I
O que Deleuze e Guattari tinham em mente, e que serve de fundo para a análise original que empreendem de Kafka, é o que poderíamos chamar de “agenciamento” ou “processo”. E, nesse sentido, vão na contramão de toda uma fortuna crítica que identificava o escritor como apolítico e ligado a angústia e ao trágico. Desejo e enunciação, um mesmo agenciamento que se apresenta como “agenciamento maquínico do desejo” e “agenciamento coletivo de enunciação”, correspondendo respectivamente ao cômico e ao político em Kafka, é o que Deleuze e Guattari vão apontar como sua marca específica.
II
O agenciamento é anterior ao mundo da representação. Campo da imanência por excelência, é um continuum de intensidades onde rola os fluxos de desterritorialização. A idéia de processo vem justo daí. Leibniz tem uma grande importância e provavelmente seja uma fonte dessa perspectiva, porque o que está em jogo é a contigüidade. Ao invés de saltos monumentais ou revoluções que rompam o encadeamento de segmentos, estamos dentro de uma sobriedade, que faz correr uma linha reta, antecipando e precipitando suas segmentações. O prognóstico em Kafka tem a ver com a aceleração do relógio.
III
O movimento que Kafka desposa, seria o real e virtual, sem ser atual. E estaria sob os auspícios do prazer, porque o campo de imanência é do desejo propriamente dito, enquanto plenitude, exercício e funcionamento. Em outras palavras, o desejo não vem da carência, daí porque não é desejo de poder. O desejo é poder. Enquanto tal, faz parte de seu funcionamento formar máquina, assim como desmontá-la para formar outras. À esse agenciamento maquínico, corresponde um certo agenciamento de enunciação, uma forma de expressão para todo enunciado. O curioso é que essa última, assim como faz parte de determinado agenciamento maquínico, pode também modificá-lo, daí sua relevância em relação à técnica. Ainda assim, é um único e mesmo desejo. É nesse sentido que a política, enquanto regimes de enunciado, tem relações com o cômico, enquanto desejo por cima das leis, dos Estados e dos Regimes. Desejo e política não se opõem, são vasos comunicantes que a interpretação neurótica sempre quis obstar.
IV
O desejo é polívoco. Um único e mesmo desejo sob várias formas. Assim é pensada a Justiça. Daí a importância do corredor judiciário (adjacências), onde vão ocorrer os murmúrios de bastidores, enquanto micro-acontecimentos. Para uma máquina abstrata, no entanto, a Justiça não é encarada como desejo, mas como lei transcendente. Aqui, o tribunal é mais importante que o corredor, em razão da própria posição hierárquica que representa; a alternância dos pólos (lei/desejo), oposição dos fluxos e sucessão dos períodos, vão definir as cartas e as novelas kafkanianas – há sempre um contra-golpe da lei, reagindo às cartas, ou, uma redipinização das suas novelas animalistas. Daí porque o campo da Transcendência é tão bem expresso pela figura do círculo e pela idéia de infinito.
V
Nos romances kafkanianos é que se darão os agenciamentos. Mas cabe aqui não cair na tentação de um jogo de oposição entre romances por um lado, e, cartas e novelas por outro. Porque, sobretudo, não podemos esquecer que “O Processo” era escrito simultaneamente à novelas como “A Metamorfose”, o que nos dá muito mais a idéia de uma saída do que um jogo de oposição. A saída pouco tem a ver com o que entendemos por liberdade. Esta se filia à extensão, é um deslocamento inútil no espaço, portanto, ligado ao movimento e à ação. Já a saída tem a ver com a linha de fuga, e, enquanto tal, é reversível, o que vai corroborar a idéia da simultaneidade da escrita do romance e da novela. Ao invés do deslocamento no espaço, a busca de saídas, numa linha de fuga ilimitada, pode ser obtida num mesmo lugar porque aqui o que está em jogo são limiares de intensidade. Não estamos mais no campo duplo da subjetividade, com o sujeito de enunciação e o sujeito do enunciado. A questão se liga aqui à metamorfose e ao devenir.
VI
O que gerou o termo “por uma literatura menor” foi justamente o seu uso intensivo. E será no capítulo 3 que Deleuze e Guattari vão desenvolver melhor essa questão.
O uso do alemão em Praga, pelos judeus, é o exemplo do que uma minoria política faz em uma língua maior. A desterritorialização é em relação à língua alemã e em relação à língua tcheca. Há, portanto, um forte coeficiente de desterritorialização como característica da literatura judaica em Praga.
