domingo, 28 de agosto de 2011

ESSÊNCIA TRICOLOR


RICARDO GOMES

UMA ESTÓRIA MIXADA

Primeiro, você prende as pernas com um laço forte - isso é importante porque ela fica se debatendo. Em seguida, com uma das mãos sobre a cabeça, estica o pescoço dela. É importante que você tenha o joelho apoiado sobre o seu corpo, de maneira que a impeça de ficar batendo as asas. Feito isso, com a outra mão, você faz o talho - é bom que você tenha uma faca própria pra isso, de aço inoxidável. O corte no pescoço tem que ser feito com precisão: não adianta ficar dando vários cortes superficiais. Basta um único e incisivo. Imediatamente, o sangue vai espirrar. Você não pode esquecer a vasilha. À medida que o sangue vai jorrando, ela vai perdendo as forças: os olhos ficam embaçados como se estivesse dopada; o cacarejo vai ficando mais grave, mais lento; as pernas têm contração - são os espasmos diante da morte. Se for galinha de roça, consegue-se recolher até um litro de sangue. Se você acompanhar detalhadamente as etapas da operação, vai perceber o momento exato de sua morte. Nesse momento, cessam todos os movimentos. Recolhendo o sangue, passamos para a segunda etapa, não sem antes desvencilharmo-nos do resíduo do pescoço que insistia em ligar a cabeça ao corpo - a cabeça não terá serventia, segundo nossos usos e costumes.

Em seguida, mergulharemos o corpo da ave numa bacia de água fervente. Iremos depenar o frango com as próprias mãos. O calor da água ajuda nesse processo. Em poucos minutos, estará toda depenada e pronta para a terceira etapa: a retirada das vísceras.

Nesse momento, fazemos um outro corte na parte superior do corpo, de modo que, por esse orifício, possamos retirar as tripas, as vísceras (todas elas comestíveis) e quiçá alguma ova. É importante frisar o valor proteico das ovas. Em relação às vísceras, pode-se conseguir um excelente patê de fígado, moelas fritas com cebola e arroz, e, coraçãozinho como entrada.

A quarta e última etapa é o cozimento do frango. Se adotarmos o prato clássico, frango cozido, teremos que temperá-lo antes e deixá-lo algum tempo no molho. Mas, caso adotemos o Frango ao Molho Pardo, tentação das tentações, teremos que despedaçá-lo em suas devidas partes, a fim de que sejam cozidas junto ao sangue.

Neste momento, olhei de soslaio e pude reparar a expressão de esgar da menina. Permanecia muda e extremamente chocada com o que a mãe lhe dizia. Não era difícil adivinhar o seu complicado relacionamento com a cozinha. Toda a tradição, que sua mãe teimava em transmitir-lhe, estava a perigo.

Mas no meu lado direito, uma outra cena se desenvolvia. Estávamos todos no banco traseiro do ônibus, de modo que, espremido entre os dois casais, eu ouvia simultaneamente as duas conversas.

II

Ele pediu-me que sentasse na cadeira, que logo, logo, começaríamos. Sugeri a extração, mas ele rebateu de pronto a ideia. Segundo suas palavras, a extração é quando foram esgotadas todas as possibilidades de reabilitação: a extração é a morte.

A atendente prendeu-me, em torno ao pescoço, um guardanapo de papel, enquanto ele vedava seu próprio rosto com a máscara. Em seguida, acendeu a lâmpada e pediu-me que abrisse a boca. Com o espelhinho, localizou o dente, constatou o que pressentia e perguntou-me se queria anestesia. Tive a infeliz idéia de dizer não. Entre a agulha entrando na gengiva e apenas o motorzinho no dente, prefiro a segunda opção. A idéia de injeção sempre me foi insuportável. O cirurgião então ligou o motor e, como uma britadeira no asfalto, pôs-se a abrir paulatinamente a obturação do dente cariado. Resisti bravamente com as duas mãos apertadas nos braços da cadeira. À medida que a broca ia penetrando as partes mais profundas, uma dorzinha fina, afiada, aflorava. Dor de nervo. Dor que tortura porque não é extensiva: por exemplo, a dor de uma porrada nos córneos. Neste caso, toda a área, circunvizinha à porrada, sofre as consequências do trauma. No caso de uma obturação, não. A dor se aprofunda num determinado ponto, vai até os ossos. Dor de agulha que penetra fundo. Não se trata mais de uma superfície traumatizada com o choque.

