
"E andam críticos a contender sobre romantismos e naturalismos”
O último livro publicado por Machado de Assis, Memorial de Aires, afirma a vocação do autor para a contemporaneidade. Não seria nenhum disparate considerá-lo mais moderno que Guimarães Rosa. Se formos cotejar o que vem sendo escrito hoje pelos novos autores de ficção com o que Machado escreveu no século retrasado, iríamos vislumbrar um surpreendente laço consangüíneo.
O velho diplomata que retorna à sua terra, depois de longo tempo afastado, é o olhar implacável de quem não sente saudade, não derrama lágrimas e destila ironia, seja a um Brasil agrário, via Barão de Santa-Pia, seja a um Brasil urbano onde o memorialista se localiza.
O sentimentalismo, cuja palavra “saudade” é sua maior expressão, parece ser o apanágio dessa classe média brasileira em fins do século XIX. Não é à toa que o cenário que deflagra a estória é o cemitério. Vai ser ali, diante do jazigo de seu marido, que a jovem Fidélia estará de mãos postas a rezar.
Casa ou não casa de novo?
Rita, a irmã do narrador, lhe faz o desafio, ao qual o leva a buscar duas referências: o Fausto, de Goethe, com a aposta de Mesfistófeles, e, os versos de Shelley: “I can give not what men call love”. Se pensarmos também em outras referências aludidas por Machado, tais como Thackeray, Shakespeare (Romeu e Julieta), e se nos atentarmos para a linguagem concisa do romance, tudo nos leva a supor que estamos mesmo num solo pouco familiar à tradição francesa de nossas letras. Vale aqui lembrar a identificação do memorialista com a maneira de falar de Dona Carmo: “Eu não amo a ênfasis. Confesso aqui outra coisa. Dona Carmo é das poucas pessoas a quem nunca ouvi dizer que são “doidas por morango”, nem que “morrem por ouvir Mozart” ” (148).
De qualquer maneira, essa intensidade, com a qual o diplomata não estabelece quaisquer relações, mesclada de saudade e sentimentalismo, será um traço forte dessa sociedade onde os interesses privados se solidificam em detrimento aos interesses públicos.
Vale aqui lembrar o Barão de Santa-Pia, representante do setor agrário, e do quanto sua classe não nos terá influenciado pelo transcorrer dos anos. No tocante à abolição dos escravos, ele se antecede à proclamação, libertando seus escravos, mas para sublinhar os interesses privados: “ quero deixar provado que julgo o ato do governo uma expoliação por intervir no exercício de um direito que só pertence ao proprietário e do qual uso com perda minha, porque assim o quero e posso” (223).
A questão é se esse sentimentalismo é suficiente para entendermos a mentalidade de uma sociedade. E aí vem a interferência de Machado e a construção de suas imagens, estruturadas de maneira ambígua, difícil e sem nome. É aqui onde mais se evidencia a duplicidade, o complexo e o paradoxo.
II
Podemos colecionar um tanto de imagens complexas:
“ seu gracioso e austero meio luto de viúva” (sobre Fidélia);
“ logo vi essas duas expressões no rosto da boa senhora, combinadas em uma só e única, a espécie de meio luto” (sobre Dona Carmo);
“ achamo-la entre alegre e triste, se esta expressão pode definir um estado que não se descreve; eu, ao menos, não posso” (sobre Dona Carmo);
“ o que me atrai em Fidélia é principalmente certa feição de espírito, algo parecido com o sorriso fugitivo que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la, se tiver ocasião”;
“ não ponho aqui o sorriso (de Tristão) porque foi uma mistura de desejo, de esperança, de saudade, e eu não sei nem descrever nem pintar. Mas foi, foi isso mesmo que aí digo, se as três palavras podem dar idéia da mistura, ou se a mistura não era ainda maior” (Tristão reagindo a expressão do conselheiro – a pessoa do filho pintada pela filha).
Tem-se a impressão que o conselheiro exita diante de imagens complexas, o que daria às Memórias o tom turvo que a impregna. É como ele mesmo o diz , “sombra da sombra de um assunto”. Mas, ainda assim, o que vigora é a imagem, levando inclusive ao tom de galhofa do conselheiro ao comentar a expressão de Tristão – “Grande Talento” – ao se referir à viúva: “ se fosse ele não soltaria a mesma exclamação, antes outra, igualmente estética, é verdade, mas de uma estética visual, não auditiva” (627 e 628).
