terça-feira, 21 de setembro de 2010

SKYLAB NO CANAL BRASIL

O Estranho Mundo de Zé do Caixão: Rogério Skylab• Data: Sábado - 25 de setembro |
• Início: 00h |
• Término: 00h30
• Variedades / Entrevista
• País: Brasil
• Cor: Colorido
• Classificação: Programa livre
Num bate-papo sobrenatural, o enigmático músico Rogério Skylab e Zé do Caixão conversam sobre rock, cinema de terror, Edgar Allan Poe e sobre mistérios desta e de outras vidas.
Veja todos os horários deste programa
DATA HORÁRIO CANAL
Os horários são fornecidos pelas emissoras e estão sujeitos a alterações.

25/09 00:00 Canal Brasil

26/09 01:30 Canal Brasil

30/09 04:30 Canal Brasil

LAVAÇÃO DE ROUPA SUJA

Ninguém é capaz de defender como eu, com unhas e dentes, o Fluminense diante de uma torcida adversária.
Mas esse post é para quem torce para o tricolor carioca.
É de Flu para Flu.
É lavação de roupa suja.

Mon semblable, mon frère, será que você está vendo o mesmo que eu?
A diretoria do nosso clube continua dando o ar de sua desgraça.
Contratações falaciosas, midiáticas.
Tudo parecendo que dessa vez vai.
Torcedores apaixonados já sonhando com o título que há tempos não ganhamos.
Mas a realidade implacável, dura, vem se aproximando cada vez mais. Tempos de vacas magras.
Eu poderia estar aqui festejando a segunda colocação.
Poderia afirmar que estamos há dois pontos do atual líder. E esquecer que esse mesmo líder tem um jogo a menos.
Poderia fazer de conta que não estou nem aí para o Cruzeiro um ponto atrás.
Poderia considerar o Botafogo inferior.
Ou seja: poderia me enganar.

Em relação a Fred, é caso perdido.
Ridículo culpar departamento médico.
A relação custo/benefício é menor que zero.
Basta comparar com Adriano, esse sim importante para o Fla: deu o título brasileiro ao rubro negro e voltou rapidinho para a Europa (não iam dispensá-lo, evidentemente).
Fred não deu nada ao Flu, a não ser a permanência na primeira divisão, o que é um tanto vergonhoso para a tradição tricolor, vamos combinar. E claro que os franceses não o querem de volta.

E Emerson?
E Deco?
Estranho serem liberados assim tão facilmente de seus clubes, vocês não acham?

O goleiro maluco quebrou o dedo.
Eu fui um dos que liderei campanha aqui nesse blog para que ele saísse do time no ano passado.
O Cuca até atendeu meus pedidos.
Mas o Muricy o trouxe de volta pro meu desespero.
Vocês não imaginam meu estado de pânico quando chutam ao nosso gol.
Porque tudo pode acontecer. Goleiro maluco é foda.
Antes pegar bolas defensáveis do que fazer milagres, e ainda por cima com os pés.
E logo no Flu, tradição de grandes goleiros: Veludo, Castilho, Felix, Paulo Vitor...

E a defesa, hein?
Nunca vi coisa tão atabalhoada.
Mas isso é recente. É coisa do Muricy. Com o Cuca não chegava a ser tão bizarra como é hoje. E como rifam a bola pra frente. Na minha época a gente chamava de “beque alemão”. O Leandro Euzébio ainda vai, é esforçado, faz alguns gols de cabeça. Mas esse Gum não desce, nem André Luis. Para um time que primou em sua história por uma defesa aguerrida... Altair, Galhardo, Denílson, Ricardo Gomes, Thiago Silva...

Enquanto Muricy cisma com Julio César... outra contratação equivocada, Fernando Bob – um jogador que ainda não está maduro – e Valencia, mais uma contratação que não disse a que veio junto com Belletti, Marquinhos estranhamente permanece na reserva. Carlinhos e Rodriguinho, até bem pouco tempo, também.
Segundo informações, Conca está jogando no sacrifício, o que acaba se refletindo em campo. E Washington, quando chega no segundo tempo, perde gols um atrás do outro por motivos óbvios (cansaço).

Antes do jogo com o Atlético Goianiense, depois de ter ganho do Ceará no Maracanã por 3x1, o técnico Muricy se dizia em paz. Depois daquele jogo, depois com o Corinthians, e depois com o bagaço do Flamengo... será que ele permanece em paz?
Ou esse filme eu já vi com o Palmeiras no ano passado?

