segunda-feira, 28 de junho de 2010

MEMORIAL DE AIRES




"E andam críticos a contender sobre romantismos e naturalismos”


O último livro publicado por Machado de Assis, Memorial de Aires, afirma a vocação do autor para a contemporaneidade. Não seria nenhum disparate considerá-lo mais moderno que Guimarães Rosa. Se formos cotejar o que vem sendo escrito hoje pelos novos autores de ficção com o que Machado escreveu no século retrasado, iríamos vislumbrar um surpreendente laço consangüíneo.

O velho diplomata que retorna à sua terra, depois de longo tempo afastado, é o olhar implacável de quem não sente saudade, não derrama lágrimas e destila ironia, seja a um Brasil agrário, via Barão de Santa-Pia, seja a um Brasil urbano onde o memorialista se localiza.

O sentimentalismo, cuja palavra “saudade” é sua maior expressão, parece ser o apanágio dessa classe média brasileira em fins do século XIX. Não é à toa que o cenário que deflagra a estória é o cemitério. Vai ser ali, diante do jazigo de seu marido, que a jovem Fidélia estará de mãos postas a rezar.

Casa ou não casa de novo?

Rita, a irmã do narrador, lhe faz o desafio, ao qual o leva a buscar duas referências: o Fausto, de Goethe, com a aposta de Mesfistófeles, e, os versos de Shelley: “I can give not what men call love”. Se pensarmos também em outras referências aludidas por Machado, tais como Thackeray, Shakespeare (Romeu e Julieta), e se nos atentarmos para a linguagem concisa do romance, tudo nos leva a supor que estamos mesmo num solo pouco familiar à tradição francesa de nossas letras. Vale aqui lembrar a identificação do memorialista com a maneira de falar de Dona Carmo: “Eu não amo a ênfasis. Confesso aqui outra coisa. Dona Carmo é das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que são “doidas por morango”, nem que “morrem por ouvir Mozart” ” (148).

De qualquer maneira, essa intensidade, com a qual o diplomata não estabelece quaisquer relações, mesclada de saudade e sentimentalismo, será um traço forte dessa sociedade onde os interesses privados se solidificam em detrimento aos interesses públicos.

Vale aqui lembrar o Barão de Santa-Pia, representante do setor agrário, e do quanto sua classe não nos terá influenciado pelo transcorrer dos anos. No tocante à abolição dos escravos, ele se antecede à proclamação, libertando seus escravos, mas para sublinhar os interesses privados: “ quero deixar provado que julgo o ato do governo uma expoliação por intervir no exercício de um direito que só pertence ao proprietário e do qual uso com perda minha, porque assim o quero e posso” (223).

A questão é se esse sentimentalismo é suficiente para entendermos a mentalidade de uma sociedade. E aí vem a interferência de Machado e a construção de suas imagens, estruturadas de maneira ambígua, difícil e sem nome. É aqui onde mais se evidencia a duplicidade, o complexo e o paradoxo.

II

Podemos colecionar um tanto de imagens complexas:

“ seu gracioso e austero meio luto de viúva” (sobre Fidélia);

“ logo vi essas duas expressões no rosto da boa senhora, combinadas em uma só e única, a espécie de meio luto” (sobre Dona Carmo);

“ achamo-la entre alegre e triste, se esta expressão pode definir um estado que não se descreve; eu, ao menos, não posso” (sobre Dona Carmo);

“ o que me atrai em Fidélia é principalmente certa feição de espírito, algo parecido com o sorriso fugitivo que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la, se tiver ocasião”;

“ não ponho aqui o sorriso (de Tristão) porque foi uma mistura de desejo, de esperança, de saudade, e eu não sei nem descrever nem pintar. Mas foi, foi isso mesmo que aí digo, se as três palavras podem dar idéia da mistura, ou se a mistura não era ainda maior” (Tristão reagindo a expressão do conselheiro – a pessoa do filho pintada pela filha).

Tem-se a impressão que o conselheiro exita diante de imagens complexas, o que daria às Memórias o tom turvo que a impregna. É como ele mesmo o diz , “sombra da sombra de um assunto”. Mas, ainda assim, o que vigora é a imagem, levando inclusive ao tom de galhofa do conselheiro ao comentar a expressão de Tristão – “Grande Talento” – ao se referir à viúva: “ se fosse ele não soltaria a mesma exclamação, antes outra, igualmente estética, é verdade, mas de uma estética visual, não auditiva” (627 e 628).

