terça-feira, 21 de dezembro de 2010

BORBOLETA NEGRA

Aí vai o meu último post deste ano de 2010.
Agora só volto em 2011 - um ano que promete "grandes emoções".
Às vezes me pergunto se esse blog serve pra alguma coisa, se ao menos ele é lido.
É uma grande incógnita.
Feliz Natal!

BORBOLETA NEGRA

Parecia um corvo, um morcego,
não fosse o vôo delicado.
Era uma borboleta negra
pousando no espelho do quarto.

Suas asas eram negras como as páginas
de um livro esquecido que abri,
em cuja página lesse, ao acaso,
os versos deste poema.

Mas ela voa pela fresta da tarde
e meu rosto ileso, diante do espelho,
permanece o mesmo que sempre foi:
um rosto em branco e sem texto.

skylab/dez/2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SKYLAB


Mais uma caricatura minha.
Essa, feita por Arth Silva.
Pra quem quiser dar uma sacada no trabalho dele:
http://ilustrarth.blogspot.com/2010/06/o-arthista.html

ALEKSANDR RÓDTCHENKO



O que é o banheiro do Instituto Moreira Salles? Fiquei chapado com aquele mármore. Viva os banqueiros do Brasil !!!!!
Mas não é disso que eu quero falar.
Nem mesmo dos filmes do Godard (uma excelente mostra que estava passando lá, incluindo os curtas “Todos os Homens se chamam Patrick” e “Charlotte e seu Jules”; pena que acabou).
Quero falar é de Aleksandr Ródtchenko, construtivista russo, que se embrenhou na fotografia, no designer, na escultura e na pintura. A banda Franz Ferdinand adora ele (ver a capa de “You Could Have It So Much Better” de 2005, baseada no retrato de Lily Brik, de 1924, feito pelo Homem).
As fotomontagens dele são uma das atrações da exposição com curadoria de Olga Sviblova. A exposição vai até janeiro.
Instituto Moreira Salles – Rua Marques de São Vicente, 476, Gávea.
Telefone: 21-3284-7400
OBS: Pra quem mora em Botafogo, os ônibus 158 e 170, que vão pela São Clemente, passam em frente ao IMS.
O modelo fotografado por Ródtchenko é o poeta Vladimir Maiakovski.

sábado, 18 de dezembro de 2010

CAÇA ÀS BRUXAS

Uma notícia recente sobre a queda de braço entre Estado e traficantes no Rio de Janeiro nos dá conta da prisão de alguns Mcs por apologia ao tráfico.

Vou falar como compositor.

Acho preocupante a prisão por apologia a qualquer coisa.

Isso me faz lembrar a “caça às bruxas”.

Se começa em razão da apologia ao tráfico, pode amanhã se estender para a apologia de outras formas consideradas ilegais. É complicado e perigoso. É transformar a presença do Estado em algumas áreas que se faz necessário, numa arquipresença autoritária e policialesca.

Se estiver comprovada a relação dos Mcs com o tráfico, aí é uma outra história. Ou seja: sustentados pelo tráfico; ganhando salário do tráfico para fazer músicas simpatizantes ao movimento.

Mas se eles vivem dos shows e alguém ligado ao tráfico compra um determinado show deles... isso é crime?

É complicado.

Vou além. Digamos, hipoteticamente, que alguém concorde com o tráfico, ainda que não participe do movimento. E resolva defender seu ponto de vista numa canção. É crime?

Se for crime, está instaurada a censura. E a contrapartida dela, que é ainda pior para o artista: a auto-censura.

O grande equívoco por trás disso, é a falsa idéia de que a arte possa levar uma pessoa a fazer algo sugestionada. É como alguém tentando provar que o suicídio foi provocado por uma canção.

Esse poder mágico da palavra ou da música ou da pintura está assentado sobre o pior dos misticismos.

