quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ESQUENTANDO OS TAMBORINS



Vai rolar um show meu no Rio de Janeiro e isso é uma exceção na minha carreira.
Muito de vez em quando isso acontece e a tendência é ser um fato cada vez mais raro.
A iniciativa foi do Raoni, da produtora A Grande Roubada.
Ele resolveu juntar Marcelo Nova e eu no Teatro Odisséia - Rio de Janeiro, na quarta-feira de cinzas (dia 09/03)
Esses encontros são interessantes.
Maurício Valladares, meu guru, já me reuniu à Paralamas do Sucesso e Lobão. Aliás, busco freneticamente uma foto em que estou com o piru de fora. Isso rolou no antigo Balroom abrindo para o Paralamas. Eu cantava a música URUBU com o dito-cujo pra fora. Me lembro de um playboy, frente ao palco com a namorada, que virou de costas. As pessoas não sabiam se prestavam atenção à letra densa da música ou se olhavam meu piruzinho. Essa assimetria foi linda. As pessoas pareciam vesgas.
Outra noite memorável foi com o Ratos de Porão no Circo Voador. Aliás, a Maria Juçá podia me dar uma colher de chá: quem sabe nao lanço meu último disco lá. O show de lançamento do SKYLAB X, o derradeiro, em São Paulo, será em junho no Centro Cultural São Paulo. Falta definir aqui no Rio.
Mas enquanto isso, vamos esquentando os tamborins nessa quarta-feira de cinzas.
Claro, só vai rolar clássicos.
Quem quiser entrar em lista amiga, vê aqui: http://listaamiga.com/agrcinzas/2308-marcelo-nova-skylab
Nos vemos lá.
Beijinhos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

CANTO DA SEREIA

Quarta-feira – 09:20 hrs
Oi meu amor!
E então, tá feliz? Trepou muito?
Ah é tão bom viver uma aventura, né?
Ou será que vc se apaixonou?
Que pena que existe a culpa e o conflito, senão seria perfeito!
Mas se preocupa não! Eu acabo de te dar sua carta de alforria!
Ou vc acha que vou dormir com um homem que me trai de noite, enquanto durmo confiante ?
Não foi por falta de aviso. Finalmente a internet te deu o que voce procurava: um novo amor!
No início vem o medo, as incertezas...Mas é tão bom viver isso, né? Voce olha prá ela e ela é tão graciosa ! Compensa tudo!
Ah meu querido, vc caiu no canto da sereia...Era o que eu temia
Mas tá tudo bem, a vida segue...
Se preferir, eu posso enviar suas coisinhas
Um beijo!


Quarta-feira – 11:00 hrs
Na nova vida que vc tá escolhendo, não vai ter glicose alta, hipertensão, refluxo ...
A felicidade de um amor que começa, cura tudo isso.
E não adianta negar meu amor! Eu já sei de tudo.
A internet ainda é muito vulnerável e além de tudo as pessoas são tão distraídas!
Agora entendo a sua revolta com o comportamento da Ana, vc tava fazendo igual.
Mas ela teve a coragem de contar. Voce é um covarde, vai seguir negando...
Mas prá min tanto faz.
Ou voce acha que o nosso casamento ainda tem salvação? Só se for na sua cabeça enlouquecida
Se prepara para as mudanças porque elas já estão acontecendo e em tempo real!
E não me ligue porque não quero ouvir sua voz. Tô com nojo!


Quarta-feira – 12:06 hrs
Agora entendo seu choro e as repetições de ¨te amo tanto¨.
Entendo também os últimos acontecimentos, seu comportamento estranho, seu mau humor comigo, a dor que vc sentiu no estõmago( é , o conflito produz gastrite).
Enfim , compreendi tudo.
A verdade dói, mas a cegueira é pior.
E por favor não menospreze a minha inteligência nunca mais. Sou confiante, mas não sou idiota!
Eu sabia dos riscos que nosso casamento corria quando vc ficava as madrugadas na internet.
Mas apesar de tudo, confiava no seu amor por mim. Mas o que é um amor diante de uma paixão que surge?
A mulher da tua juventude mudou tanto, né?
Nada como uma carne nova!
Ah, a sua busca por eterna juventude! Como te preocupavam teus cabelos brancos...
Ela deve ser jovem. Sugue-a bem como um vampiro. Você vai se sentir com 20 anos! Que delícia.
Ah Rogério, vc foi tão previsível! Como todos os homens...
Agora vc pode dizer: Sou um homem comum! Não era isso que vc queria?
Esse foi o último email que te enviei. Fica tranquilo.


