Eu o havia conhecido numa festa no Circo Voador.
Até hoje não entendo direito o que aconteceu. Ele preenchia meus pensamentos e nunca me senti tão interessada por alguém como estava me sentindo por ele. Marcamos pela internet um encontro justo na véspera da eleição. Eu nunca tive relação com política, nunca entendi político e nunca fui partidária de ninguém. Na nossa conversa pela internet, remeti a ele uma canção: http://www.youtube.com/watch?v=7K1ic8lSkjs&feature=player_embedded
Ele achou a música muito melancólica.
Eu a achava linda.
E ficou pasmo em saber que eu votaria no Serra.
Mas isso pra mim não tinha a menor importância: votaria no Serra apenas por uma questão familiar. Todos os meus parentes eram Serra: era pra mim ponto pacífico.
Na véspera da eleição nos encontramos.
E eu me entreguei de corpo e alma.
Só não podia imaginar que ele era PT.
E enquanto me comia, mordia minha orelhinha e dizia sussurrando: você vai votar na Dilma. E repetia as palavras de ordem, durante toda a noite: você vai votar na Dilma. O meu ato de entrega vinha acompanhado do mesmo bordão: você vai votar na Dilma. Era impositivo. Nenhuma argumentação se sucedia. E nem era preciso diante da urgência dos corpos na cama.
No dia seguinte, procedi como de costume. E pra disfarçar, lembrei aos velhos o número 45.
Meus pais não podiam imaginar. Mas dentro da cabine eleitoral, diante de mim própria, minhas pernas tremeram, vacilaram.
Quem sou eu? Quem sou eu?
Eu era dele.
E lhe obedeci como uma cadelinha no cio.
domingo, 31 de outubro de 2010
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
BIENAL DE SÃO PAULO

A ORIGEM DO TERCEIRO MUNDO
Nesse último domingo fui a 29. bienal de artes de São Paulo. Fui temeroso porque a anterior havia sido um fiasco. E não me arrependi.
Os urubus do Nuno Ramos já não estavam mais lá. Ao menos podíamos vislumbrar o coco deles, uma prova inequívoca das aves. O cenário é grandioso e a música que vinha da instalação se imiscuía pelas demais obras. Tínhamos que aturar Arnaldo Antunes cantando Bandeira Branca, o que depois de um certo tempo é uma tortura. Mas ainda assim, tem seu saldo positivo: uma obra se interage com a outra.
Essa estória de percorrer bienal com mapa na mão, não é a minha. Fica parecendo que você está no meio de uma aula. É o mesmo que percorrer Roma com mapa na mão. Quero poder me distrair, errar pelo caminho, ir meio que ao acaso. Não quero ser mais um neurótico que perde o prazer de ver, como esses japoneses com máquina fotográfica. E como tiram fotos na bienal! Os festivais de cinema são outra ocasião pra reunir neuróticos. Daí porque também raramente frequento festivais de cinema. O problema é que você acaba não vendo tudo. Mas tem que ver tudo? Nessa bienal, perdi Godard e Beckett, confesso.
Mas vi os slides de Nan Goldin. A “Balada da Dependência Sexual” já me teria bastado. É impactante, humano sem ser humanista, e americano até debaixo dágua.
Fujo de documentários políticos. Fujo de antropologia como o diabo da cruz. O que me importa saber do “Cacique de Ramos” via Carlos Vergara? Por outro lado, a experiência de Daniel Senise em “O Sol me Ensinou que a História não é tudo” me dá sempre a sensação de que é muito conceito e pouco resultado. Comparado a esses, Nelson Leirner salta aos olhos não só pelo que fez como pelo que continua a fazer: O Grupo Rex de “Adoração – altar a Roberto Carlos”, e, “Pacavoa” são exemplos de uma trajetória cuja inquietação é constante, independente do tempo.
Ainda que o tema da política estivesse arquipresente nessa bienal, diversos foram os tratamentos dados a ela. Em Alfredo Jaar, o massacre de Ruanda é visto através dos olhos de uma sobrevivente (uma montanha de filmes de slides com os olhos da sobrevivente). A esse tratamento direto, quase jornalístico, pouco complexo e com teor de denúncia, se contrapõe “A Origem do Terceiro Mundo” de Henrique Oliveira, que faz referência a “Origem do Mundo” de Gustav Coubert – portanto, político e, ao mesmo tempo, remetendo-se à História da Arte com uma espécie de perversão, que faz dele um dos trabalhos mais interessantes da Bienal - penetrar em seu interior esculpido com material de tapume de obra é uma experiência sensorial que nos faz lembrar as favelas e a periferia.
Gil Vicente na série “Inimigos” não faz denúncia: é performático, sintético e ao mesmo tempo imaginativo. Não existe discurso, apenas assassinato - uma outra forma de abordar o político. Sua outra série, “Suíte Safada”, é pornográfica e mostra desenhos que serviram de ilustração para alguns livros.