A segunda característica dessa literatura menor é que o caso individual fará fronteira com a política. Ao contrário da fantasia edipiana que aglomera casos análogos, o individual tem a ver com o econômico, o comercial, o burocrático e o jurídico.
A terceira característica da literatura menor é seu valor coletivo: não se está nem preso ao personagem (sujeito do enunciado enquanto herói), e nem se está preso ao narrador (sujeito de enunciação, fonte da idéia de talento ou mestre). Contra essa enunciação individuada do sujeito, a enunciação coletiva, com o campo político contaminando todo o enunciado.
Portanto, na literatura menor, o individual não incide no sujeito. Há que se compreender esse individual na própria solidão de Kafka (ele encontra seu próprio ponto de sub-desenvolvimento, seu próprio terceiro mundo e seu próprio deserto, no seio da literatura grande e estabelecida).
VII
A desterritorialização pode levar à dois caminhos excludentes, e me parece, nesse ponto, que chegamos a uma perspectiva de literatura bem particular. Assim diz o texto de Deleuze e Guattari:
“ Ambos (Joyce e Beckett), irlandeses, encontram-se nas condições geniais de uma literatura menor. É a glória de uma tal literatura ser menor, isto é, revolucionária para toda literatura. Uso do inglês e toda língua em Joyce. Uso do inglês e francês em Beckett. No entanto, um não deixa de proceder por exuberância e sobredeterminação, e opera todas as reterritorializações mundiais. O outro procede através da secura e sobriedade, de pobreza voluntária, levando a desterritorialização até o ponto em que não subsistam mais do que intensidades” (pág. 30)
A Escola de Praga é o exemplo do que foi uma forma de desterritorialização: a língua alemã em Praga é enriquecida com artificialismos, propiciando um uso simbólico, através de exuberância e sobredeterminação. O simbolismo, o onírico e o sentido esotérico, características dessa corrente, sofrerão em seguida um processo de reterritorialização via arquétipo, cabala e alquimia. É a reterritorialização espiritual substituindo o “pai” e recaindo novamento no Édipo.
A outra forma de desterritorialização é a que vai mais longe, chegando às intensidades por força da sobriedade. É a língua empobrecida, vinda a exercer-se nela um uso intensivo, ao invés de simbólico. Ao invés do Sentido presidir a atribuição da designação dos sons (designação de uma coisa segundo um sentido próprio), ou, presidir a atribuição de imagens e metáforas (sentido figurado), ocorre a neutralização ativa do sentido e a matéria viva torna-se expressiva, falando por si mesma. Enuncia-se primeiro, concebe-se depois. O som passa a ser mais importante que a música. A inflexão de um cantor, em si mesma despida de sentido, vai apresentar ou esconder seus objetos de paixão. O acento do “i” no nome próprio “Milena” vai evocar paisagens. Ao invés do uso ordinário da linguagem, o uso intensivo assignificante.
Com isso, conjunções, exclamações e advérbios vão ocupar um espaço de importância na literatura menor, assim como palavras passe-partout, tais como “giben”, que pode significar “por”, “colocar”, “assentar”, “tirar”..., tornando-se um verbo intensivo. O intensivo é um instrumento lingüístico que tende para o limite de sua noção ou que o ultrapassa. É o caso de “sêr” (doloroso) que serve de noção para “sehr” (muito). Entretanto, esse último deslastra da noção e só retém seu valor limite, intensivo.
Um bom exemplo é o iídiche, que na literatura kafkaniana só se pode compreendê-lo, sentindo-o com o coração, como o próprio Kafka afirma. Essa língua servirá como uso intensivo do alemão, e, portanto, na literatura de Kafka será completamente diferente de seu uso oral e popular. Talvez a melhor idéia de literatura menor seja mesmo a de estar em sua própria língua como estrangeiro. E nesse caso, o léxico pouco conta. A sóbria invenção sintática foi o maior legado de Kafka.
VIII
A grande questão envolvendo a crítica, seja ela conformista ou burocrática, é que ela se insere dentro do mundo da representação. O seu foco é a figura do desejo, o mundo das imagens. Por outro lado, é regida por uma lei paranóica, que a faz presa a uma máquina transcendente. Daí porque a crítica é sempre retardatária em relação ao movimento da história. A eficácia em Kafka é que o agenciamento maquínico e coletivo, que lhe proporciona a desmontagem, assim como o “tornar-se animal”, que lhe proporciona as linhas de fuga, fazem com que sua literatura se liberte do mundo da representação. Em Kafka, o que está em jogo nunca é a interpretação, mas o relato enquanto experimentação.