
1- A discussão do Sublime empreendida por Thomas Weiskel, em contraposição ao idealismo kantiano, terá como pressuposto o domínio interior indefinível – é o pressuposto realista ou psicológico. Daí a importância concedida à experiência dramática do poema. Sua análise de Blake, em “O Homem Obscuro”, ilumina o que em Kant teria permanecido encoberto. Segundo Weiskel, Blake ajuda-nos a completar o entremeio emocional da estrutura de Kant. Há que se demorar nas etapas do Momento Sublime para que possamos perceber a sutileza dos movimentos, a passagem de uma etapa a outra. O romance familiar, o Complexo de Édipo, serão categorias usadas pelo autor a fim de dar conta da estrutura do Sublime, independentemente das determinações locais.
2- A partir do século XVIII, através de Locke e Kant, a abordagem do Sublime foi deslocada. Se antes, a fonte era Longino, segundo o qual a natureza é transcendente e implanta em nossa alma o amor ao que é mais divino, a partir do século XVIII o Sublime se instaura em função de uma crise na relação entre sensação e idéia. É portanto da crise na relação entre natureza física e imaginação, uma relação não mais transcendental, como o era em Longino, que o Sublime se coloca. Daí o papel crítico que ele exerce na organização semiótica do século XVIII, segundo a qual, a relação entre reflexão e sensação se faz via relação metafórica e semiótica entre termos incomensuráveis. Por exemplo, vasta sensação e vasta faculdade. Essa relação seria garantida via linguagem (a palavra “vasta”), estando implícito aí o consenso social e a convenção.
O Sublime tem, pois, um fundo subversivo e reparador: usa palavras fora da ordem natural de convenção para logo em seguida instaurar uma nova ordem. Viola o decoro e em seguida responde à fissura entre palavra e coisa.
Mas, da descontinuidade, a ansiedade é uma conseqüência natural. Princípio de individuação do desejo, a ansiedade cresce no vazio. E se o tédio a mascara, o terror, enquanto terapia homeopática, cura a inquietação através de uma ansiedade mais forte. A relação entre terror e Sublime se fará necessária pela eliminação do campo de possibilidade do desejo. É o ônus da sublimação: além da perspectiva moral, onde entra o código semiótico com suas transposições metafóricas, tem também a perspectiva organizacional – “nada vem do nada” – há que se computar os ganhos e perdas pela lógica das compensações.
3- O Momento Sublime tem três fases distintas, segundo o formalismo kantiano: 1) em primeiro lugar, a relação harmoniosa com o objeto – ele é compreendido; a relação entre sensação e reflexão é linear; existe o fluxo da significação; o que prepondera é a continuidade do processo sintagmático; 2) a relação habitual se rompe; não existe mais uma relação homóloga – ela passa a ser indeterminada; a leitura é interrompida ou em função de um excesso de objeto ou excesso de espírito, o que pode também ser entendido como relação diferencial entre significante e significado; a conseqüência é o assombro; 3) recobra-se o equilíbrio entre o interior e o exterior; essa nova relação entre o espírito e o objeto se dá via relação indeterminada entre espírito e ordem transcendente; se na primeira fase havia uma relação homóloga, agora ela é meta.
O grande problema dessa esquema kantiano é a ausência da diacronia. Nada nos diz do mecanismo que capacita o espírito mover-se quase que instantaneamente de uma fase a outra.
No tocante à terceira fase, o excesso do significante será restabelecido via um sistema conotativo de segunda ordem, do qual, seus significantes serão: os signos ou relações significativas de um sistema denotativo de primeira ordem, e, a ideologia.
O sentido do Momento Sublime não deriva das relações significativas que o provocam. Daí porque as substituições esclarecem o Sublime, mas não o causam: o terror que se tem da escuridão está associada a idéia de fantasma, mas daí dizer que a causa do terror é a idéia de fantasma vai uma grande diferença. O associacionismo é uma característica desse Sublime Metafórico, ao qual se liga o sublime natural (em contraposição ao de Longino), o sublime kantiano, o sublime do leitor e o sublime hermenêutico. Ele vem como resposta à desordem da similaridade.
O segundo discurso restabelecido, diz respeito ao excesso do significado: é quando permanecemos paralisados diante da palavra que contem tanto, que não podemos saber; então interrompemos a leitura; permanecemos em êxtase, fixados; anula-se a temporalidade, que é a dimensão necessária para o fluxo sintagmático. Neste caso, vive-se sob o signo da Metáfora Absoluta, onde tudo é potencialmente idêntico a tudo. A essa desordem da continuidade, que se cumpre curar, o Sublime Metonímico é a solução. É o estilo realista em contraposição ao simbolista, do qual faz parte o Sublime Metafórico.
