Ela se encontrava num estado semiconsciente. Um cheiro forte de éter exalava do quarto, mas não era suficiente para subtrair-lhe o estado de torpor. Uma sucessão de imagens desconexas não lhe permitia um sono tranquilo. Parecia delirar.
Acharam por bem lhe dar uma nova dose de anestésico, o que lhe restituiu uma relativa tranquilidade. Mas no meio da noite, o efeito do remédio havia cessado e ela voltou a se remexer novamente.
A cirurgia havia sido concluída com sucesso. O pós-operatório, no entanto, era delicado. Já haviam passado 10 horas do término da operação e ela permanecia num estado lamentável.
Às cinco horas da manhã, um grito ecoou da enfermaria. Era ela. Uma nova dose lhe foi então administrada e em poucos minutos ela mergulhou em sono profundo.
As primeiras horas após a operação, ela não havia recebido nenhuma visita. O quarto permanecia na penumbra, não fossem os movimentos das enfermeiras, muitas dessas, estagiárias, de maneira que davam ao ambiente um ar de jovialidade.
O barulho do relógio, contínuo, era o único sinal de vida. Algumas vezes ela se remexia e deixava à mostra as pernas delicadas e femininas. O rosto tinha traços clássicos, o que sugeria uma rara beleza.
Na mesa de cabeceira, via-se um livro que, a julgar pelo título, "Debaixo da rodas de um automóvel", devia pertencer a algum gênero biográfico. Na capa, um homem tinha o rosto todo enfaixado.
Num dado instante, ela pareceu esforçar-se em abrir os olhos. Suas pálpebras entreabriram-se e fecharam-se em seguida. A pouca luz que vinha do exterior, através da janela do quarto, talvez tenha sido um dos motivos pelos quais ela foi recobrando paulatinamente os sentidos.
Quando finalmente abriu os olhos, parecia surpresa diante do que via. Nada lhe fazia sentido. Tinha uma expressão patética, logo transformada em angústia. O relógio continuava o seu monólogo contínuo, enquanto ela ia descobrindo os objetos que a circundavam.
Pôde sentir diretamente na pele, o lençol branco que lhe cobria, seu cheiro e sua maciez. O travesseiro sob a cabeça. A luz branca que vinha da janela, o que lhe trouxe à memória um céu azul e praias ensolaradas.
À medida que o tempo passava, sua cabeça foi ganhando novas imagens que lhe surgiam por associação. Talvez fosse cedo ainda para descobrir seu nome, onde morava e sua real identidade. Então, se contentava em olhar.
Viu uma agulha espetada na veia, através da qual recebia o soro. Até então, nenhuma das tão solícitas enfermeiras havia adentrado o quarto. Continuou então sua ronda e pôde deparar com algo que não reconheceu à primeira vista: estava ali defronte à cama e a deixou profundamente intrigada.
Olhou mais uma vez aquela coisa e tentou reconhecê-la. Se ela a conhecia, era de forma remota, como alguém que não víssemos há anos. Desistindo de tentar reconhecê-la, pôs-se a examinar cada elemento que a constituía.
Àquelas horas da noite, talvez tivesse havido mudança de turno, de forma que o quarto permanecia em silêncio, entrecortado apenas pelo ritmo monótono do relógio.
O primeiro elemento recenseado foi a luminosidade de sua superfície: a coisa, a qual ela não conseguia decifrar, trazia uma luz própria. Mesmo na escuridão do quarto, porque já era noite, a coisa se fazia enxergar. Ainda assim, não era a luz de uma lâmpada que se expande para o que está em torno. Era uma luz centrada em si mesma, o que a fazia distinguir-se da escuridão.
Ela pôde também perceber que aquela coisa tinha um movimento próprio, o que a deixava um pouco assustada, uma vez que não era algo inanimado como os demais (acho que nesse instante, ela pegou no sono de novo e tudo que for narrado a seguir, terá sido uma sucessão contínua de sonho e lucidez).
Quando ela olhou de novo, pôde comprovar suas hipóteses: a coisa encontrava-se numa posição diferente da anterior. Aquilo lhe trouxe um estado de insegurança: estava diante de algo que se mexia.
Talvez fosse melhor dormir novamente e esquecer tudo, não fosse ela perceber uma suave mudança na superfície da coisa, como a lhe sorrir. Sim. A coisa sorria como a buscar um contato, depois de longos anos. Nossa paciente não sabia como reagir àquele apelo, diante de algo que lhe parecia tão estrangeiro. Nunca desejou tanto que, àquele instante, uma enfermeira acendesse a luz e lhe viesse em auxílio. Chegou a desviar os olhos e quando voltou a olhar, a coisa permanecia a lhe sorrir.
Acho que nesse instante, sua vontade foi cumprida: uma jovem enfermeira, talvez estagiária, acabava de assomar à porta do quarto. Veio lhe administrar uma nova dose de remédios, que certamente lhe fariam dormir.
Não sei quanto tempo esteve a dormir, mas certamente o suficiente para, ao acordar, ver aquela estranha coisa próxima à janela, olhando o exterior. Chegou a pensar que tudo não passava de alucinação e, para pôr fim àquela estranha estória, tratou de perguntar às tão solícitas enfermeiras se havia recebido alguma visita no tempo em que permaneceu ali internada. Procedia de maneira discreta e, dessa maneira, saberia se a coisa era ou não era de verdade. Aquilo ao qual ela não sabia nomear, estava agora de costas para a cama, de modo que podia percebê-lo de corpo inteiro, sem ser vista. Tinha um belo porte ou, pelo menos, o suficiente para ser notado. A qual gênero pertencia? Agora, de costas, parecia um gracioso rapaz; mas, anteriormente, a lhe sorrir, tinha a aparência de uma mulher, à qual todo homem gostaria um dia de desfrutar.
Sua curiosidade foi saciada quando a enfermeira lhe respondeu que em todo tempo que ali esteve, não chegou a receber nenhuma visita. Estava certa, portanto, que tudo era fruto de sua prodigiosa imaginação. Não tinha dúvidas. E, no entanto, aquela coisa permanecia ali, todo esse tempo, ao pé da cama.
À certa altura, quando já haviam passado três dias da operação, faltando cinco para receber alta, arriscou uma pergunta (a primeira, desde o tempo em que permaneciam juntas):
- Quem é você?
- Como?
- Sim, quem é você? Há dias que tenho te observado, sem que outras
pessoas fossem capazes de fazer o mesmo. E, no entanto, não consigo lhe
reconhecer.
- É que você fez uma operação muito delicada. Aos poucos sua memória
voltará a ser como antes. Não se inquiete.
Como estava enfraquecida, voltou a dormir, abandonando as dúvidas que a vinham corroendo. Quando acordou, pôs na mesa os dados que possuía: 1) havia feito uma operação; 2) não foi visitada por ninguém, a não ser por aquela estranha hóspede. Fora isso, não conseguia descobrir mais nada e sua vida estava mergulhada num mar de mistérios.
Restavam-lhe as tão solícitas enfermeiras, todas estagiárias. Seria a elas que recorreria, e tinha muitas perguntas a lhes fazer:
1- a qual operação foi submetida?;
2- por que tinha perdido a memória?;
3- quais eram os nomes de seus pais?;
4- onde morava?;
5- o que fazia?;
6- o que representava aquela pessoa, à qual só ela tinha acesso?
II
Dos cinco dias que lhe restavam para receber alta, dois haviam já se passados sem grandes progressos. Havia feito duas tentativas com as enfermeiras, sempre tão solícitas, nenhuma das quais havia tido êxito. As respostas lhe soavam tão vagas quanto as perguntas, de maneira que achou por bem aguardar a visita do médico.
Todas as vezes que dormia, sonhava. Mas os sonhos lhe pareciam tão distantes que desistiu de recorrer a eles. Chegou a se ver como refém de uma rede de criminosos, da qual, todos faziam parte, inclusive o fantasma. Sentia-se vigiada 24 horas sem ninguém para recorrer. Quando uma das enfermeiras vinha lhe administrar alguma medicação, ou trazer-lhe refeição, ficava atenta a fim de lhe flagrar algum olhar suspeito em direção à coisa. Mas era como se o fantasma de fato não existisse. Algumas vezes, a enfermeira avançava em sua direção, sem provocar choque nem esbarrão. Fora isso, pôde também averiguar as metamorfoses por que sofria o fantasma. Não saberia precisar por quantas transformações passara no intervalo de um dia. Entretanto, era isso já suficiente para desconfiar de sua realidade.
A única coisa da qual não poderia desconfiar era de si mesma. Fosse o que fosse, ela estava ali, estirada na cama e sem memória. Respirava, tinha fome, estava cercada de objetos aos quais reconhecia, a agulha continuava espetada em sua veia, e, dentro de alguns minutos, receberia a visita do médico, segundo a informação de sua atendente. Poderia entrar a par de tudo que lhe havia acontecido e cada vez mais se sentia fortalecida.
