sábado, 28 de maio de 2011

CARTAS A MILENA




O texto que reproduzo abaixo, ainda que esteja ligado a um contexto específico que antecede ao nazismo, ao mesmo tempo o transcende. É uma idéia de construção obsessiva, já que a esse indivíduo nada lhe é dado gratuitamente. É algo que remete ao Homem sem Talento e a todos aqueles que não foram agraciados pela sorte. Podemos também pensar no Homem sem herança. É também uma homenagem à Tom Zé.



Não sou insincero, Milena (embora tenho a impressão de que minha letra era antes mais aberta e mais clara, não é verdade?), sou tão sincero como o permite o “regulamento do cárcere”, e é muito; além do mais, o “regulamento do cárcere” torna-se cada vez mais estrito. Mas “cumpri-lo”, isso não posso; “cumpri-lo” é impossível. Possuo apenas uma qualidade que em essência não me diferencia muito de todos meus conhecidos, mas sim me diferencia quanto a grau. Afinal de contas, ambos conhecemos bastante exemplos característicos de judeu ocidental; eu sou, no meu entender, o mais ocidental de todos os judeus, quer dizer que (exagerando um pouco) não me é permitido um só segundo de calma, nada se me dá, tenho de ganhar para mim, não somente o presente como o futuro, porém também o passado, algo que contudo toda pessoa talvez traz consigo mesmo, mas também isso tenho de ganhar para mim; talvez seja essa a tarefa mais difícil, quando a terra gira para a direita – não sei se o faz – eu tenho que girar para a esquerda, para recuperar o passado. Mas a verdade é que não possuo o menor vigor para o cumprimento dessas obrigações, não posso levar o mundo sobre os meus ombros, mal posso levar o sobretudo. Essa falta de vigor, por outra parte, não é totalmente lamentável; que vigor se requeria para essas tarefas! Toda tentativa de consegui-lo com minhas próprias forças é uma loucura, e é premiado com a loucura. Por isso é impossível “cumprir”, como tu dizes. Apenas não posso percorrer o caminho que quero percorrer, e ainda mais, nem sequer posso desejar percorrê-lo, apenas posso ficar quieto; não posso desejar outra coisa, nem tampouco desejo outra coisa.

É mais ou menos como se alguém, antes de dar um simples passeio, não somente tivesse que se lavar, pentear-se, etc. – o que já é bastante cansativo -, porém além disso, já que constantemente lhe falta todo o necessário para dar o menor passeio, tivesse que costurar a própria roupa, fabricar os seus sapatos, manufaturar o chapéu, talhar para si o bastão, etc. Por certo, não pode fazer tudo isto bem, talvez lhe sirva para umas tantas ruas, mas, por exemplo, ao chegar à Graben se lhe desfaz tudo e fica pelado, entre farrapos e tiras. E a tortura de voltar crendo ao Altstädter Ring! E ao final se encontra certamente com uma multidão ocupada em perseguir judeus pela Eisengasse.


Procura compreender-me, Milena; não digo que esse homem esteja perdido, de modo algum, mas sim que está perdido se tem a lembrança de dar um passeio pelo Graben, para envergonhar-se a si mesmo e envergonhar o mundo.


Pág. 189 e 190.
Cartas a Milena
Tradução: Torrieri Guimarães
Editora Itatiaia Ltda

quarta-feira, 25 de maio de 2011

SOBRE O NOVO SITE

Dentro do lançamento do novo disco, SKYLAB X, o site www.rogerioskylab.com.br vem com nova cara, como tem sido uma constante a cada Skylab. Desta vez, algumas novidades. É o caso da rádio, com uma seleção de músicas que será renovada periodicamente. Nesta seleção, privilegiei todos os discos, mas inseri algumas novidades que são sobras de gravação. É o caso das músicas “Herbert Vianna” e “Tarde de Sol no Rio de Janeiro”, gravadas no antigo Balroom, e também, “Elegante, Decadente”, essa, gravada durante um ensaio. Tem também “Revolution 9”, versão livre que cometi contra o clássico dos Beatles e está presente no disco em comemoração aos 40 anos do Álbum Branco.