A questão está quando a antiga obturação foi toda removida, restando ao dentista, debruçado sobre a boca aberta do paciente, perfurar a parte cariada (acho curiosa sua argumentação, porque obturar um dente em verdade é eliminá-lo - ao invés de fazê-lo de uma só vez, faz-se aos poucos). Quando então a broca penetra a região em que está localizada a cárie, as lágrimas brotam, as estrelas nascem, o suor inunda a palma das mãos. Estamos no clímax. Você geme baixinho, suportando como um herói. Só que, nesses momentos, ao invés do inimigo bater em retirada diante de tamanha resignação, ele persiste, ele penetra mais fundo em regiões abissais e não te resta outra opção senão gritar, quando não seguramos o braço do torturador.

Então se dá uma trégua. Pára-se tudo. Desliga-se o motor. O paciente respira. É que ele se valeu de um expediente que não constava na cláusula do contrato. Há um constrangimento no ar. O dentista fala: tá quase acabando.

Então, tudo recomeça. É a política da terra arrasada. A gengiva sangra, você fica grogue e a luz incide direto na tua cara. De repente, quando todas as tuas expectativas de pôr-se um fim àquele triste espetáculo, tinham desaparecidas... eis que ele desliga o motor, te dá as costas e volta com uma pastinha na ponta da espátula. São os sinais do fim. Você levanta da cadeira humilhado, com um gosto amargo na boca. Sai trôpego pelas ruas, quase é atropelado. E tudo continua como se nada tivesse acontecido.

III

Essas duas narrativas reverberavam ao mesmo tempo. Uma se imiscuía na outra. Em verdade, tentei decompô-las, eliminei os diálogos. Passo apenas uma transcrição do que foi cada uma. Porque simultâneo a elas, havia o ronco do motor, as freiadas, a paisagem na janela. Eu vinha de uma longa experiência como DJ. Ali, entre os casais e suas respectivas narrativas, fui construindo uma outra, absolutamente inusitada. E ainda assim, advinda de ambas. Há muito que percebo isso: todas as minhas estórias são construídas de restos. Tudo vem se tornando para mim, uma questão de equalização, mixagem e masterização. De tal modo que, já nem sei mais o que é ou não real. Percebo que sou tudo que ouço. Essa estória mesmo, que vou lhes contar agora, nasceu tão espontaneamente que custo a crer que tenha sido apenas uma junção das duas. Quero crer que sim.

FIM

skylab/jan/2010

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

MEDIOCRIDADE

Matheus Nachtergale, Wagner Moura, Lázaro Ramos e Selton Melo, talvez sejam os que mais se destacam nessa nova geração de atores brasileiros. Transitam pelo teatro, televisão e cinema com naturalidade. Fazem humor e tragédia. Se arriscam como diretores e produtores de filmes. Chegam a produzir e atuar no teatro clássico, vide Wagner Moura em Hamlet. São versáteis, modernos, e fazem das tripas coração pra deixarem seus nomes na história.

De boa intenção o inferno tá cheio. E em termos de cultura, não basta o esforço individual. Há que se considerar uma conjunção de fatores, dentre os quais, o individual é apenas uma dentre outras variáveis.

E ainda que os dois baianos tenham tido uma passagem pelo teatro de Salvador, a televisão foi o húmus dos quatro. Todos eles fazem parte de uma geração crescida e alimentada pela TV Globo. E por mais que façam questão de desbravar novos caminhos, guardam as marcas de sua origem comum.

A forma naturalista de atuar é o karma dos quatro. Construíram um belo patrimônio sob os auspícios das novelas, mas vivem o vácuo de uma geração sem grandeza. Atuaram, produziram e dirigiram filmes medíocres, como peças de uma engrenagem fadada a viver da publicidade. E com isso, abriram mão do experimentalismo da linguagem.

Não são culpados, são mais produtos de uma época. Mas talvez lhes tenha faltado a grandeza individual de dizer NÃO. Essa grandeza que Helena Ignez teve de sobra e que a faz, juntamente com Odete Lara, Norma Benguel e Maria Gladys, personagens de uma história grandiosa.

