruturais, já em Macalé é exacerbada. Em ambos, um processo de perversão, só que simetricamente opostos.
“Maldito é a mãe” pode então ter uma tripla leitura: 1) a indignação quanto ao uso que o Sistema faz de sua música, e essa indignação não deixa de colocá-lo em confronto – tanto “Gothan City” quanto “Princípio do Prazer”, ambas defendidas em festivais, são exemplos de alegoria contra o Sistema; 2) sua distância à frase tropicalista “Seja Marginal, Seja Herói” – nesta frase, a marginalidade é tomada no sentido de ameaça ao Sistema (ela é valorizada exatamente como opção de violência em suas possibilidades de agressão e transgressão; a contestação é assumida conscientemente; o uso de tóxicos, a bissexualidade, o comportamento descolonizado, são vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais e, portanto, assumidos como contestação de caráter político); 3) e, finalmente, a marginalidade não é tomada positivamente como uma saída alternativa, tal como acontecia no período do Desbunde e da Poesia Marginal.
Essa tripla leitura de “maldito é a mãe”, indica a posição singular de Macalé tanto em relação ao Sistema, quanto em relação ao Tropicalismo, quanto em relação ao Desbunde.
III
No entanto, é o que explica também o intercruzamento dos três em sua obra: estudou com Guerra Peixe (grande nacionalista), Peter Dauelsberg, Turíbio Santos, Jadacil Damasceno e Ester Scliar; teve parceiros como Capinam e Torquato, tropicalistas até debaixo d’água; e constituiu a linha da “morbeza romântica”, como a definiu Waly Salomão, onde o sentimento é exacerbado, seja pela dinâmina da voz e do violão, seja pelo registro informal de palavras tais como “otária” e “embromadora”.
IV
Seus dois grandes discos de carreira são: o de 1972 – homônimo; e “Contrastes”, 1977.
No primeiro, junto com Lenny Gordin e Tutty Moreno, fornece uma sonoridade que vai permear o disco “Transa” de Caetano Veloso e os três de Gal Costa (1969, 1970 e 1972).
Nessa perspectiva, não há como deixar de mencionar também “Banquete dos Mendigos”. O show, promovido pelo próprio Macalé, no Museu de Arte Moderna, em 1973, para comemorar os 25 anos de Declaração dos Direitos Humanos, foi registrado em disco. E o que salta aos olhos, ouvindo toda a nata da MPB, de Edu Lobo à Milton Nascimento, é o quanto Macalé se diferencia do resto. Cantando “Real Grandeza” e “Anjo Exterminado”, ambas compostas em parceria com Waly Salomão, Macalé está em plena posse de um estilo único e singular, onde o violão e a voz atingem uma densidade nunca vista antes no nosso cancioneiro.
Já em “Contrastes”, seu disco mais tropicalista, explora velhos sambas cariocas, junto a outros de sua autoria, e um “Cachorro Babucho” de Walter Franco e arranjo de Júlio Medaglia, que não há como não se espantar. Wagner Tiso também está presente nesse disco impressionante: o “Poema da Rosa” e “No Meio do Mato” – essa com música e letra do próprio Macalé (a mais tropicalista de todas).
Ambos os discos acenam em direções complementares. No primeiro, voltado para si, uma mistura de rock e free jazz, único na MPB, e que faz de Macalé um inventor; no segundo, orquestrações com o uso de sonoplastia, ruídos externos e estilos variados.
Sua carreira será perpassada então por esses dois discos – duas perspectivas: o uno e o múltiplo.
Na década de 80, Macalé quis morrer, conforme nos lembra, no filme, Abel Silva. E nunca terá sido tão ele mesmo, identificando vida e obra. Quis morrer em meio ao novo fenômeno de mercado: o rock brasileiro. Pôs-se então a despedir-se dos amigos, até que João Gilberto começou a cantar, pelo telefone, “Serra da Boa Esperança”. E nada disso o teria salvo, se não tivesse já impresso nele essa perspectiva do múltiplo, que nos constitui.
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