domingo, 30 de outubro de 2011

SAMUEL BECKETT - O INOMINÁVEL




O INOMINÁVEL (1949), terceiro livro de uma trilogia começada com Molloy (1947), do qual se seguiu Malone Morre (1948), foi escrita em francês pelo irlandês Samuel Beckett.

O fato de tê-lo escrito numa língua que não era a sua, encaixa em seu conceito de literatura: estamos exilados num terreno pantanoso e sem claridade; e no entanto, não nos resta outra opção senão prosseguir.

A língua de Beckett é como um cego que tateia os objetos, tentando reconhecê-los. As vírgulas fragmentam o pensamento e não lhe resta outra opção senão apresentar personagens com membros decapitados.

“O que é preciso evitar é o espírito de sistema”. O que se fala e o que se pensa nunca coincidem, longe um do outro. Daí a sensação de que sua escrita se desenvolve por vias tortuosas, se contradizendo a todo instante, com idas e vindas incessantes, numa atmosfera de bazar.

Essa imagem de idas e vindas sugere algo que se dá na intermediação. Foge-se à segmentação do espírito de sistema. Nem o dentro e nem o fora, mas apenas linguagem: “tudo é uma questão de vozes e o que se passa são palavras” - ele faz questão de repetir, sempre quando pode, o seu mantra oficial.

II

Como definir o “aqui e agora”? Não é a lembrança que se remete à histórias, assim como não são os ruídos orgânicos de si mesmo. Nem o fora e nem o dentro. No “aqui e agora” fala-se de si mesmo, e não de outros, para que se possa dizer a lição esquecida; ao mesmo tempo, fala-se de si mesmo numa língua que não é a sua. Esse é o x do problema do “aqui e agora”: a lição esquecida e os outros. Abandonar-se ao “aqui e agora” tem algo a ver com a linguagem automática dos surrealistas: tem-se a consciência de que a voz própria é constituída pelos outros, daí a necessidade de calar-se – “este” sou eu aqui e agora (ceticismo); como é impossível calar-se, sublinha-se então a fluidez da escrita sem amarras, sem a ilusão de uma voz própria e de forma que possamos vislumbrar os traços apagados do neutro, à cuja essência pertence. Essa é a lição esquecida que cumpre atingir: o neutro como uma instância descolada dos outros e de si mesmo.

III

Necessidade e impossibilidade: é a fórmula estranha de Beckett. Necessidade de falar, necessidade de calar e impossibilidade de calar: preciso continuar, não posso continuar, vou continuar. Como atingir o neutro a não ser de forma indireta? As três orações distinguem três etapas dentro do tempo, assim como vão dividir a narrativa de Beckett em três partes: as fábulas, o eu e o neutro.

Nas fábulas, a voz de Mahood por exemplo. E toda a galeria de seus personagens anteriores: Murphy, Molloy, Malone, Basile. “E a loucura de ter que falar e não poder, salvo de coisas que não me dizem respeito, que não contam, nas quais não acredito, das quais me entupiram, para me impedir de dizer quem eu sou, onde estou e de fazer o que tenho de fazer da única maneira que posso dar um fim nisso, de fazer o que tenho de fazer” (pág. 71).

A segunda etapa é falar de si com a linguagem deles, rumo ao silêncio. É o “aqui e agora” sem nenhum lugar ao redor, com a cara incompreensão e o caro esquecimento. E com o ceticismo de quem afirma: “os meus personagens não sofreram as minhas dores, as suas dores não são nada, diante das minhas, a não ser uma pequena parte das minhas, aquela da qual eu acreditava poder me separar, para contemplá-la”. É o quarto sem janelas: surdo, cego e mudo. Sem ouvido terei ouvido, fora de mim e depois imediatamente em mim, quem eu sou, e terei dito mudo, sem boca. É uma voz cega, aqui e agora, nem dentro e nem fora. Daí a sensação de escrita automática. É o ceticismo em último grau: “nunca houve ninguém, só eu, quero dizer aqui, em outro lugar não digo, em outro lugar nunca estive, aqui é meu único outro lugar”.

Mas o silêncio dessa segunda etapa é um silêncio para escutar: silêncio atravessado de murmúrios infelizes e onomatopéicos. Diferentemente do outro silêncio feito propositadamente por outros, para ser quebrado por mim e, dessa forma, tornar-me falante com a ilusão de que me ouço dizer, tal qual um ventríloquo.