Outra novidade é o meu canal do youtube – www.youtube.com/rolab100 , onde tento reunir os vídeos mais interessantes sobre o SKYLAB e se mantinham espalhados pela rede. Dentro em breve, será inserido no canal o novo clipe que tem estréia marcada na MTV para o dia 31 de maio, dentro do programa NA BRASA.

A janela ANIMAÇÃO é uma das que mais curto, ainda que contenha apenas três filmes. Quem quiser contribuir, à vontade.

Mas a idéia do site foi sempre servir como uma central, contendo todo material referente ao SKYLAB. Todas as letras estão lá, todos os discos também (inclusive continuam sendo vendidos, com exceção de alguns que permanecem esgotados). Mas a idéia é comercializar uma caixa, contendo todos os discos da série. Não sei se estarei vivo para ver esse dia.

Outra novidade é o release que eu mesmo assinei, onde tento resumir esses 15 anos de carreira.

Ao webdesigner, Flávio Lazzarino, minhas congratulações.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

METAMORFOSE

Segurei um pedaço de pau,
cujas veias pulsavam em minha mão.
Eu podia senti-lo.
Todas as minhas forças concentravam-se no gesto.
Nenhum pensamento era capaz de distrair-me.
Eu tinha-o entre os dedos
e minha vida resumia-se
naquele pequeno momento.
Segurava-o com pressão
e imagino as marcas que lhe imprimia à superfície.
Se não me fugisse a razão,
poderia desconfiar do futuro.
Porque o pau aumentava
e já me era difícil contê-lo.
Mas não arrefeci os ânimos.
Era o que me restava:
gesto-síntese do que fui,
mantinha-me firme
com as forças já extenuadas.

Sua tática era de guerrilha.
Me testava a cada investida.
E ria quando ia pra frente,
depois pra trás,
em zigue-zague, de banda.
E parava.
E recomeçava,
pra frente, pra trás, em zigue-zague,
de banda.

À certa altura, um líquido viscoso
escorreu-me da mão.
Eu já tinha posto a esperança de lado,
quando percebi a metamorfose.
Voltava a ser o que era antes
- um pedaço de pau.
Apenas um signo, um sinal,
numa folha rabiscada,
sobre a qual um poeta,
sem eira nem beira,
se mantinha firme, lúcido,
apesar das dívidas que se acumulavam,
sem que ele as pudesse saldar.


skylab/maio 2011

sábado, 14 de maio de 2011

IMPOSSÍVEL

O DJ é surdo.
O poeta, mudo.
O fotógrafo, cego.
A bailarina, manca.

Esse é o meu mundo.
Meus dentes trituram pedras
e soltam faísca.
Tudo é raso
e sem saída.
E nada vale a pena
senão o impossível.

A não ser que você
abra um buraco
com suas garras desgarradas
e sem dentes.

E provoque um ar de consternação
diante da assembléia,
que te tolera por pena.

E deixa você dizer tolices
como quem releva.

Em momento algum você desiste.
É tua pulsão, mais que arte.

Você sabe que não vai dar em nada
e continua.
O buraco já te cabe todo dentro,
a não ser o rabo,
que permanece à mostra.

E você continua escavando,
escavando,
com suas garras desgarradas
e sem dentes.

Você não pára um minuto.
É incansável.
Chega a provocar risinhos.

No meio da platéia consternada,
há quem suspire: “coitado”!
Teu rabo desapareceu.
Agora ninguém mais te vê.

E você continua,
longe dos olhares curiosos.
Lembra o ofício dos mineiros.

Escava porque não sabe fazer outra coisa.
Escava como quem respira.
Com suas garras desgarradas
E sem dentes.

