Comigo acontece o seguinte: se uma pessoa que eu não gosto, ou várias delas, vão a um lugar ver alguma coisa, mesmo que eu não vá, tenho a sensação de que não gostei. Assim aconteceu com Tropa de Elite e Cidade de Deus: não vi e não gostei.
Ontem foi a noite do cego. Todo mundo queria ver o cego. Você perguntava a um global e a resposta era automática: o cego. Havia uma unanimidade boçal em relação ao “Tirésias” do Michigan. Não que eu desgoste. Mas foi justo na hora dele entrar que me conectei ao bate-papo sacanagem. E fiquei até de manhãzinha.
Cheguei a ver duas atrações antes : KE$HA e JAMIRIQUAI. Lamentável. A primeira, disputa o prêmio de pior atração do festival com Claudia Leite; quanto ao inglês com penacho na cabeça, sem comentários (está longe da sua primeira vez no Brasil; gostei mais do aquecimento dele antes de entrar no palco – pontos para o Multishow).
Pra terminar, essa tal de Joss Stone é linda, uma voz legal, mas tem que comer muito feijão com arroz pra chegar perto da Amy Winehouse.
Em tempo: esse negócio de cantar Legião com Pitty dá nojo; já a expressão de coitadinho do Marcelo Jeneci, me dá vontade de dar uns “tapa”.
O negócio é o seguinte: to a finzão de enfiar o pé na jaca.
Vá se fudê todo mundo !!!!!
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
2- BOLETIM ROCK IN RIO
Ontem, domingo, foi o dia do Metal.
Metaleiros e evangélicos são muito parecidos.
Mas visto por outro ângulo, são muito diferentes: o metal não precisa de mídia pra se promover.
Já a música “classe média” é a que mais depende da imprensa. Basta pensarmos em Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Cidadão Instigado e Marcelo Jeneci (todos escalados por um tal de Zé Ricardo; alguém já me falou que esse indivíduo é cantor de soul; quem confirma?)
O Metal tá fora disso. Tem autonomia. Nunca vai morrer.
A Imprensa falou muito ontem em Motörhead, Sepultura e Metálica.
Falou também em Mike Patton (o único que me tiraria do aconchego do lar; estou devendo um longo texto sobre esse cara; acredito mesmo que o encontro dos Mutantes com Tom Zé e o show do Mike Patton serão, no final das contas, as únicas coisas relevantes desse festival).
No mais, ontem, domingo, foi o dia mais importante: mostrou a força do Metal e do quanto a nossa Imprensa se mantém afastada da realidade. Ao menos o Rock in Rio teve essa finalidade: serviu para revelar a defasagem.
Em tempo: as máscaras do Slipknot (banda que pouco foi citada pelos nossos queridos jornalistas) são a alegoria mais exata do Metal. E vale citar também o Korzus com seu thrash metal: estarem no Rock in Rio é um merecimento a sua longa trajetória.
Metaleiros e evangélicos são muito parecidos.
Mas visto por outro ângulo, são muito diferentes: o metal não precisa de mídia pra se promover.
Já a música “classe média” é a que mais depende da imprensa. Basta pensarmos em Karina Buhr, Tulipa Ruiz, Cidadão Instigado e Marcelo Jeneci (todos escalados por um tal de Zé Ricardo; alguém já me falou que esse indivíduo é cantor de soul; quem confirma?)
O Metal tá fora disso. Tem autonomia. Nunca vai morrer.
A Imprensa falou muito ontem em Motörhead, Sepultura e Metálica.
Falou também em Mike Patton (o único que me tiraria do aconchego do lar; estou devendo um longo texto sobre esse cara; acredito mesmo que o encontro dos Mutantes com Tom Zé e o show do Mike Patton serão, no final das contas, as únicas coisas relevantes desse festival).
No mais, ontem, domingo, foi o dia mais importante: mostrou a força do Metal e do quanto a nossa Imprensa se mantém afastada da realidade. Ao menos o Rock in Rio teve essa finalidade: serviu para revelar a defasagem.
Em tempo: as máscaras do Slipknot (banda que pouco foi citada pelos nossos queridos jornalistas) são a alegoria mais exata do Metal. E vale citar também o Korzus com seu thrash metal: estarem no Rock in Rio é um merecimento a sua longa trajetória.
domingo, 25 de setembro de 2011
1- BOLETIM ROCK IN RIO
- Por que você não tocou no Rock in Rio?
- Porque não fui convidado.
- E se você fosse convidado, iria?
- Se rolasse dindim, sim. Não tenho preconceito. Com dindim eu vou até no Programa do Raul Gil. Com dindim vale até o inferno.
- E se não rolasse dindim?
- Aí eu olharia fundo nos olhos do Roberto Medina, e diria assim: Seu Roberto Medina, vai tomar no olho do seu cu !!!
- E o Zé Ricardo?
- Zé, quem?
- Zé Ricardo.
- Quem é esse cara?
Em tempo: Red Hot não é a banda dos meus sonhos, mas devo admitir que é autêntica. Principalmente quando dançam.
- Porque não fui convidado.
- E se você fosse convidado, iria?
- Se rolasse dindim, sim. Não tenho preconceito. Com dindim eu vou até no Programa do Raul Gil. Com dindim vale até o inferno.
- E se não rolasse dindim?
- Aí eu olharia fundo nos olhos do Roberto Medina, e diria assim: Seu Roberto Medina, vai tomar no olho do seu cu !!!
- E o Zé Ricardo?
- Zé, quem?
- Zé Ricardo.
- Quem é esse cara?
Em tempo: Red Hot não é a banda dos meus sonhos, mas devo admitir que é autêntica. Principalmente quando dançam.
sábado, 24 de setembro de 2011
STANLEY CAVELL

Stanley Cavell traz à tona Wittgensten e Emerson no livro “Esta América Nova, Ainda Inabordável”, através de duas palestras: a primeira, “Declinando no Declínio”, que trata das “Investigações Filosóficas” de Wittgenstein; e a segunda, abordando a “Experiência” em Emerson.