Daí a relação entre as Memórias de Aires e a fotografia; é da imagem congelada e, portanto, retirada de seu movimento, que Machado vai explorar toda sua complexidade. Assim como o diário é um duplo do real, tanto quanto a fotografia, ele também o congela e capta o simultâneo. A sua preferência pelo público terá esse particular: dar visibilidade ao que é do âmbito invisível do privado. Será também a forma de trazermos à luz nossas mazelas, transformando tabus em totens:

“ Eu gosto de ver impressa as notícias particulares, é bom uso, faz da vida de cada um ocupação de todos. Já as tenho visto assim, e não só impressas, mas até gravadas. Tempo há de vir em que a fotografia entrará no quarto dos moribundos para lhes fixar os últimos instantes; e se ocorrer maior intimidade entrará também” (974).

III

O “si-mesmo” é o campo de desejo onde impera o sonho e o esquecimento, simetricamente opostos ao culto da memória e da saudade. No território do “si-mesmo” vigora inclusive a lei da contradição: “fique isto confiado a ti somente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que não penso” (336).

E foi assim que num determinado dia, 24 de maio de 1888, ao meio-dia, o conselheiro Aires escreve um texto, que, conforme ele o diz, é “uma página feita de duas, ambas contrárias e filhas da mesma alma de sexagenário”. Na primeira parte ele sonha que a viúva Noronha vai até sua casa e se confessa apaixonada por ele; na segunda parte, menciona o fato de que a Batalha do Tuiuti, com o tempo, será completamente esquecida, assim como todos os demais feitos históricos.

A questão que salta aos olhos e que ajuda a construir as imagens complexas não será, todavia, a lógica da oposição (ver epígrafe). A complexidade vem justamente da junção.
Aos interesses privados e individualistas, juntam-se os interesses da espécie, como o denomina Machado: “ Se eu a visse no mesmo lugar e postura (novamente no cemitério, como no início do romance), não duvidaria ainda assim do amor que Tristão lhe inspira. Tudo poderia existir na mesma pessoa, sem hipocrisia da viúva, nem infidelidade da próxima esposa. Era o acordo ou contraste do indivíduo e da espécie. A recordação do finado vive nela, sem embargo da ação do pretendente; vive com todas as doçuras e melancolias antigas, com o segredo das estréias de um coração que aprendeu na escola do morto. Mas o gênio da espécie faz reviver o extinto em outra forma...”(903).

Essa última frase é que produz a imagem complexa. Não basta ver a possibilidade de ambas as formas alternadamente, mas juntá-las numa única. Ir ao cemitério não significaria nem costume, nem afeição ao falecido mesmo estando a amar o seu novo pretendente. Significaria isso sim encontrar-se diante da pessoa extinta como se fosse a pessoa futura, fazendo de ambas uma só criatura presente.

Essa idéia de junção ou de repetição, ao meu ver, é o que funda a idéia de substituição. E se pensarmos bem, funda inclusive as memórias de Aires e a literatura. É diferente da saudade ou da melancolia porque tem implícita a ação.

O romance em referência poderia ser traduzido como as estratégias de Dona Carmo para substituir a ausência de filhos. Ela ganha mas não leva. E até aí terá sido complexo o seu resultado:
“ Ao transpor a porta pra rua vi-lhe no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos” (1165).

Esse “si-mesmo”, do qual Fidélia fugiu até quanto pôde em seu luto, e que era para o casal Aguiar as estratégias de substituição, não teria outro nome senão desejo, vontade, ação. E foi, ao que parece, o que Machado trouxe à literatura e cultura nacional, mesmo não tendo esta um fundo originário que a contituísse.

Acho que poderíamos terminar aqui esse texto com a consciência machadiana de uma ausência originária – é quando ele afirma do quanto somos constituídos pela diferença:
“Quando eu era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa cantora que era um elefante que engolira um rouxinol. Creio que falavam de Alboni, grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei engolido um cão filósofo, e o mérito do discurso será todo dele. Quem sabe lá o que me haverá dado um dia o meu cozinheiro? Nem era novo para mim esse comparar de vozes vivas com vozes defuntas” (610).