Eu vou além: não existe ofensa pessoal numa canção porque aqui estamos no campo do simbólico. Ofender diretamente é uma coisa muito diferente. Já no campo do simbólico, existe a metáfora: não se pode interpretar ao pé da letra.

Não quero com isso desconsiderar o belo trabalho da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do sr. Beltrame. Acho inclusive correta a política de estender a prisão para o entorno do traficante, no caso, os familiares que se locupletam do dinheiro do tráfico através de imóveis e bens.

O complicado é prender por apologia ao movimento numa letra de canção.

Como compositor só queria dizer isso: no campo do imaginário, ou do simbólico, tudo é permitido. Misturar o real com o imaginário é o pior dos misticismos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

MARK SMITH




"Sempre diferente e sempre o mesmo", como diria John Peel, referindo-se ao The Fall.
Essa banda é minha eterna fonte de inspiração.
Não sei porque mas tudo isso me remete a Maurício Valadares.
São as ressonâncias, independente do espaço e do tempo.
Traduzi esse texto do SPIKE MAGAZINE.


The Fall: Mick Middles e Mark E Smith – London Omnibus Press – 30/08/2003
The Story of Mark E. Smith and The Fall: Simon Ford – London: Quartet Books – 2003


Ben Granger analisa duas tentativas para explicar o mundo maravilhoso e assustador do The Fall – SPIKE MAGAZINE - 2003

Esses dois livros são uma oportuna lembrança de uma banda cuja chocante individualidade tem sido obscurecida por força de sua absoluta longevidade. Uma lembrança dessa banda não é o termo, tão enjoativamente acolhedor, “uma instituição”, mas a força de distensão com a intenção sinistra dos limites que a música pop pode atingir.

The Fall é uma banda que oscila entre o ruído branco e o pop insanamente acolhedor, assentado por desafinações, vocais sedutores, vanguardista ainda para o mundo, e por elementos do realismo ainda atravessado pelo mais incoerente surrealismo, e imagens de ficção científica. Eles cantam sobre o desemprego, remédios, viagem no tempo, cinzas do mal-laços adulterados-ruas, drogas, papas assassinados, apartamentos afastados-úmidos-encardidos, possessão demoníaca, duendes sob o assoalho e futebol. Eles passaram por mais de setenta músicos durante o percurso, ridicularizando e sobrevivendo ao punk, o indie dos anos 80, Madchester e o Britpop. Eles previram o seqüestro de Terry Waite e o atentado do IRA em Manchester no álbum liberado duas semanas antes de cada evento. Mark Eduard Smith é bem original.

O livro de Middles, aparentemente bem reputado, é definitivamente seu livro, escrito com a cooperação de Smith. É digno de nota o fato de que Middles, entre os jornalistas, ser um verdadeiro amigo de Smith, um homem que, em perpétua competição com os entrevistadores, vem tentando colocar frescurisse na cara de homem carregado (compreensível, talvez). Esse é o trabalho mais personalizado e mais subjetivo, carregado de suas memórias evocativas da cena punk de Manchester e observações perspicazes do contraste entre a cidade atual e a passada, em vez de minúcias dos antigos integrantes da banda (embora não seja listado todos os sessenta membros ao final). As próprias contribuições de Smith (assim como as de sua mãe, carinhosamente) significa que inquestionavelmente a voz de Smith está no centro da história.

O livro de Simon Ford é diferente, da mesma forma que um desenho técnico difere de uma pintura impressionista. É uma narrativa muito mais linear, preenchido com muito mais fatos em geral. Sem Smith para entrevistar, é dado voz às velhas avaliações e frequentemente descontentes de antigos integrantes do The Fall. Mark Smith aparece aqui como uma sinistra e enigmática presença de fundo – o autor tem um grande respeito pelo seu talento, mas é claramente desdenhoso de seus excessos.

