

O INOMINÁVEL (1949), terceiro livro de uma trilogia começada com Molloy (1947), do qual se seguiu Malone Morre (1948), foi escrita em francês pelo irlandês Samuel Beckett.
O fato de tê-lo escrito numa língua que não era a sua, encaixa em seu conceito de literatura: estamos exilados num terreno pantanoso e sem claridade; e no entanto, não nos resta outra opção senão prosseguir.
A língua de Beckett é como um cego que tateia os objetos, tentando reconhecê-los. As vírgulas fragmentam o pensamento e não lhe resta outra opção senão apresentar personagens com membros decapitados.
“O que é preciso evitar é o espírito de sistema”. O que se fala e o que se pensa nunca coincidem, longe um do outro. Daí a sensação de que sua escrita se desenvolve por vias tortuosas, se contradizendo a todo instante, com idas e vindas incessantes, numa atmosfera de bazar.
Essa imagem de idas e vindas sugere algo que se dá na intermediação. Foge-se à segmentação do espírito de sistema. Nem o dentro e nem o fora, mas apenas linguagem: “tudo é uma questão de vozes e o que se passa são palavras” - ele faz questão de repetir, sempre quando pode, o seu mantra oficial.
II
Como definir o “aqui e agora”? Não é a lembrança que se remete à histórias, assim como não são os ruídos orgânicos de si mesmo. Nem o fora e nem o dentro. No “aqui e agora” fala-se de si mesmo, e não de outros, para que se possa dizer a lição esquecida; ao mesmo tempo, fala-se de si mesmo numa língua que não é a sua. Esse é o x do problema do “aqui e agora”: a lição esquecida e os outros. Abandonar-se ao “aqui e agora” tem algo a ver com a linguagem automática dos surrealistas: tem-se a consciência de que a voz própria é constituída pelos outros, daí a necessidade de calar-se – “este” sou eu aqui e agora (ceticismo); como é impossível calar-se, sublinha-se então a fluidez da escrita sem amarras, sem a ilusão de uma voz própria e de forma que possamos vislumbrar os traços apagados do neutro, à cuja essência pertence. Essa é a lição esquecida que cumpre atingir: o neutro como uma instância descolada dos outros e de si mesmo.
III
Necessidade e impossibilidade: é a fórmula estranha de Beckett. Necessidade de falar, necessidade de calar e impossibilidade de calar: preciso continuar, não posso continuar, vou continuar. Como atingir o neutro a não ser de forma indireta? As três orações distinguem três etapas dentro do tempo, assim como vão dividir a narrativa de Beckett em três partes: as fábulas, o eu e o neutro.
Nas fábulas, a voz de Mahood por exemplo. E toda a galeria de seus personagens anteriores: Murphy, Molloy, Malone, Basile. “E a loucura de ter que falar e não poder, salvo de coisas que não me dizem respeito, que não contam, nas quais não acredito, das quais me entupiram, para me impedir de dizer quem eu sou, onde estou e de fazer o que tenho de fazer da única maneira que posso dar um fim nisso, de fazer o que tenho de fazer” (pág. 71).
A segunda etapa é falar de si com a linguagem deles, rumo ao silêncio. É o “aqui e agora” sem nenhum lugar ao redor, com a cara incompreensão e o caro esquecimento. E com o ceticismo de quem afirma: “os meus personagens não sofreram as minhas dores, as suas dores não são nada, diante das minhas, a não ser uma pequena parte das minhas, aquela da qual eu acreditava poder me separar, para contemplá-la”. É o quarto sem janelas: surdo, cego e mudo. Sem ouvido terei ouvido, fora de mim e depois imediatamente em mim, quem eu sou, e terei dito mudo, sem boca. É uma voz cega, aqui e agora, nem dentro e nem fora. Daí a sensação de escrita automática. É o ceticismo em último grau: “nunca houve ninguém, só eu, quero dizer aqui, em outro lugar não digo, em outro lugar nunca estive, aqui é meu único outro lugar”.
Mas o silêncio dessa segunda etapa é um silêncio para escutar: silêncio atravessado de murmúrios infelizes e onomatopéicos. Diferentemente do outro silêncio feito propositadamente por outros, para ser quebrado por mim e, dessa forma, tornar-me falante com a ilusão de que me ouço dizer, tal qual um ventríloquo.
Haveria, todavia, um terceiro tipo de silêncio, durável e impossível, terceira parte do livro. Se a necessidade fala de mim, a impossibilidade fala “dele”, do neutro. E “ele” está nesse silêncio durável. A oposição entre o “aqui e agora” e o longe, vem justo daí: eu estou aqui e “ele” longe. O inominável é “ele”, não sou eu, sou “ele”: o ser; onde não cessei de ser e onde não me deixaram ser. Não se trata mais da primeira pessoa nem dos homens (Mahood, Worm). Onde o sofrimento cessa, diferentemente do eu. Onde não há mais lugar, diferentemente do quarto sem janelas. Onde não existe mais fala, diferentemente do eu tagarela. “Ele” não sabe nada, não quer nada, não pode nada. O texto indica duas situações em relação ao ser: a primeira, é de uma origem, à qual teríamos abandonado; e a segunda, é que seus traços estão presentes, apesar da aparência em contrário – “... é preciso tentar, nas minhas velhas histórias vindas não se sabe de onde, encontrar a “sua”, “ele” deve estar lá, deve ter sido a minha, antes de ser a “sua”, eu a reconhecerei, terminarei por reconhecê-la, a história do silêncio que “ele” nunca deixou, que eu nunca deveria ter deixado, que eu talvez não reencontre nunca, que talvez reecontre”.
A grande questão é que se “eu” estou do lado de dentro, num quarto sem janelas, e se “ele”, o ser, está do lado de fora, ao qual não temos nenhum acesso, a voz, aqui e agora, é a minha única possibilidade, através da qual posso chegar até “ele”. A metáfora da porta bem a explicita, assim como a da lâmina ou do tímpano.
É também a voz, propícia a toda espécie de contradição e paradoxos, em razão de sua posição de superfície: o eu e o “ele” são virados pelo avesso numa barafunda sem fim, explicada por essa condição geográfica da voz. Daí porque “de repente você se ouve falando de não sei o que como se nunca tivesse feito outra coisa, e de fato, nunca falado outra coisa, você volta de longe, é de lá onde seria preciso estar, é lá onde você está, longe daqui, longe de tudo” (pág. 168)
IV
Essa confluência entre a mortalidade e a eternidade, é o que justifica o fato de se dizer assim: a voz diz que isso vai parar, um dia, ela diz que isso não vai parar nunca e ela diz que isso vai parar. Assemelha-se, por sua estrutura triádica, à expressão última do livro: é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar. Com a diferença de que a primeira expressão aponta para a voz, enquanto a segunda para o eu. Mas em ambas, a necessidade e a impossibilidade estarão presentes, como o grande paradoxo. Qualquer síntese é rejeitada, em favor da fragmentação e contra a idéia de sistema. O vai e vem de um bazar é sua melhor imagem. Porque independentemente da necessidade e da impossibilidade, existe a decisão de prosseguir: o sujeito e o lugar são apenas condições para a ação que se decide no presente e, sem a qual, nada existiria.