Quarta-feira – 14:03 hrs
Seu ridículo! Como vc engana desse jeito a mulher que passou uma vida com você?
Eu não te enganei! Tive a decencia de contar e me separar, seu medroso!
Pensa que pode ter tudo? Opta, seu covarde!
Encara a vida de frente, seu merda!
Mas pode deixar, que eu me encarrego de fazer isso por ti.
Ou vc pensa que tem volta?
Como vc pode imaginar que fica entre nós , agora que perdi a confiança?
E não mente mais, infeliz!
A nossa situação é sem volta! Vc me magoou demais!
Agora aproveite o outro lado, que é o que te resta. E ainda pode ser muito!
Não quero olhar prá essa sua cara de pau! Mentiroso, filha da puta!


Quarta-feira – 15:49 hrs
Tadinho! Passa os dias lendo num quratinho de hotel em São Paulo!
Trai como homem, porra!
Já que vai trair, mente direito!
E ainda me passa atestado de burra!
Ah Rogerio, como vc me menosprezou!
Como se eu não te conhecesse bem, meu amor...
Voce falando baixinho ontem no telefone prá que a dona da casa não ouvisse...
Voce é mesmo um cínico!
Decepcionada é pouco pro que sinto
Tenho nojo.


Quarta-feira – 16:21 hrs
Já sei que vc foi e ficou em São Paulo( capital) num hotel em Pinheiros chamado Golden Tower.
Ou seja, o caso já vem acontecendo há algum tempo.
Viu a armadilha que vc entrou?
Se apaixonou, não foi? Pensou que tinha o controle, mas nós sabemos o quanto esses joguinhos são perigosos.
O nosso casamento chegou ao fim.
E vc dizendo que preferiria morrer na minha frente prá não me ver morrer!
Como vc me enganou e se enganou! Eu sempre desconfiei de gente que diz muito fácil¨Eu te amo¨.Tô muito triste.
Acho que este é o dia mais triste da minha vida, mas eu vou ficar bem.
Sempre gostei da vida


Quarta-feira – 23:02 hrs
Não tenho mais dúvidas sobre a sua traição
Hoje me sinto uma mulher livre porque não tenho marido.
Vou viajar também, preciso conhecer novas pessoas, me distrair.
A vida continua. Depois decidimos o que fazer em relação a moradia e outras burocracias.
Passei um dia digerindo tudo isso, mas o que prevaleceu foi a sensação da mentira.
Não esperava isso de vc. Está sendo uma porrada


Quinta-feira – 16:21 hrs
E mesmo que não tivesse mulher nesse seu sumiço ( e tem), seu comportamento mostrou que está faltando tudo em relação a companheirismo, cumplicidade
e respeito a min.
Onde já se viu um homem casado sair por aí, sem dar satisfação á mulher de onde está, com quem, fazendo o quê.
Isso me parece comportamento de um solteiro.
Se já não me bastasse passar as noites sozinha enquanto vc fica na internet até de manhã.
Bem , tudo isso só me levou a pensar que nosso casamento acabou. E não foi de agora.
Esse episódio só mostrou o quanto vc é individualista e não tá nem aí prá mim. Não tem medo de me perder.
Então ,é porque já me perdeu dentro de voce.
Só nos resta fazer a separação de fato.
Tá me fazendo mal, estou ansiosa e tudo que quero é viver em paz.
Vc mudou muito desde que entrou de cabeça na internet.
Não quero mais viver com um homem que nunca dorme junto comigo.
A sua maior companhia hoje é o computador e os prazeres que ele te propcia.
Eu não sou nada prá voce.
Estou triste e me sinto muito só. Mas se é assim, assim será.