As trouxas ensangüentadas de Artur Barrio e suas performances mostram o político como vivencial, afetando seu próprio corpo. Suas "situações" são marcas de um trabalho pujante, tanto quanto o foi Helio Oiticica.
Em “O q rola VCV” de Ronald Duarte, a problemática é social mas a performance com o caminhão pipa jorrando água vermelha pelas ruas de Santa Teresa, é originalíssima, mais uma vez atestando o fato de que a fonte do problema é apenas o ponto de partida.
“Divisor” de Lygia Pape, de 1968, mostra a idéia de coletivo: as cabeças visíveis mas o restante do corpo como se fossem vários e um só. Essa forma de política, coletiva, sensorial, e que passa por uma decisão negociada do conjunto dos corpos, mostra o quanto estamos longe do jornalístico e do documentário.
As miniaturas de Efrain Almeida, as pinturas escuras de Rodrigo Andrade, os travestis de Juliana Stein, o slide-tape de James Coleman (“ligne de foi”), as várias televisões de Douglas Gordon com as imagens de seus filmes, o Gabinete do Dr. Estranho (do músico Lívio Tragtenberg) e o quadro negro de Cinthia Marcelle, são outras expressões que se distanciam do antropológico e, se contém algum elemento político-social, é de maneira indireta. Em todos esses citados transparece a interferência do fazer artístico, que não se submete ao jornalismo nem à pura contingência do acaso.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL

A Biblioteca Nacional publica mensalmente a revista de História, vendida em bancas de jornais e livrarias. A de número 61, deste mes, tem um depoimento meu sobre a Biblioteca Nacional. Pra quem curte História, é um prato cheio. A reportagem de capa é sobre o integralismo. Vale a pena assinar a revista. Textos excelentes e bom material gráfico.
Aí vão 4 depoimentos de 4 ratos de biblioteca. Eu sou um deles:
http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=3318
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O SILÊNCIO DA MINHA MÃE EM COMA
Silêncio da não comunicação.
Silêncio agudo, em chama.
De quem não aceita, nem reclama.
Silêncio que escorre, se alonga,
como um acorde sem som.
Silêncio da televisão desligada.
Silêncio que parece um parto.
Silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que se concentra,
indiferente a qualquer apelo.
Um silêncio longo, quieto,
em meio ao burburinho da cidade.
Silêncio que espera
(de quem escreve)
a palavra certa que não vem.
Silêncio que erra
entre as palavras
(exala seu cheiro
no interstício delas).
Silêncio que antecede ao poema
e continua nele.
Silêncio de onde vim
e para onde retornarei.
É o silêncio dela
que é o meu
diante do seu corpo.
É o silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que espera
e não responde
ao meu silêncio diante dela.
skylab/18/10/2010
Silêncio agudo, em chama.
De quem não aceita, nem reclama.
Silêncio que escorre, se alonga,
como um acorde sem som.
Silêncio da televisão desligada.
Silêncio que parece um parto.
Silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que se concentra,
indiferente a qualquer apelo.
Um silêncio longo, quieto,
em meio ao burburinho da cidade.
Silêncio que espera
(de quem escreve)
a palavra certa que não vem.
Silêncio que erra
entre as palavras
(exala seu cheiro
no interstício delas).
Silêncio que antecede ao poema
e continua nele.
Silêncio de onde vim
e para onde retornarei.
É o silêncio dela
que é o meu
diante do seu corpo.
É o silêncio da minha mãe em coma.
Silêncio que espera
e não responde
ao meu silêncio diante dela.
skylab/18/10/2010
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
O ALEIJADO
Ele havia perdido uma perna
e sua dor era justo nela.
Ela lhe doía como se existisse.
Latejava, apesar do vazio.
Sentia o formigamento,
a sensação de frio, nela.
Havia sido decepada recentemente.
E, no entanto, ela insistia.
Quando caminhava de muleta,
era equilibrado pela perna perdida.
Nem ele mesmo entendia.
O aleijado era movido por ela.
O eixo do seu movimento era ela
- aquela perna, que não mais existia.
skylab/out/2010
e sua dor era justo nela.
Ela lhe doía como se existisse.
Latejava, apesar do vazio.
Sentia o formigamento,
a sensação de frio, nela.
Havia sido decepada recentemente.
E, no entanto, ela insistia.
Quando caminhava de muleta,
era equilibrado pela perna perdida.
Nem ele mesmo entendia.
O aleijado era movido por ela.
O eixo do seu movimento era ela
- aquela perna, que não mais existia.
skylab/out/2010
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
ÚLTIMO DIA
A Rio-Bahia tem me pemitido grandes descobertas.
Não é realmente necessário uma biblioteca ou um grande livro.
Grandes descobertas podem ser feitas no dia-a-dia: dentro do ônibus, cagando, tirando meleca...
