sábado, 31 de julho de 2010

A POÉTICA DO SUBLIME - THOMAS WEISKEL



1- A discussão do Sublime empreendida por Thomas Weiskel, em contraposição ao idealismo kantiano, terá como pressuposto o domínio interior indefinível – é o pressuposto realista ou psicológico. Daí a importância concedida à experiência dramática do poema. Sua análise de Blake, em “O Homem Obscuro”, ilumina o que em Kant teria permanecido encoberto. Segundo Weiskel, Blake ajuda-nos a completar o entremeio emocional da estrutura de Kant. Há que se demorar nas etapas do Momento Sublime para que possamos perceber a sutileza dos movimentos, a passagem de uma etapa a outra. O romance familiar, o Complexo de Édipo, serão categorias usadas pelo autor a fim de dar conta da estrutura do Sublime, independentemente das determinações locais.


2- A partir do século XVIII, através de Locke e Kant, a abordagem do Sublime foi deslocada. Se antes, a fonte era Longino, segundo o qual a natureza é transcendente e implanta em nossa alma o amor ao que é mais divino, a partir do século XVIII o Sublime se instaura em função de uma crise na relação entre sensação e idéia. É portanto da crise na relação entre natureza física e imaginação, uma relação não mais transcendental, como o era em Longino, que o Sublime se coloca. Daí o papel crítico que ele exerce na organização semiótica do século XVIII, segundo a qual, a relação entre reflexão e sensação se faz via relação metafórica e semiótica entre termos incomensuráveis. Por exemplo, vasta sensação e vasta faculdade. Essa relação seria garantida via linguagem (a palavra “vasta”), estando implícito aí o consenso social e a convenção.
O Sublime tem, pois, um fundo subversivo e reparador: usa palavras fora da ordem natural de convenção para logo em seguida instaurar uma nova ordem. Viola o decoro e em seguida responde à fissura entre palavra e coisa.
Mas, da descontinuidade, a ansiedade é uma conseqüência natural. Princípio de individuação do desejo, a ansiedade cresce no vazio. E se o tédio a mascara, o terror, enquanto terapia homeopática, cura a inquietação através de uma ansiedade mais forte. A relação entre terror e Sublime se fará necessária pela eliminação do campo de possibilidade do desejo. É o ônus da sublimação: além da perspectiva moral, onde entra o código semiótico com suas transposições metafóricas, tem também a perspectiva organizacional – “nada vem do nada” – há que se computar os ganhos e perdas pela lógica das compensações.


3- O Momento Sublime tem três fases distintas, segundo o formalismo kantiano: 1) em primeiro lugar, a relação harmoniosa com o objeto – ele é compreendido; a relação entre sensação e reflexão é linear; existe o fluxo da significação; o que prepondera é a continuidade do processo sintagmático; 2) a relação habitual se rompe; não existe mais uma relação homóloga – ela passa a ser indeterminada; a leitura é interrompida ou em função de um excesso de objeto ou excesso de espírito, o que pode também ser entendido como relação diferencial entre significante e significado; a conseqüência é o assombro; 3) recobra-se o equilíbrio entre o interior e o exterior; essa nova relação entre o espírito e o objeto se dá via relação indeterminada entre espírito e ordem transcendente; se na primeira fase havia uma relação homóloga, agora ela é meta.
O grande problema dessa esquema kantiano é a ausência da diacronia. Nada nos diz do mecanismo que capacita o espírito mover-se quase que instantaneamente de uma fase a outra.

No tocante à terceira fase, o excesso do significante será restabelecido via um sistema conotativo de segunda ordem, do qual, seus significantes serão: os signos ou relações significativas de um sistema denotativo de primeira ordem, e, a ideologia.
O sentido do Momento Sublime não deriva das relações significativas que o provocam. Daí porque as substituições esclarecem o Sublime, mas não o causam: o terror que se tem da escuridão está associada a idéia de fantasma, mas daí dizer que a causa do terror é a idéia de fantasma vai uma grande diferença. O associacionismo é uma característica desse Sublime Metafórico, ao qual se liga o sublime natural (em contraposição ao de Longino), o sublime kantiano, o sublime do leitor e o sublime hermenêutico. Ele vem como resposta à desordem da similaridade.