Quinta-feira – 17:19 hrs
Eu não faço mais parte da sua vida.
Vc tirou férias com seus amigos e não me incluiu.
Viu a que ponto chegamos? E ainda me disse que ia viajar porque eu tava te tratando mal...
Embromação. Tava tudo combinado desde Barretos.
Estou muito triste. Voce deixou de me amar. E me perdeu prá sempre...
Estou muito magoada agora que a ficha caiu.
Teve um momento de desconfiança, raiva, ciúmes, mas agora é só tristeza e um vazio enorme pela constatação do nosso fim( veja os emails pela órdem e vc vai compreender o processo)
Vc não responde porque deve estar num lugar muito legal, curtindo muito, não é?
Nem internet deve ter aí. Mas prá quê internet nesse momento se ela já te deu tudo isso?
Novos amigos, talvez uma paixãozinha.
Pois bem, fica com esse novo ganho.
Voce me perdeu, mas ganhou um mundo excitante, cheio de novos acontecimentos.
Porque vc me perdeu!
E eu já te perdi há muito tempo.
Adeus mon amour!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O VÔMITO DO SKYLAB

Henry James, em “Os Espólios de Poynton”, defende a idéia de que o espaço fica impregnado por quem o freqüenta.

Fui apresentado pelo meu amigo Eduardo Beu ao Le Petit Trou, um bistrô simpático, cujo dono é o grande Edgard Scandurra. Localizado no bairro de Pinheiros, o restaurante é especializado em comida francesa e tem um ambiente acolhedor. Espalhado em dois pavimentos, uma parte do segundo andar acolhe ainda um ambiente lounge, onde podemos ouvir músicas raras.

Mas a noite começou com um tinto seco italiano Montepulciano. Leve e de fragor rascante, acompanhou meu magret de pato grelhado e fatiado. Cheguei a desconfiar que fosse picanha - até a camadinha de gordura me lembrava o boi. Mas era pato.

Depois subimos e Eduardo Beu atacou de DJ. Até Jane e Herondy rolou. A idéia é justamente essa: músicas antigas, o brega que se tornou cult. A única observação a fazer é que esse “brega cult” se dilui se não for misturado com outros estilos. A piada acaba perdendo a graça.

Depois Scandurra, o aniversariante da noite, conseguiu dosar mais seu set, além de injetar música eletrônica, uma de suas especialidades. O resultado foi interessante porque causou mais surpresa. É importante também assinalar o prazer que Scandurra transmite discotecando. Definitivamente ser DJ é se comunicar. DJ muito concentrado não é DJ.

Poucas mulheres gostosas. Havia uma, bem na minha frente, muito desinibida. Só que eu tenho sempre a impressão que mulher muito desinibida é ruim de cama. Bobagem, né.

De repente, arrotei.

Explico: a cerveja belga descia suave e quando vi estava altinho. Aí veio o segundo arroto. O terceiro, o quarto... Corri pro banheiro. A essa altura eu já não estava segurando mais nada. Sentei no vaso sanitário e vomitei tudo no chão. Coisa de Mané. Privada existe pra gente vomitar dentro, não fora. Consegui vislumbrar então os pedacinhos de pato. Com o chão todo vomitado, saí do banheiro com um misto de vergonha e disfarce. Cheguei a sujar a calça e o sapato. Quem depois de mim entraria no banheiro?

Voltei à salinha mas não era mais o mesmo. Voltaram novos arrotos. Olhei pro banheiro e desta vez estava fechado. Então, desesperado, fui em busca de um novo lugar e encontrei um acolhedor: junto às mesinhas do segundo andar. Dessa vez, vomitei mais ainda. Um vômito grosso, caudaloso, que impregnou todo o Le Petit Trou.

Desci humilhado. A festa logo depois acabou. Fiquei pensando no trabalho que tiveram para limpar o vômito. Como o lugar é pequeno e fechado, o cheiro acabou impregnando o local.