Antes que possamos fazer, via Cavell, a conexão entre Wittgenstein e Emerson, vamos delinear os pontos capitais de cada uma das palestras.
“Declinando no Declínio” sublinha a filosofia da cultura em Wittgenstein e sua forma particular de se contrapor ao ceticismo. Ao invés de negá-lo, tal como o fizeram Bertrand Russel e Ernest Gellner, especificando critérios para determinar uma "forma de vida", e, consequentemente, lutando por uma mudança de rumo da cultura, o que justificaria a idéia de revolução ou reforma, Wittgenstein afirma a "forma de vida" como condição para uso de critérios (aquela é anterior a estes e, enquanto tal, é biológica e não convencionalista).
A forma anterior de negação não supera o ceticismo, que não crê em critérios e, segundo o qual, esses seriam convencionais e arbitrários. A sua superação, que, segundo Cavell, Wittgenstein efetua, se sustenta em dois pontos: o sentido de "ordinário" e "formas de vida".
O primeiro sentido tem a ver com a linguagem de todo dia, forma de circulação, comunicação, troca. Ao invés da linguagem coloquial, com os ditames da socialidade e, portanto, arbitrárias, a linguagem cotidiana tem sua conexão com o "lar". Ao invés de desconfiança na linguagem, a confiança na fala humana comum. Essa, segundo Cavell, seria a perspectiva por trás das "Investigações Filosóficas", muito mais do que no "Tratadus" - aqui, a linguagem cotidiana não é um meio do pensar filosófico, o que poderia gerar problemas filosóficos em razão de uma má interpretação de nossas formas de linguagem.
A ilusão seria causada por nós e não por algo inerente à linguagem. O antídoto contra o ceticismo, que não consegue achar mais seu caminho e vive a situação de exílio das palavras, estaria em retornar as palavras ao seu torrão natal para então sabermos o uso não deturpado que deveríamos fazer delas. É próximo à função de um pastor de ovelhas: retornar as palavras ao lugar de origem, pastoreando-as. Humildemente, rastrear os usos das palavras comuns, olhando filosoficamente sob os nossos pés, ao inés de olhar para cima. O que leva, portanto, à ilusão, não são as palavras humildes mas seu uso deturpado. Poder escutá-las, acolhê-las no colo, ao invés da atitude heideggeriana de negá-las.
Daí porque Wittgenstein não cai na esparrela de negar o ceticismo: lhe é mais importante a correção a fazer. Porque ao negar a ansiedade do "outro", isto é, a afirmação de que ninguém mais é capaz de sentir ESTA DOR, cai-se na armadilha de exprimir a dor do outro por sua própria conta, batendo no peito e sendo tão cético quanto. O critério de identidade não se define pela acentuação da palavra ESTA, daí a importância da representação perspícua, que põe a nu nossos critérios, através de uma investigação gramatical.
II
Esta é uma das nossas necessidades em conexão com a necessidade da troca entre falantes. O que sugere que "As Investigações Filosóficas" é pré-moral. E assim como não tem a ver com a Ética,também não tem a ver com uma "forma de vida" convencionalista, que sustentasse um sentido comvencional ou contratual de concordância. A "forma de vida" em Wittgenstein tem um sentido biológico e não etmológico. A questão gira, portanto, em torno das verdadeiras necessidades, diante das quais devemos dar uma guinada em nossas reflexões, apontando para uma transfiguração de dentro para fora: a revisão ao invés da revolução.
A relação entre Wittgenstein e Heidegger, no tocante a "coisa-em-si", é o corte que efetuam do a-piori kantiano, enquanto possibilidade da linguagem. O que a possibilita, na verdade, é a conexão das duas necesidades: a relação entre seres humanos (concordância de "forma de vida") e a relação entre a gramática e o mundo (dizer o que um objeto é). Daí porque a filosofia é a prática do ordinário (a própria gramática se dá no ordinário, no comum). Em outras palavras, o que constitui o cotidiano são os nossos critérios e a possibilidade de repudiá-los. Ao invés de imitar, repetir; ao invés de contar, re-contar; e ao invés de convocar, evocar. Nada mais distante do a-priori kantiano.
III
Quando Cavell identifica "As Investigações Filosóficas" como descrição de nossos tempos, ele sobretudo relaciona a obra e a sua época como não havendo isenção. E nesse sentido, fugindo à prodigalidade dos grandes filósofos. O contra-exemplo é Heidegger que captura Holderlin para seu sistema particular. Por outra lado, ainda que Wittgenstein possa se assemelhar à perspectiva de Spengler ("declínio da cultura"), no tocante à perda de orientação da cultura e da linguagem como um fator inerente a elas, vão se diferenciar sobretudo na terapêutica. Enquanto uma série de filósofos, tais como Montaigne, Nietzsche, Pascal e Rousseau, investem na atitude como mudança de rumo da cultura, Wittgenstein investe na filosofia enquanto crítica da cultura. Em outras palavras, para o pensador austríaco, está na linguagem o antídoto de uma doença, a qual é o desejo de pensar fora do controle e contra nós. O problema filosófico não é exterior à Filosofia: não teria sido um acontecimento, tal qual um câncer, que viria causar uma desordem na cultura e na linguagem, refletindo na Filosofia. O problema filosófico vem de dentro, é sim proveniente da "idéia" kantiana, terrível para a sensibilidade e, mesmo assim, exercendo uma atração. Vem daí a relação entre ceticismo e romantismo: abismo e excesso; o infundado, visto pela Filosofia como proibido e atraente, e, o hiperbólico, com as super-conexões e os super-conceitos. Essa é a relação entre a transcendência e o nomadismo. E a resposta desse último não supera o ceticismo.
A terapêutica de Wittgenstein é a pobreza, o anti-excesso, o dia-a-dia, a condição humana e a busca de critérios para a linguagem. É mais um retorno que uma superação.
A renúncia à uma perspectiva privilegiada da cultura, isto é, a renúncia da razão científica, não levaria em Wittgenstein ao isolamento intelectual, enquanto incapacidade de se escutar e escutar o outro. É nesse sentido que o "outro" deixa de se tornar um perigo: todas as minhas palavras são de outra pessoa; e a idéia de infinito é relegada em prol de uma filosofia que, uma vez invocada, se leve ao fim (escutar quando chamada e responder se lhe for solicitada).