E porque nada vale a pena
senão o impossível.


skylab/maio 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A FICÇÃO AUTOBIOGRÁFICA EM MACHADO DE ASSIS



Para os formalistas russos, a linguagem poética distingue-se da linguagem cotidiana em razão da ausência de finalidade prática e, principalmente, em razão do princípio de construção.

Dois monstros da literatura, contemporâneos entre si, Henry James e Machado de Assis, vão representar formas antagônicas de narração.

O americano, investindo na verossimilhança, estará imbuído dos propósitos de representação do real – para tanto, o enunciador permanece obscurecido, cabendo ao leitor o centro de consciência do personagem; ao invés de se interpretar os acontecimentos, estes se dão a ver através das palavras, sob o influxo das ações e percepções dos personagens. É a representação dramática dos acontecimentos que vão dar a “ilusão de vida”. A questão, então, não estará centrada no narrador – os acontecimentos não são narrados, são mostrados. A relação é direta entre autor e personagens, aquele transferindo a sua impressão de realidade para estes.

A questão complica quando aparece o narrador. Porque aí não estamos mais falando do autor com seu projeto estético ou sua intencionalidade, e nem estamos falando dos personagens ou protagonistas. Dom Casmurro não é Machado de Assis, nem Bentinho; o defunto Brás Cubas não é quem o encarnou em vida, nem Machado; Ayres, por sua vez, se duplica no narrador e protagonista.

Sob esse aspecto, Machado complica Henry James. E ao invés de obscurecer o narrador para criar a ilusão de vida, faz justamente o contrário: amplia o narrador para pôr em destaque o caráter artificial do romance, e dessa forma sublinhar o seu princípio de construção.

Acompanhar a trajetória de Memórias Póstumas, Dom Casmurro e Memorial de Ayres, é visualizar os componentes técnico-narrativos que Machado domina e estão presentes nas três narrativas; mas é sobretudo visualizar a variação desses componentes até chegar ao ponto máximo da práxis poética, quando a ficção se torna mais verdadeira que o próprio real. Nesse sentido, haveria uma evolução nessa trajetória.


II

Em Memórias Póstumas existe sobretudo a consciência, lucidez máxima de quem tem o sentido total da vida porque já morto. Evidentemente, a narração de um defunto é inverossímil, há aí o recurso extremo da ficcionalidade. De qualquer maneira, contesta-se a autobiografia romanesca, como gênero, porque seu agente ainda estaria sob a mutabilidade do existir, e, dessa forma, incapaz de atingir a verdade definitiva; e contesta-se também as relações humanas enquanto teatralidade e fraude (haveria uma divergência entre ação e motivação) – daí a ambivalência dos enunciados, sobretudo irônicos, o que vai exigir do leitor o deciframento.

No caso de Dom Casmurro, a interpretação é problematizada porque seu narrador vive. Os fatos são condicionados pela apreensão subjetiva do eu. Não existe nenhum recurso ficcional que faça o narrador apreender a verdade. Ela existe mas é inacessível. Resta-lhe, então, convencer o leitor. O recurso à Otelo de Shakespeare, serve como hipotexto que sofrerá o processo de deformação: o drama clássico oferece o embate entre verdade e aparência; a sua reforma dramática, processada por Dom Casmurro, informa-nos que a impossibilidade de alcançar a verdade sob a aparência, acontece quando aquela se reduz à interpretação.

Aqui a ambivalência não emerge através da ironia entre os enunciados, mas entre estes e o sentido: entre a diegese (história) e as observações metatextuais, existe um abismo a provocar a ambigüidade no discurso. Há um ataque à simulação pela simulação. A imagem que o narrador oferece de Capitu redimensiona a imagem do sujeito que a retrata, e enfraquece a identificação entre leitor e narrador. A adesão entre ambos é mesclada de perplexidade por parte do leitor.

Em Memorial de Ayres, finalmente, não existe mais verdade ou realidade. A repetição simétrica dos acontecimentos, como se dá num diário, vai integrar o múltiplo e o descontínuo, próprio à ficção. Daí a transitividade entre real e ficcional: ao invés de denunciar a teatralidade das relações, como ocorre nas duas narrativas anteriores, questiona-se mesmo é a veracidade do real.