O segundo discurso restabelecido, diz respeito ao excesso do significado: é quando permanecemos paralisados diante da palavra que contem tanto, que não podemos saber; então interrompemos a leitura; permanecemos em êxtase, fixados; anula-se a temporalidade, que é a dimensão necessária para o fluxo sintagmático. Neste caso, vive-se sob o signo da Metáfora Absoluta, onde tudo é potencialmente idêntico a tudo. A essa desordem da continuidade, que se cumpre curar, o Sublime Metonímico é a solução. É o estilo realista em contraposição ao simbolista, do qual faz parte o Sublime Metafórico.

Abordamos aqui a forma do Sublime em suas três fases. Aqui, o que prevalece é a semiótica, a transposição metafórica de duas ordens de intangibilidade. Mas isso não esgota o Sublime, expressa tão somente a limitação de Kant para abordá-lo em toda sua integridade. Aqui, apenas substitui-se uma ordem por outra. A experiência formal do Sublime diz respeito à experiência de Poder do ego, ou do poeta, criador do poema. É a submissão a um novo controle, dessa vez vertical. Já a experiência dramatizada do Sublime, diz respeito ao ego do poema e, enquanto tal, tem a ver com sua liberdade.


4- Em relação à Ética da Alienação, vamos abordar agora as duas versões sobre a transcendência – o Sublime Negativo e o Sublime Egotista -, duas formas distintas de operar a transcendência.
Se no Sublime Negativo o dualismo entre espírito e razão é intensificado, caracterizando uma relação indeterminada entre os dois estados e propiciando um caráter oscilante e dialético, já no Sublime Egotista, o espírito (ego fenomênico ou sensível) é engrandecido. Nesse último caso, a imaginação é a consciência totalizadora e faz acarretar um deslocamento: o apocalipse nem é exterior, nem é indeterminado; é a idéia de positividade e imanência.
Tudo isso terá uma conseqüência no “Eu” e vai propiciar um problema formal: porque se o EU dramático diferencia o conhecer e o criar, dentro do Sublime Negativo, já o EU lírico faz tudo equivaler-se a si mesmo, fundindo poeta, falante e leitor. O Sublime Egotista torna-se um EU reflexivo e meditabundo, cuja percepção ou imagística é sempre retratada de si mesmo.
São duas formas de alienação: alienação das aparências no Sublime Egotista (indiferença, mediação pelo passado e transformação do Outro), e, alienação entre imaginação e razão no Sublime Negativo.
Vale aqui lembrarmos também o “Belo” e de como nele será enfrentado o dualismo. Sua estrutura paradoxal será ambígua: a grandeza é atingida, ao contrário do que se dá no Sublime Negativo. No entanto, a correspondência entre real e ideal se dá subjetivamente, mantendo intactos os termos que se opõem. A essa ambigüidade do “Belo”, o Sublime responde da seguinte maneira: um objeto na natureza convida a admiração; deve-se então expor a fraude e redirecionar a admiração ao próprio sujeito (alienam-se as formas, ao invés de se buscar uma harmonia entre elas e o espírito).
O suicídio mental e o solipsismo serão as contrapartes do Sublime Negativo e Egotista, respectivamente.


5- Em sua crítica à transcendência, Blake defende a infinitude do Homem imaginativamente. Segundo ele, existe um mesmo lapso de percepção, seja no Sublime Egotista, seja no Sublime Negativo. A essa exuberância sem objeto corresponderia um desastre, nos termos de Blake: o contínuo esforço de elevar-se acima de si mesmo, teria como conseqüência a circularidade da ação humana; é a alienação da percepção que se expressa em regularidade mecânica, seja como circularidade no caso do Sublime Egotista, seja como paralelismo infinito no caso do Sublime Negativo.
Todavia, Weiskel traz à tona Blake, não para subverter o modelo kantiano, mas para completar o entremeio emocional de sua estrutura. E ao invés de três etapas, se destacam quatro: 1) a paixão indolente pelo objeto do desejo; 2) o sujeito do Sublime é envolvido por uma aparência ou perspectiva de externalidade, de extensão tal que suas capacidades cessam de funcionar energicamente e logo se sentem diminuídas e humilhadas; de seu fatigado intelecto surge uma imagem indeterminada de perfeição ou totalidade ; 3) projeção negativa; 4) a consciência recupera a auto-estima, se identifica e aliena a “natureza em nós”.
Por traz da fenomenologia do Momento Sublime existe então um psicodrama. A sublimação é essa projeção negativa, proveniente da culpa. E o medo ou terror, segundo Blake, é função da obscuridade. O Homem Obscuro, por não ver distintamente o objeto, sente medo e culpa. Daí a luta para suprimir a paixão que sente como vergonha. A auto-estima é finalmente a crise edipiana resolvida.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

