quinta-feira, 27 de maio de 2010

JOÃO PARAHYBA E O FORA DO EIXO

A internet é capaz do céu e do inferno. Como do inferno já ando cheio, quero me reportar a um site de música, o Scream & Yell, aonde, volta e meia, vou xeretar.
E lá encontrei o texto de um grande baterista, João Parahyba, que toca no Trio Mocotó. O referido texto foi capaz de alavancar mais de quatrocentos comentários. Ao final da leitura de todos eles, me dei conta que estava diante de um documento histórico. O Marcelo Costa, dono do site, terá que preservar esse documento com carinho. Porque ali está exposta toda a idiossincrasia da música independente hoje. Muitas vezes, uma mesa redonda, com palestrantes e participação do público, não é capaz de apresentar uma discussão tão densa quanto foi essa do site. Com algumas ofensas, ok, e todas elas dispensáveis. Mas intensa.
Vocês podem conferir com os próprios olhos http://screamyell.com.br/site/2010/04/13/carta-aos-musicos-e-artistas/mas vou eu aqui tentar me aventurar por um caminho espinhoso. Nessa cadeia da música independente, onde estão incluídos a “tia” que faz a faxina do local em que ocorre o evento, os artistas, os jornalistas, o público, o governo, as empresas, os produtores proponentes... tem alguém que é mais importante? Parahyba, no seu texto, diz que é o artista; houve quem priorizasse o público; mas teve também quem fizesse da cadeia produtiva, do todo, a grande prioridade. Acho interessante sublinhar essas três perspectivas no debate e distingui-las bem, porque, muitas vezes, um determinado participante, ao tentar fazer a defesa de uma delas, se excedia e fazia vir à tona a outra, às vezes até de forma inconsciente.

A) O ARTISTA

“Os projetos de maior valor contemplam os produtores de shows e festivais, empresários artísticos, pontos de rede e cultura, mas não diretamente o artista”, diz João Parahyba. Por outro lado, a idéia da Rede Música Brasil e dos editais públicos tem como premissa a correção de desvios. Deixar a música na mão de grandes empresas, seria o mesmo que abandonar o artista ao mercado de massa. Só teria retorno financeiro aqueles de apelo popular. É o que Pena Schmidt chama de “equivo histórico”: “É preciso ir lá dentro do governo para tentar uma alternativa de recriação, de reconstrução depois da guerra perdida com o mercado de massa, sem investimento na diferença, um equivo histórico. Não vejo alternativa sem que se mudem leis, sem que se busque recursos fora do mercado como está. Mal arrumado”.

Esse raciocínio indica o sentido de arte enquanto experiência, enquanto diferença. Fazer o artista sobreviver é, antes de mais nada, o Estado interferir no sentido de dar ao espaço da experiência em música a possibilidade de se perpetuar. Faço uma analogia com as pesquisas científicas, as bolsas de mestrado e pós-doutorado. Na música deveria se manter esse espírito: os festivais independentes deveriam contemplar também esse segmento de menor visibilidade, mas que oferece pesquisas formais que avançam o campo já conhecido da música.

Terence Machado e Marcelo Costa afirmam seu interesse na “música boa” e, consequentemente, focam o artista. O primeiro, coordenando o programa “Alto-Falante”, programa histórico que cobre a música independente, e o segundo, responsável por um site de música, o Scream & Yell, que permanece há anos em atividade. Segundo ambos, deveria se discutir mais música e menos política. Segundo ambos, a música de qualidade deveria estar mais presente nos festivais da ABRAFIN. E Marcelo lista os discos nacionais eleitos pela Scream & Yell como os mais importantes de 2009, segundo um colegiado. E para ele, esses artistas tocam pouco nos referidos festivais. É curioso que o jornalista José Flávio Júnior, ao justificar a presença constante de Macaco Bong nos festivais, recorre ao mesmo raciocínio: foi eleito o disco mais importante pela Rolling Stone, cujo júri é composto pelos críticos mais renomados do país. Ou seja: definir a música boa é uma questão de autoridade? O colegiado, composto pelos mais ilustres, é quem define a música boa?