O relógio continuava batendo. Um pequeno espelho encontrava-se bem próximo de si, sobre a penteadeira, de maneira que não encontrou dificuldades em apossar-se dele. Ali estava ela: espantou-se com as olheiras. Parecia pálida, mas ainda assim guardava os belos traços. Era ela mesma, não havia dúvidas. Reconhecia-se, ainda que não pudesse contar a estória daquele rosto. Era ela mesmo. Alguma coisa de ruim havia lhe acontecido. Ainda assim, ela se mantinha viva, e de repente se lembrou de algo assustador: tinha esquecido seu nome. Como deveria se chamar? Tentou relembrar todas as vezes que conversou com as tão solícitas enfermeiras: em nenhuma delas, chamaram-lhe por um nome próprio. Tratavam-na por "querida", "minha amiga", "oi, minha linda", "senhora", mas em momento algum reconheceu um nome próprio.
Então, procurou algum pertence seu e viu a bolsa. Estava também sobre a penteadeira e era uma pequena bolsa de cromo, da qual tinha uma ligeira reminiscência. Pôde sentar-se à cama, por já se sentir bem fortalecida, e abriu rapidamente a bolsa. Talvez ali, ela encontrasse as pistas que precisava.
O primeiro objeto que lhe chamou a atenção foi um pequeno óculos de aro fino e dourado. Ao colocar nos olhos, pôde perceber a diferença: tudo em sua volta adquiria maior nitidez. Encontrou também um batom e não pôde resistir a tentação de passá-lo nos lábios.
Finalmente encontrou uma carteira de couro, dentro da qual, algumas notas de cinquenta reais. Mas numa das subdivisões da carteira, encontrou a cédula de identidade.
A foto era de um homem. Chamava-se Luís António de Oliveira Bastos. Natural do Rio de Janeiro, nascido em 20 de janeiro de 1950. Seus pais chamavam-se Yolanda de Oliveira Bastos e Fernando da Silva Bastos.
Como se não reconhecesse na identidade, voltou a se olhar no espelho como a buscar algum fiapo de semelhança. Não havia nada que pudesse conjugar a foto da identidade com a imagem do espelho. Voltou então seus olhos na direção daquela estranha presença, que não lhe tirava os olhos um instante sequer. Mas era-lhe impossível também encontrar qualquer traço de semelhança entre esta e a foto da identidade, em razão de sua perpétua metamorfose.
Naquele instante, o médico acabava de chegar. Custou à ela reconhecer-lhe, uma vez que das vezes anteriores em que veio visitar sua paciente, ela dormia. Finalmente, estava ali, à sua frente, e apresentou-se como seu médico.
Ao menos isso: ela era assistida por um médico. E naquele instante, uma certa tranquilidade apossou-se de sua fisionomia.
Ele tirou sua pressão, auscultou seu coração, e tinha uma expressão bondosa que todos os médicos possuem por piedade ou cinismo.
Enquanto era examinada, sentia-se completamente vazia, livre da inquietação anterior. O seu médico finalmente estava ali e haveria de curá-la de todo mal.
Após os exames, ele preencheu numa prancheta alguns números, dos quais, ela não fazia a menor ideia. Depois, acompanhado de sua assistente, informou a esta os novos procedimentos que deveriam ser tomados junto à paciente, e, dirigindo-lhe pela primeira vez a palavra desde o instante em que adentrara o quarto, se dizia muito satisfeito com sua recuperação e que receberia alta dentro de dois dias.
Todas as perguntas que ela havia ensaiado fazer, não foram feitas. Talvez por um mau pressentimento, preferiu se calar.
Quem sabe um dia não recuperava a memória e descobria tudo por si mesma.
skylab/janeiro/2011
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
PIERRE-HENRI CASTEL

Certa ocasião, o jornal O DIA me procurou para um depoimento e perguntou a minha opinião sobre o Big Brother. Eu respondi que, a semelhança de tudo que aparece na TV, pode-se encontrar coisas interessantes e detestáveis. A televisão não me deixou burro demais, ao contrário do que pregam os TITÃS. E nunca compactuei do ódio que muitos alardeiam contra a TV GLOBO. Assisto novela, assisto Fantástico, assisto Bispo falando, assisto Café Filosófico na TV Cultura, assisto Provocações e assisto Big Brother também. Mas eu me lembro, nessa ocasião da entrevista ao Jornal O Dia, que a jornalista me perguntou sobre o que eu achava das intervenções e discursos "pseudo-filosóficos" do Sr. Pedro Bial. Havia, segundo a jornalista, a opinião favorável de que Bial se aproveitava de um programa popular para inserir reflexões num horário nobre.
Eu discordei.
Não existe coisa mais cafona do que seus discursos moralistas.
As coisas interessantes que acontecem nesse reality show são absolutamente casuais. E por isso, justamente por essa casualidade, que tomam uma força que os discursos do Bial nunca terão. Me lembro que cheguei a caracterizar tais discursos como "filosofia de botequim". Tomam um ar grandiloquente, principalmente na hora da eliminação, mas no fundo não dizem nada que pudesse valer a pena.
Tudo isso vem bem a propósito.
Neste momento, ao meu lado, pousado sobre a mesa, encontra-se um livro de fôlego. É de um jovem filósofo francês: Pierre-Henri Castel. O livro, ainda não traduzido para o português, chama-se "La Metamorphose Impensable - Essai sur le transsexualisme e l'identité personelle". E há alguns minutos atrás, assistindo ao Big Brother, o mestre de cerimônias, referindo-se a Ariadne, a primeira transexual a participar do programa, proferiu essa pérola: "o transexualismo é um transtorno de identidade". Chegando inclusive a afirmar que era tudo uma questão de cabeça. Segundo Bial, o corpo é o que menos conta.
O problema da televisão é justamente esse: quando alguém interfere como dono da verdade no sentido de enobrecer os telespectadores.
Ao contrário do que possa parecer, o que mais me chama a atenção na TV e me faz um assíduo telespectador é o seu aspecto selvagem, fora de controle.
Poder errar como um flaneur entre as estações, através do controle remoto, foi outro bem que nos trouxe a tecnologia.
domingo, 16 de janeiro de 2011
MÚSICA-NATURA
Para música brasileira contemporânea ser analisada a contento é necessário não perdermos o foco de como ela vem sendo sustentada ou mantida diante da crise de mercado. Essa crise está ligada ao fim dos cds, fechamento de lojas, decadência da indústria fonográfica e aumento substantivo dos usuários de internet.
Tanto o setor público quanto o privado respondem ao seu modo.
No tocante aos editais referente às leis de incentivo a cultura, tanto o Movimento Fora do Eixo que reúne determinados coletivos, quanto outros coletivos não alinhados, vêm mostrando como se faz política cultural. Os Festivais de Música Independente pelo país à fora, são um exemplo do bom uso da verba pública seja para formação de platéia, seja para a revelação de novos valores.
Em relação ao setor privado, outro elo da cadeia que alimenta a Música Independente, temos vários exemplos de empresas que vêm sistematicamente investindo na nova música. Vou citar a Natura.
Empresa brasileira que atua no setor de produtos de tratamento para o rosto e corpo, presente também na Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Venezuela, França e Estados Unidos, a Natura é um exemplo de empresa nacional bem sucedida e comprometida com a ecologia e o futuro do planeta: promove o uso sustentável da biodiversidade botânica e nas etapas de desenvolvimento e produção não realiza testes em animais. Fornece a seus consumidores, segundo dados da empresa, produtos de carbono neutro graças ao seu Programa de Carbono Neutro, destinado a reduzir e compensar as emissões de gases gerados do efeito estufa, desde a extração da matéria prima até a disposição final do produto no meio ambiente. Traz também informações nas embalagens de seus produtos, informando o percentual de ingredientes de origem vegetal renovável e número recomendado de refilagens (reduzir, reutilizar e reciclar na fabricação das embalagens e uso de matéria prima).
Ainda que a empresa justifique o seu patrocínio com a “intenção de estimular e difundir uma música que expresse a ligação intima e profunda com um lugar, sua gente, sua história e seu modo de ser”, possibilitando a Natura interagir com o outro e o diverso, existirá sempre um limite para esse diverso. A palavra “diverso” expressa mesmo uma discrepância com a palavra “diferente”. O “diverso” será sempre melhor tolerado.
Em outras palavras, há que se encontrar um vínculo, por menor que ele seja, entre o produto e o artista. E a medida que essa ligação se estabelece no tempo, o vínculo se estreita. Falo da “Natura” porque é simbólico. Poderia falar da “Biscoitos Finos” ou da OI FM. E se analisarmos a filosofia de cada uma delas, constataremos estarrecidos que essas empresas que vêm investindo na nova música brasileira são muito parecidas.