Haveria, todavia, um terceiro tipo de silêncio, durável e impossível, terceira parte do livro. Se a necessidade fala de mim, a impossibilidade fala “dele”, do neutro. E “ele” está nesse silêncio durável. A oposição entre o “aqui e agora” e o longe, vem justo daí: eu estou aqui e “ele” longe. O inominável é “ele”, não sou eu, sou “ele”: o ser; onde não cessei de ser e onde não me deixaram ser. Não se trata mais da primeira pessoa nem dos homens (Mahood, Worm). Onde o sofrimento cessa, diferentemente do eu. Onde não há mais lugar, diferentemente do quarto sem janelas. Onde não existe mais fala, diferentemente do eu tagarela. “Ele” não sabe nada, não quer nada, não pode nada. O texto indica duas situações em relação ao ser: a primeira, é de uma origem, à qual teríamos abandonado; e a segunda, é que seus traços estão presentes, apesar da aparência em contrário – “... é preciso tentar, nas minhas velhas histórias vindas não se sabe de onde, encontrar a “sua”, “ele” deve estar lá, deve ter sido a minha, antes de ser a “sua”, eu a reconhecerei, terminarei por reconhecê-la, a história do silêncio que “ele” nunca deixou, que eu nunca deveria ter deixado, que eu talvez não reencontre nunca, que talvez reecontre”.

A grande questão é que se “eu” estou do lado de dentro, num quarto sem janelas, e se “ele”, o ser, está do lado de fora, ao qual não temos nenhum acesso, a voz, aqui e agora, é a minha única possibilidade, através da qual posso chegar até “ele”. A metáfora da porta bem a explicita, assim como a da lâmina ou do tímpano.

É também a voz, propícia a toda espécie de contradição e paradoxos, em razão de sua posição de superfície: o eu e o “ele” são virados pelo avesso numa barafunda sem fim, explicada por essa condição geográfica da voz. Daí porque “de repente você se ouve falando de não sei o que como se nunca tivesse feito outra coisa, e de fato, nunca falado outra coisa, você volta de longe, é de lá onde seria preciso estar, é lá onde você está, longe daqui, longe de tudo” (pág. 168)

IV

Essa confluência entre a mortalidade e a eternidade, é o que justifica o fato de se dizer assim: a voz diz que isso vai parar, um dia, ela diz que isso não vai parar nunca e ela diz que isso vai parar. Assemelha-se, por sua estrutura triádica, à expressão última do livro: é preciso continuar, não posso continuar, vou continuar. Com a diferença de que a primeira expressão aponta para a voz, enquanto a segunda para o eu. Mas em ambas, a necessidade e a impossibilidade estarão presentes, como o grande paradoxo. Qualquer síntese é rejeitada, em favor da fragmentação e contra a idéia de sistema. O vai e vem de um bazar é sua melhor imagem. Porque independentemente da necessidade e da impossibilidade, existe a decisão de prosseguir: o sujeito e o lugar são apenas condições para a ação que se decide no presente e, sem a qual, nada existiria.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

LULA PARA SEMPRE

Um texto do historiador Marco Antonio Villa, professor da Universidade Federal de São Carlos (SP). Publicado hoje no Jornal O GLOBO, é de se tirar o chapéu.

Lula para sempre
MARCO ANTONIO VILLA
O Globo - 25/10/2011

Luiz Inácio Lula da Silva não é um homem de palavra. Proclamou diversas vezes que, ao terminar o seu mandato presidencial, iria se recolher à vida privada e se afastar da política. Mentiu. Foi mais uma manobra astuta, entre tantas que realizou, desde 1972, quando chegou à diretoria do sindicato de São Bernardo, indicado pelo irmão, para ser uma espécie de porta-voz do Partidão (depois de eleito, esqueceu do acordo).

A permanente ação política do ex-presidente é um mau exemplo para o país. Não houve nenhuma acusação de corrupção no governo Dilma sem que ele apoiasse enfaticamente o acusado. Lula pressionou o governo para não "aceitar as pressões da mídia". Apresentou a sua gestão como exemplo, ou seja, nunca apurou nenhuma denúncia, mesmo em casos com abundantes provas de mau uso dos recursos públicos. Contudo, seus conselhos não foram obedecidos.

Não deve causar estranheza este desprezo pelo interesse público. É típico de Lula. Para ele, o que vale é ter poder. Qualquer princípio pode ser instrumento para uma transação. Correção, ética e moralidade são palavras desconhecidas no seu vocabulário. Para impor a sua vontade passa por cima de qualquer ideia ou de pessoas. Tem obtido êxito. Claro que o ambiente político do país, do herói sem nenhum caráter, ajudou. E muito.

Ao longo do tempo, a doença do eterno poder foi crescendo. Começou na sala de um sindicato e terminou no Palácio do Planalto. E pretende retornar ao posto que considera seu. Para isso, desde o dia 1 de janeiro deste ano, não pensa em outra coisa. E toda ação política passa por este objetivo maior. Como de hábito, o interesse pessoal é o que conta. Qualquer obstáculo colocado no caminho será ultrapassado a qualquer custo.

