
O texto que reproduzo abaixo, ainda que esteja ligado a um contexto específico que antecede ao nazismo, ao mesmo tempo o transcende. É uma idéia de construção obsessiva, já que a esse indivíduo nada lhe é dado gratuitamente. É algo que remete ao Homem sem Talento e a todos aqueles que não foram agraciados pela sorte. Podemos também pensar no Homem sem herança. É também uma homenagem à Tom Zé.
Não sou insincero, Milena (embora tenho a impressão de que minha letra era antes mais aberta e mais clara, não é verdade?), sou tão sincero como o permite o “regulamento do cárcere”, e é muito; além do mais, o “regulamento do cárcere” torna-se cada vez mais estrito. Mas “cumpri-lo”, isso não posso; “cumpri-lo” é impossível. Possuo apenas uma qualidade que em essência não me diferencia muito de todos meus conhecidos, mas sim me diferencia quanto a grau. Afinal de contas, ambos conhecemos bastante exemplos característicos de judeu ocidental; eu sou, no meu entender, o mais ocidental de todos os judeus, quer dizer que (exagerando um pouco) não me é permitido um só segundo de calma, nada se me dá, tenho de ganhar para mim, não somente o presente como o futuro, porém também o passado, algo que contudo toda pessoa talvez traz consigo mesmo, mas também isso tenho de ganhar para mim; talvez seja essa a tarefa mais difícil, quando a terra gira para a direita – não sei se o faz – eu tenho que girar para a esquerda, para recuperar o passado. Mas a verdade é que não possuo o menor vigor para o cumprimento dessas obrigações, não posso levar o mundo sobre os meus ombros, mal posso levar o sobretudo. Essa falta de vigor, por outra parte, não é totalmente lamentável; que vigor se requeria para essas tarefas! Toda tentativa de consegui-lo com minhas próprias forças é uma loucura, e é premiado com a loucura. Por isso é impossível “cumprir”, como tu dizes. Apenas não posso percorrer o caminho que quero percorrer, e ainda mais, nem sequer posso desejar percorrê-lo, apenas posso ficar quieto; não posso desejar outra coisa, nem tampouco desejo outra coisa.
É mais ou menos como se alguém, antes de dar um simples passeio, não somente tivesse que se lavar, pentear-se, etc. – o que já é bastante cansativo -, porém além disso, já que constantemente lhe falta todo o necessário para dar o menor passeio, tivesse que costurar a própria roupa, fabricar os seus sapatos, manufaturar o chapéu, talhar para si o bastão, etc. Por certo, não pode fazer tudo isto bem, talvez lhe sirva para umas tantas ruas, mas, por exemplo, ao chegar à Graben se lhe desfaz tudo e fica pelado, entre farrapos e tiras. E a tortura de voltar crendo ao Altstädter Ring! E ao final se encontra certamente com uma multidão ocupada em perseguir judeus pela Eisengasse.
Procura compreender-me, Milena; não digo que esse homem esteja perdido, de modo algum, mas sim que está perdido se tem a lembrança de dar um passeio pelo Graben, para envergonhar-se a si mesmo e envergonhar o mundo.
Pág. 189 e 190.
Cartas a Milena
Tradução: Torrieri Guimarães
Editora Itatiaia Ltda