E os artistas contemplados, não menos. Caso suspeitássemos de alguma incompatibilidade entre o artista escolhido e a empresa, a premiação do artista por si só nos provaria o contrário. Erro nosso de avaliação.
Vejamos então o leque dos favorecidos pela Natura: Carlinhos Brown, Marisa Monte, Vanessa da Mata, Céu, Móveis Coloniais, Cidadão Instigado e Edgard Scandurra, Arnaldo Antunes, Karina Buhr, Mulheres de Chico, e, sobretudo, o novo queridinho, Marcelo Jeneci.
Claro que esse leque é mais amplo, mas os relacionados aqui já são suficientes para entendermos os critérios da Natura.
Os problemas por que passa a nossa música contemporânea advém desse vínculo estreito entre artista e produto. Esse leque que, por mais amplo que seja não significa nem a terça parte do que se produz hoje no Brasil, nos dá a impressão de perfumaria. Música para embelezar os corpos. Música para entreter. Música-superfície como os cremes que passamos para deixar nossa pele mais macia. Ao compositor que se inicia hoje, não resta outra opção porque a filosofia de outras empresas bem sucedidas e que investem na música, é a mesma. Daí a unanimidade da imprensa (essa sensação eu já havia manifestado no tópico que escrevi sobre “As Novas Cantoras Brasileiras”)
O terror se estabelece então quando voltamos para o outro lado, o das verbas públicas. “Para alimentar a cadeia da música independente há que se fazer aliança em todas as direções”, segundo uma importante figura do Movimento Fora do Eixo. O discurso negativista, hoje totalmente em baixa, dá lugar então a uma nova lógica de parcerias. A política em Brasília já nos fez vislumbrar esse filme. E com isso, o movimento crítico passa a ser visto com maus olhos.
Gosto de lembrar dois nomes: Júpiter Maçã e Rômulo Fróes. Já teci comentários a eles separadamente aqui no blog. São contrários que se confluem. Júpiter sempre quis se alinhar, lutou e ainda luta por isso, mas vem de uma outra época e seu passado não engana: é politicamente incorreto. Já Rômulo defende a música-superfície, é filho desta, defende boa parte dos músicos ligados à Natura, mas, paradoxalmente, leva essa música-superfície aos seus limites e cria algo novo.
Tanto o setor público quanto o privado respondem ao seu modo.
No tocante aos editais referente às leis de incentivo a cultura, tanto o Movimento Fora do Eixo que reúne determinados coletivos, quanto outros coletivos não alinhados, vêm mostrando como se faz política cultural. Os Festivais de Música Independente pelo país à fora, são um exemplo do bom uso da verba pública seja para formação de platéia, seja para a revelação de novos valores.
Em relação ao setor privado, outro elo da cadeia que alimenta a Música Independente, temos vários exemplos de empresas que vêm sistematicamente investindo na nova música. Vou citar a Natura.
Empresa brasileira que atua no setor de produtos de tratamento para o rosto e corpo, presente também na Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Venezuela, França e Estados Unidos, a Natura é um exemplo de empresa nacional bem sucedida e comprometida com a ecologia e o futuro do planeta: promove o uso sustentável da biodiversidade botânica e nas etapas de desenvolvimento e produção não realiza testes em animais. Fornece a seus consumidores, segundo dados da empresa, produtos de carbono neutro graças ao seu Programa de Carbono Neutro, destinado a reduzir e compensar as emissões de gases gerados do efeito estufa, desde a extração da matéria prima até a disposição final do produto no meio ambiente. Traz também informações nas embalagens de seus produtos, informando o percentual de ingredientes de origem vegetal renovável e número recomendado de refilagens (reduzir, reutilizar e reciclar na fabricação das embalagens e uso de matéria prima).
Ainda que a empresa justifique o seu patrocínio com a “intenção de estimular e difundir uma música que expresse a ligação intima e profunda com um lugar, sua gente, sua história e seu modo de ser”, possibilitando a Natura interagir com o outro e o diverso, existirá sempre um limite para esse diverso. A palavra “diverso” expressa mesmo uma discrepância com a palavra “diferente”. O “diverso” será sempre melhor tolerado.
Em outras palavras, há que se encontrar um vínculo, por menor que ele seja, entre o produto e o artista. E a medida que essa ligação se estabelece no tempo, o vínculo se estreita. Falo da “Natura” porque é simbólico. Poderia falar da “Biscoitos Finos” ou da OI FM. E se analisarmos a filosofia de cada uma delas, constataremos estarrecidos que essas empresas que vêm investindo na nova música brasileira são muito parecidas.
E os artistas contemplados, não menos. Caso suspeitássemos de alguma incompatibilidade entre o artista escolhido e a empresa, a premiação do artista por si só nos provaria o contrário. Erro nosso de avaliação.
Vejamos então o leque dos favorecidos pela Natura: Carlinhos Brown, Marisa Monte, Vanessa da Mata, Céu, Móveis Coloniais, Cidadão Instigado e Edgard Scandurra, Arnaldo Antunes, Karina Buhr, Mulheres de Chico, e, sobretudo, o novo queridinho, Marcelo Jeneci.
Claro que esse leque é mais amplo, mas os relacionados aqui já são suficientes para entendermos os critérios da Natura.
Os problemas por que passa a nossa música contemporânea advém desse vínculo estreito entre artista e produto. Esse leque que, por mais amplo que seja não significa nem a terça parte do que se produz hoje no Brasil, nos dá a impressão de perfumaria. Música para embelezar os corpos. Música para entreter. Música-superfície como os cremes que passamos para deixar nossa pele mais macia. Ao compositor que se inicia hoje, não resta outra opção porque a filosofia de outras empresas bem sucedidas e que investem na música, é a mesma. Daí a unanimidade da imprensa (essa sensação eu já havia manifestado no tópico que escrevi sobre “As Novas Cantoras Brasileiras”)
O terror se estabelece então quando voltamos para o outro lado, o das verbas públicas. “Para alimentar a cadeia da música independente há que se fazer aliança em todas as direções”, segundo uma importante figura do Movimento Fora do Eixo. O discurso negativista, hoje totalmente em baixa, dá lugar então a uma nova lógica de parcerias. A política em Brasília já nos fez vislumbrar esse filme. E com isso, o movimento crítico passa a ser visto com maus olhos.
Gosto de lembrar dois nomes: Júpiter Maçã e Rômulo Fróes. Já teci comentários a eles separadamente aqui no blog. São contrários que se confluem. Júpiter sempre quis se alinhar, lutou e ainda luta por isso, mas vem de uma outra época e seu passado não engana: é politicamente incorreto. Já Rômulo defende a música-superfície, é filho desta, defende boa parte dos músicos ligados à Natura, mas, paradoxalmente, leva essa música-superfície aos seus limites e cria algo novo.
domingo, 9 de janeiro de 2011
O HOMEM INVISÍVEL
Isabel olha no espelho e dá os últimos retoques. Traja um vestido de organdi preto, cujo decote a faz mais insinuante. Os cabelos, assim como os olhos, são escuros. A cor da pele, morena clara, denuncie talvez uma descendência árabe. Usa poucos acessórios e pouca maquiagem. Entreolha-se mais uma vez como se pudesse deparar com algum furo: algo que estivesse sorrateiramente disfarçado e, quando menos esperasse, viesse à tona, deixando-a em apuros.
O quarto é moderno e confortável: em cada detalhe, a marca do bom gosto. Se a moldura do espelho nos remete ao barroco, com sua superfície cheia de entalhes e trabalhada, a cama, larga e macia, nos faz lembrar que o conforto é uma exigência moderna.
Não seria impossível, após algum tempo de trégua, que Isabel encasquetasse com alguma coisa em sua indumentária: algo que só ela visse e que a fizesse desistir do que estivesse vestindo. Vários vestidos estendidos sobre a cama denunciavam isso. E o belo vestido de organdi preto, tornando-a mais irresistível do que nunca, talvez tivesse o mesmo fim dos demais, não fosse a campainha tocar, encerrando a torturante experiência.
Era ele. Há muito, Isabel aguardava por aquele momento, e não há dúvidas que ela está ansiosa. Ao invés de se dirigir à porta e abri-la, ela se olha mais uma vez, se entreolha de novo, e dá por encerrada a tortura. Em verdade, ela a interrompe. E de mal grado.
Quando abre a porta, Mark Trace, o editor da poderosa Argument Books, mal pôde disfarçar a admiração. Ambos se abraçam e, antes de continuar, vamos abrir um parênteses.
II
Me chamo Luís Edgard Hoffman. Meus pais, Henry Hoffman e Karen Klisman Hoffman, oriundos de Berlim, desembarcaram no Rio de Janeiro em julho de 1944. Vinham fugidos da guerra e traziam, fechada a sete chaves, a origem nazista. Quando aqui desembarcaram, eu era ainda de colo e meu pai conseguiu através da única referência que trazia, um emprego como caseiro num sítio em Friburgo, onde fomos alojados.