De qualquer maneira, a questão não é o técnico, que inclusive foi ético com o clube, respeitando o contrato e recusando o convite para assumir a seleção.
O problema é a direção do clube.
Sempre foi e sempre será enquanto permanecer o núcleo que ali está.
As contratações são um belo exemplo.
Deus queira que eu esteja errado.

sábado, 18 de setembro de 2010

LULA ESTRANGULADO


Esse trabalho é do artista plástico Gil Vicente e que vai fazer parte da próxima bienal em São Paulo. A OAB, que não tem nada a ver com isso, está tentando censurar.
Vale a pena dar uma sacada nos trabalhos desse artista pernambucano.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

3- POR UMA LITERATURA TARADINHA - MARCELO MIRISOLA


No conto “Taradinho Parte Dois” de Marcelo Mirisola, em seu livro “Fátima fez os pés para mostrar na choperia”, primeiro livro de sua ficção decadentista,do ano de 1998, existe uma tentativa de definição da prática tarada. Definição indefinida. Monólogo longe do fluxo de consciência porque aqui o que se pratica é, sobretudo, o controle, a usurpação das imagens. Mas um controle que pretende proceder à dispensa da unidade: controlar para não permitir que se caia nas malhas da identidade.

Ainda que algumas fontes de referência sejam citadas, como é o caso de Henry Miller e Walt Whitman, nem com esses a prosa de Mirisola se identifica, porque lhes faltariam o estilo forjado que sobra nele. É como se caíssemos num jogo de ilusão a que o autor nos leva. Porra louquice extremamente racional, ainda assim poderíamos cair na tentação de aproximá-lo à literatura beat. E nada mais distante.

2- Daí porque nem ideologia, nem o si-mesmo, os textos constróem um espaço próprio à experiência tarada: tirando proveito de si-mesmo, das experiências sacanas e egoístas, mas também tirando proveito dos esquemas significativos e ideológicos. Tirar proveito não significa ser. É uma experiência pragmática que o leva, não a entrar em choque e nem a se identificar, mas a um termo continuamente renovado para futuros golpes. Rivalizando em importância com “Taradinho Parte Dois”, “Quem é Wadih Jorge Wadih?” vai nos dar uma cartografia desse estranho eu, enquanto o primeiro tenta alinhavar a experiência tarada.

3- Nem tesão, nem gozo. Se nos esquemas ideológicos, onde se situam o marketing e os profissionais de toda ordem, existe gozo sem tesão, no si-mesmo prepondera a tesão sem gozo, o trepar e o bulinar em pensamento. A experiência do taradinho no espaço intermediário do supermercado, não é tesão nem gozo, e isso terá conseqüências na linguagem, agora não mais linear, como o era em Nelson e Dalton Trevisan, mas amarrada, gaga. A linguagem de um taradinho no supermercado é banal, mas carregada de intensidade. Se compararmos o texto de Mirisola com o “Catatau” de Paulo Leminski, ambos radicais, vamos vislumbrar tamanhas diferenças, como se pisássemos diferentes continentes. No “Catatau”, a experiência da linguagem chega ao ponto do neologismo; estamos no plano do significante, tontos diante da diabrura da linguagem, quase sem alma, na superfície. Em Mirisola, ao contrário, afirma-se a banalidade, a linguagem comum. Estamos diante de um texto que flui como na linguagem comum. A questão é a intensidade que pulsa nas frases: é o taradinho pedindo coca-cola, ou perguntando as horas, ou tomando no gargalo. Esse deslocamento, esse novo espaço do supermercado, funciona como uma substituição: são os sintomas que são importantes. Daí porque nem mais tesão, nem mais gozo. A diferença entre a linguagem comum, repleta de intensidade na sua prática cotidiana, e o texto de Mirisola, é que neste último não há nada inconsciente. Ele encena, através do excesso, o sintoma. Busca o paradoxo e o expõe à superfície do texto, quando só a custa de muita teoria poderíamos atingi-lo ou explicá-lo. Em “Parque Sideral”, ele afirma: “antes da praia é bom saber que um bocado de coisas estão acontecendo por lá... Chamam de inconsciente”.

4- O plano de fuga, que tem a ver com travessia, deslocamento, à contragosto, e fluidez, significa fuga de si e dos outros. É o contrário de não saber, é antes de tudo não pertencer. É quando, na travessia do ônibus, entre o supermercado e a praia, o taradinho não pode mais contar consigo mesmo.
Daí a idéia de movimento que a ficção de Mirisola nos remete, sem chegar a lugar algum. A eloqüência e a retórica do seu texto são o que melhor expressam esse processo contínuo de deslocamento, nomadismo, de idas e vindas sem fim. Às vezes, períodos longos, outras vezes, curtos como unha necrosada. Mas antes de tudo, retórica. Daí porque, resguardadas as devidas diferenças, poderíamos filiá-lo à tradição da literatura taradinha a que faz parte Nelson Rodrigues e que nos remete a Dalton Trevisan – Mirisola é o ápice dessa tradição, seu ponto limite, quando a linguagem se descola e se basta. Em “Mas um cara doce como eu?”, ele diz: “ é por causa da minha eloqüência. De vez em quando até eu me acho eloqüente e tarado. Um pouco mais eloqüente do que tarado”. A condição, pois, do taradinho é a eloquência, ou, em outras palavras, ser taradinho é uma questão de linguagem.