terça-feira, 22 de junho de 2010

ESTRANHO PARREIRA


Quis trazer essa imagem porque ela fala por si.
De quem é o ato de violência?
Pra mim tá claro.
E no entanto, os nossos comentaristas de futebol, esses patéticos personagens, foram unânimes em espinafrar o técnico francês. Não sou contra a imprensa: um país sem imprensa é um país sem cabeça. E o nosso Dunga, esse sim, é um descerebrado. Hoje em dia o Ricardo Teixeira deve pensar assim: o que foi que eu fiz!!!!!!!!!
Agora é tarde: é chorar o leite derramado.
Cada um tem o que merece: nós temos o Dunga; eles, o Maradona.
Voltando à cena: se o Domenech, técnico francês, não quer cumprimentar o Parreira, ele tem todo o direito. Agora, a forma como o Parreira o segurou foi de uma violência que desmente toda a sua tão propalada educação.
A cena está aí que não me deixa mentir.
A violência foi cometida pelo Parreira, o técnico mais retranqueiro da história. Nenhuma equipe que dirigiu me deu gosto ver, incluindo a seleção brasileira. Sua atual passagem pelo FLU que o diga.
Se transveste de intelectual, dá palestras sobre futebol, usa termos difíceis mas num ato de descuido... mostra o que é.
A imagem é mais forte que as palavras.

terça-feira, 15 de junho de 2010

FILHO DO ABISMO

Se meu pai fosse músico
ou se eu fosse amigo do filho.
Se ao menos morasse perto.

Podia ser colega de sala.
Pertencer ao mesmo grupo.
À medida que fôssemos crescendo,
nos tornaríamos herdeiros.
Ele, por ser filho.
Eu, amigo do filho.

À nossa volta,
outros herdeiros:
seres gregários.

Os velhos amigos do pai nos seriam simpáticos.
Abririam portas.
E a história seria uma linha reta e contínua.

Mas não tive sorte.
Nem filho, nem amigo do filho.
Moro muito longe.
Sou filho do abismo.

sábado, 12 de junho de 2010

OI NOVO SOM

O portal OI NOVO SOM permite ao artista cadastrado que ele faça uma copilação de seus trabalhos mais interessantes. Foi o que eu fiz. Disponibilizei algumas músicas minhas que podem ser baixadas gratuitamente (nessa copilação tem até música inédita - é o caso de COGITO, poema de Torquato Neto que eu musiquei). É também uma forma de comparar essa copilação com a que foi feita pelo selo "Discobertas" para o The Best Of. São visões diferentes do Skylab.
Caso queira baixar a minha copilação, aí vai:
http://www.oinovosom.com.br/rogerioskylab

terça-feira, 8 de junho de 2010

ESTÚDIO i - GLOBONEWS

Pra quem perdeu minha participação no programa "Estúdio i" apresentado pela Maria Beltrão na Globonews, aí vai um trecho da entrevista:
http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1598969-17665-319,00.html

segunda-feira, 7 de junho de 2010

PRÓXIMO SHOW NO RIO

Dia 11/06, próxima sexta-feira, rola meu primeiro show no Rio (RJ) desde o lançamento do dvd, das SKYGIRLS e da Orquestra. Tanto que para esse show a formação da banda vai ser das SKYGIRLS. O set list apresenta músicas dos três trabalhos. Após o show, que começará rigorosamente às 21:00 horas, rola festa REVOLT que está comemorando seu quarto aniversário. Vamos sacudir os esqueletos. E não esquecendo que estaremos vendendo cds e dvd.
Local: Rock'n Drinks (antiga Drinkeria Maldita) - Rua Aires Saldanha, 98-A - Copacabana - Rio (RJ) - Fone: 3439-1978
Pra quem quiser descontos na festa show (lista amiga) ver aqui: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=38851&tid=5478253068339864228&start=1
Nos vemos lá.

sábado, 5 de junho de 2010

RARIDADE - SOBRA DE GRAVAÇÃO

Essa música foi gravada ao vivo no antigo Balroom no Rio (RJ).
Nunca foi lançada em disco.
É sobra de gravação.
Chama-se: TARDE DE SOL NO RIO DE JANEIRO
http://www.mediafire.com/?znm025tnzbj

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A BISSEXUALIDADE NA ARTE

A idéia de “experiência” desenvolvida por John Dewey, em seu livro “A Arte como Experiência”, tem um aspecto de completude: um movimento que se desenvolve em direção à própria consumação. Esse processo tem uma qualidade estética – é um movimento ordenado e organizado a fim de que seja completo. Pode haver qualidade estética, por exemplo, numa experiência prática (não estaria restrita somente às artísticas): é quando nessa experiência consciente, seu resultado é fruto de um processo. Nesse caso, houve deliberação, vontade. E principalmente, duração, tempo transcorrido. A qualidade emocional é subjacente à estética, justamente por isso: existe um drama, uma seleção e organização de fatores extremamente pessoal. Não se está submisso a convenções, o que nos levaria a ações puramente mecânicas, e nem navegamos à deriva com fins indefinidos (no primeiro caso, há sobrevalorização do resultado em si, cuja eficácia não leva em conta o processo; e no segundo caso, resultado nenhum, pura cessação do movimento, inconclusão, lassidão dos fins).