Minha lembrança desses dias, era das mais tranquilas porque passávamos os dias entre flores e passarinhos. Tio Wolf, como o chamava, dono da bela propriedade, cultivava antúrios em grandes estufas com fins comerciais e possuía um viveiro de pássaros exóticos. Ficamos muito bem acomodados numa das propriedades do imóvel.
Com cinco anos de idade, me vi retornando a cidade do Rio de Janeiro e nada me terá sido de maior impacto do que aquele belo lugar. As razões da repentina mudança sempre me foram escondidas, de maneira que bem mais tarde, concatenando os fatos, foi que supus alguma perseguição a meus pais, em razão da qual haveríamos de estar constantemente em fuga.
Matricularam-me no Liceus de Artes e Ofícios, onde o ensino era público e não onerava os nossos parcos recursos. Morávamos numa casa de cómodos e minha mãe, através de Tio Wolf, conseguiu empregar-se como governanta para uma família de nobres alemães. Meu pai, por sua vez, quase poliglota, ensinava inglês, francês e espanhol, sobrevivendo de aulas particulares.
III
Acho que foi desse período a minha primeira experiência, da qual trato a seguir, e de cujas consequências sofro ainda hoje na alma.
Saíamos da escola em bando, e, como morasse muito próximo de onde estudava, minha mãe permitia que, malgrado a pouca idade, fizesse sozinho o trajeto de casa à escola. Quando terminava a aula, eu e outros, cujos nomes me fogem agora à memória, entrávamos numa loja de comestíveis, cuja grande diversidade, daria origem ao que hoje conhecemos como "lojas de departamento".
A traquinagem consistia em surrupiarmos as balas que ficavam no mostruário. Todos eram pegos em flagrante, menos eu.
Eram balas de chocolate, das quais era impossível fugir-se à tentação. E todos que se atiravam ao delito, eram pegos e levados aos pais, quando não à direção da escola.
Ao que me consta, essa foi a primeira experiência que fugia à explicação. Anos mais tarde, eu me remetia ao acontecimento, em busca de uma justificativa. A ausência de massa muscular e a cor da pele clarinha, em contraste aos meus colegas pardos e brutamontes, não era suficiente para que pudesse passar despercebido pela vigilância. Depois achei que fossem tolerantes comigo, hipótese que mais tarde descartei pela falta de fundamento.
Eu olhava pras balas que luziam em seu papel prateado, próximo das quais, bastaria que lhes estendesse a mão. Estavam ali amontoadas em abundância. Ao contrário dos meus colegas que se punham em risos, como se tratasse de uma brincadeira entre outras, eu só roubava quando me afastava dos demais. Em silêncio e com suavidade, eu colocava várias no bolso e saía da loja sem ser abordado. No caminho pra casa, eu ia comendo-as, chupando-as, em meio a uma multidão de desconhecidos. Eu não sabia como explicar a permissão, que só eu possuía, de usufruir à vontade as balas. Será que não me viam?
IV
Vem desse tempo o meu gosto de caminhar pelas ruas. Diferentemente de minha mãe, que para chegar à casa dos patrões, tomava duas conduções, e de meu pai, que, para ministrar as suas aulas particulares, vivia entre bondes e lotações, o meu percurso era feito sempre à pé.
Como não tínhamos familiares no Brasil, eu ia me acostumando àquele país, do qual sabia não pertencer.
Em casa, falava-se alemão; fora de casa, português. Em que isso poderia se relacionar à experiência da invisibilidade, senão pelo fato de que viver entre dois países talvez fosse o mesmo que não viver em nenhum?
V
Aprendi a ser sonso, fazendo tudo que desejava, mesmo as coisas mais reprováveis, de uma forma plácida e tranquila.
Certa feita, ainda criança, durante a recreação da escola, brincávamos de pique-esconde e me vi escondido em uma sala escura usada pra depósito. Uma das meninas, com as quais brincávamos, havia usado o mesmo local para se esconder, de maneira que ficamos de frente um para o outro e em silêncio. Ela era loirinha, assim como eu, e tão magrinha que um vento mais forte seria capaz de levantá-la. Aproximei-me e encostei-lhe o dedo nos lábios a fim de que fizesse silêncio. Ela compreendeu e sorriu baixinho. Estávamos agachados e nossos joelhos se roçavam naquela sala escura cheia de latas de leite em pó. Não haveriam nunca de achar-nos ali. Foi junto a essa certeza que fechei o punho e sem que ela suspeitasse, acertei-lhe um soco na boca. Imediatamente depois, saí do esconderijo e retornei à sala de aula porque naquele instante terminava o recreio.
Não fui recriminado nem pela agredida. Ficava tão quietinho na sala que eu tinha a impressão que desaparecia.
VI
Foi quando o sexo explodiu aos dezessete anos que descobri a literatura. E com ela, mais um acesso se franqueava.
Foi desse período o golpe de estado impetrado pelos militares, os primeiros beijos, a zona, a masturbação, a guerrilha... mas à nenhuma dessas atividades eu me integrara de fato. Vivia, nessa época, a experiência do desaparecimento e, muitas vezes, meus pais, com a idade já avançada, punham-se preocupados. Os primeiros escritos datam dessa época e mal podia suspeitar o que lhes estava reservado.
Meu pai morreu assassinado e minha mãe retornou à Alemanha quando ingressei no Serviço Público. Nunca conseguiram esquecer a origem, e para eles, a experiência do exílio terá sido a experiência mais amarga.
VII
O leitor, que já deve se encontrar impaciente dentro de um parêntese que nunca se fecha, não imagina a importância de ser funcionário público dentro da experiência do desaparecimento.
Eu agora era funcionário e tinha, diante do micro, vários números que deveriam ser digitados no menor espaço de tempo.
Nesse período, já tinha desenvolvido em alto grau a capacidade de desaparecer. E foi assim que certo dia, durante o expediente, um colega se referia à mim em conversa com um outro:
- Onde está o Edgard? (eu estava ao seu lado).
- Ele veio hoje?
- Eu tive a impressão de vê-lo mas não tenho a certeza.
- Eu não o vi. É possível que tenha ido fazer um lanche.
Algo acontecia de estranho e não foram raras as vezes que usei desse expediente para não me encaminharem determinado serviço ou então para fugir a alguma reclamação que acabavam esquecendo por fazer.
Quando Isabel me ligava, um ou outro funcionário esquecido, respondia pateticamente:
- Edgard? Não tem ninguém com esse nome.
VIII
Eu havia a conhecido num curso de francês e se chamava Isabel. Claro que nos apaixonamos perdidamente, muito embora eu me sentisse tão anestesiado naqueles tempos. Isabel foi quem me chamou a atenção para o fato de que eu escrevia com estilo. Mas não era a poesia em si que me despertava o interesse, e sim o que através dela eu era capaz de atingir.
Como nesses tempos eu morasse em Copacabana, assim como ela, e conseguisse gerar minha vida de forma independente financeiramente, não é difícil imaginar o leitor, que em tempos tão anticonvencionais como os meus e os dela, viéssemos a morar juntos, mesmo a tendo conhecido em tão pouco tempo.
Tipicamente carioca, Isabel era capaz de versar sobre os mais diferentes assuntos. Fazia parte do numeroso contingente de pessoas que devem tudo o que sabem às conversas intermináveis.
Mas nada disso eu havia enxergado ainda e nem ela havia manifestado outro desejo além de uma casa cheia de livros e um homem que fosse seu.
O mundo não nos interessava. Ainda a tenho diante dos olhos, remexendo os meus manuscritos, classificando-os segundo o grau de importância, sabendo muitos deles de cor. Depois listava as editoras, remetia-lhes o material e mantinha-me acesa a chama da esperança.
Morávamos a uma quadra da praia e quando Isabel trouxe suas coisas, como o espaço era exíguo, tivemos que arranjar lugar até no banheiro para colocar os livros.
Seu pai era desembargador e sua mãe professora. A família girava em torno dos sete filhos, dos quais, cinco eram já casados e com filhos. Se pensarmos nos tios e primos, cariocas de várias gerações, tem-se uma ideia do que representava Isabel e do quanto estava inserida no ambiente que a cercava.
As dificuldades começaram quando fui apresentado. Acho que Isabel compreendera, sobretudo porque, no começo, ela mesmo tivera o ímpeto de conhecer novos mundos e não via mal nenhum que eu desse as costas àquela legião de cariocas extrovertidos e ruidosos que faziam parte de sua família.
Mas chegara um dia que manifestou o desejo de almoçar com os pais. Era domingo e fazia tempo que não os visitava. Ainda que alguns irmãos telefonassem, ela havia se afastado deles e sentia saudades.
Ou porque eu tivesse outros planos, ou porque de uma certa forma todos soubessem que a longa ausência da filha era devido a minha presença, o fato é que Isabel foi só e pela primeira vez, desde que vivíamos juntos, manifestei o interesse de desaparecer.