A crítica que Cavell esboça contra Richard Rorty, vem justamente de uma pretensão de originalidade. Contra essa prodigalidade, expressa na conversação cultural pós-filosófica de caráter geral, Cavell investe na inteligibilidade, servindo de trilho para uma próxima geração. Para Cavell, a questão maior não é de superação, seja da condição humana, seja da própria filosofia, mas na herança e solução que a Filosofia pode oferecer a seus próprios problemas.
IV
À certa altura da palestra de Stanley Cavell, "A Descoberto como Fundamento", ele faz a seguinte observação: "cada um dos filósofos europeus, desde Hegel, sentiu que deveria herdar este edifício e/ou destruí-lo (a filosofia enquanto sistema e enquanto fundação necessária, unificada); mas nenhum filósofo americano tem tal relação com a história da filosofia".
E toda essa questão passa, necessariamente, pelo ceticismo kantiano. Entre aceitá-lo e destruí-lo/resolvê-lo, talvez exista uma terceira alternativa, qual seja, a da transfiguração.
E para tanto há que se repensar os critérios, segundo Wittgenstein, ou repronunciar as categorias ou noções a fim de que se tornem novas, segundo Emerson.
Recontar, repronunciar, é a chave do ensaio de Emerson. O que é nomeado na palavras "experiência" ( o radical "per" que denota percalço, percurso, perigo, e, mesmo, nascimento) é reproduzido, recontado, resintetizado no seu ensaio "Experience". Mais importante que o conceito, no qual um objeto é representado, Emerson sublinha a narrativa, fornecendo as condições para si mesma.
Daí a relação entre literatura e filosofia, já que esta última deixa de estar atrelada à determinações a-priori do tempo, tais quais as categorias kantianas. A filosofia passa a ter uma nova perspectiva, mais aberta porque sujeita aos saltos de novas descobertas. E é isso que lhe dá a idéia de uma série interminável, onde a cada passo estaria uma descoberta, sucedida por uma nova perda, e assim sucessivamente e interminavelmente. Nada mais longe do idealismo hegeliano, aonde chegaria-se a um nível no qual todas as explicações seriam dadas. A nova filosofia acena para a transfiguração, da fundação em descoberta, do fundamento em duração.
V
É curioso como em Emerson a geografia assume uma importância grande e, o que lhe é implícita, o espaço e um determinado mundo em seu conjunto. Foge-se da perspectiva do objeto, tal como acontece nas categorias kantianas. Os "Senhores da Vida" são as disposições. E para cada uma delas há um determinado mundo. Existe o mundo dos homens felizes, assim como existe o mundo dos infelizes: o que os fundamenta não será o nosso conhecimento ativo, espontâneo, que os sintetiza, mas sim o fato de estarmos lá, de chegarmos até ele, de aproximarmo-nos dele.
Conhecer o mundo da experiência era de certa forma, para Kant, conhecer a coisa-em-si. Essa relação de semelhança entre eles, de uma certa forma, é o que rege o fundamento. Mas a partir do momento que não é mais suficiente conhecer, e sim realizar esse novo mundo, há que se estar lá e vivê-lo como ruptura: perda, luto e descoberta.
Pôr em prática o intelecto filosófico é filosofia. Conhecido o mundo, como realizá-lo? Se a ciência conhece, a filosofia faz acontecer. Mas Cavell vai destacar a diferença entre dois filósofos pragmáticos americanos, e talvez possamos pensar, nessa mesma esteira, as diferenças entre o próprio Cavell e Rorty: estamos aqui falando de Dewey e Emerson. Para o primeiro, a filosofia é a prática inteligente do que a ciência define por inteligência - a filosofia, por exemplo, faz vir as Luzes ou faz acontecer o Iluminismo. Nesse caso, a relação entre Filosofia e Ciência, para Dewey, é unívoca - é uma mera questão de dedução. Para Emerson. pôr em prática o intelecto filosófico já não é tão simples assim, visto que as Luzez tem vindo de forma negativa: negamos nossas afirmações em razão da individualidade delas, e negamos nossos ceticismos, isto é, nossas negações.
Como então sublinhar uma prática filosófica afirmativa? Como corrigi-la?
Fazendo as transfigurações necessárias. Por exemplo: "tudo o que conheço é recepção". É a inversão kantiana de Emerson. Passa a não existir mais adequação a-priori das categorias do entendimento humano aos objetos do entendimento. O estudo da linguagem passa a ser empírico (filosofia da linguagem cotidiana) e qualquer palavra precisará de dedução e derivação (talvez possamos aqui lembrar o nome de Leibniz). Ao invés de contradição, contra-dicção, desenterrando todas as condições de nossa dicção.
Outra transfiguração é a idéia do indireto e a relação desta com a atração e o luto.
O ceticismo é a prova da nossa incapacidade de "agarrar" o mundo dos fenômenos (conforme a "Crítica da Razão Pura", a concepção da experiência como aparência, e, a partir daí de um mundo para nós e, simultaneamente, de um mundo de experiência para nós negado e perdido). O luto do objeto perdido é a Filosofia. Daí porque nosso conhecimento, segundo Emerson, é recepção.
A interpretação que Cavell propõe à "Experience" de Emerson, é que em todo o corpo do ensaio refulge a ausência do filho morto do autor - faz-se a menção no início e depois se silencia. E graças a esse silêncio, que é o processo do luto, vai se alcançar por fim a recuperação da perda, através da descoberta.
Há uma sugestão de diferença em cada passo ou degrau, que comporta a sucessão e o salto: início e fim, paixão e poder.
É no início um processo gradativo de acumulação, paciência, aproximação. A evolução não parte de um ponto central e não há uma direção única. Ao invés de realizar o mundo do pensamento, realiza-se o seu mundo via discurso indireto (narrar o que a esfera diz), via observações (golpes laterais de percepção em torno da superfície circular de uma fruta - Berkeley), via melodrama intelectual (nossas relações uns com os outros são oblíquas e casuais - são produzidas por inclinação e por acidente fatal). O processo indireto, portanto, é uma superação progressiva do ceticismo, da incomensurável distância com relação ao mundo, por um processo concebido como indireto e, dessa forma, um aprendizado sobre a mortalidade e a finitude.