A perspectiva do ARTISTA esbarra nessa questão. Quem confere o título? Em tese, o artista é o mais importante da cadeia. Eu já fiz show pra duas pessoas na platéia. Se o público tivesse que dar a última palavra, já teria interrompido minha carreira faz tempo. Penso em pessoas como Tom Zé e Jards Macalé, cujas carreiras, em determinado momento, entraram em parafuso. Quem concede a excelência não é o público, nunca foi. Muito menos um colegiado de ilustres. Cabe ao artista paciência. Ainda mais se pensarmos que a crítica de música no Brasil é feita por amadores, o que significa paixão e achismo.

B) O PÚBLICO

A cadeia não é sustentável sem o público, mas daí dizer que “ não sei de ninguém genial e minimamente organizado que não esteja se dando bem em música em 2010”, já é extrapolar. José Flávio Júnior, autor da frase, e Lobão são muito parecidos nesse aspecto. A diferença é que o segundo se formou dentro do mercado – sua alma vem impregnada de “mainstream” e ganhou muito dinheiro com isso; já o primeiro...

Recorro ao produtor Miranda, sempre lúcido em suas ponderações: “Exigir de sua função de artista sua sobrevivência é se comprometer com a venda, com o comércio e com a linguagem mais populares já que para ganhar mais dinheiro, mais público terá que atingir. Se temos outra fonte de renda nos desobrigamos de fazer tudo aquilo em que não acreditamos na área artística”.

Na verdade, essa relação de igualdade entre genialidade e público é a fórmula de todos os liberais: o público sabe a verdade e o mercado se auto-regulariza; pra que a intervenção do Estado? A parceria entre artistas e majors de um lado e as grandes marcas do outro, como publicado dia 23/05 no Segundo Caderno do Globo, em reportagem de Antônio Carlos Miguel, nos mostra os grandes beneficiados: Ivete Sangalo, Cláudia Leite, Roberto Carlos, Marcelo Camelo, Malu Magalhães, Céu, Marisa Monte... Não vai se investir em artista que não dá retorno, não é mesmo? Então fica tudo como dantes no Quartel de Abranches.

É interessante verificarmos o quanto se aproximam Alex Antunes e Marcelo Costa, em outras questões tão afastados, na importância que concedem ao público. Alex espera um artista independente que possa explodir tal como explodiu Raul Seixas. Já Marcelo Costa adverte que o problema dos independentes, diante da imensidão do mercado, é se apequenar e ser feliz com isso.

Nesse sentido, há um diálogo espetacular entre Marcelo Costa e o baterista do Macaco Bong, que ilustra bem a diferença entre o pragmatismo do FORA DO EIXO e o idealismo dos críticos de música (o par qualidade e quantidade é uma oposição sem solução? é uma oposição administrável? Ou não há oposição alguma - ela é apenas uma ficção?)

Marcelo Costa pergunta:
- Uma banda ruim que mete a mão na massa, vai atrás, ganha edital de passagem e faz a roda girar, mesmo sendo ruim, é mais importante que uma banda boa que não mete a mão na massa?

E Ynaiã Benthroldo responde, perguntando:

- O que é melhor: 300 artistas ótimos tocando pra 500 pessoas cada, ou 3 artistas tocando pra 5 mil cada?

Na primeira pergunta, o idealismo; na segunda pergunta, o pragmatismo de quem está inserido no real.
Quanto a tratá-la como uma falsa oposição (gênio=público), é se banhar de tanto idealismo quanto aquele que a afirma sem solução.


C) O TODO – O CONJUNTO DE TODOS OS ATORES

O grande lance é sair desse dualismo. Até porque, se você critica o outro lado, te chamam de chorão ou de ressentido ou de adepto à filosofia do rancor. O exercício da crítica num contexto dualista fica comprometido. Se o infeliz não tiver visibilidade então, tá fudido. Não deve nunca abrir a boca para efetuar uma crítica, por menor que seja, aos grandes vencedores da História. Ou aos que a fazem. E novamente recorrendo a Tom Zé e Jards Macalé, ninguém melhor do que eles entendem o significado dessa censura.

No entanto, a solução já foi dada: é o movimento Fora do Eixo.

Aqui, foge-se do perigoso dualismo (artista ou público). Todos são importantes. E essa passa a ser a grande novidade: o embate entre música independente e grandes gravadoras perde o sentido. O artista e o mercado deixam de ser incompatíveis: a palavra agora é cooptar.