IX
Digo isso porque fazia tempo que não me acontecia aquele estranho fenómeno.
Estava diante de um livro e percebi, quando não mais o tinha em mãos, que havia fechado a porta,, descido as escadas e, tendo ganho as ruas, já ia ao encontro de Isabel.
Fazia tempo que eu não me tornava invisível e era um momento de júbilo andar pelas ruas, como o fazia quando criança, sem que ninguém pudesse atinar com a minha presença. Qual não foi a minha surpresa, no entanto, ao chegar à casa dos pais e perceber Isabel diante dos seus.
Era uma outra Isabel. Se a invisibilidade havia me permitido, até então, extrair-lhe boas coisas, naquele momento eu fora capaz de perceber o que muito me custava crer.
As irmãs, em número de quatro, se reuniram no quarto após o almoço, e, como há muito não se viam, punham na ordem do dia todos os assuntos. Eu estava ali encostado à janela, de maneira que pude testemunhar o que diziam, do que riam e do que pensavam.
- Isabel, e o Edgard? Ele me parece tão introspectivo, tão diferente
de você. Ontem mesmo, comentava isso com a Nanda.
- A Nanda? Como ela vai?
- Bem, jogamos volei na praia.
- Ela tá gorda (comentou a outra irmã, entre risos). Há três dias
a vi no shopping e ela estava de barriga de fora. Eu fiz
até de conta que não a tinha visto
- Meu amor, você não pode falar muito, né?
- Mas eu nunca mostraria a barriga como ela.
- Você fez pior no aniversário do Carlos, Marisa. Além da barriga de
fora, você usou uma bota do exército (risos, muitos risos).
- Realmente, você não pode falar, Marisa.
- E o Carlos, hein?
- E Isabel !!!! Pra quem tá casada há tão pouco tempo !!!!! (risos,
muitos risos)
- Acho que aqui todo mundo já ficou com o Carlos.
- Acho que ele anda envolvido com a guerrilha. A Luisa me falou que
até em armas anda pegando.
- Na Faculdade, tem vários caras que a gente sabe que não são
estudantes. Eles só ficam de olho.
- Isabel, vamos um dia ao Beco das Garrafas? Faz tempo !!!
- E o sombra? (risos, muitos risos, não sendo difícil adivinhar que era a mim que elas se referiam).
X
Saíra atordoado daquele quarto e me vi ferido pela flecha do ciúme. Quanto à Isabel, ela nunca perdia as esperanças. Continuava catalogando os novos escritos, dessa vez de olho nos concursos literários. Ainda que eu não conseguisse nem menção honrosa, ela me inscrevia em vários concursos. Era um coração obstinado e às vezes eu me perguntava, com a imagem das irmãs reverberando na cabeça, se gostava realmente de mim.
Essa dúvida me fazia persegui-la, quando saía com a desculpa de que ia ao supermercado ou ao Banco. Muitas vezes, me vinha a imagem de um Carlos segurando uma metralhadora. Outras, me punha ao lado dela, a fim de flagrar em seu olhar algum indício de traição. E quanto mais a tinha em meus olhos, sem que ela soubesse, em função de minha invisibilidade, mais eu me certificava de que a Isabel com quem vivia era completamente diferente daquela que via na fila do Banco ou fazendo compras no supermercado. E cada vez mais eu ia me utilizando do artifício de ficar invisível, seja porque me era facultado os recursos, seja porque, levado pelo ciúmes, eu quisesse vê-la me traindo.
Foram muitos anos de dissimulação (nunca ela seria capaz de perceber um fiapo do que eu pudesse pensar). Naqueles tempos, eu havia já reunido uma grande quantidade de manuscritos que davam para preencher vários volumes. Enquanto Isabel se debruçava sobre eles, ela não poderia imaginar que eu a tinha sob estrita vigilância.
Certo dia, ao retornar do trabalho, já passavam das vinte e duas horas, não a encontrei em casa. Alguma coisa me fazia pensar no pior e de imediato me vi transportado à casa dos pais. Tudo me era pretexto para recorrer à invisibilidade, mas lá chegando, não encontrei sinal de Isabel. Os pais discutiam o fechamento do regime e o movimento de guerrilha no Brasil. Bebel, a filha mais nova, fazia parte do movimento estudantil e era para eles motivo de preocupação constante, pelo temperamento obstinado e corajoso. A mãe, professora de História, talvez fosse a mais tolerante e quem mais ponderasse numa família cujos membros possuíam sempre uma opinião. Tudo ali se discutia. Daí porque, quando entrei pela primeira vez no seio da família, tive a sensação de estar no meio de um vespeiro de abelhas assassinas.
Ao retornar, pensei no quanto Isabel, vindo de onde vinha, era livre e auto-suficiente. E também na razão que a fazia manter-se ao lado de quem lhe era tão diferente. Naquela noite tumultuada, pensei na morte de meu pai e na névoa que encobria minha família. Vi também no quanto eu me mantinha cada vez mais invisível, o que não deixava de ter o seu lado admirável e sobrenatural.
Talvez devesse dizer o que me vinha acontecendo à Isabel, mas aquele era um segredo fechado a sete chaves e, graças ao qual, eu me reconhecia.
Fui andando pelas ruas mais morto do que vivo. Era a minha maior predileção andar à esmo, talvez dando tempo até Isabel chegar em casa. A minha invisibilidade não me permitia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, quando muito, passar pelas pessoas sem ser visto.
XI
Ao chegar em casa, Isabel já se encontrava deitada. E antes que me reencarnasse, passei em revista a sua bolsa, assim como as suas roupas, de modo que pudesse encontrar alguma pista de onde tivesse estado. Como não encontrara nada que a recriminasse, deitei-me ao seu lado e peguei no sono. Quando já era de manhã, Isabel sentiu pela minha falta e ligou para os pais preocupada. Não havia nada que lhe justificasse minha ausência, e ao certificar-se que eu havia faltado ao trabalho, resolveu ao final do dia procurar a polícia. Foi então encaminhada para a Delegacia especializada em casos de desaparecimento, que lhe pediu aguardar mais dois dias. Nesse período, Isabel não recebeu nenhum comunicado e entre as diversas coisas que pensou, tais como sequestro, atropelamento, mal-súbito, amnésia, perseguição política, paixão fulminante... nenhuma delas fora capaz de suspeitar.
Chegou a ir, acompanhada de seu pai, ao Instituto Médico Legal para reconhecer um corpo e, das quatro vezes que fora chamada, em nenhuma delas me encontrou.
Na Divisão Anti-Sequestro, as investigações não avançavam muito, de modo que ao findar os seis primeiros meses, abateu-lhe um certo desânimo.
A vida continuava e talvez o único elo que a mantinha ligada a mim, eram as poesias.
XII
Eu não sabia justificar aquele estado de coisas. E, no entanto, eu estava ali, ao seu lado, à cada minuto. No início, tentei chamar-lhe a atenção. Me lembro, deitado ao seu lado, que me punha a morder-lhe o braço, e todo o esforço empreendido não a fazia mais do que coçar a superfície. Outras vezes, gritava como se lhe estivesse a mil léguas de distância. Mas nada que empreendesse, surtia o efeito desejado, e, com os anos, fui me acostumando àquele estado.
Com esse novo modo de vida, só me restava seguir Isabel, repeti-la em seus menores movimentos, a tal ponto, que me tornasse o seu duplo.
Quando ela, já esquecida de que um dia eu existira, e, entre as irmãs, punha-se a comentar a vida alheia, eu nem mais reagia como o fizera da primeira vez. De modo que, a cada minuto que passava, era natural que me sentisse cada vez mais distante.
XIII
Ainda assim, antes que eu possa fechar o parênteses e dar curso aos acontecimentos que estão por vir, e, ainda que esse parênteses tenha sido preenchido por vácuos e ausências, eu existo. Ou melhor, eu subsisto. Eu não morri. Um homem só pode receber a certidão de óbitos quando o seu corpo é identificado. Qual foi a minha causa-mortis? Meu pai, por exemplo, foi morto e enterrado no Brasil: reagiu a um suposto assalto e foi assassinado. Eu vi o seu corpo sendo enterrado no São João Batista (não há dúvida alguma quanto a esse fato). Minha mãe voltou à Alemanha e vive até hoje junto dos seus. Isabel, como há muito eu supunha, mostrou que é uma pessoa auto-suficiente e determinada, assim como todos de sua família. Nos anos que se seguiram, de maior abertura política, ela continuou o seu trabalho de dar corpo à obra que eu havia escrito na sombra e, ainda que não fosse capaz de escrever uma só linha, foi à campo, chamando a atenção de pessoas influentes do meio literário. A simpatia que irradiava, além dos olhos verdes que chamavam muito a atenção, talvez tenham sido decisivos para a boa aceitação do trabalho. Além do mais, ninguém como Isabel para convencer aos recalcitrantes que mantinham um pé à frente outro atrás diante do meu trabalho.