VI
A substituição da mão agarrando pela mão aplaudindo, culmina o processo do luto. Dá também a dimensão da condição humana, mais real do que a sugerida pelo idealismo hegeliano. O salto final nos liberta do discurso imposto, ao custo de um longo processo de luto. Mas não existe vitória final. Novas perdas se sucedem assim como novos lutos e novas descobertas.
Tanto Wittgenstein quanto Emerson, aproximam-se, ao estabelecer uma fundação sem fundador, um chão no qual o poder do domínio é comum, é de domínio comum, é do cotidiano. Em outras palavras, o que fundamenta o mundo não é o nosso conhecimento ativo mas o fato de estarmos lá. Nesse sentido, escapa-se da filosofia do sujeito.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
JORNAL DO SKYLAB - TERCEIRA EDIÇÃO

foto de Solange Venturi
EDITORIAL-CIÊNCIA E TECNOLOGIA-PALEONTOLOGIA-MANUSCRITO INÉDITO-AUTOBIOGRAFIA-REFLEXÃO DO DIA
- EDITORIAL
NITERÓI
Niterói existe?
Eu tenho pra mim que certas coisas nos são impostas, enterradas pela goela abaixo, e, a custo de tanto repetir, a gente passa a acreditar. E uma dessas coisas é a cidade de Niterói.
Eu tenho sérias dúvidas de que Niterói existe. Desculpe-me se você é niteroiense, mas pense que você também pode ser uma vítima dessas mensagens subliminares, através das quais nos vemos obrigados a acreditar até no impossível. Por exemplo: Niterói.
Em primeiro lugar, eu nunca acreditei nessa estranha proximidade: você pega uma barca e em vinte minutos está lá. Na verdade, Niterói é mais longe do que Nova York, Tóquio, Paris. Existem outras formas de Tempo: a cronológica é só uma delas. Quando você pega a cantareira e atravessa o Letes, quer dizer, a baia de Guanabara, você chega aonde? Num outro planeta.
Inclusive acho de muito mau-gosto a piada de que a única coisa boa em Niterói é ver o Rio de Janeiro. Na verdade, em Niterói você não vê nada.
Niterói é tosco. Vai ver que é por isso que tem aquela estátua de Araribóia. Porque na boa: quando eu ando em Niterói, eu sempre tenho a sensação de que alguma coisa vai acontecer. Como aquele filme do Herzog, Fitzcarraldo: o Klaus Kinski tá num barco em meio à floresta e a gente sabe que os índios estão lá, a gente não vê, mas eles estão lá. A qualquer momento sai a primeira flechada.
Niterói é assim. E acontecem coisas estranhíssimas. Eu me lembro do primeiro show que fiz lá, na reitoria da UFF. Eu era um ilustre desconhecido. E o teatro muito legalzinho. Achei que ia ser mais uma furada, como tantas que eu entrava no início de carreira, e eis que acontece o impossível: o teatro encheu tanto, mas tanto, que o administrador veio me perguntar se eu fazia uma segunda sessão. Ali eu tive a sensação do que era Niterói. Te juro que até hoje não entendo nada do que aconteceu. Tive que sair escondido, agachado num carro, pra neguinho não ver. Porque terminado o show, ficaram me esperando. Não sei se pra dar porrada ou pedir autógrafo. Por via das dúvidas, preferi não arriscar. Sinceramente, pensei: é o sucesso. Antes do show, o Bigu, um dos músicos mais antigos que me acompanham, diante da casa cheia, falou assim: cara, finalmente conseguimos. O quê ?????
Um mês depois, voltei no mesmo local e cantei pra duas pessoas.
Tudo é possível em se tratando de Niterói.
Gosto do Plaza Shopping, taí. É o único lugar que eu me sinto à vontade: basta atravessar a rua e entrar nas barcas.
Um dia me apaixonei por uma niteroiense, essas coisas acontecem. E me vi atravessando todo dia a porra daquela baia, aquela poça estagnada, cheia de cocô boiando na superfície. Mas eu deveria desconfiar. Fui tolo, quem ama não vê. E de repente, compreendi tudo. Eu tava em Niterói. A filha da puta me leva pra São Francisco pra comer sushi num restaurante japonês. Aquilo não podia dar certo. Olhei de soslaio, e a dita cuja não sabia segurar no pauzinho. É o seguinte: uma mulher que não sabe segurar no pauzinho tem que morrer. Se não sabe segurar no pauzinho, é certo: não sabe trepar, não sabe cozinhar, não sabe arrumar a casa, não sabe fazer porra nenhuma. É um encosto. Não sabe nem pra quê que vive. Caralho!!!! Toda songamonga, segurando no pauzinho. É doente. A porra do sushi caía em vôo rasante no molho shoyo, que parecia uma cascata. Era shoyo pra todo lado.
Nessas horas, você não fala. Você quer comer. Você inventa uns assuntos prosaicos; diz que os olhos dela são lindos, porque mulher, mesmo sendo de Niterói, se borra toda com elogio rasgado; a gente fala até da formação tática do time do Fluminense, porque no fundo a gente quer “comer”.
Foi quando ela teve a petulância, e em se tratando de Niterói tudo é possível, de pedir ao sushi-man garfo e faca. Aí fudeu ! Eu tenho meus limites. Eu queria comer, mas tenho meus limites.
Niterói é cheia de verdades inesperadas. Por exemplo: me cite um grande artista de Niterói. Eu sinceramente não conheço. Lembrei de um: Biafra !!! Outra verdade inesperada: Niterói tem aquela avenida grande chamada Amaral Peixoto. Grande político, governador, senador, e que chegou a ser sogro de quem? Moreira Franco !!!! Niterói só tem verdades inesperadas. Um clube: Canto do Rio. Você conheceu o Canto do Rio? Então eu digo: o Canto do Rio era um clube de futebol que disputava o campeonato carioca e se caracterizava por ser o pior time de futebol da nossa história. Madureira era fichinha. Sofria goleadas homéricas. E de onde era? Niterói !!!!