Abordamos aqui a forma do Sublime em suas três fases. Aqui, o que prevalece é a semiótica, a transposição metafórica de duas ordens de intangibilidade. Mas isso não esgota o Sublime, expressa tão somente a limitação de Kant para abordá-lo em toda sua integridade. Aqui, apenas substitui-se uma ordem por outra. A experiência formal do Sublime diz respeito à experiência de Poder do ego, ou do poeta, criador do poema. É a submissão a um novo controle, dessa vez vertical. Já a experiência dramatizada do Sublime, diz respeito ao ego do poema e, enquanto tal, tem a ver com sua liberdade.
4- Em relação à Ética da Alienação, vamos abordar agora as duas versões sobre a transcendência – o Sublime Negativo e o Sublime Egotista -, duas formas distintas de operar a transcendência.
Se no Sublime Negativo o dualismo entre espírito e razão é intensificado, caracterizando uma relação indeterminada entre os dois estados e propiciando um caráter oscilante e dialético, já no Sublime Egotista, o espírito (ego fenomênico ou sensível) é engrandecido. Nesse último caso, a imaginação é a consciência totalizadora e faz acarretar um deslocamento: o apocalipse nem é exterior, nem é indeterminado; é a idéia de positividade e imanência.
Tudo isso terá uma conseqüência no “Eu” e vai propiciar um problema formal: porque se o EU dramático diferencia o conhecer e o criar, dentro do Sublime Negativo, já o EU lírico faz tudo equivaler-se a si mesmo, fundindo poeta, falante e leitor. O Sublime Egotista torna-se um EU reflexivo e meditabundo, cuja percepção ou imagística é sempre retratada de si mesmo.
São duas formas de alienação: alienação das aparências no Sublime Egotista (indiferença, mediação pelo passado e transformação do Outro), e, alienação entre imaginação e razão no Sublime Negativo.
Vale aqui lembrarmos também o “Belo” e de como nele será enfrentado o dualismo. Sua estrutura paradoxal será ambígua: a grandeza é atingida, ao contrário do que se dá no Sublime Negativo. No entanto, a correspondência entre real e ideal se dá subjetivamente, mantendo intactos os termos que se opõem. A essa ambigüidade do “Belo”, o Sublime responde da seguinte maneira: um objeto na natureza convida a admiração; deve-se então expor a fraude e redirecionar a admiração ao próprio sujeito (alienam-se as formas, ao invés de se buscar uma harmonia entre elas e o espírito).
O suicídio mental e o solipsismo serão as contrapartes do Sublime Negativo e Egotista, respectivamente.
5- Em sua crítica à transcendência, Blake defende a infinitude do Homem imaginativamente. Segundo ele, existe um mesmo lapso de percepção, seja no Sublime Egotista, seja no Sublime Negativo. A essa exuberância sem objeto corresponderia um desastre, nos termos de Blake: o contínuo esforço de elevar-se acima de si mesmo, teria como conseqüência a circularidade da ação humana; é a alienação da percepção que se expressa em regularidade mecânica, seja como circularidade no caso do Sublime Egotista, seja como paralelismo infinito no caso do Sublime Negativo.
Todavia, Weiskel traz à tona Blake, não para subverter o modelo kantiano, mas para completar o entremeio emocional de sua estrutura. E ao invés de três etapas, se destacam quatro: 1) a paixão indolente pelo objeto do desejo; 2) o sujeito do Sublime é envolvido por uma aparência ou perspectiva de externalidade, de extensão tal que suas capacidades cessam de funcionar energicamente e logo se sentem diminuídas e humilhadas; de seu fatigado intelecto surge uma imagem indeterminada de perfeição ou totalidade ; 3) projeção negativa; 4) a consciência recupera a auto-estima, se identifica e aliena a “natureza em nós”.
Por traz da fenomenologia do Momento Sublime existe então um psicodrama. A sublimação é essa projeção negativa, proveniente da culpa. E o medo ou terror, segundo Blake, é função da obscuridade. O Homem Obscuro, por não ver distintamente o objeto, sente medo e culpa. Daí a luta para suprimir a paixão que sente como vergonha. A auto-estima é finalmente a crise edipiana resolvida.