5- Mas quem é esse estranho “eu” que habita sua ficção? Desde o primeiro texto “Quem disse que resisti trinta anos?”, passando por “Carta de Amor” – “quem disse que não? Quem disse que não nos amamos?” – o “quem disse” é recorrente. Porque através dele coloca-se em questão não somente o dito, mas, principalmente, quem o disse. Esse estranho eu é duplo, daí a auto-sacanagem. Diante desse fundo duplo, ou fundo falso, quais não serão as vicissitudes da aparência? Esse é o estranhamento do texto: dizer e desdizer. Diante do qual, o leitor comum interromperia a leitura, não houvesse um humor que nos convidasse a navegar mesmo sem direção. E esse dilema, encenado por Mirisola “no espelho” em “ Quem é Wadih Jorge Wadih?”, informa por fim a desnecessidade de dar amparo a aparência e do quanto desastrado seria aquele que viesse a abandonar o espelho e destruir a imagem. A opção é clara, malgrado todas as tentativas de se desdizer. A opção é ignorar a si-mesmo, daí o “quem disse”. A experiência do enlouquecimento é a aventura de uma ausência, é a travessia do taradinho, pra quem a broxada chega a ter status maior que a tesão. Decadentismo porque o parque de diversões é decadente, é ruína, em “Parque Sideral”, além de moralmente corrupto. Na história da literatura brasileira, Mirisola ocupa posição privilegiada porque depois dele um novo ciclo se inicia, ainda que, em seus primeiros passos, restaurando o realismo ingênuo do século XIX. Mas de nada valerá o recalcamento. Para o desenvolvimento do novo, cumpre olhar não só a história do experimentalismo brasileiro no século XX, como também a história da literatura taradinha, não para inserirmo-nos dentro do que seria já impossível, mas para nos ajudar a vislumbrar com mais clareza outras alternativas.

6- E toda essa história me faz lembrar novamente Júpiter Maçã: “me sinto um pouco decadente, mas com estilo”. Tanto Júpiter quanto Mirisola são os últimos representantes de um ciclo que já não existe mais. E isso também é a experiência do taradinho: o que trapaceia e o que se deixa trapacear; o que atira flexas e ao mesmo tempo dá seu corpo à elas; o que tripudia e se deixa tripudiar. Aos ecos de Shopenhauer, termino com uma última ironia que consta de “Parque Sideral”: “ minha pessoa sou eu – o que é muito divertido, aliás. Minha pessoa? Ah sim, um minuto, vou chamá-la”.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RIO FANZINE

Eu me lembro do inferno.
Mas esse inferno era meu, fazia parte da minha história.
Estava separado e morava só. Era um ap na rua Paissandu, de apenas um cômodo. Nem cozinha tinha.
Eu abria as páginas do Globo e ia direto para o Rio Fanzine. Na parte principal, uma novidade, a nova banda que nem suspeitava existir. Mas na coluna à direita, havia as sugestões, as festas que iam rolar no fim de semana, o show das bandas independentes. A letra era pequenininha, mas isso pouco importava. Naquela coluninha à direita estava o mapa da mina.
E lá ia eu pra Rua Ceará.
Era o saravá metal do Gangrena Gasosa.
Podia ser também o “Formigas Desdentadas”. O “Zumbi do Mato”. “Uzomi”.
E tinha também o Doctor Smith aos sábados, o DJ Edinho e o seu irmão Nelson, a banda “Congo” e o “Dogs in Orbit”.
E de repente, naquela boate da rua da Passagem, aparecia D2 e BNegão . E Bacalhau. E Philippe Seabra.
Eu sempre encostado numa parede com uma lata de cerveja.
E dá-lhe Cure, Bowie, Blur...
No rádio, o Ronca Ronca.

Essa nostalgia dos diabos, vem bem à propósito: é que na sexta-feira passada, foi a última edição do Rio Fanzine, depois de tantos anos. E o programa Ronca Ronca, que continua firme, agora na OI FM, registrou com emoção a origem e a história do Fanzine comandado por Tom leão e Carlos Albuquerque.
Salve, Ana Maria Bahiana !!!
Por fim, Sex Pistols, Joe Cocker e Nick Cave deram o ar da graça e me fizeram rolar lágrimas que molharam minha cueca.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Insuficiência ou Excesso?