FILOSOFIA

Ontem, eu tive um estranho pensamento: se não fosse o Fluminense... eu já teria me suicidado.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A LISTA DOS DEZ MAIS E DOS DEZ MENOS

Fazer listas é forma de passar o tempo. Antes, aqui mesmo no blog, já havia feito os dez mais do rock brasileiro. E também os dez menos. Claro, muita gente discordou e alguns ficaram na bronca. Mas já naquela ocasião, salientava o fato de que era apenas uma opinião e como tal não se deveria levar tão a sério.

Mas as listas cobrem outras finalidades. Uma delas é revelar linhas de afinidade. Serve como um recorte do que mais chamou a atenção, seja pro bem seja pro mal.

Desta vez, resolvi cobrir a área de composição na MPB, dos anos 70 para cá.

Quem são os nossos grandes compositores?
E quais são os piores?

Interessavam-me, sobretudo, aqueles em atividade e que preenchiam o mesmo espaço. Não será raro um par de nomes que participe da mesma cena, um entre os melhores e o outro entre os piores. Um bem que se faz a nova geração, por exemplo, certamente não será colocar todos num mesmo barco.

Por fim, entendo composição na MPB como a relação mágica entre letra e melodia, sugerindo idéias, tensões e soluções . Não entra aqui capacidade vocal, interpretação, arranjo, execução, nem performance. Daí a especificidade do gênero canção: nem só melodia, nem só texto, mas a relação entre ambos.

O lugar que cada um ocupa na lista também é muito importante e foi o que mais deu trabalho. Quem vem à frente e quem vem atrás? O número 1, entre os melhores e entre os piores, dá sentido à lista.

OS DEZ PIORES COMPOSITORES NACIONAIS
1- Cazuza
2- Lenine
3- Rita Lee
4- Nando Reis
5- Marcelo Camelo
6- Ed Motta
7- Mais 3 (Moreno, Kassin e Domenico)
8- Gabriel Thomaz
9- Céu
10- Herbert Viana


OS DEZ MELHORES COMPOSITORES NACIONAIS
1- Jards Macalé
2- Arnaldo Batista
3-Caetano Veloso
4-Chico Buarque
5-Luiz Tatit
6- Arnaldo Antunes
7- Júpiter Maçã
8- Renato Martins
9- Rômulo Fróes
10- Lobão

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA


A Angústia da Influência, de Harold Bloom, é daqueles livros aos quais cheguei pelo método labiríntico de leitura. No caso, foi Richard Rorty o responsável, com seu belo “Contingência, Ironia e Solidariedade”. Mas Arthur Nestrovski é co-responsável: em seu “Ironias da Modernidade”, um capítulo é dedicado ao estudo da Influência.

Não há como fazer vistas grossas a esse livrinho denso de Bloom. Da leitura, saímos arrasados, não somos mais os mesmos. Bloom não se alinha aos desconstrutivistas e minha reles formação se deve a eles, ou seja, Nietzsche, Foucault e Deleuze. Ensaiei alguns mergulhos em Derrida mas saí torto e sem ar – é de longe o mais complicado e, por isso mesmo, o mais sedutor. Mas foi a partir do esloveno Slavoj Zizek, que meu olhar se voltou para os americanos.

Assim como no início do livro Bloom designa a nova esquerda de idiota, ao final toma Artaud como cristo. E tanto num como noutro caso, para sublinhar a importância da região fronteiriça entre o solipsismo e a herança cultural. Daí a importância do oxímoro como característica da Influência Poética: é mão dupla. O efebo é marcado pelo precursor, mas este também o é pelo efebo, no caso de um poeta forte. A poética de Bloom assinala esse percurso: um primeiro momento narcísico e de identificação com o precursor; um segundo momento em cujo desenvolvimento poético se dá a relação revisionária; e, por fim, um terceiro momento que marca a volta da auto-exaltação inicial.

O caráter dialético em Bloom assinala a mão dupla da Influência (oxímoro ou paradoxo): “se todo ato de visão determina uma lei particular, a base do paradoxo da Influência Poética está seguramente fundada” (pág 92).