Portanto, na “experiência” existe uma qualidade estética que nos faz evidenciar a unidade do movimento: uma parte permanece diferenciada em relação às demais, mas ela flui livremente, sem juntura e nem vazio, para a parte seguinte. Esse todo orgânico, que pode se dar tanto na experiência estética, quanto na experiência intelectual, quanto na experiência prática, nos leva à interconexão dos elementos. Não existe entidades independentes da ação – mas a unidade do movimento que requer o tempo para se desenvolver. Na lógica do pensamento clássico, de duas premissas distintas, extraía-se uma conclusão igualmente distinta. Nessa nova lógica, ao contrário, as premissas só surgem quando uma conclusão já está manifesta. No drama, seguindo a mesma lógica, alegria e tristeza não são entidades que entram em cena já completas: se requer o desenvolvimento de um enredo, assim como cenário e tempo para que esse enredo possa se desdobrar. Ou seja, o que existe é duração e movimento para que as partes distintas possam se manifestar – variações móveis de uma tonalidade impregnante e em movimento.

A interdependência do elemento estético e do elemento artístico na arte, corresponde aos elementos do padecer e do agir na “experiência” propriamente dita. Essa nova lógica, não os trata de modos opostos – eles se interconectam. E é essa interconexão que expressa o movimento do que foi feito e do que se fará. Cada intervalo, entre o antes e o depois, é constituído da acumulação do já feito. Daí porque a cada etapa da “experiência” completa-se a obra – o que nos permite pensar a consumação como não localizável num lugar somente e sim como função contínua.

“Os Espólios de Poynton”, romance de Henry James, nos dão um bom exemplo do processo do tempo e sua influência direta nos espólios: os objetos que constituem a mansão de Poynton Park; suas idas e vindas até o incêndio final; e do quanto esses objetos se deixam impregnar pelo emotivo. Por mais que seja uma coleção de objetos, a organização deles é que faz da mansão uma obra de arte. A desorganização que sofrem com a retirada para Prinks, é algo a ser reparado. Mas então eles já não são os mesmos quando transplantados de volta ao lugar de origem: existe a sombra do fantasma que impregna o mobiliário, assim como um objeto artístico não é apenas a expressão de uma habilidade, mas contém também o vivido. O mobiliário de Poynton, quando retornado ao seu lugar de origem, traz a sombra da perda que não tinha no início do romance – assim como o incêndio final é a perda total, motivo pelo qual o romance foi escrito.

No entanto, além disso, fala-se também de substituição. E Prinks é o melhor exemplo. A grande artista que é Mrs. Gereth percebe que a solução não está em transplantar o mobiliário, o que é antes de tudo anti-jurídico segundo as leis britânicas da época. Então, ela organiza os móveis de sua irmã falecida e lhes dá a forma que haviam perdido enquanto permaneciam amontoados. E de sua organização, transparece a perda e o sofrimento de sua antiga proprietária.

Mas Mrs Gereth, com um espírito artístico e aristocrático, precisa ao seu lado de quem sabe perceber. Ainda que não pertença à mesma casta, é Fleda Vetch, uma londrina e sem tradição, que será sua grande companheira. Impregnada pelo espírito de liberdade, que a faz inclusive perder Owen Gereth, será a escolhida de Mrs Gereth.

Se percebermos que Poynton e Waterbath são opostos e sem conexão, a inteligência e a torpeza, o artístico e o mal gosto, ainda que pertencentes a mesma classe social, Londres, no entanto, representada por Fleda, será a inteligência sem posses, cuja percepção será capaz de empreender o mesmo processo ativo de organização da qual a artista Mrs Gereth foi capaz.

O romance de James é pontuado então por três momentos distintos, cada um dos quais apontando para o seguinte: no primeiro, está a mansão de Poynton em todo seu esplendor; no segundo, a remoção de seu mobiliário e seu retorno; no terceiro momento, a organização dos móveis de Ricks e o incêndio em Poynton. E desde o primeiro momento existe já a sombra do fim.


Guardada as devidas proporções, a série dos Skylabs também expressa um movimento: a cada Skylab, uma consumação (um resumo e uma previsão); diferentes entre si nas expressões de uma mesma unidade em movimento. Além do mais, “mexer no que já existe”, tendo como ponto de partida composições de outros, é de uma certa forma viver a experiência de afetar e ser afetado (a alegoria, a metonímia e a paródia são bons exemplos). Daí a bissexualidade como condição da arte.