Diante de uma música difícil (Arrigo Barnabé), me deparo com a seguinte questão: foi produto de uma insuficiência ou excesso?
Diante de uma música fácil (Luiz Gonzaga), novamente me deparo com a questão: insuficiência ou excesso?
Talvez o excesso (é o que mais me interessa) possa se manifestar numa música simples ou complexa.
Já a insuficiência, por complexo, gosta mesmo é de parecer complexa.
Portanto, olhem com desconfiança as músicas complexas.
Atrás delas pode estar um gênio.
Ou uma besta.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

HOMEM-URUBU

I


Gosto de ficar aqui porque tenho, como campo de visão, o lixão lá embaixo. Eu não seria o que sou hoje se não fossem as longas horas ali passadas. Uma antena de televisão me é suficiente para ficar aqui, parado. Por detrás, estende-se a cidade grande. Pouco interesse me suscitaria a cidade grande, não fosse ela o manancial, a origem de tudo isso que vejo agora. Uma réstia de sol ilumina o lixão lá embaixo. Uma cor plúmbea dele se desprende, e posso imaginar quantas cores não foram necessárias para produzir aquela tonalidade.

II

Desde que me sei como sou, é pra lá que volto meus pensamentos. Só o lixão me interessa. Nada me é mais compatível aos interesses. Percebo também um certo desprezo que meus companheiros me devotam, como se eu não pertencesse a mesma espécie. Esse desprezo é recíproco, ainda que em alguns momentos eu sinta o peso da solidão. Por enquanto, eu vou ficando por aqui, sem outra perspectiva. É possível que para muitos, isso seja bem pouco. Mas nada me é mais prazeroso do que ficar aqui, parado.

III

Parece que o tempo vai mudar. Está soprando um vento que vem das cordilheiras. Me é forçoso constatar que quando isso acontece, o tempo fica instável e sujeito a chuvas e trovoadas. Daqui, posso perceber também um cheiro que começa a se propagar em ondas contínuas. Diviso um pedaço de carne em poucos segundos. Me foi dado o poder de enxergar a longas distâncias e confesso que estou bem tentado a ir até lá.

IV

Vários começam a dar o sinal. Estão a voar em círculo, cujo diâmetro diminui à medida que se aproximam. Nenhum urubu morre de fome. Em todas as direções, os cheiros denunciam um mundo farto e abundante. Posso vê-los cada vez mais perto do alvo. Entre eles, um permanece o guia. Cabe a este iniciar o processo da carnificina. Mas enquanto não fizer o pouso, nenhum dos demais o farão. Eis que, finalmente, pousa. Imediatamente, os demais o fazem, ainda que permaneçam a certa distância. O urubu é como todas as aves, arisco e desconfiado. Primeiro, ele sonda o terreno, o ambiente em torno, e só quando se certifica de que não há nenhum risco é que inicia o processo. Então, os demais se aproximam e, com as garras fincadas no alvo, dão início à devastação através de vigorosas bicadas. Daqui me é impossível vislumbrar a vítima, uma vez que meu campo de visão permanece tolhido por uma mancha negra que o recobre. Normalmente, seriam necessários poucos minutos a fim de que se dispersassem, devidamente alimentados. Os urubus são indispensáveis ao eco-sistema: sem sua atividade, a natureza estaria entregue a deterioração por parte de bactérias resistentes.

V

Algo estranho aconteceu. É que tudo, que lhes narro, advém de uma velha tradição. O mundo da natureza não é sujeito às revoluções dos Homens. Tudo aqui é movido pelo instinto. Não estamos no campo movediço das idéias. De forma que os urubus, que tolhiam meu campo de visão, só deveriam ser dispersos quando tivessem posto fim àquele mundo feito de nervos, sangue, vísceras, devidamente decompostos. Mas, daqui da antena, percebo que ele mexe os bracinhos e as perninhas, e chora compulsivamente. Daqui, tem-se a impressão que não se trata de algo podre, entregue ao trabalho invisível das bactérias. É uma criança. Os urubus se afastam e permanecem resignados a olhá-lo de longe. Nenhum bate em retirada. O urubu é persistente, como se tivesse a ciência de que nada pode persistir ao tempo.