Será o clinamen essa primeira forma revisionária: o desvio em relação ao precursor. É quando o erro de leitura empreendido pelo efebo se associa ao ato criativo. Daí a importância da Patafísica de Jarry – ciência das soluções imaginárias. Se a poesia moderna está fundada no dualismo cartesiano, a solução idealista não será a endossada por Bloom. Segundo esta, “insiste em ti mesmo: jamais imites” ou “não é possível que a alma se digne a repetir-se”, conforme Emerson.

Um alerta de Bloom, logo no início do livro, assinala seu pragmatismo: o conhecimento dos poetas mortos pelos vivos é criação – feita pelos vivos para a necessidade dos vivos.
Mas se a poesia pós-iluminista ou romântica rebelou-se contra Descartes, ainda assim continuou sendo dualista cartesiana. Nesse sentido, Blake terá ido mais longe e, segundo Bloom, foi quem deu a melhor resposta dentro do contexto dualista que marca a poesia moderna. Porque ao invés do êxtase ou do esmaecimento dos Particulares, reduzindo um mundo de diferenças a um cinza de uniformidade – a extensão cartesiana é a categoria raiz do dualismo moderno -, os Particulares, isso sim, se apresentariam cada um como ele mesmo. Ao invés da continuidade da extensão ou do passado que se precipita no presente, a poesia em Blake acena para a descontinuidade e para o futuro. A melhor resposta ao cartesianismo estaria mesmo em Blake e vale aqui acompanharmos o texto:

“O clinamen, ou desvio, é necessariamente o conceito de trabalho central da Influência Poética, pois o que divide cada poeta de seu Pai Poético (e assim salvo por divisão) é um caso de revisionismo criativo. Devemos entender que o clinamen deriva sempre de um sentido patafísico do arbitrário. O poeta de tal modo coloca o seu precursor, de tal modo desvia o seu contexto, que os objetos visionários, com sua superior intensidade, esmaecem-se no contínuo. O poeta tem em relação ao heterocosmo do precursor, um arrepiante senso do arbitrário – da igualdade, ou igual casualidade, de todos os objetos. Esse não é redutio, pois é o contínuo, o contexto que coloca, que é revisto e moldado no visionário; é levado à intensidade dos objetos cruciais, que então se fundem nele de uma forma oposta ao wordsworthiano “funde-se na luz do dia comum”. A patafísica revela-se verdadeiramente exata; no mundo dos poetas, todas as regularidades são de fato “exceções regulares”; a recorrência da visão é ela própria uma lei particular, a base do paradoxo da Influência Poética está seguramente fundada; o novo poeta determina ele próprio a lei particular do precursor. Se uma interpretação criativa é, pois, necessariamente uma interpretação distorcida, devemos aceitar esse aparente absurdo. É o mais alto modo de absurdo, o apocalíptico absurdo de Jarry, ou de todo o empreendimento de Blake” (pág 92).

Ainda assim, Bloom marca sua diferença em relação aos visionários franceses, por demais próximos do fascínio de Descartes. É que o clinamen, além de involuntário, é também intencional, portanto, é uma patafísica impura. Depois da queda de Satanás, dentro da cosmovisão miltoniana, será preciso reunir o que resta e explorar os limites do possível na danação, ao invés de arrepender-se e aceitar um Deus inteiramente diferente do eu e externo ao possível.

Com Bloom, o eu nunca terá sido abandonado. A sua dialética põe lado a lado o acaso e a vontade.

MÚSICA OBSCURA

Morcegos voam
sob o sol da manhã.
Em vôo rasante,
são notas numa pauta
cuja música só eu escuto.

Pudesse você também ouvir
essa música obscura
que vem de longe
e permanece distante dos editais de cultura.

skylab/julho 2010

sábado, 10 de julho de 2010

Rogério Skylab - Skylab IX Ao Vivo - 08 - O Mundo Tá Sempre Girando


Maurício Pereira foi um dos convidados do meu DVD. Essa música é uma parceria nossa. Algum tempo atrás, aqui mesmo no blog, escrevi um texto sobre Os Mulheres Negras: http://godardcity.blogspot.com/2008/09/o-mulheres-negras.html#links

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Radiocaos ao vivo - Rogerio Skylab I


Esse poema chama-se FANNY ARDANT e faz parte do meu livro DEBAIXO DAS RODAS DE UM AUTOMÓVEL. Aos interessados em adquirir o livro, lembro que a forma de comprá-lo é a mesma dos discos - http://www.rogerioskylab.com.br/comprar_livro.htm
Essa poema foi lido no Radiocaos, da mesma forma que o anterior.