Acho que Isabel não se deu conta do que fez quando assinou os poemas e os pôs em mãos de um dos nossos poetas mais laureados. A partir de então nascia um nome nas letras nacionais. E não era sem tempo: quem, senão ela, acreditou mais naqueles manuscritos que eu vinha acumulando no curso dos anos e que tinham a função de me tornar cada vez mais invisível?
Nada mais justo do que eu perder agora sua autoria. E pensando bem, a partir dali, eu tinha a sensação de que o trabalho havia sido concluído (ninguém melhor do que o artista para sabê-lo).
O leitor irá perguntar meio atônito a que cargas dágua se deve tudo isto. Como grande parte do texto está entre parênteses, eu sugiro a nosso leitor que dê um desconto, quando muito porque o parêntese não é o mundo real, muito embora exista.
Agora sim podemos fechá-lo.
Isabel olha no espelho e dá os últimos retoques. Traja um vestido de organdi preto, cujo decote a faz mais insinuante. Os cabelos são escuros. A cor da pele, morena clara, denuncie talvez uma descendência árabe. Usa poucos acessórios e pouca maquiagem. Entreolha-se mais uma vez como se pudesse deparar com algum furo: algo que estivesse sorrateiramente disfarçado e, quando menos esperasse, viesse à tona, deixando-a em apuros.
O quarto é moderno e confortável: em cada detalhe, a marca do bom gosto. Se a moldura do espelho nos remete ao barroco, com sua superfície cheia de entalhes, a cama, larga e macia, nos faz lembrar que o conforto é uma exigência moderna.
Não seria impossível, após algum tempo de trégua, que Isabel encasquetasse com alguma coisa em sua indumentária: algo que só ela visse e que a fizesse desistir do que estivesse vestindo. Vários vestidos estendidos sobre a cama denunciavam isso. E o belo vestido de organdi preto, tornando-a mais irresistível do que nunca, talvez tivesse o mesmo fim dos demais, não fosse a campainha tocar, encerrando a torturante experiência.
Era ele. Há muito, Isabel aguardava por aquele momento, e não há dúvidas que ela está ansiosa. Ao invés de se dirigir à porta e abri-la, ela se olha mais uma vez, se entreolha de novo, e dá por encerrada a tortura. Em verdade, ela a interrompe. E de mal grado.
Quando abre a porta, Mark Trace, o editor da poderosa Argument Books, mal pôde disfarçar a admiração.
FIM
SKYLAB/2011
O quarto é moderno e confortável: em cada detalhe, a marca do bom gosto. Se a moldura do espelho nos remete ao barroco, com sua superfície cheia de entalhes e trabalhada, a cama, larga e macia, nos faz lembrar que o conforto é uma exigência moderna.
Não seria impossível, após algum tempo de trégua, que Isabel encasquetasse com alguma coisa em sua indumentária: algo que só ela visse e que a fizesse desistir do que estivesse vestindo. Vários vestidos estendidos sobre a cama denunciavam isso. E o belo vestido de organdi preto, tornando-a mais irresistível do que nunca, talvez tivesse o mesmo fim dos demais, não fosse a campainha tocar, encerrando a torturante experiência.
Era ele. Há muito, Isabel aguardava por aquele momento, e não há dúvidas que ela está ansiosa. Ao invés de se dirigir à porta e abri-la, ela se olha mais uma vez, se entreolha de novo, e dá por encerrada a tortura. Em verdade, ela a interrompe. E de mal grado.
Quando abre a porta, Mark Trace, o editor da poderosa Argument Books, mal pôde disfarçar a admiração. Ambos se abraçam e, antes de continuar, vamos abrir um parênteses.
II
Me chamo Luís Edgard Hoffman. Meus pais, Henry Hoffman e Karen Klisman Hoffman, oriundos de Berlim, desembarcaram no Rio de Janeiro em julho de 1944. Vinham fugidos da guerra e traziam, fechada a sete chaves, a origem nazista. Quando aqui desembarcaram, eu era ainda de colo e meu pai conseguiu através da única referência que trazia, um emprego como caseiro num sítio em Friburgo, onde fomos alojados.
Minha lembrança desses dias, era das mais tranquilas porque passávamos os dias entre flores e passarinhos. Tio Wolf, como o chamava, dono da bela propriedade, cultivava antúrios em grandes estufas com fins comerciais e possuía um viveiro de pássaros exóticos. Ficamos muito bem acomodados numa das propriedades do imóvel.
Com cinco anos de idade, me vi retornando a cidade do Rio de Janeiro e nada me terá sido de maior impacto do que aquele belo lugar. As razões da repentina mudança sempre me foram escondidas, de maneira que bem mais tarde, concatenando os fatos, foi que supus alguma perseguição a meus pais, em razão da qual haveríamos de estar constantemente em fuga.
Matricularam-me no Liceus de Artes e Ofícios, onde o ensino era público e não onerava os nossos parcos recursos. Morávamos numa casa de cómodos e minha mãe, através de Tio Wolf, conseguiu empregar-se como governanta para uma família de nobres alemães. Meu pai, por sua vez, quase poliglota, ensinava inglês, francês e espanhol, sobrevivendo de aulas particulares.
III
Acho que foi desse período a minha primeira experiência, da qual trato a seguir, e de cujas consequências sofro ainda hoje na alma.
Saíamos da escola em bando, e, como morasse muito próximo de onde estudava, minha mãe permitia que, malgrado a pouca idade, fizesse sozinho o trajeto de casa à escola. Quando terminava a aula, eu e outros, cujos nomes me fogem agora à memória, entrávamos numa loja de comestíveis, cuja grande diversidade, daria origem ao que hoje conhecemos como "lojas de departamento".
A traquinagem consistia em surrupiarmos as balas que ficavam no mostruário. Todos eram pegos em flagrante, menos eu.
Eram balas de chocolate, das quais era impossível fugir-se à tentação. E todos que se atiravam ao delito, eram pegos e levados aos pais, quando não à direção da escola.
Ao que me consta, essa foi a primeira experiência que fugia à explicação. Anos mais tarde, eu me remetia ao acontecimento, em busca de uma justificativa. A ausência de massa muscular e a cor da pele clarinha, em contraste aos meus colegas pardos e brutamontes, não era suficiente para que pudesse passar despercebido pela vigilância. Depois achei que fossem tolerantes comigo, hipótese que mais tarde descartei pela falta de fundamento.
Eu olhava pras balas que luziam em seu papel prateado, próximo das quais, bastaria que lhes estendesse a mão. Estavam ali amontoadas em abundância. Ao contrário dos meus colegas que se punham em risos, como se tratasse de uma brincadeira entre outras, eu só roubava quando me afastava dos demais. Em silêncio e com suavidade, eu colocava várias no bolso e saía da loja sem ser abordado. No caminho pra casa, eu ia comendo-as, chupando-as, em meio a uma multidão de desconhecidos. Eu não sabia como explicar a permissão, que só eu possuía, de usufruir à vontade as balas. Será que não me viam?
IV
Vem desse tempo o meu gosto de caminhar pelas ruas. Diferentemente de minha mãe, que para chegar à casa dos patrões, tomava duas conduções, e de meu pai, que, para ministrar as suas aulas particulares, vivia entre bondes e lotações, o meu percurso era feito sempre à pé.
Como não tínhamos familiares no Brasil, eu ia me acostumando àquele país, do qual sabia não pertencer.
Em casa, falava-se alemão; fora de casa, português. Em que isso poderia se relacionar à experiência da invisibilidade, senão pelo fato de que viver entre dois países talvez fosse o mesmo que não viver em nenhum?
V
Aprendi a ser sonso, fazendo tudo que desejava, mesmo as coisas mais reprováveis, de uma forma plácida e tranquila.
Certa feita, ainda criança, durante a recreação da escola, brincávamos de pique-esconde e me vi escondido em uma sala escura usada pra depósito. Uma das meninas, com as quais brincávamos, havia usado o mesmo local para se esconder, de maneira que ficamos de frente um para o outro e em silêncio. Ela era loirinha, assim como eu, e tão magrinha que um vento mais forte seria capaz de levantá-la. Aproximei-me e encostei-lhe o dedo nos lábios a fim de que fizesse silêncio. Ela compreendeu e sorriu baixinho. Estávamos agachados e nossos joelhos se roçavam naquela sala escura cheia de latas de leite em pó. Não haveriam nunca de achar-nos ali. Foi junto a essa certeza que fechei o punho e sem que ela suspeitasse, acertei-lhe um soco na boca. Imediatamente depois, saí do esconderijo e retornei à sala de aula porque naquele instante terminava o recreio.
Não fui recriminado nem pela agredida. Ficava tão quietinho na sala que eu tinha a impressão que desaparecia.