VI

Eu me acostumei a essa vida. Gosto de longas planagens e sei que poucos serão tão hábeis ao vôo quanto os da minha espécie. Às vezes, voo por voar e não há prazer maior. Percorro longas distâncias e com frequência atinjo cidades diferentes num breve espaço de tempo. Gosto também de permanecer pousado. Daqui, por exemplo, diviso catedrais, viadutos, longas faixas de rio a cortar a cidade... e talvez tenha aprendido com os meus, essa serenidade que me faz tão contemplativo. A noite vem chegando devagarzinho. Uma brisa sopra suave e, quando dei por mim, já amanhecia. Os urubus fazem ronda: permanecem no mesmo lugar da véspera. Eles acompanham, tanto quanto eu, o desenrolar dos acontecimentos.

VII

Ela começa a engatinhar - não sei ao certo o período de tempo que se passou até que viesse a engatinhar. Muito urubus se acostumaram a sua presença e a tratam agora com naturalidade. Ela põe tudo na boca. No início, tinha muita caganeira. Não sei como se alimentara nos primeiros dias. O contato da boca com os detritos talvez lhe fosse suficiente para manter-se viva. Mas, se antes era ocasional, agora, ela própria ia ao encontro deles. E punha tudo na boca. Continua muito magra e é perturbador o fato de ter sobrevivido. A cor de sua pele é de difícil classificação, mas, em função de se manter exposta às chuvas e tempestades, o encardido é o que melhor lhe adequa. Tenho todos esses dias acompanhado o seu crescimento. Me é um presença constante no lixão.

VIII

Todas as noites, o caminhão despeja grande quantidade de lixo, uma fonte contínua de vida. Ela se parece cada vez mais com os urubus. Aprendeu que deveria estar aonde estivessem. Aprendeu com eles muitas outras coisas: o seu modo tranquilo, silencioso; a paciência com que se postam nos galhos das árvores, até que lhes seja permitido avançar com suas garras; a solidariedade com que devastam, em pouco tempo, tecidos, carnes, substâncias gelatinosas, até que não restem senão ossos. E tudo isso foi lhe dando um aspecto inconfundível de urubu. Até mesmo o intestino passava a ter um metabolismo diferente dos humanos.

IX

À medida que foi crescendo, esbarrou numa dificuldade incontornável: aprender a voar. É desalentador vê-lo caindo, espatifando-se ao chão. Todas as suas tentativas de voo, malogradas. Como não tinha pluma nem asas, os braços exerciam a função. Certa feita, subiu até a copa de uma árvore solitária e repetiu o mesmo gesto de um urubu. Ao se atirar, pôs-se a bater convulsivamente os braços enquanto era arrastado pra baixo ao peso maior da gravidade. Encontrando o chão, permaneceu ali por longo tempo. Só depois de dois dias que recuperou o movimento dos braços e das pernas. Mas nenhuma dessas tentativas malogradas lhe arrefeceu os ânimos. Todos os dias, punha-se a exercitar o corpo, tendo como único objetivo, o vôo. Punha-se em atenção redobrada, quando seu campo de visão esquadrinhava o voo de um urubu. Não seria como eles, se não conseguisse imitá-los. Uma sombra cobriu-lhe a face, temeroso de que nunca conseguisse.

X

Certo dia, estava ele de cócoras a bolinar com uma barata, das muitas que habitavam o lixão, e antes que a pusesse na boca, percebeu um cheiro forte que vinha do outro lado. Pôde então levantar a cabeça e vislumbrar uma quantidade enorme de urubus pousando em torno. Uma fome, que há muito não sentia, talvez tenha sido a responsável. O fato é que batendo os braços e as pernas, empreendeu o seu primeiro vôo. Nada era tão emocionante quanto permanecer, como ele o fazia, flutuando no ar. Já estava a certa altura quando se pôs a relembrar os medos que sentira durante o seu aprendizado. E aquilo fora suficiente para que despencasse ao chão. Então, averiguando o erro, viu que só lhe seria permitido voar se fosse capaz de esquecer qualquer sombra de dúvida, até mesmo de alegria. Deveria estar imune a qualquer pensamento e a qualquer emoção. Então, reiniciou o vôo, leve, lépido, e chegou junto aos seus, que, àquele instante, devoravam uma grande carniça de boi.

XI

Estranho a contatos humanos, sempre que dele se aproximavam, punha-se em fuga. Tudo lhe advinha dos urubus. Até mesmo a importância da água, descobriu quando, certa tarde, viu um daqueles negros pássaros a encostar o bico numa poça, acumulada pelas águas da chuva. Ao repetir o movimento, ele descobriu a suavidade da água, o seu frescor, e pôs-se a repetir a operação várias vezes durante o dia.