OBS: queria um filme com esse título e que traduzisse em imagens essas palavras. De preferência, dirigido por Lars Von Trier.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

UMA BUTCH

Eu quero uma butch
(esse ponto de intersecção,
ponto de interrogação,
ponto e vírgula).

Escrevo uma butch
em cujo colo me perca.
Uma butch que arrote e peide.

Uma butch que xingue,
tripudie
e me abrace de noite
em posição de conchinha.

Uma butch, cuja pérola
me dê cosquinha.

Uma butch que me obrigue
a dizer “nós duas”,
ao invés de “nós dois”.

Butch louca e cheia de caprichos,
com pêlos nas axilas e na virília
(pêlo grosso, pêlo bom).

Uma butch fria e calculista,
em cuja presença nem saiba mais quem sou,
nem quem fui.

Uma butch que venha a conhecer na night
e me traga à tona
minha alma sensível e delicada.

Uma butch de verdade,
sem meias palavras.
Que às vezes me traia
e outras vezes me bata.

skylab
agosto/2011

domingo, 21 de agosto de 2011

MAURICE BLANCHOT



Maurice Blanchot, o solitário pensador, que denuncia os danos à Filosofia quando esta se mescla ao ensino, vai se basear na forma do espaço inter-relacional, para justificar a exigência da procura como princípio de sabedoria, assim como a exigência de descontinuidade no pensamento.

Da mesma forma que a palavra é um produto da violência ou da desigualdade, em razão de uma dessimetria nas relações de comunicação, a relação entre mestre e discípulo introduz a curvatura e a irregularidade – está excluída toda relação direta e mesmo a reversibilidade das relações (a distância do mestre para o aluno não será a mesma do aluno para o mestre).

Com isso, torna-se absurda a forma como a filosofia, ligada ao ensino, vai se desenvolver: exposição contínua. Esse foi o grande dano que o filósofo-professor impetrou à Filosofia. Porque em razão do espaço inter-relacional, a filosofia teria que tomar a forma de uma procura, justificando assim não só a distância infinita entre mestre e discípulo, como a relação de infinidade entre as coisas. Eis que o filósofo-professor efetua o achatamento da filosofia. É a Filosofia como instituição e ensino, por exemplo a “Suma” de São Tomás de Aquino. Filosofia escolástica em contraposição à Descartes por exemplo, cujo pensamento está ligado à existência: o “método” é o modo de comportar-se e de avançar de uma pessoa que procura.

A linguagem linear de desenvolvimento simples, típica de quem ensina e fala, faz do desconhecido ou um objeto, conjunto das coisas que ainda não são conhecidas (ciência), ou um sujeito (professor), a pessoa do mestre como valor de exemplo. Mas essa linguagem deixa de ser linear quando o desconhecido é indeterminado: nem sujeito, nem objeto, mas o “outro”, com o qual eu efetuo uma relação exorbitante e assimétrica.

A relação que o filósofo-professor impõe aos alunos, portanto, é de predominância ou subordinação (filosofia do sujeito). Contra a qual, a dialética se insurge, acusando de idealismo que acaba por gerar a relação espúria entre professor, instituição e estado. Continuidade segundo a qual Blanchot acusa de ideológica e que nada tem a ver com o Real.

Contra essa relação de predominância ou subordinação, a dialética acena na direção de uma mutualidade recíproca entre os termos, o que inclui momentaneamente uma descontinuidade (o resultado é o contínuo e para chegar até ele há um processo de mediação). De qualquer maneira, essa relação de igualdade entre os termos é hipócrita
(em qualquer situação, ou você é juiz ou você é julgado).

A diferença entre o desconhecido e o familiar é maior que a diferença entre os opostos, chegando mesmo a ser uma diferença infinita. Porque entre eu e o “outro” não existe uma mutualidade recíproca, nem a predominância de um dos termos. É a relação de infinidade entre eles que predomina, o que faz trazer à tona o descontínuo e a diferença.

Nem dialética, nem ontologia. E nem mesmo o entendimento heideggeriano, para o qual a questão da visibilidade/invisibilidade adquire uma real importância. Daí porque a relação entre dois termos será sempre expressa pela escrita: “falar não é ver”.