VI
Foi quando o sexo explodiu aos dezessete anos que descobri a literatura. E com ela, mais um acesso se franqueava.
Foi desse período o golpe de estado impetrado pelos militares, os primeiros beijos, a zona, a masturbação, a guerrilha... mas à nenhuma dessas atividades eu me integrara de fato. Vivia, nessa época, a experiência do desaparecimento e, muitas vezes, meus pais, com a idade já avançada, punham-se preocupados. Os primeiros escritos datam dessa época e mal podia suspeitar o que lhes estava reservado.
Meu pai morreu assassinado e minha mãe retornou à Alemanha quando ingressei no Serviço Público. Nunca conseguiram esquecer a origem, e para eles, a experiência do exílio terá sido a experiência mais amarga.
VII
O leitor, que já deve se encontrar impaciente dentro de um parêntese que nunca se fecha, não imagina a importância de ser funcionário público dentro da experiência do desaparecimento.
Eu agora era funcionário e tinha, diante do micro, vários números que deveriam ser digitados no menor espaço de tempo.
Nesse período, já tinha desenvolvido em alto grau a capacidade de desaparecer. E foi assim que certo dia, durante o expediente, um colega se referia à mim em conversa com um outro:
- Onde está o Edgard? (eu estava ao seu lado).
- Ele veio hoje?
- Eu tive a impressão de vê-lo mas não tenho a certeza.
- Eu não o vi. É possível que tenha ido fazer um lanche.
Algo acontecia de estranho e não foram raras as vezes que usei desse expediente para não me encaminharem determinado serviço ou então para fugir a alguma reclamação que acabavam esquecendo por fazer.
Quando Isabel me ligava, um ou outro funcionário esquecido, respondia pateticamente:
- Edgard? Não tem ninguém com esse nome.
VIII
Eu havia a conhecido num curso de francês e se chamava Isabel. Claro que nos apaixonamos perdidamente, muito embora eu me sentisse tão anestesiado naqueles tempos. Isabel foi quem me chamou a atenção para o fato de que eu escrevia com estilo. Mas não era a poesia em si que me despertava o interesse, e sim o que através dela eu era capaz de atingir.
Como nesses tempos eu morasse em Copacabana, assim como ela, e conseguisse gerar minha vida de forma independente financeiramente, não é difícil imaginar o leitor, que em tempos tão anticonvencionais como os meus e os dela, viéssemos a morar juntos, mesmo a tendo conhecido em tão pouco tempo.
Tipicamente carioca, Isabel era capaz de versar sobre os mais diferentes assuntos. Fazia parte do numeroso contingente de pessoas que devem tudo o que sabem às conversas intermináveis.
Mas nada disso eu havia enxergado ainda e nem ela havia manifestado outro desejo além de uma casa cheia de livros e um homem que fosse seu.
O mundo não nos interessava. Ainda a tenho diante dos olhos, remexendo os meus manuscritos, classificando-os segundo o grau de importância, sabendo muitos deles de cor. Depois listava as editoras, remetia-lhes o material e mantinha-me acesa a chama da esperança.
Morávamos a uma quadra da praia e quando Isabel trouxe suas coisas, como o espaço era exíguo, tivemos que arranjar lugar até no banheiro para colocar os livros.
Seu pai era desembargador e sua mãe professora. A família girava em torno dos sete filhos, dos quais, cinco eram já casados e com filhos. Se pensarmos nos tios e primos, cariocas de várias gerações, tem-se uma ideia do que representava Isabel e do quanto estava inserida no ambiente que a cercava.
As dificuldades começaram quando fui apresentado. Acho que Isabel compreendera, sobretudo porque, no começo, ela mesmo tivera o ímpeto de conhecer novos mundos e não via mal nenhum que eu desse as costas àquela legião de cariocas extrovertidos e ruidosos que faziam parte de sua família.
Mas chegara um dia que manifestou o desejo de almoçar com os pais. Era domingo e fazia tempo que não os visitava. Ainda que alguns irmãos telefonassem, ela havia se afastado deles e sentia saudades.
Ou porque eu tivesse outros planos, ou porque de uma certa forma todos soubessem que a longa ausência da filha era devido a minha presença, o fato é que Isabel foi só e pela primeira vez, desde que vivíamos juntos, manifestei o interesse de desaparecer.
IX
Digo isso porque fazia tempo que não me acontecia aquele estranho fenómeno.
Estava diante de um livro e percebi, quando não mais o tinha em mãos, que havia fechado a porta,, descido as escadas e, tendo ganho as ruas, já ia ao encontro de Isabel.
Fazia tempo que eu não me tornava invisível e era um momento de júbilo andar pelas ruas, como o fazia quando criança, sem que ninguém pudesse atinar com a minha presença. Qual não foi a minha surpresa, no entanto, ao chegar à casa dos pais e perceber Isabel diante dos seus.
Era uma outra Isabel. Se a invisibilidade havia me permitido, até então, extrair-lhe boas coisas, naquele momento eu fora capaz de perceber o que muito me custava crer.
As irmãs, em número de quatro, se reuniram no quarto após o almoço, e, como há muito não se viam, punham na ordem do dia todos os assuntos. Eu estava ali encostado à janela, de maneira que pude testemunhar o que diziam, do que riam e do que pensavam.
- Isabel, e o Edgard? Ele me parece tão introspectivo, tão diferente
de você. Ontem mesmo, comentava isso com a Nanda.
- A Nanda? Como ela vai?
- Bem, jogamos volei na praia.
- Ela tá gorda (comentou a outra irmã, entre risos). Há três dias
a vi no shopping e ela estava de barriga de fora. Eu fiz
até de conta que não a tinha visto
- Meu amor, você não pode falar muito, né?
- Mas eu nunca mostraria a barriga como ela.
- Você fez pior no aniversário do Carlos, Marisa. Além da barriga de
fora, você usou uma bota do exército (risos, muitos risos).
- Realmente, você não pode falar, Marisa.
- E o Carlos, hein?
- E Isabel !!!! Pra quem tá casada há tão pouco tempo !!!!! (risos,
muitos risos)
- Acho que aqui todo mundo já ficou com o Carlos.
- Acho que ele anda envolvido com a guerrilha. A Luisa me falou que
até em armas anda pegando.
- Na Faculdade, tem vários caras que a gente sabe que não são
estudantes. Eles só ficam de olho.
- Isabel, vamos um dia ao Beco das Garrafas? Faz tempo !!!
- E o sombra? (risos, muitos risos, não sendo difícil adivinhar que era a mim que elas se referiam).
X
Saíra atordoado daquele quarto e me vi ferido pela flecha do ciúme. Quanto à Isabel, ela nunca perdia as esperanças. Continuava catalogando os novos escritos, dessa vez de olho nos concursos literários. Ainda que eu não conseguisse nem menção honrosa, ela me inscrevia em vários concursos. Era um coração obstinado e às vezes eu me perguntava, com a imagem das irmãs reverberando na cabeça, se gostava realmente de mim.
Essa dúvida me fazia persegui-la, quando saía com a desculpa de que ia ao supermercado ou ao Banco. Muitas vezes, me vinha a imagem de um Carlos segurando uma metralhadora. Outras, me punha ao lado dela, a fim de flagrar em seu olhar algum indício de traição. E quanto mais a tinha em meus olhos, sem que ela soubesse, em função de minha invisibilidade, mais eu me certificava de que a Isabel com quem vivia era completamente diferente daquela que via na fila do Banco ou fazendo compras no supermercado. E cada vez mais eu ia me utilizando do artifício de ficar invisível, seja porque me era facultado os recursos, seja porque, levado pelo ciúmes, eu quisesse vê-la me traindo.
Foram muitos anos de dissimulação (nunca ela seria capaz de perceber um fiapo do que eu pudesse pensar). Naqueles tempos, eu havia já reunido uma grande quantidade de manuscritos que davam para preencher vários volumes. Enquanto Isabel se debruçava sobre eles, ela não poderia imaginar que eu a tinha sob estrita vigilância.
Certo dia, ao retornar do trabalho, já passavam das vinte e duas horas, não a encontrei em casa. Alguma coisa me fazia pensar no pior e de imediato me vi transportado à casa dos pais. Tudo me era pretexto para recorrer à invisibilidade, mas lá chegando, não encontrei sinal de Isabel. Os pais discutiam o fechamento do regime e o movimento de guerrilha no Brasil. Bebel, a filha mais nova, fazia parte do movimento estudantil e era para eles motivo de preocupação constante, pelo temperamento obstinado e corajoso. A mãe, professora de História, talvez fosse a mais tolerante e quem mais ponderasse numa família cujos membros possuíam sempre uma opinião. Tudo ali se discutia. Daí porque, quando entrei pela primeira vez no seio da família, tive a sensação de estar no meio de um vespeiro de abelhas assassinas.