Tudo aquilo se tornou muito simbólico pra mim. O Scandurra, o bistrô francês, as atendentes moderninhas... e o vômito do Skylab.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

BASTARDOZINHOS FELIZES

" pero yo, que, aunque paresco padre, soy padrasto de Don Quijote "
Cervantes


Sou fruto da minha mãe com meu padrasto.
A porra do meu padrastro fecundou minha mãe.
E eu nasci.
Até que um dia desconfiei de mamãe.
- ô mãe !!!! maiê !!!!!!
Havia uma coisa que não fechava.
Não era mãe, era madrasta.
Foi assim que a coisa passou a funcionar.
Não desconhecia meus pais:
eles existiam; me deram à luz;
eram meu padrasto e minha madrasta.
Eu sou padrasto,
Você, madrasta.
Deus é padrasto.
E a natureza, uma tremenda madrasta.
Assim caminha a humanidade.
Cheia de bastardozinhos felizes.

skylab/ fevereiro/ 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ABEL BARROS BAPTISTA



Essa história começa com Memórias Póstumas de Brás Cubas.
E se Harold Bloom pensa o que pensa de Shakespeare, eu penso o mesmo de Machado.
O método labiríntico de leitura, que tinha em Borges um dos seus mais fervorosos defensores, me levou até Abel Barros Baptista. Na verdade começou em Memórias Póstumas, depois atingiu as “Idéias fora do Lugar” de Roberto Schwarz, depois desembocou em “A Viagem de Brás Cubas na Lombada de um Livro de Ouro” de Sérgio Vicente Motta, depois retornou à Schwarz em “Complexo, Moderno, Nacional e Negativo” no seu livro de ensaios “Que Horas são?”, e por fim chegou em "Autobibliografias" de Abel Barros Baptista, de onde retiro o fragmento que consta no final deste post.

O método, portanto, é tortuoso. Vai e volta. Pára. Depois retorna. E não tem fim. Sem pouso. Errante. Nômade.
Resvala na música.
Volta pra literatura.
E não é nenhuma coisa nem outra. Antes é passagem, caminho que se percorre entre dois pontos, sujeito a desvios e tempestades.

O texto abaixo vem bem a propósito: antecede o lançamento do meu próximo disco, que arremata a série. E sugere algo que venho pensando há um bom tempo: a irresponsabilidade do autor diante de seu texto. Irresponsabilidade que não está eivada de aspectos morais. Bendita irresponsabilidade. O Rogério Tolomei até pode se arriscar em responder as perguntas que lhe fazem sobre determinada música dita de sua autoria. Mas sabe que está pisando em pântanos. Sabe que o sentido que ele dá a determinada música será sempre provisório. Ele não responde pelo Rogério Skylab. E esse, assim como o narrador de Memórias Póstumas, é um defunto-autor.


“A irresponsabilidade do romancista como responsabilidade de não-resposta decorre antes do mais de uma possibilidade inerente à escrita que o romance explora exemplarmente: desde logo, não existindo fora da escrita, não se transmitindo senão pela leitura, o romancista beneficia-se da possibilidade do texto escrito de se libertar da origem – de recusar a “assistência do pai”. Cumpre, todavia, ir além de uma noção vulgar de escrita, porque não se trata simplesmente da sobrevivência de cada romance além do contexto do seu aparecimento, nem, em particular, da sobrevivência do romance à intenção do romancista – não se trata, em suma, das consequências mais ou menos inevitáveis da contingência de uma transcrição ou da inevitabilidade da reprodução: trata-se de insistir na recusa da pressuposição comum à maioria das teorias do autor e da leitura, ao jornalismo literário e às diversas formas de censura e de repressão policial – ainda quando explicitamente a recusam -, a saber, que o autor pode ser ou deve ser chamado a responder pelo seu livro e que há um momento original em que ele poderia responder pelo livro. A recusa da “assistência do pai” é condição indispensável do aparecimento do romance em qualquer contexto: se a ficção dá ao romance a possibilidade de dizer tudo, a escrita altera todo o corpo de intenções, de regras, ou de convenções que pretenda apreendê-lo ou estabilizá-lo numa afirmação inequívoca, minando qualquer garantia de estabelecer o valor e o sentido do que nesse dizer se diz. Ironia, humor, ambigüidade ou ambivalência são as figuras que, de um modo ou de outro, vão dando conta dessa impossibilidade de fazer proceder a escrita antes do sentido. O romance é o “território do jogo e das hipóteses”, para reter a expressão de Kundera, porque nele toda a afirmação é ao mesmo tempo ela própria e a ficção dela própria, e nessa distância se instala o princípio de inatribuição que figura o romancista como um conjunto de qualidades sem homem e lhe define a responsabilidade específica que é um modo de responder pela afirmação da não-resposta diante da exigência de resposta” - pág. 184, “Autobibliografias”.