Mais uma vez voltava de Minas pela referida estrada e eis que toca Último Dia (clássico de Paulinho Moska). É a música que o acompanha, através da qual todos o identificam.
Eu sempre achei essa música uma boa idéia.
E grandes canções são feitas com boas idéias.
Mas um trecho da música me deixa encafifado:
"Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia...
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia"
E basta uma frase infeliz pra que canção se esvazie como um balão murcho.
Fazer canções não é fácil.
O pobre Paulinho Moska, sem se perceber, cai numa armadilha e mostra seu moralismo. Um mal que infesta a nossa MPB e que o faz um digno representante dela.
Meu último dia eu abriria tudo: o hospício, a delegacia e até o meu corpo.
Não é realmente necessário uma biblioteca ou um grande livro.
Grandes descobertas podem ser feitas no dia-a-dia: dentro do ônibus, cagando, tirando meleca...
Mais uma vez voltava de Minas pela referida estrada e eis que toca Último Dia (clássico de Paulinho Moska). É a música que o acompanha, através da qual todos o identificam.
Eu sempre achei essa música uma boa idéia.
E grandes canções são feitas com boas idéias.
Mas um trecho da música me deixa encafifado:
"Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia...
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia"
E basta uma frase infeliz pra que canção se esvazie como um balão murcho.
Fazer canções não é fácil.
O pobre Paulinho Moska, sem se perceber, cai numa armadilha e mostra seu moralismo. Um mal que infesta a nossa MPB e que o faz um digno representante dela.
Meu último dia eu abriria tudo: o hospício, a delegacia e até o meu corpo.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Canal Brasil
Canal Brasil
Um trecho da minha entrevista no Canal Brasil, no programa do Zé do Caixão.
Um trecho da minha entrevista no Canal Brasil, no programa do Zé do Caixão.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
THE DEAD

Um dia me perguntaram se toco violão.
Eu toco punheta.
Violão é o caralho!
Esse sou eu.
E nextel é uma merda.
É rádio, é celular.
e pode ser para você.
Não pode ser para mim.
O que é inteligente, ilimitado e direto,
não é poesia.
Acesse outros canais
porque não vou anunciar nada.
Eu sou vácuo,
malgrado tudo que minha vó dizia:
“transforme seus sonhos em vôo”.
Vó, eu os transformei em rela.
Vó que se transformou em pó,
eu tô voando.
Vó, eu to indo pra puta que pariu,
e desistir faz parte dos meus planos.
Tenho treze discos gravados,
um dvd,
um livro publicado,
e estou em vias de gravar meu último disco:
SKYLAB X.
Meu work in progress é o Godard City.
Ah sim: tenho um livro de contos que permanence infinitamente no prelo,
assim como eu.
Pra quem pensava em se matar aos dezessete,
até que tá uma merda.
Mas a gente pode retomar antigos projetos.
A gente pode dizer FIM
(o que não deve ser muito fácil
pra quem se enriqueceu com a indústria fonográfica).
A gente pode dar uma banana às redes sociais:
não usar intenet, rádio, celular,
e virar uma sombra de si mesmo.
Você vai estudar Publicidade?
Entendo.
Você gostou de “Cidade de Deus”?
Entendo.
Você quer comprar um Hyundai?
Entendo.
Você é um cara legal?
Entendo.
Em outras palavras:
você era um surfista,
um vagabundo,
e em três meses criou uma das maiores empresas do Brasil,
e em oito, uma das maiores do mundo.
Entendo.
E lá vou eu pelo Central Park.
Estou bem próximo ao Dakota.
Lutei, desisti, abandonei, duvidei, esqueci, me encontrei:
não sou ninguém
e não tenho escolha.
Vou como um autômato
ao lado de uma japonesa.
Chegamos finalmente ao destino,
quando um casal de fã pediu uma foto.
Essa é a minha vida,
esse é o meu clube.
skylab/outubro/2010
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
CORAÇÃO ORDINÁRIO
Foi quando ela me disse:
você é bem sacana, menino.
Havia um clima entre a gente.
Mas ela tinha seus escrúpulos.
Eu punha, ela tirava.
Ela tirava, eu punha.
Concedeu finalmente que ficasse com a mão ali
e tentei introjetar o pai.
Ela disse "não"
e continuou a fingir que dormia.
Eu me humilhava, era um desgraçado.
Depois cansei.
Havia uma estátua grega
no seu coração ordinário.
skylab/outubro/2010
você é bem sacana, menino.
Havia um clima entre a gente.
Mas ela tinha seus escrúpulos.
Eu punha, ela tirava.
Ela tirava, eu punha.
Concedeu finalmente que ficasse com a mão ali
e tentei introjetar o pai.
Ela disse "não"
e continuou a fingir que dormia.
Eu me humilhava, era um desgraçado.
Depois cansei.
Havia uma estátua grega
no seu coração ordinário.
skylab/outubro/2010
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