Ao retornar, pensei no quanto Isabel, vindo de onde vinha, era livre e auto-suficiente. E também na razão que a fazia manter-se ao lado de quem lhe era tão diferente. Naquela noite tumultuada, pensei na morte de meu pai e na névoa que encobria minha família. Vi também no quanto eu me mantinha cada vez mais invisível, o que não deixava de ter o seu lado admirável e sobrenatural.
Talvez devesse dizer o que me vinha acontecendo à Isabel, mas aquele era um segredo fechado a sete chaves e, graças ao qual, eu me reconhecia.
Fui andando pelas ruas mais morto do que vivo. Era a minha maior predileção andar à esmo, talvez dando tempo até Isabel chegar em casa. A minha invisibilidade não me permitia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, quando muito, passar pelas pessoas sem ser visto.
XI
Ao chegar em casa, Isabel já se encontrava deitada. E antes que me reencarnasse, passei em revista a sua bolsa, assim como as suas roupas, de modo que pudesse encontrar alguma pista de onde tivesse estado. Como não encontrara nada que a recriminasse, deitei-me ao seu lado e peguei no sono. Quando já era de manhã, Isabel sentiu pela minha falta e ligou para os pais preocupada. Não havia nada que lhe justificasse minha ausência, e ao certificar-se que eu havia faltado ao trabalho, resolveu ao final do dia procurar a polícia. Foi então encaminhada para a Delegacia especializada em casos de desaparecimento, que lhe pediu aguardar mais dois dias. Nesse período, Isabel não recebeu nenhum comunicado e entre as diversas coisas que pensou, tais como sequestro, atropelamento, mal-súbito, amnésia, perseguição política, paixão fulminante... nenhuma delas fora capaz de suspeitar.
Chegou a ir, acompanhada de seu pai, ao Instituto Médico Legal para reconhecer um corpo e, das quatro vezes que fora chamada, em nenhuma delas me encontrou.
Na Divisão Anti-Sequestro, as investigações não avançavam muito, de modo que ao findar os seis primeiros meses, abateu-lhe um certo desânimo.
A vida continuava e talvez o único elo que a mantinha ligada a mim, eram as poesias.
XII
Eu não sabia justificar aquele estado de coisas. E, no entanto, eu estava ali, ao seu lado, à cada minuto. No início, tentei chamar-lhe a atenção. Me lembro, deitado ao seu lado, que me punha a morder-lhe o braço, e todo o esforço empreendido não a fazia mais do que coçar a superfície. Outras vezes, gritava como se lhe estivesse a mil léguas de distância. Mas nada que empreendesse, surtia o efeito desejado, e, com os anos, fui me acostumando àquele estado.
Com esse novo modo de vida, só me restava seguir Isabel, repeti-la em seus menores movimentos, a tal ponto, que me tornasse o seu duplo.
Quando ela, já esquecida de que um dia eu existira, e, entre as irmãs, punha-se a comentar a vida alheia, eu nem mais reagia como o fizera da primeira vez. De modo que, a cada minuto que passava, era natural que me sentisse cada vez mais distante.
XIII
Ainda assim, antes que eu possa fechar o parênteses e dar curso aos acontecimentos que estão por vir, e, ainda que esse parênteses tenha sido preenchido por vácuos e ausências, eu existo. Ou melhor, eu subsisto. Eu não morri. Um homem só pode receber a certidão de óbitos quando o seu corpo é identificado. Qual foi a minha causa-mortis? Meu pai, por exemplo, foi morto e enterrado no Brasil: reagiu a um suposto assalto e foi assassinado. Eu vi o seu corpo sendo enterrado no São João Batista (não há dúvida alguma quanto a esse fato). Minha mãe voltou à Alemanha e vive até hoje junto dos seus. Isabel, como há muito eu supunha, mostrou que é uma pessoa auto-suficiente e determinada, assim como todos de sua família. Nos anos que se seguiram, de maior abertura política, ela continuou o seu trabalho de dar corpo à obra que eu havia escrito na sombra e, ainda que não fosse capaz de escrever uma só linha, foi à campo, chamando a atenção de pessoas influentes do meio literário. A simpatia que irradiava, além dos olhos verdes que chamavam muito a atenção, talvez tenham sido decisivos para a boa aceitação do trabalho. Além do mais, ninguém como Isabel para convencer aos recalcitrantes que mantinham um pé à frente outro atrás diante do meu trabalho.
Acho que Isabel não se deu conta do que fez quando assinou os poemas e os pôs em mãos de um dos nossos poetas mais laureados. A partir de então nascia um nome nas letras nacionais. E não era sem tempo: quem, senão ela, acreditou mais naqueles manuscritos que eu vinha acumulando no curso dos anos e que tinham a função de me tornar cada vez mais invisível?
Nada mais justo do que eu perder agora sua autoria. E pensando bem, a partir dali, eu tinha a sensação de que o trabalho havia sido concluído (ninguém melhor do que o artista para sabê-lo).
O leitor irá perguntar meio atônito a que cargas dágua se deve tudo isto. Como grande parte do texto está entre parênteses, eu sugiro a nosso leitor que dê um desconto, quando muito porque o parêntese não é o mundo real, muito embora exista.
Agora sim podemos fechá-lo.
Isabel olha no espelho e dá os últimos retoques. Traja um vestido de organdi preto, cujo decote a faz mais insinuante. Os cabelos são escuros. A cor da pele, morena clara, denuncie talvez uma descendência árabe. Usa poucos acessórios e pouca maquiagem. Entreolha-se mais uma vez como se pudesse deparar com algum furo: algo que estivesse sorrateiramente disfarçado e, quando menos esperasse, viesse à tona, deixando-a em apuros.
O quarto é moderno e confortável: em cada detalhe, a marca do bom gosto. Se a moldura do espelho nos remete ao barroco, com sua superfície cheia de entalhes, a cama, larga e macia, nos faz lembrar que o conforto é uma exigência moderna.
Não seria impossível, após algum tempo de trégua, que Isabel encasquetasse com alguma coisa em sua indumentária: algo que só ela visse e que a fizesse desistir do que estivesse vestindo. Vários vestidos estendidos sobre a cama denunciavam isso. E o belo vestido de organdi preto, tornando-a mais irresistível do que nunca, talvez tivesse o mesmo fim dos demais, não fosse a campainha tocar, encerrando a torturante experiência.
Era ele. Há muito, Isabel aguardava por aquele momento, e não há dúvidas que ela está ansiosa. Ao invés de se dirigir à porta e abri-la, ela se olha mais uma vez, se entreolha de novo, e dá por encerrada a tortura. Em verdade, ela a interrompe. E de mal grado.
Quando abre a porta, Mark Trace, o editor da poderosa Argument Books, mal pôde disfarçar a admiração.
FIM
SKYLAB/2011
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES

Foi numa madrugada de final de ano, no meio do mato e sem internet, que me peguei assistindo a tv senado. Aonde que se chega em meio ao tédio, hein?
E eis que me deparo com nada menos e nada mais do que Maria da Conceição Tavares.
O senado fazia uma homenagem a essa portuguesa louca e extremamente inteligente. Professora emérita da UFRJ, ouvi-la respondendo as perguntas com sua expressão tragicômica, me fez pensar nos tristes economistas brasileiros com suas expressões aguadas, inodoras e tecnicistas: o velho jargão da economia, criado com o firme propósito de deixar o povo fora da jogada.
Perto de Maria da Conceição Tavares, eu só vejo Carlos Lessa, ainda que este tenha um estilo bem diferente.
Mas com essa portuguesa genial, a gente aprende que o estilo está acima da ciência, sem o prejuízo desta.
Não vou recapitular aqui todas as suas respostas, nem é a pretensão do post.
Mas o “chega pra lá” que ela deu na filósofa Marilena Chauí foi histórico. A avaliação desta sobre a vitória do Serra em regiões de predomínio da agro-indústria, foi considerada por Maria da Conceição Tavares como uma avaliação completamente equivocada, já que Serra venceu no Sul onde a agricultura familiar predomina. Segundo a portuguesa, Marilena Chauí devia se preocupar com Filosofia porque de Sociologia ela não entende nada.
Deu bronca num engenheiro que foi lembrar o plano Marshall (hoje a economia americana, diferentemente do pós-guerra, vai muito mal). E sublinhou a importância do governo Lula em três pontos: bolsa-família, recuperação do salário mínimo e aumento do emprego. Esse triângulo, segundo Maria da Conceição, diferenciou profundamente Lula de FHC. Segundo ela, desde o primeiro governo Vargas, nunca testemunhou uma redistribuição de renda como a que ocorreu com Lula.
Achei que ela viria a ser aproveitada no Ministério da Dilma.
Seu estilo vulcânico é diferencial.
Apesar dela apoiar Lula, seu único defeito, faltou à oposição esse estilo.
E um país sem oposição é um país triste.
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