Fabrício Nobre, num texto importante de seu blog, diz: “enquanto as bandas, músicos, artistas, promotores de festivais, membros de coletivo, agentes políticos de cultura, produtores de disco, técnicos, formadores de opinião, não entenderem que estamos no mesmo lado, ou melhor ainda, que estes indivíduos são muitas vezes um mesmo ser humano que faz tudo isso, fudeu !!!!

Essa nova etapa substituiu o “do it yourself” pelo “do it together”. E junto a essa mudança de paradigma, vem o disco ARTISTA IGUAL PEDREIRO. Estranho manifesto: um disco instrumental e completa ausência de palavras. Como se estivéssemos diante de uma terra arrasada. O Macaco Bong não eliminou só as palavras: eliminou a canção, eliminou a melodia, eliminou o virtuosismo, eliminou os efeitos de computador. O power trio, com seu rock-fusion, nos sugere uma superfície plana e aberta a toda espécie de construção futura. Não cabe aqui nenhuma tentativa de individuação. Nem mesmo as variações numa mesma faixa podem ser consideradas diferenças, antes são diluídas num contexto único. Foi aos limites da música brasileira, ao ponto de colocar em dúvida a própria nacionalidade. Se no texto sobre Rômulo Fróes, eu assinalava duas estéticas na moderna música brasileira – a estética do longe (Rômulo Fróes) e a estética orgânica (Júpiter Maçã), ambas mantendo relações diferentes com o real – aqui, esse real foi abolido. É a estética do vazio ou da ação estruturante. A única concessão é “Vamos dar mais uma”, quando, ao final da faixa, um coro surge para entoar um canto indígena ou coisa que o valha. E nem nesse momento a voz individual é mais possível.

A fuga de toda espécie de dicotomia, tão em voga no passado, é que faz Pablo Capilé discorrer sobre curadoria e seu relativismo. Cada coletivo sabe de si. Não há uma bandeira ou um código de preceitos que as pessoas devam obedecer. Assim como existe uma curadoria no Scream & Yell, também existe outra no Rolling Stone, no Alto-Falante, no Radiola, e não tem como se voltar contra esse relativismo. Chamar de “panelinha” tem o sentido elitista de desautorizar determinada escolha e se colocar acima.

Um outro aspecto foi a discussão levantada por Terence Machado sobre a lisura da aprovação dos projetos referentes a Lei Municipal De Incentivo a Cultura de 2009 em Belo Horizonte. . O coletivo “Pegada”, ao qual pertence Lucas Mortimer, foi beneficiado com a verba de 160 mil reais. O que alega Terence é que Lucas pertence à Sociedade Independente de Música, juntamente com Kuru Lima. Como Kuru foi um dos responsáveis pela aprovação dos projetos, junto a um colegiado de 12 membros (CMIC) se evidenciaria aí, segundo Terence, uma ligação estreita entre o empreendedor de projetos culturais e a pessoa ligada a comissão julgadora. Portanto, passível de anulação. A questão que coloca Alex Antunes é que os dois pertencerem a SIM, com mais de 60 membros, não caracterizaria “ligação estreita”.

Mas a questão foi levantada e está aí, independentemente da pronta reação de Talles Lopes, Fabrício Nobre e Alex Antunes. O processo é esse mesmo. Agora é apurar.

Nada disso, no entanto, tira o brilho da nova filosofia. “Fora do Eixo” tem o significado do que rola a margem. Não é mais alimentar antigas dicotomias do eixo, mas uma lógica que insere, ao invés de excluir.

Um sinal de que as coisas estão mudando parte das próprias empresas. O selo OI FM, ao invés de optar por nomes consagrados, iniciou seu cast com a banda “Sobrado 112”, absolutamente desconhecida. E pelos resultados de vendagem, tudo indica um novo espaço de mercado. 200 mil pessoas pagaram R$ 4,00 para o download do disco (os consumidores estão principalmente nos celulares), o que gerou uma receita de R$ 800 mil, que cobre a produção do disco, o trabalho de marketing e gera lucro. Os próximos discos serão do Fino Coletivo e da compositora paulistana Luiza Maita.