Conheci lugares como Piratininga, Camboinhas, Itaipu, Itacoatiara... Mas o bafo de Niterói impregna tudo.
Eu sempre me pergunto: se Brasília foi construída pela imaginação, por que Niterói não é delírio?
Icaraí é sua Ipanema. A “Garota de Icaraí”, você já viu? Não queira.
É um risco passar incólume pelas terras fluminense. Mas aí já é sacanagem. O que o meu time tem a ver com isso?
- CIÊNCIA E TECNOLOGIA
UMA NOVA DESCOBERTA
Outro dia, li no jornal sobre uma descoberta que fizeram e que me fez entrar em conjecturações infinitas.
Eu gosto de televisão, sempre que posso assisto, e vi grandes novelas na infância. Dias Gomes, Janete Clair, Bráulio Pedroso.
Mas a descoberta diz respeito a um dispositivo que, vindo a ser implementado no Brasil, pode revolucionar os hábitos e costumes. É uma coisa louca à primeira vista. Mas tem a função de trazer a televisão novamente ao primeiro plano, já que ultimamente ela vem perdendo terreno cada vez mais para a internet. Ora, esse dispositivo faz a integração. Vejam só.
O controle remoto é um santo aparelho que impede o monopólio de uma emissora em relação a outras porque não precisamos interromper nosso descanso para ir ao aparelho e mudar de estação. Esse sacrifício nos levava a permanecer no mesmo canal. Com o controle, de onde estamos, mudamos de emissora, ao nosso bel prazer. Isso já tinha sido um grande avanço. Estou vendo o Faustão e tocando uma punheta pra dançarina dele. De repente, entram os comerciais, eu pego o controle com uma das mãos, passo para o telecine com a Angelina Joly, continuo a me masturbar, até que me canso, entro no canal Brasil, saio, chego na TV Futura, volto, entro na Sport TV, me excito, a mão direita acelera, a esquerda acompanha, pulo as estações, eu já não vejo mais nada, entro na TV Cultura, peido, na TVE não vejo nada, na Globo é foda, a MTV acelera, eu to quase gozando, é só imagem pulando na minha frente, a minha pica pulsando, querendo, as imagens quicando, de repente... páaaaaaa... a imagem congelada, aquela moleza, slow motion, quase parando....
Em outras palavras, controle remoto é bom só que... uma das mãos fica inutilizada. Quantas coisas a gente não poderia fazer ao mesmo tempo? Só em pensar que por causa dessa porra do controle remoto, eu não pintei minhas unhas, não tirei meleca, não falei ao celular, não escrevi palavras ao vento, não joguei porrinha e não botei o dedinho no olho do cu. Ou seja, a porra desse controle remoto, enquanto eu ficava a mudar de estação, impedia uma porrada de outras coisas.
O novo dispositivo veio em nosso auxílio, liberando-nos uma das mãos. Como? Introduzindo esse controle na vagina ou no cu, de modo que, a cada compressão dos músculos retais ou vaginais, possamos mudar de emissora. O invento foi testado por toda costa leste americana e está em vias de comercialização. Vai custar um pouco chegar até aqui, mas não tenho dúvidas de que será um sucesso.
A nova descoberta, segundo seu inventor, insere a velha TV nos quadros da atualidade, que requer variação e simultaneidade. À nova mulher, o mundo torna-se plástico, sensível, democrático e auto-suficiente, sem que seja preciso recorrer ao dedinho, agora livre para mil outras utilidades. Ao novo Homem, o cu (antes, marginalizado) passa a fazer parte das zonas erógenas masculinas, podendo ele finalmente gozar por traz e pela frente, tudo ao mesmo tempo agora. Se uma das mãos permanece ocupada em deslizar-se pelo cramunhão, agora a outra, finalmente livre, pode se dar ao luxo de não fazer nada, ou segurar o celular ou escrever um poema, ou casualmente segurar um outro pau diante da TV em polvorosa, cheia de imagens fragmentadas.
- PALEONTOLOGIA
MULHER-GORILA
“Cada uma guarda em si uma motoserra,
E vai desmatando sem ter fim,
No colo da bem-vinda namorada,
Eu só vejo seca e capim
Em busca da floresta encantada,
Eu entro pelas grutas do Brasil,
Mas tudo é sem fedor e sem remela,
Dá tristeza e dor, dá tristeza e dor.
No colo da bem-vinda namorada,
Eu só vejo seca e capim,
Pudera convencê-la dos mistérios
Que há no interior do seu jardim”.
Essa música, de início, pensei na voz de Marisa Montes. A questão é que além de ser depiladinha (pelo menos tem todo o jeito), Marisa é moderninha. E essa canção é de outro tempo, é das profundezas do Brasil. Qual voz senão a de Vicente Celestino poderia cantá-la? A frase “dá tristeza e dor, dá tristeza e dor”, só mesmo um cantor operístico para extrair-lhe todo o teor vulcânico e melancólico.
Gosto do interior, interior mesmo. Vamos encontrar nesses locais desprovidos de luz, água e telefone, nesses grotões sem nome, a Mulher-Gorila. A higienização, que está ligada à Medicina Social, impetrou novos hábitos e controles. Isso data do século XIX, e Machado de Assis pode servir de testemunho. O Alienista é um conto exemplar nesse sentido. Vamos importando as novas idéia a torto e a direito porque elas fazem parte da civilização. Só que, fora do lugar de origem, podem parir monstros.
Eu gosto dos grotões. O cheiro de esgoto, a fedentina, a nheca. Favela é foda.
Eu sei que vão falar – ah, esse cara curte escatologia. Não é isso. Escatologia é palavra vazia, noção vazia.