A mesma história, porém, é contada em ambos. Smith, filho de um torneiro mecânico de Prestwich em Manchester (não de Salford como Smith reivindica para si mesmo), mostrou sinais precoces de características que marcariam sua liderança no The Fall: feroz individualismo, mente cruel e obstinada, briguento, uma poderosa curiosidade intelectual, fascínio por filosofia e literatura, forte interesse no psíquico e no oculto, e observação irônica misturada com orgulho e desprezo pelas pessoas ao redor.

Um aluno brilhante na escola primária (abandonou a faculdade por falta de interesse e grana), a emergência do punk ele viu se articular com desiludidos como ele e inspirou jovens da classe trabalhadora a formar o The Fall. Seu hábito de despedir membros da banda que não se adequassem, começou antes mesmo do seu primeiro disco de 1979, Live At The Witch Trials.

Ganhando uma legião de fãs de moderado tamanho mas fervorosa ao longo dos últimos vinte anos, The Fall transcendeu a fusão Velvets-Can-Rockabilly-Punk do seu início para um som levemente mais comunicativo com a incongruente adição do baixo glamuroso e californiano rickenbacker de sua esposa Brix nos anos 80. Nos anos 90 e além, eles passaram a aceitar os elementos do techno.

Há alguns depoimentos bem humorados em ambos os livros. Eles giram em torno principalmente da personalidade mordaz e pesada de Mark Smith, começando com a merda de gato espalhada por todo o apartamento, que ele achou que fosse razoável para a sua bem nascida esposa, recém-casada, Brix. Ele enfrenta as incontáveis multidões indiferentes e hostis, a má acústica dos teatros e da audiência em sua fase bizarra de músicas como “Hey Luciani” e “I am Kurious Oranj”, briga com Marc Riley num nightclub em New Zeland, intimida Morrisey nos escritórios da Rough Trade. Os seus longos silêncios às perguntas de Michael Bracewell numa entrevista pública, e manda a NME e Jô Wiley se fuderem quando eles lhe dão o prêmio Godlike Genius. O aumento de sua grosserias alcoolizado junto à sua banda que acabou levando-o preso em Nova York por agressão no palco, pode ter-lhe feito a perda da simpatia de muitas pessoas.

Mas apesar do seu comportamento às vezes chocante (mais parecido com o mijo-arte da WMC – Winter Music Conference – do que excesso de estrelismo do rock), até mesmo as avaliações de ex-integrantes da banda são unânimes na admiração pela poesia de Mark, sua habilidade em encher o mundano de macabro. Com Mark, você tem o melhor dos mundos. É divertido ouvir as palhaçadas de um cara urbano – suportando a dor – com trejeitos selvagens e bagunceiros, mas você está também de modo diferente a ouvir a influència de Blake, Dostoievsky, Lovercraft e Camus com Liam Gallagher. Tanto na gravação quanto no palco, mesmo quando ele está mais perverso, há uma estranha sabedoria nas declarações de Mark que te deixa tonto.

Onde ambos os livros, em última análise, falham é em capturar a essência de Mark ou o real encanto do The Fall. As caracterizações de Ford à respeito de Mark em relação a sua desilusão com o socialismo e suas visões anti-liberais sobre as Malvinas, CND, Europa e o terceiro mundo, como sendo de classe trabalhadora Conservadora, é uma grosseira simplificação. Esse tipo de avaliação é de um estranho conservadorismo que detesta tudo da classe média e suporta de todo coração os desordeiros de Moss Side.

Mesmo as freqüentes entrevistas de Middles não dão uma imagem muito clara. E, portanto, ninguém poderia concordar com seu fascínio enigmático. Em seu conjunto de discos, Ford especificamente cita Hex Eduction Hour como superior à Grotesque, Infotainment Scan acima de Middle-Class Revolt, e Unutterable acima de The Marshall Suíte, e eu com raiva respondo que não, não e não.

Lendo ambos os livros, é agradável e acrescenta ao seu conhecimento do grupo, mas apenas dando ouvido a eles proporcionam uma menor compreensão. Conhecimento e compreensão são naturalmente coisas muito diferentes.