XII

Mas detinha muitas diferenças que o tornavam desprezado pelo resto. No seu corpo não cresciam penas, muito menos asas. À medida que o tempo ia passando, seus membros aumentavam de proporção, a ponto de se parecer um monstro em meio ao bando. Outra diferença notável era sua capacidade de articular o som. Em função disso, tornou-se um exímio imitador de trovoadas, do canto de outros pássaros e, sobretudo, do avião que passava rente ao lugar em que pousávamos. Muitos dos nossos vinham sendo dizimados pelas turbinas dos aviões, os quais se constituíam em motivo de constante preocupação.

XIII

Não havia briga entre os membros. Formávamos uma sociedade pacífica, cujo líder era escolhido pelo único critério da antiguidade. Diferentemente do que se sucedia em outras sociedades, nas quais, o critério da força prevalecia, temo que, se assim fôssemos estruturados, o Homem-urubu se apossaria à força de nossa sociedade.

XIV

Enganam-se os que nos associam à tristeza e ao azar. Os gatos, principalmente os de cor negra, também sofrem essas associações, eivadas de preconceito e ignorância. No nosso caso, a ausência do canto fez aumentar ainda mais o preconceito. Não imaginam que possamos nos extasiar diante de um por do sol ou que, quando voamos, percorrendo longas extensões, muitas vezes o fazemos por pura recreação. Lembro-me do seu primeiro vôo à longa distância, quando já possuía os segredos que nos faziam os grandes voadores da espécie. Ainda que tivesse aprendido a dominar as emoções, não pôde se abster dos gritos de alegria e admiração. Tudo isso fez recair sobre si, olhares de desconfiança, contra os quais, ele pouco tem a fazer. Acabou integrando-se ao grupo e é hoje um profundo conhecedor de sua técnica: do acasalamento à estrutura familiar, os diferentes tipos de cheiro, a sua forma pacífica de ser. Tudo isso lhe veio através de uma entrega absoluta, de cujo teor, a ciência não consegue entender.

XV

O lixão exala seus sabores. Retenho meu olhar a cada profusão de cheiros. Sei o quanto é difícil manter a atenção voltada sobre aquilo que não nos constitui. Todos os artifícios empregados, nesse sentido, são bem-vindos. Eu mesmo me pus pousado sobre uma antena fictícia para narrar as aventuras do Homem-urubu. Como se ele não fosse eu. As vicissitudes, as fraquezas, o longo calvário até chegar a ser o outro.
Mas naquela tarde, ao voar junto com os demais, se viu tomado de uma estranha alegria. Ninguém poderia acusá-lo de nada. Ele era tudo que as suas condições de vida o permitiram. O sol declinava no horizonte e deixava no céu um tom avermelhado. Então, pela primeira vez, emitiu um som agudo, único, que varou uma grande extensão do céu.

FIM

skylab/set/2010
(esse conto inédito faz parte de um livro a ser publicado e ainda sem editora)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

2- POR UMA LITERATURA TARADINHA - DALTON TREVISAN


ALGUMAS NOTAS SOBRE O "VAMPIRO DE CURITIBA"

A história do vampiro está ligada ao confronto com o cristianismo. Drácula, que é a cristalização do mito do vampiro, escrito por Bram Stocker, representa a degradação dos valores morais e religiosos. Contra a Londres desenvolvida e industrial, é do leste europeu que o vampiro se origina. Daí porque não seria absurdo vincularmos o taradinho ao vampiro. Com Dalton Trevisan, o taradinho toma novo fôlego, se liberta da guerra que lhe foi imposta por Nelson Rodrigues. Porque agora a questão não é mais a restauração de valores morais, como o era em Nelson. E nem é a tecnologia dos países industrializados, com sua respectiva ideologia. O taradinho não é um fenômeno de laboratório e nem é um moralista; sua literatura tanto está distante do futurismo utópico – daí porque não se alinha às experiências de vanguarda -, quanto de qualquer espécie de restauração moral ou religiosa. Não podemos esquecer que o mito do vampiro está ligado ao decadentismo – esse período entre o século XIX e XX, em que o mal se localiza no interior de cada um – é o Retrato de Dorian Gray.
Esse vetor de interiorização vai estar presente na história da literatura taradinha, via Dalton Trevisan, até chegar em Marcelo Mirisola, quando, então, toma novos ares. Mas em Dalton Trevisan ainda ouvimos ecos de uma luta começada em Nelson Rodrigues.