A recorrência à Shelley (“I can give not what men call love”) mostra a semelhança entre o refrão/paralelismo das cantigas medievais e a intenção formal e semântica das epígrafes. É que junto ao enredo visível, existe a artificialidade poética: assim como a paixão feminina é artificial, pois transita nas convenções da lírica medieval, os próprios sentimentos no Memorial são tão falsos quanto, em razão de suas convenções.

A recorrência à Tristão e Isolda não é outra coisa: suspende-se a distinção entre verdadeiro e falso. No caso da lenda bretã, por se radicar nos limites do fictício.


III


Da contestação à afirmação da impostura da literatura e seu caráter poético, em substituição ao antigo modelo da mímesis, é como se dá a ver o processo de Memórias Póstumas à Memorial de Ayres.

A ambigüidade em Memorial já não é fruto da ironia ou da impostura. São seus erros de interpretação que levam o narrador a ser um enfabulador, alimentando o auto-engano. A verdade se torna plástica e mutável porque a análise se une às ilusões da aparência e às quimeras do sujeito.

Mas as opções técnicas são reiteradas de uma narrativa a outra: a pluridimensionalidade do tempo da narrativa; a relativização da onisciência; a presença de interlocutores textuais; a vinculação a outros textos, incorporando-os ao âmbito de sua realização...
A questão está é na exploração transfiguradora dos mesmos procedimentos, para atender a intencionalidade de cada um dos textos. Elaboração paradoxal, cuja repetição é alteração. E essa é, ao que tudo indica, a principal característica da “práxis poética”, a que Machado se filia: centrar-se no texto e nele vislumbrar novas possibilidades de organização discursiva.

(esse texto é baseado no livro “O Circuito das Memórias em Machado de Assis”, de Juracy Assmann Saraiva, e procuro enfatizar a Focalização Narrativa).

sexta-feira, 6 de maio de 2011

FERREIRA GULLAR MORREU E NÃO SABE




Parafraseando uma banda querida que mora no meu coração.

Eu, por exemplo, sei que estou morto.
Morri pela primeira vez no dia 09 de março de 2008, esse blog é testemunha.
E morri pela segunda vez, há poucos dias atrás (espero que seja a última, morrer dá muito trabalho).
Daí porque quando estiver gravando o Programa do Jô no dia 06 de junho, não vão pensar vocês que sou eu.
Aliás, venho afirmando há algum tempo: eu não tenho nada a ver com isso. Sou um simples cidadão aposentado, fruindo alguns dias de paz.
Já o Rogério Skylab... morreu.
Quando ele estiver fazendo show nos dias 11 e 12 de junho no Centro Cultural São Paulo, lançando seu disco póstumo, SKYLAB X, não será o próprio, e sim sua sombra.
O mesmo ocorrendo no dia 16 de junho no Teatro Odisséia, Rio de Janeiro.

A questão, portanto, não é morrer, todos morrem um dia.
O problema é não saber que está morto.
E essa é a diferença entre mim e Ferreira Gullar.
Se bem que há uma outra diferença também: Ferreira Gullar quando estreou com seu livro “Um pouco acima do chão”, em 1949, já nasceu morto. A “Luta Corporal” só veio confirmar minhas suspeitas. Em “Poema Sujo”, voltou à superfície como zumbi: um fenômeno mais habitual do que supomos.

Hoje, no Globo, na coluna “Gente Boa” do Joaquim Ferreira dos Santos, destaco essa pérola que o cadáver pronunciou na Casa do Saber (moradia das almas penadas e múmias paralíticas):

“Vik Muniz é exemplo de como se pode ser moderno sem usar recursos do passado e fazer uma coisa bonita e interessante. O impacto dele é a beleza, e não ser repugnante ou constrangedor”.