Notas:


Ruído branco: combinação simultânea de sons de todas as freqüências (1000 pessoas falando ao mesmo tempo)

Madchester: http://pt.wikipedia.org/wiki/Madchester

Britpop: http://pt.wikipedia.org/wiki/Britpop

Terry Waite – arcebispo de Canterbury, anglicano, promovedor da ações humanitárias.

Marc Riley – integrou o The Fall entre 1978 e 1982, tocando guitarra e baixo. No primeiro disco da banda LIVE AT WITCH TRIALS, ele está presente.
http://en.wikipedia.org/wiki/Marc_Riley

Michael Bracewell - romancista britânico - http://en.wikipedia.org/wiki/Michael_Bracewell


Moss Side – cidade do interior da área de Manchester, lar de muitos imigrantes e minorias étnicas.
http://en.wikipedia.org/wiki/Moss_Side


Para comprar os livros:
http://www.amazon.co.uk/Fall-Mick-Middles/dp/0711997624
http://www.amazon.co.uk/Hip-Priest-Story-Mark-Smith/dp/0704381672

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

UM HOMEM TRANQUILO

Escuta o murmúrio
do homem tranqüilo.
Por um triz não se tornou assassino.
É sóbrio, cordato.
Teria trucidado a mãe.
Mas tem os olhos serenos.
Um homem do bem.

SKYLAB/DEZEMBRO/2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

FAKES & ANÔNIMOS

Os fakes rastejavam pela superfície e se confundiam na multidão. Não tinham identidade própria. Imitavam de tal modo seus modelos, que custávamos a distinguir a cópia do original. Alguns chegavam mesmo a sobressair, fosse pela inteligência, fosse pelo dom da beleza. A população de fakes crescia a cada dia, e, no ritmo com que se reproduziam, estimava-se em breve a erradicação de todo original. O fake, entre outras características, trai por natureza própria, é dissimulado, e esconde um profundo complexo de inferioridade.

Havia também os anônimos. Pareciam duendes. Viviam debaixo da terra e pertenciam à mesma família dos vermes. Não tinham rosto e nos chamavam a atenção pelo ruído intermitente que emitiam. Os anônimos andavam em bando e se alimentavam de cadáveres. Eu sentia suas picadas e o trabalho contínuo de suas garras. Meu corpo ia aos poucos desaparecendo. Milhões deles faziam o trabalho invisível da decomposição e tinham contrato de trabalho por tempo indeterminado.

O meu grito ressoou. Olhei pro lado e minha mulher dormia com um olho aberto e outro fechado. Debaixo da cama, ouvia o rumor dos anônimos, que minutos antes me devoravam. Não havia saída. Voltei às camadas profundas do sono e lá me vi novamente molestado por eles: fakes e anônimos. Voltei então à superfície e minha mulher permanecia com um olho aberto e outro fechado. Eu não tinha saída, voltei a mergulhar e novamente subi. Naquele ir e vir, pude perceber então um espaço livre entre o sono e a vigília. Ali ao menos eu era eu. Não estava nem dentro, nem fora. Ainda que fosse uma região instável, ali pude finalmente descansar, tão longe e tão perto, dos fakes e dos anônimos.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

JEAN-LUC GODARD


“Film Socialisme”, integrando a programação do último festival de Cannes, apresenta-nos um Godard dividido aparentemente em três partes. A primeira parte, “Coisas como”, que vem a ser a do navio em alto mar, fazendo o cruzeiro marítimo Egito, Palestina, Odessa, Grécia, Nápoles e Barcelona, é predominada por uma profusão de imagens, vozes e ruídos, muitas vezes o diálogo não correspondendo à imagem. Com Godard aprende-se a técnica da sobreposição: um filme para muitas vozes tem que descobrir primeiro a dissonância numa mesma voz. Cortes abruptos, estética da fragmentação e do não-comentário, o ruído do vento captado pelo microfone, o som e a imagem do celular, a interferência das imagens amadoras. E nunca se foi tão antigo. Todo o lixo digital em proveito do Mesmo. À rigor, estamos falando do mesmo Godard, o de Alphaville e o de “Film Socialisme”. O uso de novas mídias serve apenas de sucata para ratificar o mesmo discurso. Esse antigo experimentalismo, ilustre desconhecido das novas gerações, serve de armadilha para novos diretores nostálgicos. E muitas vezes o resultado é catastrófico para eles. Porque brincar com imagens quando já não se pertence à geração dos anos 60, pode significar apenas exercício estético, masturbação visual, resultando geralmente em artificialismo estéril.