II

Toda a questão do Ser, à qual a ontologia se remete, está ligada ao campo de visão. A sua esperança está em poder ver o Ser, o ideal – nesse sentido, tem uma relação direta com o imediato. Um outro tipo de esperança é de um futuro sem morte, isto é, a esperança de revelar o sentido, a idéia e o universal (ver o post – “A História Viva do Tropicalismo”, no qual abordo a crítica de Tom Zé à Caetano Veloso: “não se morre mais” - http://godardcity.blogspot.com/2007/11/histria-viva-do-tropicalismo.html#links ). Para tanto, ao invés de se recusar a morte, trabalha-se para transformá-la. Nomeia e transforma o que nomeia numa outra coisa. É o trabalho do conceito propriamente dito. Interioriza-se a morte, reduzindo-a ao trabalho do negativo e introduzindo no pensamento a negação. A morte transforma-se no Poder de Pensar. Estamos aqui no reino do possível, ligado à Potência e ao Poder: somos apenas a partir das possibilidades que somos, e a morte apenas realiza um poder. Essa é a grande recusa da morte: fazê-la expressão de meu poder.

Mas haveria então um outro tipo de esperança, a da singularidade imediata, não mais o conceito e não mais o Ser. A expectativa de termos a presença inapreensível daquilo que é. Presença impossível porque foge das raias do poder. É o imediato inteiramente próximo, e que por não estar presente, não conseguimos lhe fugir: nunca se fixa num presente, não se refere à nenhum passado, e não vai a nenhum futuro. E, no entanto, é incessante (perpetuidade instável). Daí porque morrer é engajar-se no presente infinito da morte impossível de morrer.

Nessa presença estranha da qual temos esperança, desejo que permanecerá pra sempre desejo, existe a intimidade da instância e a dispersão do Exterior. O que faz da presença, impossível, é o fato de sua relação com o Exterior, que é essa vertigem do espaçamento, que fragmenta tudo. Portanto, ao contrário do Ser Transcendente, a que a ontologia se remete, temos aqui uma outra experiência. Em verdade, o ser vela na possibilidade e nela encontra sua negação. E se o Possível afirma o Ser, nomeando-o (negando-o), o Impossível é neutro e, portanto, nem o afirma, nem o nega, antes o precede. Cabe então à Poesia esse duplo caminho, entre o Possível e o Impossível: nomear o possível, trazendo-o à luz, exprimindo-o; e afirmar a espera e o desejo do Impossível, sem exprimi-lo (sua forma de responder ao Impossível). Nesse sentido é que vislumbramos a diferença entre linguagem conceitual e Poesia, essa última enquanto expressão e desejo.

III

Emanuel Levinas, em seu livro “Totalidade e Infinito, ensaio sobre a Exterioridade”, vai sublinhar o caráter Ético na relação com o outro. Diferentemente do que se dá numa relação de poder, a presença imediata do outro em sua absoluta fragilidade, como rosto, leva-nos ao preceito ético do “não matarás”. Daí porque a filosofia primeira não seria a Ontologia e sim a Ética: ela antecede à compreensão, ao êxtase e à verdade. Estamos na Escatologia Profética – poder de julgamento capaz de arrancar os Homens da jurisdição da História, a qual sempre teve como fundamento a dialética (os termos que se opõem, tornam-se os mesmos ao final do confronto). A minha obrigação em relação a outrem vem, ao contrário, de nossa profunda diferença, jamais equalizada. Em “As Leis da Hospitalidade”, Derrida investe fundo nesse caráter ético contraposto à História. Essa relação impossível entre eu e o outro é que vai caracterizar o desejo metafísico, que permanece sem satisfação, o que o afasta da pura necessidade e do desejo amoroso, mas também sem nostalgia e sem retorno, permanecendo, de igual maneira, afastado do amor platônico, que é sempre um desejo nostálgico da unidade que foi perdida (movimento de retorno ao Ser Verdadeiro). Em relação ao Eros Platônico, as canções de amor, segundo Nick Cave, estariam dentro desse retorno nostálgico – ver meu post The Love Song: http://godardcity.blogspot.com/2010/01/love-song-nick-cave.html#links

A relação impossível mantém-se, portanto, afastado da relação de poder e da relação transcendente. É uma relação sem relação, diante da qual eu não posso falar (socorrer minha palavra, responder por ela – nesse sentido, ver o post que escrevi sobre Abel Barros Baptista, que diz respeito à irresponsabilidade do artista perante sua obra- (http://godardcity.blogspot.com/2011/02/abel-barros-baptista.html#links), assim como eu também não posso nomear, falar desse outro como Deus. Mas eu posso responder a ele, repetindo-o, na forma da palavra escrita, desviante e sempre nova. E é aí que a linguagem presta assistência a si mesma, nunca dizendo o que diz, mas sempre mais e sempre menos.