Josiane trabalhava no Banco do Brasil, era minha colega. Uma menina comum, delicada, feminina. Um dia, levantou os braços e tava de camiseta (tenho pra mim que usava camiseta de propósito). Porra, apareceu um tufo negro debaixo dos braços, que paralizou meus sentidos. O que era aquilo !!! Josiane tinha pêlo nas axilas. Pêlos negros, abundantes. Foi uma iluminação. Josiane não tinha mais nada – o que ela pensava, o que ela dizia, não era nada, nada, nada. Josiane era o tufo. O tufo dizia por ela.
Houve um tempo que as meninas passavam água oxigenada no pêlo dos braços e das pernas. É nisso que me ligo. As contas de luz, água, telefone... que se fodam! Os pêlos douradinhos eram moda. Elas voltavam da praia com os pelinhos dourados e eu ficava olhando aquilo, não pensando mais em nada. A qual ciência da história me reter diante daqueles ursinhos dourados? Elas deixavam crescer para dourar. Antes assim. E tinha umas bem peludinhas – davam trégua e os pelinhos vinham, como vinham.
Hoje é uma tristeza. Você olha pra direita, pra esquerda, e é só mulher de plástico.
Quando morava em Salvador, na praia da Barra, vi uma mulher de verdade: os pêlos cresciam pela virília, pêlo grosso, pêlo bom. O biquíni não escondia porque eles cresciam pros lados. Essas imagens me enterneciam, são fragmentos da mulher-gorila.
Quando criança. A Lúcia, bem mais velha do que eu, era amiga da minha irmã. Motivo de escárnio, tinha um cecê inimaginável. A explicação científica era que tinha problemas de glândula. Ora, bolas !!! Bastava chegar perto e a gente sentia. Tinha um gambá debaixo dos braços. É assim que a gente vai reconstituindo a mulher-gorila.
Mas os seus traços estão a nossa frente, basta atenção. Um dia peguei uma piriguete e mandei ver. Tudo normal, mãe de dois filhos, bem informada, casamento estável, do lar... não fosse a catinga. O que era aquilo !!!!Não devia tomar banho uns dois dias. Fedia que dava gosto. Não era comum aquilo – enfiava o nariz na nuca e aspirava firme. Chegava a tremer. Você viu “O Perfumista”?
Mau hálito é outro departamento. Não que seja ruim, o problema é o mau hálito comum aos que fumam. Conheço de cor e salteado. E o pior de tudo: camufla o mau hálito verdadeiro, aquele que vem das entranhas, que você sente no beijo e agüenta firme. Mau hálito do estômago, o mais profundo. Parecido com o do cu, pós-peido. Fragmentos de uma mulher-gorila.
A gente reconstitui ao nosso modo. Porque a mulher-gorila ficou esquecida, foi recalcada. A gente faz a exumação e isso me lembra IML.
Um dia fiquei atacado e fui procurar minha irmã no necrotério. O que a gente não faz por ela! Descrevi os seus traços com a precisão de um retrato-falado. O secretário me indicou seis possibilidades. Nada menos do que seis. Todas mortas pelo tráfico.
Mas o que está em questão é a mulher-gorila. É tudo por ela. E enquanto o sono não vem, a gente vai folheando umas revistas de travesti pelada. Tem uma (me nego a tratar travesti no masculino) que tem até ancas. Pode? Nome: Micheli. Ah, os nomes de travesti! As primeiras imagens fazem parte daquela mis-en-cene: juju, balangandan. Mas o ensaio fotográfico continua e a gente faz de conta que acredita. Até chegar a última foto, a gente parece aquela criança que foi com o Seu Abelardo até o quarto onde ele dorme, acreditando que ele vai mesmo dar umas balinhas pra gente chupar. Quando eu chego então na última foto, aí sim eu vejo a mulher-gorila, inteira na minha frente.
- MANUSCRITO INÉDITO
Publicamos, em primeira mão, um texto inédito de Franz Kafka, traduzido por Rogerio Skylab.
DOBERMAN
Eu sinto Madame Bijou.
Não a compreendo porque não me foi dada a capacidade de compreender.
Encosto o fucinho nas suas costas e adormeço.
Sonho com seu cheiro (é tudo que me cabe).
Posso senti-lo a léguas – é através dele que eu existo.
Cheiro, logo, existo.
Num canto do quarto, esparramado no chão, está o meu karma: o doberman.
Tem os olhos fundos e impenetráveis.
Seu cheiro não me agrada. Faria tudo pra vê-lo longe.
Está amanhecendo.
Em breve, Madame Bijou vai acordar e tomar banho: são velhos hábitos.
Aproveito então esses últimos momentos e ficamos de conchinha. Madame Bijou é meu mundo.
Quando acorda, pisa no doberman. Ambos se assustam e ela entra no banheiro.
Mantenho uma distância regular desse cachorro nazista. Não queiram ter um doberman no seu pé. Desde que aqui chegou, me sinto espreitado.
Sobre a cama, olho pra baixo. Lá está ele.
Luto pelo espaço, mas ele vai se esparramando cada vez mais. Receio que em pouco tempo não terei mais lugar.
Ouço o barulho do chuveiro.
Novas pulgas a me picar.
Coço minhas orelhas. Ele também.
Madame Bijou está agora se enxugando.
Como vocês podem ver, vivo no presente. Acompanho seu movimento contínuo. Às vezes, ele acelera e vislumbro o futuro. Outras vezes, retarda, e vejo o passado.
O doberman continua no meu pé.
Agora balanço o rabinho e rolo na cama de Madame Bijou.Sinto o cheiro do seu travesseiro. Daqui a pouco, ela vai sair do banheiro e vai me pedir para lambê-la.
Insistiram tanto que esse doberman era dócil.
Faz tempos que moro aqui. Conheço todos os cantos da casa. Tenho minhas regalias. Sou tratado com carinho e me afeiçoei por minha dona. Só não entendo esse doberman, olhando fixo nos meus córneos.
O sol entra pela fresta e deixa no quarto um tom dourado. Será isso o que os humanos chamam de eternidade?
Madame Bijou acaba de sair do banheiro e está completamente nua. O doberman cheira suas pernas e ela o repele. Ele late.
Então, Madame Bijou deita de pernas abertas. A sua pele é dourada. Faz um sinal e pede que me aproxime. Estou já completamente acostumado ao ritual.