Se pensarmos no circuito de bares e universidades, aliados aos festivais e às empresas, a cadeia produtiva e criativa da música independente passa a ter sustentabilidade. Sem esquecermos que nas 12 emissoras da OI FM esse cast de artistas independentes já começam a ser tocados, destruindo uma antiga resistência. O próprio disco do Macaco Bong, pertencente ao Álbum Virtual da Trama, é um bom exemplo do quanto a antiga dicotomia já não tem mais razão de ser.

terça-feira, 18 de maio de 2010

MEU PAI

Eu dei à luz meu pai
no final de uma noite tenebrosa
depois de longas contrações.
O rebento nasceu aos gritos.

Eu não tive dúvidas: era meu pai,
o estrangeiro sem alma,
de onde vim e pra onde voltarei.
Era ele mesmo: a cloaca do mundo,

onde muitos garotos se iniciaram
e muitas meninas também.
Meu pai nasceu com setenta kilos

e foi motivo de júbilo para família.
Foi batizado com o nome de Silvio
e morreu sem eu ter completado a maioridade.

SKYLAB/MAIO-2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

ENTREVISTAS

Paulo Cesar Pereio, no seu programa SEM FRESCURA, no Canal Brasil, me entrevistou há algum tempo atrás. E finalmente a Globo Vídeos disponibilizou a entrevista. Não está completa, foram feitos muitos cortes nessa edição, mas pelo menos dá pra se ter uma idéia:


Já a Revista Profashional publicou no seu último número uma entrevista que concedi a eles. Pra quem quiser dar uma conferida:
http://www.revistaprofashional.com.br/pg/entrevista_86+87.html

quinta-feira, 6 de maio de 2010

MURICY RAMALHO



Diante do acaso e do craque, não existe esquema tático que sobreviva. Técnico de futebol é ficção. Comentarista de futebol, idem. A questão é que existe uma filosofia do “faz de conta” que nos obriga a ver ciência onde ela não vinga. Cria-se então um universo paralelo: técnicos, comentaristas, dirigentes, patrocinadores. Fora desse universo paralelo, está o jogo entre as quatro linhas, onde só o imponderável e o gênio sobrevivem. A própria mediação da TV, o tira-teima, tudo conspira em favor desse universo paralelo (todavia há situações em que nem o tira-teima esclarece – o lance permanece ambíguo e a ciência torce o rabo).

Voltar a frequentar o Maracanã tem então para mim um sentido selvagem, o mesmo de quando eu ia com o meu pai, há muitos anos atrás: libertar o olho do julgo de terceiros; eliminar os mediadores; captar o instante da jogada; não saber se foi pênalti, tamanha a distância em que me encontro; confundir um jogador com outro; não ter vídeo-tape.

(foi a resposta que dei a uma pergunta imaginária: o que você achou da contratação do Muricy Ramalho pelo Flu?)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ACHADOS E PERDIDOS - JOSÉ JOFFILY



Adaptação de um livro para a tela é o que há de mais complicado.
O Canal Brasil acabou de passar o filme de Jose Joffily, baseado no livro de Garcia-Roza, ACHADOS E PERDIDOS
Em relação a esse livro, escrevi um texto algum tempo atrás:
http://godardcity.blogspot.com/2010/02/achados-e-perdidos.html#links
Longe de mim achar que o filme tenha que ser cópia fiel de seu modelo.
A distância entre eles é salutar: tradução e traição.
A questão é que pra trair é necessário saber o que você está traindo. E esse me parece o maior problema do filme.
A ausência de Espinosa não é sentida, mas a falta de atenção para o caráter dualista do livro, sim, é muito sentida.
Como se a estrutura da estória passasse despercebida. Aí é fatal.

domingo, 2 de maio de 2010

RÔMULO FRÓES


Num post antigo deste blog, http://godardcity.blogspot.com/2008/12/as-novas-cantoras-brasileiras.html#links, eu teço alguns comentários sobre as novas cantoras brasileiras. Na ocasião, eu alertava para uma estética que prevalecia na música popular brasileira, cujas protagonistas seriam essas novas cantoras. Dizia também que a história desse movimento começava em Marisa Monte e permanecia em andamento até hoje. Chegava mesmo a apontar um beco sem saída: qualquer cantora que surgisse no cenário da música popular brasileira, estaria condenada a um mesmo papel.