2- A religião em Dalton Trevisan é uma constante: o herói em sua coroa de espinhos. Mas o pai de todos, a quem recorre o narrador ou o personagem Nelsinho, não é um interventor. Entre Pai e Filho, o abismo. Cumpre-se às cegas o destino, e ao herói compete fazer o que deve ser feito – sua vontade própria não tem a menor importância. Em “A Noite da Paixão”, que fecha o livro, Nelsinho afirma: “Que se faça a sua vontade, Senhor, e não a minha”. Ou então “que se faça o que deve ser feito”. A razão é insuficiente, seja para compreender, seja para tomar decisões. Em vários momentos, nos vemos diante de um herói levado a fazer coisas das quais não gostaria, mas que se sente incapaz de dizer não. Em “Visita à Professora”, existe um bar dos marinheiros e uma dama dourada que o espera e, no entanto, ao longo do texto, Nelsinho é levado a protelar a despedida à sua antiga professora. É como o canto das sereias, diante do qual, Ulisses terá que recorrer a um tampão de ouvido porque por si mesmo é incapaz de resistir. Em “O Vampiro de Curitiba”, texto que dá nome ao livro e o abre, o narrador alerta Nelsinho: “ não olhe infeliz! Não olhe que você está perdido”.

3- Mas ao contrário do universo de Nelson Rodrigues, em que as forças de oposição estão bem delineadas, nos textos de Dalton Trevisan, ainda que as personas se diferenciem, começa a existir uma ambigüidade: em alguns textos, o vampiro é Nelsinho; em outros, ele é que é vampirizado por uma mulher; em outros, o vampiro é os dois. É como se houvesse uma relação de interdependência, que mina a lógica da oposição tão presente em Nelson Rodrigues e responsável nele pela tragédia. Em Dalton Trevisan, se há tragédia, ela o é pela entrega. E novamente recorremos ao mito do vampiro porque a idéia de contaminação e da mulher fatal alimenta esse mito: “É interessante notar que, dentre os precursores poéticos da literatura vampírica, boa parte dos vampiros são mulheres. No transcorrer do tempo, com a consolidação do tema na prosa, o estereótipo vampírico de mulher fatal vai se transmutar no nobre parasita do sexo masculino” (“O Vampiro antes do Drácula”, pág. 28, Marta Argel , e, Humberto Moura Neto).
A questão das epidemias, por outro lado, é certamente um problema que, por não ser resolvido na época, foi outro motivo que serviu de estofo para a criação do mito.

“Chapeuzinho Vermelho”, texto dos mais importantes no livro, onde novamente Dalton Trevisan recorre ao mito, desta vez do clássico da estória infantil, vai nos dar um bom exemplo dessa relação de interdependência: quem é o vampiro? A jovem ou a velha? Existe o personagem e o narrador que o corrige, informando-nos seus erros. À filha, nosso herói afirma: “é velha demais para mim”. À velha, ele diz: “tão jovem”. Por fim, o narrador se pergunta: “ era a avozinha ou no quimono fulgurante da seda, o próprio lobo? Personificar o lobo na velha e esta na jovem, será próprio do artifício. Não é ainda o paradoxo de Mirisola. Mas a ele caminha decididamente. Porque no paradoxo está implícito um só elemento sendo duas coisas contrárias ao mesmo tempo – refere-se à lógica do sentido. Mas nos travestimentos, existe um ser que virou outro, assim como a picada de um vampiro pode fazer de sua vítima outra vampiro. Em “Eterna Saudade”, nosso herói Nelsinho afirma: “minha perdição é a falsa loira. Cabelo oxigenado, sobrancelha bem preta”. Esse amor ao falso não quer restaurar nada, antes quer errar. Muito menos saber de si. O taradinho, assim como o vampiro foi a vitória do contra-senso na Europa das luzes, insiste em se iludir. Adora picar. Outras vezes, ser picado. A vítima e o algoz se identificam. Em “ Incidente na Loja”, depois de forçar o sexo com a lojista, ele se pergunta: ai, Senhor, de nós dois qual a vítima?

4- Um aspecto a ser lembrado em Dalton Trevisan, é o estranho narrador de suas estórias. Diferentemente de Nelson Rodrigues, cujo narrador está além do que se sucede, em Trevisan o narrador pode ser vários. Ele pode estar devidamente distante como em Nelson Rodrigues, ele pode repreender o herói (“não roa a unha, desgraçado, que está perdido”), e ele pode ser o próprio herói (“Estou cansado, Senhor, são tantas mulheres e eu tão sozinho”). É o que sucede em “O Incidente na Loja”, onde o narrador se traveste dos três sucessivamente. É nesse sentido que o narrador sai do seu pedestal e se transmuta no texto. Ainda assim, estamos tratando das várias vozes que o narrador toma emprestado. Sabemos distinguir sua atual máscara. A questão se complica em Mirisola porque nele é tudo ao mesmo tempo agora: o embaralhamento que complica; não é a sucessão das máscaras, é a junção delas no instante.
Um texto em Trevisan que elucida essa técnica narrativa é “Debaixo da Ponte Preta”: cada personagem tem sua versão para o mesmo fato, e cada versão difere da outra. Não se sabe mais o que exatamente aconteceu: a verdade toma a forma de cada personagem. Essas máscaras que contaminam a narração, ao menos se distinguem entre si. Mantém cada uma delas sua identidade. A grande contribuição, pois, de Dalton Trevisan à História da Literatura Taradinha, foi ter proposto o travestimento. Em alguns contos como “Herói Perdido” ou “Visita à Professora”, conseguimos vislumbrar o real e seu travestimento narrativo. Esse real que nosso herói faz questão de não ver para se evadir na narrativa.