Esse “outro” não é nem ego nem objeto, nem sujeito nem verdade, mas o neutro que se dá na linguagem. Daí porque a linguagem não pode expressá-lo: ele é o espaço e tempo da própria linguagem, e, enquanto tal, se refere ao Homem como outro do Homem.

Portanto, nem impessoalidade, nem subjetividade, nem História, nem sobre-existência do êxtase. Ele é a contradição de uma relação sem termos e um termo sem relação (relação da não relação). Contradição que não se soluciona e que melhor expressa a distância irredutível de dois interlocutores. Uma interrupção que mina por dentro a unidade, em prol da diferença, e se faz palavra escrita. Ao contrário desta, a palavra-conversa usa a interrupção para o processo de compreensão, visando sempre a relação de unidade. Como a interrupção, no primeiro sentido, é interna, a fala intermitente, como devir, fala apenas para interromper-se, propiciando assim a palavra plural.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

O LIVRO "DEBAIXO DAS RODAS DE UM AUTOMÓVEL"



Algumas pessoas vieram me perguntar onde podem achar o livro DEBAIXO DAS RODAS DE UM AUTOMÓVEL, que lancei em 2006 pela Editora Rocco.
Existe a opção de comprar através da editora.
Você pode também encomendar o livro através da livraria.
Ou então comprá-lo através de meu site (R$ 35,00, JÁ INCLUÍDO O FRETE):
http://www.rogerioskylab.com.br/rogerio_skylab_discografia_comprar_livro.html#comprar

Aí vai um poema do livro:

PURO ENIGMA

(a Walter Franco)

Como foi que aprendestes
a caminhar a esmo?
Um flâneur na hora do rush.
Um eremita na cidade grande.

Que método esse de compor
numa cidade bombardeada,
quando todos os seus habitantes
já se puseram em fuga?

Ler Ulysses num campo de batalha.
Decifra-me esse teu estilo
de contrastes, puro enigma.

Com o cano de um revólver
encostado à cabeça,
a espinha ereta e o coração tranquilo.


"Debaixo das Rodas de um Automóvel" pag. 67

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

APONTAMENTOS PARA UMA LITERATURA MENOR



I

O que Deleuze e Guattari tinham em mente, e que serve de fundo para a análise original que empreendem de Kafka, é o que poderíamos chamar de “agenciamento” ou “processo”. E, nesse sentido, vão na contramão de toda uma fortuna crítica que identificava o escritor como apolítico e ligado a angústia e ao trágico. Desejo e enunciação, um mesmo agenciamento que se apresenta como “agenciamento maquínico do desejo” e “agenciamento coletivo de enunciação”, correspondendo respectivamente ao cômico e ao político em Kafka, é o que Deleuze e Guattari vão apontar como sua marca específica.

II

O agenciamento é anterior ao mundo da representação. Campo da imanência por excelência, é um continuum de intensidades onde rola os fluxos de desterritorialização. A idéia de processo vem justo daí. Leibniz tem uma grande importância e provavelmente seja uma fonte dessa perspectiva, porque o que está em jogo é a contigüidade. Ao invés de saltos monumentais ou revoluções que rompam o encadeamento de segmentos, estamos dentro de uma sobriedade, que faz correr uma linha reta, antecipando e precipitando suas segmentações. O prognóstico em Kafka tem a ver com a aceleração do relógio.