Naturalmente, eu exagerava um lado dessa história. E se assim o fazia, era porque reconhecia o espaço concedido a ele na mídia. Acredito mesmo que vivemos um momento que privilegia essa música, basta verificarmos a quantidade de cantoras surgidas na primeira década do novo século.

No referido post, eu chego a tecer uma relação bizarra entre o mundo fashion e essa nova música. E não seria exagero adicionar a estética publicitária no mesmo saco.

Mas o que sinceramente acredito, é que o ponto em comum é o distanciamento. Essa nova estética privilegia o longe: visita-se o samba, por exemplo, mas sem grandes envolvimentos. A pele, o invólucro, é o que importa. Um samba elegante dá-nos conta de um samba que já não é mais samba: é apenas citação.

A estética do longe faz-nos vislumbrar então o duplo: é como o teatro brechtiano – você vê o personagem e o ator.

Seria um contra-senso admitir o fim da história. E logo eu que sempre primei por um outro tipo de música. Como também seria leviano negar uma alternativa a essa estética do longe, ainda que reconheça o lugar destinado hoje aos que promovem um outro tipo de olhar – o limbo.

À estética do longe se contrapõe a estética das entranhas. Aqui se está tão perto do real, que não há mais distância, nem duplo. Daí porque se custa tanto a enxergar o outro, tamanha a proximidade. É um caso de perversão. Há que se proceder a uma intensa análise para se decompor as partes e restituir os elementos que se fundiram. Seria um caso psiquiátrico, não fosse arte.

Pois eu acho que estão presentes essas duas tendências na música popular brasileira contemporânea, por mais que a mídia se esforce tanto no sentido de trazer à superfície apenas uma delas. Os editorias de cultura o provam. A Revista Trip, em uma reportagem, trouxe 9 nomes da música contemporânea, quase todos ligados à estética do longe - http://godardcity.blogspot.com/2009/07/reportagem-da-trip.html#links


Um desses nomes, talvez o mais representativo, é Rômulo Fróes.


II

Sua entrevista à Scream & Yell, de quase cinco horas de duração, atesta essa importância, sem contar as vezes que foi capa da Ilustrada.

À certa altura da entrevista, dá-se conta do seu esforço empreendido para unir a cena, tornando-se, mesmo sem querer, seu porta-voz.

Partindo da premissa que é artista plástico, entende-se quanto lhe é caro a discussão. O release escrito pelo próprio artista em seu último disco, o prova.

Mas o que vai chamar atenção, colocando em perspectiva o conjunto de sua obra, é justamente esse caráter de duplicidade da estética do longe. Seus dois primeiros discos, Calado e Cão, são um primeiro momento onde a unidade prevalece. Tivesse parado aí sua carreira, não seria Rômulo Fróes. A dor e a tristeza perpassam cada canção, sem nenhuma sombra de duplicidade e malgrado sua voz.

Há que se abrir aqui um parênteses porque a voz de Rômulo é o primeiro indício de distância. É uma voz sem grande envolvimento, uma voz fria e inexpressiva. Mas que adquire um sentido melancólico nos dois primeiros discos, em função do violoncelo, do clarinete e do tom grave que perpassa suas faixas. São discos tristes, dos mais tristes na música popular brasileira, e isso já lhe daria uma posição de destaque.

Em Calado, o violoncelo na música “Suíte” e o bumbo na “Cadência do Samba” são elementos fortemente expressivos que vão dar o tom ao disco. Estamos ainda num primeiro momento, o do mergulho. Ainda que se vislumbre já alguns sinais de duplicidade, desenvolvidos mais tarde em sua carreira: é o caso da terceira faixa, “Dentro do Peito”, onde, à uma música triste, cantada tristemente, segue-se um arranjo de escola se samba.

Em Cão, o caminho, já trilhado, se desenvolve e chegamos a suas melhores composições. Aqui seu estilo se cristaliza. “Máscara” é o melhor exemplo. “Tudo que Pesa”, também. O samba triste continua dando o tom, ainda que testemunhemos, tal como no disco anterior, alguns elementos estranhos. É o caso de “Mulher sem Alma”, onde a bateria de Curumim se intromete de maneira espetacular, fazendo sublinhar o duplo. Outra música a se registrar é “Fala”, letra inspirada em poema de Pau Celan, em cujos versos se destaca: “diz a verdade quem diz sombra”.