Radiocaos ao vivo - Rogerio Skylab - Qual foi o lucro obtido?


Esse poema, QUAL FOI O LUCRO OBTIDO?, foi lido no RADIOCAOS - um evento multimídia que rola em Curitiba. Através do Luiz Antônio Ferreira, músico e produtor, foi que conheci o RADIOCAOS. Cheguei inclusive a gravar alguns de meus poemas com o Luis Antônio - eles têm o hábito salutar de gravar poetas falando seus poemas (esse tipo de registro é bem bacana). Faço uma analogia entre eles e o CEP 20 mil aqui do Rio.
Outra figura de destaque do Radiocaos é o Rodrigo Barros - quem me apresenta.
Nessa poema, incluí um verso que falta à versão do disco.
E a maneira de falar acaba também sendo diferente da versão anterior.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

THAT IS THE QUESTION

Marcelo Barreto, Lédio Carmona, André Rizek, Renato Maurício Prado, Maurício Noriega, Paulo César Vasconcelos, Telmo Zanini, Marco Antônio Rodrigues... é uma turma de tirar o chapéu. São todos comentaristas do Sport TV. É a intelectualidade do futebol no momento. E o mais importante: não vieram dos gramados.

Lembro-me também de uma outra geração de comentaristas: Achiles Chirol, Luis Mendes, José Inácio Werneck, Sérgio Cabral, Rui Porto, Washington Rodrigues (o Apolinho), Nelson Rodrigues, que faziam parte da inesquecível mesa redonda da TVE.

E mais antiga ainda, dos meus tempos de criancinha, ainda mamando na teta, a Grande Resenha Facit, com Nelson Rodrigues, Jose Maria Scassa, João Saldanha, Armando Nogueira e Luis Mendes.

Claro que cada emissora tem seu quadro de comentaristas.
No entanto, essas três gerações citadas acima, ao menos para mim, foram as mais representativas.

Faltou incluir aí Sergio Noronha, Luiz Carlos Ostermann e Juarez Soares.

Não cito ex-jogador de futebol porque nunca entendi essa relação. Comentar tem um pé na linguagem. Como fazer uma análise, se quem o faz não tem relação nenhuma com a linguagem? Não basta entender de futebol. O comentarista que não domina a linguagem, falada e escrita, está fadado a ser ridicularizado. E o maior exemplo é Pelé, o rei do futebol.

Mas ontem, assistindo ao Sport TV, me deparei com um certo otimismo de nossos comentaristas. Segundo Marcelo Barreto, o Brasil é um dos favoritos para ganhar a Copa.
Chegou-se mesmo a dizer no programa, repetindo-se um comentário estrangeiro, que nossa seleção é letal: aparecendo uma oportunidade, é gol na certa.

Paro e penso.
Será que só eu vejo diferente?

Pois para mim a seleção brasileira não é favorita e não vai ganhar a copa.

Percebo entre nossos intelectuais uma certa disposição a navegar na mesma corrente dos comentaristas estrangeiros que cobrem a copa. Para esses, o Brasil é sempre favorito, existe o peso da camisa, a Alemanha o prova, e, portanto, somos fortes concorrentes.

E, no entanto, ainda não fomos testados. Estamos às vésperas de sermos testados verdadeiramente. E mesmo passando pela Holanda, nada nos garante que chegamos a final e que seremos campeões. Segundo nossos comentaristas, mesmo jogando mal, podemos chegar lá (vide 2002). Existe uma tranqüilidade no ar de cada um deles, como a nos dizer: a História não mente - a seleção brasileira é sempre favorita.

Daí o espanto de 82 na Espanha e de 98 na França.
Digo mais: desde 1958, o selecionado brasileiro atual só é melhor que o de 1966.
Entramos nessa copa já derrotados.

Mas nossos intelectuais permanecem tranqüilos. Eles acreditam. "E na pior das hipóteses, mesmo perdendo, permanecemos penta. Os dados não mentem jamais".

Gostaria de entender essa tranquilidade.
De quem prefere olhar à distância e não encarar de frente a própria miséria.
Estão aliviando quem?
Por que fazem de conta que não estão vendo?
A derrota é uma contingência da disputa, claro.
Mas já entrar derrotado... that is the question.