
Ninguém é cadáver porque quer.
E mesmo o desejo não é condição suficiente para sê-lo.
Requer-se mau cheiro e desnutrição.
Mas se fosse isso, mendigos e miseráveis o seriam. E não é o caso: mendigos e miseráveis, muitas vezes, são produtos de um sistema de exclusão. Outras vezes, nem isso: fazem parte do imenso contingente, vítimas de transtornos mentais. Mas são coisas vivas diante do nosso olhar estupefato. Eles existem. É a nossa culpa.
O cadáver não.
Somos indiferentes a essa classe de pessoas excêntricas.
Eles têm o dom da invisibilidade e vivem como pessoas comuns: tomam o trem, fazem supermercado, vão ao cinema. Não é fácil reconhecê-los porque o disfarce é o seu maior dom. Mas eles vivem ao nosso redor e dariam tudo pra abandonar essa condição que os tornam invisíveis.
Conheci um. Chamava-se Rogério Skylab.
Tive a sorte de conhecê-lo porque éramos amigos. Não fosse isso, passar-me-ia despercebido. Estudávamos juntos no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira e Rogério fazia parte de meu grupo de estudos. Explico: o colégio adotava os métodos pedagógicos tão em voga na época, e, ao invés de carteiras individuais, sentávamos em mesa, com capacidade para cinco pessoas. Dessa forma, a turma se dividia em grupos.
Rogério era quieto, pálido e muito magrinho. Participava pouco das aulas, o que interferia negativamente em seu boletim. Quando falava ao professor, era puro ato de desespero, e suas perguntas eram obvias e redundantes. Via-se, de sua parte, o descomunal esforço em sair de uma condição que lhe era própria, como um peixe que pulasse fora d’água.
Certa feita, perguntou algo à professora de inglês, e lembro-me de sua resposta:
- meu filho, você acaba de me perguntar o que acabei de falar com as mesmas palavras!
Nessas ocasiões, lhe fluía o sangue às faces. Com o tempo, essas reações foram diminuindo por uma questão de autodomínio. Mas pude testemunhar como ficava constrangido, o que me faz pensar que nessa época, ao menos, havia nele ainda algum sopro de vida.
A música lhe veio tarde. E nem isso foi suficiente para afugentar a sua sombra cadavérica. Ao menos terá servido para experimentar, diante da platéia atenta a seus movimentos no palco, a sensação de estar vivo. Mas essas ocasiões foram raras – fazia pouquíssimos shows e, à medida que o tempo passava, seu público diminuía a olhos vistos.
Hoje, dia 28 de abril, foi encontrado morto. A polícia suspeita de suicídio, mas ainda não chegou a nenhuma conclusão e o caso permanece em aberto. Não pude imaginar que viria a reencontrá-lo naquelas condições: a boca semiaberta, os dois olhos surpreendentemente abertos, e de cueca olhando para o teto. No chão, o Segundo Caderno do jornal O Globo trazia estampada a reportagem sobre a nova música brasileira.