Vale aqui lembrarmos um trecho de sua entrevista a “Scream & Yell”: “quero que essa coisa do canto, que é uma massa meio amorfa, vá para o conjunto todo, para a composição, para o som, e você não sabe bem o que está acontecendo. A música é triste mas a letra não. Eu não quero nada que fique claro, que você possa identificar” (fazia referência a seu próximo disco).

Em Chão Sem o Chão chegamos então a um segundo momento propriamente dito e que não seria a mesma coisa se Rômulo tivesse começado por ele. Daí porque, vendo em perspectiva o conjunto de seu trabalho, Rômulo dramatiza o duplo – dá sentido ao duplo não apenas conceitualmente, mas em drama. Ele perpassa as duas tendências na música contemporânea: a estética das entranhas e a estética do longe. Em Chão Sem o Chão, ele problematiza a unidade orgânica de seus dois discos anteriores, a duplicidade deixa de ser contingente e passa a ser o foco.

Será sob esse signo o seu último disco. A começar pelo fato de ser duplo: o primeiro, “Cala a Boca já Morreu”, gravado ao vivo em estúdio; e o segundo, “Saiba Ficar Quieto”, concluído de forma mais clássica. Registre-se também o fato de que a primeira sessão é mais próxima dos músicos e a segunda, mais próxima da composição, segundo ele mesmo informa no release.

Podemos ainda, sob o signo da duplicidade, registrar dois momentos em “Cala a Boca já morreu”: “A Anti-Musa” e “Pierrot Lunático”. E, curiosamente, ambas lembram Chico e Caetano respectivamente (dois compositores que foram contemporâneos entre si, e que polarizaram a MPB em certo momento, chegando a ter juntos um programa na rede globo).

Ambas as músicas polarizaram essa primeira sessão: “Anti-Musa”, que me traz à memória Chico Buarque, evidencia um suspense que se desenvolve na penumbra – talvez a experiência mais bem sucedida do disco e que dá à palavra “pólvora” uma ambigüidade explosiva; já “Pierrot Lunático”, no chão sem o chão, participa de uma ambigüidade mais diluída, ao gosto de Caetano, e talvez mais afeita ao jogo do distanciamento de Rômulo.

Na segunda sessão, “Para Fazer Sucesso” e “Astronauta” são faixas que estarão, cada uma a seu modo, apresentando a duplicidade: seja em desorganizar e organizar, no primeiro caso; seja na perspectiva do céu e do chão, no segundo caso. Ainda nessa sessão, o par chico/caetano reaparece em “Ela me Quer Bem” (lembra o arranjo de Construção) e “Cala a Boca já Morreu” (Qualquer Coisa).

De qualquer maneira, o efeito da duplicidade não será o do choque; antes, pelo contrário, está inserido na estética do longe, que mais amortiza os objetos do que os intensifica.


III

A conseqüência é que, se há perversão, ela é da distância, o que significa mais uma questão de escala.

Humor e ironia padecem de uma proximidade ao objeto, tendendo a transformá-lo e até violentá-lo. A distância, ao menos, o mantem íntegro. Daí porque o novo caminho para a canção, pela perspectiva de Rômulo, tem um sentido de preservação. É como se estivéssemos num museu natural e encontrássemos velhos dinossauros preservados pela ciência. Aqui Caetano, aqui Chico, aqui Djavan, aqui Nelson Cavaquinho, aqui Los Hermanos...

Qual não foi o outro caminho trilhado por Tom Zé, Jards Macalé e Luís Tatit – três momentos de ruptura da canção e que estão longe dos museus naturais. Porque aqui ao menos os objetos foram violentados e não cabe a postura entediante do turista que constata as velhas formas preservadas. Acho curioso que um dos três, no caso Tom Zé, tenha sempre salientado a falta de dom como sua característica maior – o que o levaria, inevitavelmente, a uma idéia de invenção enquanto construção.

Vale a pena, em contraposição, terminarmos com algumas palavras do release escrito por Rômulo Fróes em seu último disco: “lançar os dois discos escancara o que é para mim um modo rico de composição que vem do meu contato permanente com a criação e da minha facilidade de fazer canções, compartilhadas com meus parceiros de sempre Clima e Nuno”.