5- Ainda que nos textos de Dalton Trevisan testemunhemos uma sucessão de máscaras, cada uma guardando sua identidade, mesmo assim, entre elas vai existir alguma semelhança. E isso é o suficiente para o encontro. Em “A Noite da Paixão”, o martírio do nosso herói nos faz lembrar o martírio de Cristo. No quarto com a prostituta, ele diz: “toma e coma: isto é o meu corpo”. Em “As Uvas”, diante da clássica broxada do nosso herói, Ivone exclama: “Igualzinho ao Vivi!” (com quem ela vivia e que já pegara em beijos com o filho do porteiro).
Em “O Vampiro de Curitiba”, no seu tour pelas ruas, vale a pena enumerar as características das mulheres que ele vê:

1- “virgens cruéis”;
2- “beijo de virgem é mordida de bicho cabeludo”;
3- “maldita feiticeira, queimá-la viva, em fogo lento”;
4- “Por que a mão no bolso, querida? Mão cabeluda de Lubisomem. Não olhe agora. Cara feia, está perdido”;
5- “Toda família tem uma virgem abrasada”

Agora, as sua próprias característica:

1- “eu bode imundo e chifrudo”;
2- “hei de chupar a carótida de uma por uma”;
3- “Ninguém diga sou taradinho. No fundo de cada filho de família dorme um vampiro”;
4-“Elas fizeram o que sou: oco de pau podre, onde floresce aranha, cobra, escorpião”.

Estamos longe das forças de oposição que predominavam em Nelson Rodrigues e justificavam a perseguição ao taradinho. Neste novo habitat, o taradinho encontra sua gêmea alma e um é produto do outro. Finalmente, pode respirar, ainda que sinta sua experiência como um martírio – o próprio cão girando para morder o rabo. Se em Nelson Rodrigues o inimigo estava fora, agora passou pra dentro. E em tudo isso, um toque do decadentismo que nos faz lembrar Oscar Wilde ( O Retrato de Dorian Gray) e Baudelaire (Les Metamorphoses du Vampire): “ o período se apropria do vampiro para fazer dele um sintoma, para fixar as manifestações de neurose e do mal-estar da alma que acometia a sociedade, que afinal, parecia compreender que o verdadeiro mal vinha de seu interior” (“O Vampiro antes do Drácula”, Marta Argel, e, Humberto Moura Neto).

Após essa etapa, vai nos restar a superfície. Mas aí é com Marcelo Mirisola. É quando o taradinho atinge a maioridade.

sábado, 4 de setembro de 2010

CRÍTICA LITERÁRIA

Uma jovem escritora, certa feita, aludiu-me ao fato de que a crítica literária é broxante.

Mas para a tradição ironista, a que me julgo pertencer, a crítica tem uma função nobre: escrever livros no contexto de outros livros, textos no contexto de outros textos, músicas no contexto de outras músicas. E dessa forma, revemos nossa opinião, revemos nosso vocabulário e revemos nossa identidade moral. Seja na literatura, seja na música, sempre parti do princípio de que o grande desafio é alargar o contexto. E mais importante que situar pessoas reais, o grande lance seria fugir da vizinhança e ler mais livros e ouvir mais músicas. Ao invés de novas abordagens, aumentar o cânone, os nomes próprios. Não é uma questão de argumentação e sim de literatura. O enciclopedismo talvez tenha uma função positiva. A História da Filosofia ou da Literatura, idem. Estou falando em exercer transições terminológicas, efetuando mudanças de Gestalt. A dialética para um ironista lhe é mais cara do que a inferência. E um dos fundamentos para esse alargamento das fronteiras, certamente é a crítica literária. Ler mais livros, ouvir mais músicas, adotando e modificando parcialmente os vocabulários dos escritores e músicos a que tive acesso, como é o caso de Richard Rorty aqui neste texto.

Essa talvez seja a posição mais humilde e ao mesmo tempo mais nobre.