Daí a relação entre as Memórias de Aires e a fotografia; é da imagem congelada e, portanto, retirada de seu movimento, que Machado vai explorar toda sua complexidade. Assim como o diário é um duplo do real, tanto quanto a fotografia, ele também o congela e capta o simultâneo. A sua preferência pelo público terá esse particular: dar visibilidade ao que é do âmbito invisível do privado. Será também a forma de trazermos à luz nossas mazelas, transformando tabus em totens:
“ Eu gosto de ver impressa as notícias particulares, é bom uso, faz da vida de cada um ocupação de todos. Já as tenho visto assim, e não só impressas, mas até gravadas. Tempo há de vir em que a fotografia entrará no quarto dos moribundos para lhes fixar os últimos instantes; e se ocorrer maior intimidade entrará também” (974).
III
O “si-mesmo” é o campo de desejo onde impera o sonho e o esquecimento, simetricamente opostos ao culto da memória e da saudade. No território do “si-mesmo” vigora inclusive a lei da contradição: “fique isto confiado a ti somente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que não penso” (336).
E foi assim que num determinado dia, 24 de maio de 1888, ao meio-dia, o conselheiro Aires escreve um texto, que, conforme ele o diz, é “uma página feita de duas, ambas contrárias e filhas da mesma alma de sexagenário”. Na primeira parte ele sonha que a viúva Noronha vai até sua casa e se confessa apaixonada por ele; na segunda parte, menciona o fato de que a Batalha do Tuiuti, com o tempo, será completamente esquecida, assim como todos os demais feitos históricos.
A questão que salta aos olhos e que ajuda a construir as imagens complexas não será, todavia, a lógica da oposição (ver epígrafe). A complexidade vem justamente da junção.
Aos interesses privados e individualistas, juntam-se os interesses da espécie, como o denomina Machado: “ Se eu a visse no mesmo lugar e postura (novamente no cemitério, como no início do romance), não duvidaria ainda assim do amor que Tristão lhe inspira. Tudo poderia existir na mesma pessoa, sem hipocrisia da viúva, nem infidelidade da próxima esposa. Era o acordo ou contraste do indivíduo e da espécie. A recordação do finado vive nela, sem embargo da ação do pretendente; vive com todas as doçuras e melancolias antigas, com o segredo das estréias de um coração que aprendeu na escola do morto. Mas o gênio da espécie faz reviver o extinto em outra forma...”(903).
Essa última frase é que produz a imagem complexa. Não basta ver a possibilidade de ambas as formas alternadamente, mas juntá-las numa única. Ir ao cemitério não significaria nem costume, nem afeição ao falecido mesmo estando a amar o seu novo pretendente. Significaria isso sim encontrar-se diante da pessoa extinta como se fosse a pessoa futura, fazendo de ambas uma só criatura presente.
Essa idéia de junção ou de repetição, ao meu ver, é o que funda a idéia de substituição. E se pensarmos bem, funda inclusive as memórias de Aires e a literatura. É diferente da saudade ou da melancolia porque tem implícita a ação.
O romance em referência poderia ser traduzido como as estratégias de Dona Carmo para substituir a ausência de filhos. Ela ganha mas não leva. E até aí terá sido complexo o seu resultado:
“ Ao transpor a porta pra rua vi-lhe no rosto e na atitude uma expressão a que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos” (1165).
Esse “si-mesmo”, do qual Fidélia fugiu até quanto pôde em seu luto, e que era para o casal Aguiar as estratégias de substituição, não teria outro nome senão desejo, vontade, ação. E foi, ao que parece, o que Machado trouxe à literatura e cultura nacional, mesmo não tendo esta um fundo originário que a contituísse.
Acho que poderíamos terminar aqui esse texto com a consciência machadiana de uma ausência originária – é quando ele afirma do quanto somos constituídos pela diferença:
“Quando eu era moço e andava pela Europa ouvi dizer de certa cantora que era um elefante que engolira um rouxinol. Creio que falavam de Alboni, grande e grossa de corpo, e voz deliciosa. Pois eu terei engolido um cão filósofo, e o mérito do discurso será todo dele. Quem sabe lá o que me haverá dado um dia o meu cozinheiro? Nem era novo para mim esse comparar de vozes vivas com vozes defuntas” (610).