III

O movimento que Kafka desposa, seria o real e virtual, sem ser atual. E estaria sob os auspícios do prazer, porque o campo de imanência é do desejo propriamente dito, enquanto plenitude, exercício e funcionamento. Em outras palavras, o desejo não vem da carência, daí porque não é desejo de poder. O desejo é poder. Enquanto tal, faz parte de seu funcionamento formar máquina, assim como desmontá-la para formar outras. À esse agenciamento maquínico, corresponde um certo agenciamento de enunciação, uma forma de expressão para todo enunciado. O curioso é que essa última, assim como faz parte de determinado agenciamento maquínico, pode também modificá-lo, daí sua relevância em relação à técnica. Ainda assim, é um único e mesmo desejo. É nesse sentido que a política, enquanto regimes de enunciado, tem relações com o cômico, enquanto desejo por cima das leis, dos Estados e dos Regimes. Desejo e política não se opõem, são vasos comunicantes que a interpretação neurótica sempre quis obstar.

IV

O desejo é polívoco. Um único e mesmo desejo sob várias formas. Assim é pensada a Justiça. Daí a importância do corredor judiciário (adjacências), onde vão ocorrer os murmúrios de bastidores, enquanto micro-acontecimentos. Para uma máquina abstrata, no entanto, a Justiça não é encarada como desejo, mas como lei transcendente. Aqui, o tribunal é mais importante que o corredor, em razão da própria posição hierárquica que representa; a alternância dos pólos (lei/desejo), oposição dos fluxos e sucessão dos períodos, vão definir as cartas e as novelas kafkanianas – há sempre um contra-golpe da lei, reagindo às cartas, ou, uma redipinização das suas novelas animalistas. Daí porque o campo da Transcendência é tão bem expresso pela figura do círculo e pela idéia de infinito.

V

Nos romances kafkanianos é que se darão os agenciamentos. Mas cabe aqui não cair na tentação de um jogo de oposição entre romances por um lado, e, cartas e novelas por outro. Porque, sobretudo, não podemos esquecer que “O Processo” era escrito simultaneamente à novelas como “A Metamorfose”, o que nos dá muito mais a idéia de uma saída do que um jogo de oposição. A saída pouco tem a ver com o que entendemos por liberdade. Esta se filia à extensão, é um deslocamento inútil no espaço, portanto, ligado ao movimento e à ação. Já a saída tem a ver com a linha de fuga, e, enquanto tal, é reversível, o que vai corroborar a idéia da simultaneidade da escrita do romance e da novela. Ao invés do deslocamento no espaço, a busca de saídas, numa linha de fuga ilimitada, pode ser obtida num mesmo lugar porque aqui o que está em jogo são limiares de intensidade. Não estamos mais no campo duplo da subjetividade, com o sujeito de enunciação e o sujeito do enunciado. A questão se liga aqui à metamorfose e ao devenir.

VI

O que gerou o termo “por uma literatura menor” foi justamente o seu uso intensivo. E será no capítulo 3 que Deleuze e Guattari vão desenvolver melhor essa questão.

O uso do alemão em Praga, pelos judeus, é o exemplo do que uma minoria política faz em uma língua maior. A desterritorialização é em relação à língua alemã e em relação à língua tcheca. Há, portanto, um forte coeficiente de desterritorialização como característica da literatura judaica em Praga.

A segunda característica dessa literatura menor é que o caso individual fará fronteira com a política. Ao contrário da fantasia edipiana que aglomera casos análogos, o individual tem a ver com o econômico, o comercial, o burocrático e o jurídico.

A terceira característica da literatura menor é seu valor coletivo: não se está nem preso ao personagem (sujeito do enunciado enquanto herói), e nem se está preso ao narrador (sujeito de enunciação, fonte da idéia de talento ou mestre). Contra essa enunciação individuada do sujeito, a enunciação coletiva, com o campo político contaminando todo o enunciado.

Portanto, na literatura menor, o individual não incide no sujeito. Há que se compreender esse individual na própria solidão de Kafka (ele encontra seu próprio ponto de sub-desenvolvimento, seu próprio terceiro mundo e seu próprio deserto, no seio da literatura grande e estabelecida).