Passo a lamber suas pernas.
Ela se estremece de cócegas. O doberman late e ameaça subir na cama, mas ela o afasta com os pés.
Passo minha língua por sua virília. Depois esfrego para cima e para baixo, e ela fecha os olhos. Há um silêncio, que é apenas interrompido pelo barulho da língua.
O doberman permanece deitado ao chão, agora conformado.
Eu chupo como sempre. Não existe diferenças nesse ofício. É uma questão de rotina e todos da minha raça se afeiçoam ao hábito.
Daqui alguns minutos, Madame Bijou se levantará. Vai se mirar no espelho, se vestir, e comer alguma coisa. Vou me contentar com alguma migalha e depois passar, longas horas, devidamente acompanhado por esse estrupício, até que ao final do dia ela retorne.
À certa altura, ela estremece e geme. Sei que dentro em breve vai se levantar. Quando o faz, eu pulo da cama e vou de encontro ao doberman (esse espantalho está sempre em lugares indevidos).
Ele late, eu lato, ela grita.
Somos expulsos do quarto.
Desde que aqui chegou, venho reparando que minha ração diminui a olhos vistos. Ele come a sua e a minha.
Quando Madame Bijou senta à mesa, rodeamos suas pernas. Ela me tem mais simpatia, mas faz questão de jogar migalhas pra ambos os lados.
Não gosto de ficar só com esse paspalho. Devo admitir que é mais forte e, em breve, se fará impor. Ainda assim, gozo de alguns privilégios: sou mais antigo.
Quando Madame Bijou bate a porta, não tem mais ninguém a não ser nós dois. Olhamo-nos fixo e pressinto alguma coisa diferente em seu olhar. Ele mostra os dentes e seus longos caninos parecem duas facas afiadas. Ponho-me em posição de defesa. Não existem mais subterfúgios. Madame Bijou está longe e a hora é essa.
- AUTOBIOGRAFIA
Estamos publicando um trecho do livro EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI, recém-lançado pela CIA DAS LETRAS. Uma autobiografia escrita por Rogerio Skylab.
FORREST GUMP
Eu comecei a correr por indicação médica.
Chega um tempo, que você escolhe: ou muda os hábitos de vida ou vai pro andar de cima. Eu preferi a linha reta, a linha contínua. Sou o Forrest Gump do terceiro mundo. E comecei a correr.
Hoje, continuo a correr, e não páro. Só vejo o horizonte na minha frente. Meu primeiro ponto foi aos 50 anos de idade: uma festa de aniversário. Afinal, 50 anos é meio século. Mas nem assim teve muita gente: alguns familiares, dava pra contar no dedo.
Daí que levantei a cabeça e continuei. Havia um longo caminho pela frente. Aos 40 anos, pensei que fosse dar um salto: meu disco saiu pela Revista Outra Coisa, o que me rendeu o prêmio Claro de Música Independente. Achei que dessa vez sim, seria finalmente reconhecido. Mas levantei a cabeça, respirei fundo e fixei o horizonte.
Aos 36 anos, meu casamento foi pras cucuias. Achava que dessa água nunca beberia. Ledo engano. Fui chifrado e tenho as marcas do chifre até hoje na minha bunda.
Mas continuei a correr porque a essa altura eu não sabia fazer outra coisa. Correr é o meu ofício. E aos 32 anos de idade fui à Europa e dei a bunda. Comecei essa via-crúcis sem saber aonde terminaria e fico constrangido com os percalços: doeu pra caralho.
Aos 25, eu já não sentia os músculos das pernas. E conheci a esperança, esse monstro de 7 cabeças. É que depois de tantos anos correndo, concluí que o meu negócio era esse mesmo. Daí porque produzi o meu primeiro disco. Não tivesse sido festejado pela imprensa, teria passado batido.
Mas essas paradas, onde aproveito para me restabelecer, são escolhidas meio ao acaso. São pontos entre milhões de outros. O que importa é o ímpeto, o deslocamento no espaço, e a linha reta contínua.
Aos 17 anos, eu era apenas um menino e perdi a virgindade. Foi num rendez-vous do Centro. A puta não tinha pêlos pubianos: era depiladinha. Mas eu ia avançando como dava, já estava em plena adolescência. À essa altura, nada mais era capaz de me conter. Tempos de polução e toalhinha.
Aos 10 anos, eu páro, respiro e olhos pra trás. Não saberia precisar a kilometragem. Foi indicação médica, daí tomei gosto. Forrest Gump do Terceiro Mundo, estou fazendo curso Humaitá para prestar concurso de admissão ao ginásio. O uniforme azul claro.
Mas eu avanço. Às vezes me pergunto se vou ter algum descanso. Estou com 5 anos agora, e esse é o quintal da minha casa. Me perdi dos meus pais durante o carnaval (já estavam me colocando no carro da polícia, quando meu pai chegou).
Penetro então numa zona cinzenta. Foi tudo tão rápido. Mas é preciso continuar. Afinal de contas, é uma linha reta composta por milhões de pontos. Gosto de falar “cocô” – minha mãe ralha e eu falo. Quanto mais ralha, mais eu falo.
Avanço e me puxam. A temperatura é amena. Me puxam para o lado de fora e eu avanço para o lado de dentro. Desde que empreendi essa corrida maluca, percebi que não haveria fim. Avanço. A minha linha é na direção do horizonte. Mas às vezes parece que cheguei ao ponto final. Quisera ficar aqui.
A nova parada é uma encruzilhada. Mas eu repito, nada disso foi visando algum fim. Podia ficar aqui pra sempre no útero da minha mãe. Mas vou tirar par ou ímpar. Se der par, eu sigo à direita; se ímpar, à esquerda.
Ímpar. Avanço então na direção escolhida e depois de um caminho árduo, cheio de escolhos, páro frente ao espelho. Sou uma mulher de meia idade e vou agora dormir ao lado de meu Homem. Mas prefiro seguir adiante e olho ao longo de um caminho cheio de bifurcações e cruzamentos.