Mas se na primeira parte estamos na dimensão do espaço, com o belo discurso de Badiou sobre a Geometria, a terceira e última parte, “Nossas Humanidades”, fala do tempo enquanto durée. Imagens de arquivo são então aproveitadas, como é o caso de “Encouraçado Potemkin”, dando-nos a idéia de um documentário. Aqui, a “História do Cinema 1988-1998” com seus 240 minutos, parece se condensar muito bem. E se o discurso político está sempre presente, é aqui que ele cresce ainda mais. A pergunta que não quer calar: como um diretor moderno que se formou no mundo da publicidade, poderia entender a referência à ideologia na parte final do filme? A não ser que Godard sobreviva como fetiche, o que explica muitas vezes a falta de vigor dos novos filmes experimentais.

Entre o Godard da primeira e última parte, à rigor o Godard dos anos 60 e o Godard documentarista respectivamente, temos a segunda parte, “Nossa Liberdade”, da emissora de televisão, fazendo menção à esfera do público e do privado, e que remete a seus filmes mais sóbrios e maduros – esses mesmos que sofreram intensa resistência por parte do público e da crítica. Estamos nos remetendo a “Je vous salue Marie” sobretudo.

Essas três partes (ou seriam quatro?) fazem parte de sua dialética. Em cada parte, o todo já está presente. O que novamente traz à tona a idéia do Mesmo, presente tanto na primeira, quanto na segunda, quanto na terceira parte. Nada terá sido tão semelhante à Finnegans Wake do que a técnica em Godard, o mais barroco de todos os franceses.

“Film Socialisme” tem, portanto, a pretensão de fazer um grande recenseamento de sua própria filmografia – é sua metalinguagem. As novas tecnologias entram apenas como sucata e sempre a serviço de sua mesma técnica. A questão não está em negá-las, mas usá-las em proveito próprio. Vale então uma comparação entre Wim Wenders e Godard. A força desse último não reside numa capacidade camaleônica, que o fizesse se metamorfosear em diferentes formas pelo decurso dos anos. Sua importância é a mesma de João Gilberto: permenecer o mesmo. Toda sua potência advém do estranho fato de não se contaminar. E por não se contaminar, não contamina ninguém, ainda que muitos sonhassem seguir seu legado. A cada filme seu a mesma sensação que tive diante de um pedaço da lua exposto no Museu da Quinta da Boa Vista há muitos anos atrás.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

AS TORRADINHAS

Os convidados na sala.
Na mesinha, castanha de caju, amendoim...
Ficava ouvindo, ouvindo...
Tinha patê, torradinha...
O professor contava uma estória
(era assim como o chamavam).
Falava bonito
e eu ali.
As festas eram assim.
O tempo distante e tão próximo.
Eu ouvia e comia.
Comia e ouvia.
O sofá macio.
O perfume, o cheiro de jasmim...
Havia uma estória.
E ficavam ouvindo.
Alguém fazia um aparte, outro ria.
Sabia-se contar estórias.
Eu ouvia, ouvia e comia.
Ninguém me via.
O sofá macio.
O tempo sem sobressaltos.
A castanha de caju, as torradinhas...
Não eram só as estórias que me entretinham.
Era o professor contando.
O sofá macio.
A castanha de caju.
As torradinhas.

skylab/dez/2010