VII

A desterritorialização pode levar à dois caminhos excludentes, e me parece, nesse ponto, que chegamos a uma perspectiva de literatura bem particular. Assim diz o texto de Deleuze e Guattari:

“ Ambos (Joyce e Beckett), irlandeses, encontram-se nas condições geniais de uma literatura menor. É a glória de uma tal literatura ser menor, isto é, revolucionária para toda literatura. Uso do inglês e toda língua em Joyce. Uso do inglês e francês em Beckett. No entanto, um não deixa de proceder por exuberância e sobredeterminação, e opera todas as reterritorializações mundiais. O outro procede através da secura e sobriedade, de pobreza voluntária, levando a desterritorialização até o ponto em que não subsistam mais do que intensidades” (pág. 30)

A Escola de Praga é o exemplo do que foi uma forma de desterritorialização: a língua alemã em Praga é enriquecida com artificialismos, propiciando um uso simbólico, através de exuberância e sobredeterminação. O simbolismo, o onírico e o sentido esotérico, características dessa corrente, sofrerão em seguida um processo de reterritorialização via arquétipo, cabala e alquimia. É a reterritorialização espiritual substituindo o “pai” e recaindo novamento no Édipo.

A outra forma de desterritorialização é a que vai mais longe, chegando às intensidades por força da sobriedade. É a língua empobrecida, vinda a exercer-se nela um uso intensivo, ao invés de simbólico. Ao invés do Sentido presidir a atribuição da designação dos sons (designação de uma coisa segundo um sentido próprio), ou, presidir a atribuição de imagens e metáforas (sentido figurado), ocorre a neutralização ativa do sentido e a matéria viva torna-se expressiva, falando por si mesma. Enuncia-se primeiro, concebe-se depois. O som passa a ser mais importante que a música. A inflexão de um cantor, em si mesma despida de sentido, vai apresentar ou esconder seus objetos de paixão. O acento do “i” no nome próprio “Milena” vai evocar paisagens. Ao invés do uso ordinário da linguagem, o uso intensivo assignificante.

Com isso, conjunções, exclamações e advérbios vão ocupar um espaço de importância na literatura menor, assim como palavras passe-partout, tais como “giben”, que pode significar “por”, “colocar”, “assentar”, “tirar”..., tornando-se um verbo intensivo. O intensivo é um instrumento lingüístico que tende para o limite de sua noção ou que o ultrapassa. É o caso de “sêr” (doloroso) que serve de noção para “sehr” (muito). Entretanto, esse último deslastra da noção e só retém seu valor limite, intensivo.

Um bom exemplo é o iídiche, que na literatura kafkaniana só se pode compreendê-lo, sentindo-o com o coração, como o próprio Kafka afirma. Essa língua servirá como uso intensivo do alemão, e, portanto, na literatura de Kafka será completamente diferente de seu uso oral e popular. Talvez a melhor idéia de literatura menor seja mesmo a de estar em sua própria língua como estrangeiro. E nesse caso, o léxico pouco conta. A sóbria invenção sintática foi o maior legado de Kafka.

VIII

A grande questão envolvendo a crítica, seja ela conformista ou burocrática, é que ela se insere dentro do mundo da representação. O seu foco é a figura do desejo, o mundo das imagens. Por outro lado, é regida por uma lei paranóica, que a faz presa a uma máquina transcendente. Daí porque a crítica é sempre retardatária em relação ao movimento da história. A eficácia em Kafka é que o agenciamento maquínico e coletivo, que lhe proporciona a desmontagem, assim como o “tornar-se animal”, que lhe proporciona as linhas de fuga, fazem com que sua literatura se liberte do mundo da representação. Em Kafka, o que está em jogo nunca é a interpretação, mas o relato enquanto experimentação.

sábado, 6 de agosto de 2011

CASO "FRED"



A verdade tarda mas não falha.
Espero que este seja o meu último post sobre um cara que não merece nenhuma linha.
No jogo contra o Internacional não jogou para poder ser negociado com um outro time brasileiro.
O resto é conversa pra boi dormir.
Perseguição de torcedores é conto da carochinha.
Foi uma grande promessa e não passou disso.
Viveu às voltas com o departamento médico.
No último jogo do Conca, eu escrevi esse post:
http://godardcity.blogspot.com/2011/06/vai-pra-china.html#links
Não honrou a camisa que vestiu.
É a antítese de Conca.
Sua convocação pra seleção foi jogada política.
Já os franceses, certamente não o teriam liberado se não soubessem que era um blefe.
O Santos deveria contratá-lo.
Muricy e ele se merecem.