- REFLEXÃO DO DIA
"Quanto maior a bunda, maior o tapa"
FIM
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
CONTEÚDO LIVRE: Monstruosidade maravilhosa
Aí vai um texto com o qual me deparei hoje pela manhã, nas páginas do jornal O Globo. Ao cineasta Felipe Bragança, autor do texto, meu abraço mais fraterno. Cada palavra, cada vírgula, ressoa fundo. Eu poderia tê-lo escrito.
CONTEÚDO LIVRE: Monstruosidade maravilhosa: Uma carta-manifesto do cineasta Felipe Bragança por uma arte que recupere medos e delírios do Rio de Janeiro, contra sua redução a centr...
CONTEÚDO LIVRE: Monstruosidade maravilhosa: Uma carta-manifesto do cineasta Felipe Bragança por uma arte que recupere medos e delírios do Rio de Janeiro, contra sua redução a centr...
sábado, 3 de setembro de 2011
CT BOUCHERIE - CLAUDE TROISGROS
No país dos gênios, onde a cada semana um novo dá o ar de sua graça, não seria nenhum favor incluir o nome de Claude Troisgros entre os tantos que aqui vicejam. Com a ressalva de que não se trata, no caso, de um nome genuinamente nacional.
Foi com Gaston Lenotre, chef do lendário Pré-Catalan, a sua estréia em solo nacional, há mais de duas décadas. Em 1997, abriu o “Caneco 66”, que veio a se transformar no “Bistrô 66” em 2006. Foi aqui que seu filho, Thomas Troisgros, entrou no ramo, vindo a formar a quarta geração de chefs de cuisine, começada nos anos 30 com Jean Baptiste Troisgros.
Mas este texto se remete ao CT Boucherie, inaugurado por Claude no coração do Leblon, na Dias Ferreira. Esse novo empreendimento, junto com seu filho Thomas e sua filha Carolina, atinge em cheio o que foi sempre seu alvo: aliar a culinária francesa e a brasileira.
Madame Funérea lembrou que era sábado e, em se tratando de fim de semana, sabíamos o que teríamos pela frente: casa cheia. Não deu outra. Ainda mais depois de tantos elogios na imprensa. Uma hora de espera.
O frio rachava o bico e aumentava a fome. Pra distraí-la, apelamos ao velho e bom La Mole: um couvert para três. E voltamos ao local com a esperança de que àquelas horas pudesse estar mais vazio. Ledo engano. Já eram quatro horas da tarde e só aumentava a afluência da clientela. Pegamos por fim uma mesinha na parte externa do bistrô. Que sufoco! Era a minha primeira experiência com Claude Troisgros.
Primo Inteligente lembrou os dias felizes na França. Não era à toa: o toldo, as mesinhas fora, as flores... tudo lembrava Paris. A barriga roncava de fome; o frio, que se tratando de Rio de Janeiro, era uma presença rara, dava-nos uma sensação incômoda. E nada da comida vir. Olhando a parte de dentro, toda lotada, pude divisar a cozinha exposta propositadamente aos olhares dos clientes. Vi também uma foto grande na parede, de dois açougueiros: vim a saber depois, que era uma releitura do grande fotógrafo Irving Penn, tendo, entre os modelos, Batista e Antonio Costa, ambos assistentes de Claude há muitos anos. O filho de Antonio Costa, Leandro Tomas, é o atual responsável pelo corte das carnes no CT Boucherie.
Os desenhos na parede, assinados pelo artista plástico Guilherme Secchin, sobre um fundo de azulejos, informava-nos o que teríamos pela frente. E vieram os pratos: Primo Inteligente pediu um Chautebriand (coração do filé mignon) e molho béarnaise (a base de vinho branco); Madame Funérea, costeleta de cordeiro e molho bordelaise para acompanhar, a base de vinho bordeaux tinto; e eu, um bife de chourizo superior e molho bordelaise também. Acompanhados por banana assada, batata crisp numa canequinha e farofa especial Panko (farinha oriental e alho). Para beber, pedimos um vinho tinto seco, chileno, uva carmener, “Domaine Conte”, produzido em 2009 no Vale Central.
Primo Inteligente decretou ser a melhor carne que havia comido em toda sua vida. Já meu chourizo, era grosso, consistente, macio. Madame Funérea também ficou satisfeita com seu cordeiro, o que nos fez crer que o ponto alto do empreendimento, era mesmo a carne vermelha. Lembrei a Primo Inteligente de nossa aventura no Porcão e concluímos que as carnes daquele tão afamado rodízio não se comparavam às da CT Broucherie.
Então começou o rodízio. E essa foi uma das mais interessantes inversões que pude constatar. Na “Lógica do Sentido”, Gilles Deleuze escreve um apêndice denominado “A Inversão Platônica”. Pois acho que Claude Troisgros também o escreve. Só que à sua maneira, mantendo a quantidade que faz parte da cultura nacional. Para nós brasileiros, bistrôs franceses têm a fama de serem caros e servirem pouca comida. Essa é uma questão cultural irreversível: ou se parte para o confronto ou se faz a perversão. E os bistrôs, tradicionalmente, sempre partiram para o confronto. Claude preferiu a perversão: manteve o rodízio mas o deslocou para o acompanhamento.
Purê de maçã com maracujá, xuxu gratinado, purê de batata baroa, tomate recheado com queijo, arroz maluco (com muito bacon), ratatouille (dos melhores que já comi), mix de legumes e polenta com agrião. Todos servidos em panelas staub (já era le creuset) várias vezes durante a refeição.
E come-se muito, daí o sucesso. Nossa questão é encher a pança, ficar empanzinado.
Somos a raça dos barriga grande. E ficamos mesmo. Sem abolir os legumes e investindo nas nuances de sabor, tipicamente francesas.
Ao final, Primo Inteligente pediu “crème brûlée”. Ataquei de crepe de suflê com recheio de creme de confeiteiro e calda de frutas vermelhas. Madame Funérea não pediu nada porque já tinha acumulado muitas calorias.
Então fomos embora.
Mais felizes, mais gordos e mais vazios.
CT Boucherie - Rua Dias Ferreira, 636 - Leblon - Rio de Janeiro
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