O episódio envolvendo o ministro do Esporte é ilustrativo. A defesa enfática de Orlando Silva não dependeu da apresentação de provas da inocência do ministro. Não, muito pelo contrário. O que contou foi a importância para o seu projeto presidencial do apoio do PCdoB ao candidato petista na capital paulista. Lula sabe que o primeiro passo rumo ao terceiro governo é vencer em São Paulo. 2014 começa em 2012. O mesmo se repetiu no caso do Ministério dos Transportes e a importância do suporte do PR, independentemente dos "malfeitos", como diria a presidente Dilma, realizados naquela pasta. E, no caso, ainda envolvia o interesse pessoal: o suplente de Nascimento no Senado era o seu amigo João Pedro.

O egocentrismo do ex-presidente é antigo. Tudo passa pela mediação pessoal. Transformou o delegado Romeu Tuma, chefe do Dops paulista, onde centenas de brasileiros foram torturados e dezenas foram assassinados, em democrata. Lula foi detido em 1980, quando não havia mais torturas. Recebeu tratamento privilegiado, como mesmo confessou, diversas vezes, em entrevistas, que foram utilizadas até na campanha do delegado ao Senado. Nunca fez referência às torturas. Transformou a casa dos horrores em hotel de luxo. E até chegou a nomear o filho de Tuma secretário nacional de Justiça!!

O desprezo pela História é permanente. Estabeleceu uma forte relação com o símbolo maior do atraso político do país: o senador José Ribamar da Costa, vulgo José Sarney. Retirou o político maranhense do ocaso político. Fez o que Sílvio Romero chamou de "suprema degradação de retrogradar, dando, de novo, um sentido histórico às oligarquias locais e outorgando-lhes nova função política e social". E pior: entregou parte da máquina estatal para o deleite dos interesses familiares, com resultados já conhecidos.

O desprezo pelos valores democráticos e republicanos serve para explicar a simpatia de Lula para com os ditadores. Estabeleceu uma relação amistosa com Muamar Kadafi (o chamou de "amigo, irmão e líder") e com Fidel Castro (outro "amigo"). Concedeu a tiranos africanos ajuda econômica a fundo perdido. Nunca - nunca mesmo - em oito anos de Presidência deu uma declaração contra as violações dos direitos humanos nas ditaduras do antigo Terceiro Mundo. Mas, diversas vezes, atacou os Estados Unidos.

Desta forma, é considerável a sua ojeriza a qualquer forma de oposição. Ele gosta somente de ouvir a sua própria voz. Não sabe conviver com as críticas. E nem com o passado. Nada pode se rivalizar ao que acredita ser o seu papel na história. Daí a demonização dos líderes sindicais que não rezavam pela sua cartilha, a desqualificação dos políticos que não aceitaram segui-lo. Além do discurso, usou do "convencimento" financeiro. Cooptou muitos dos antigos opositores utilizando-se dos recursos do Erário. Transformou as empresas estatais em apêndices dos seus desejos. Amarrou os destinos do país ao seu projeto de poder.

Como o conde de Monte Cristo, o ex-presidente conta cada dia que passa. A sua "vingança" é o retorno, em 2014. Conta com a complacência de um país que tem uma oposição omissa, ou, na melhor das hipóteses, tímida. Detém o controle absoluto do PT. Usa e abusa do partido para fortalecer a sua capacidade de negociação com outros partidos e setores da sociedade. É obedecido sem questionamentos.

Lula é uma avis rara da política brasileira. Nada o liga à nossa tradição. É um típico caudilho, tão característico da América Hispânica. Personalista, ególatra, sem princípios e obcecado pelo poder absoluto. E, como todo caudilho, quer se perpetuar no governo. Mas os retornos na América Latina nunca deram certo. Basta recordar dois exemplos: Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón.

sábado, 22 de outubro de 2011

FRAGMENTO

"Agora ele está morrendo. Ao menos ele a tem ao seu lado, porque muitos morrem só. Ela está medindo sua pressão e faz sua comida. Chegaram a ter suas desavenças, quem não as têm? A história deles não será filmada. Bem que ambos chegaram a ser seduzidos pela sociedade do espetáculo. Mas ao mesmo tempo, e talvez tenha sido esse o ponto em comum, havia neles alguma coisa que repelia a festa. Não eram chegados a vida exterior. Muitas vezes, resolviam sair porque não aguentavam mais, e davam com os burros n'água: voltavam logo para o casulo. Essa expressão é correta: sempre moraram em espaços reduzidos. Eles se bastavam. Essa sensação de completude fazia deles muito solitários. O mundo para ele era ela, e para ela, ele. Aí se enchiam um do outro e iam por si mesmos explorar o universo. Mas essa exploração era uma higiene mental. No fundo, nenhum deles avançava para fora como um afogado buscaria o oxigênio. Chegaram até a se separar, mas ele jura que nunca acreditou muito no fato. Os cinco anos que permaneceram separados, talvez tenha sido uma forma de experiência a que se propuseram. Entre eles havia muito "faz de conta". Expirada a performance, retornaram. Agora ele está morrendo. E ela permanece firme ao seu lado, administrando-lhe os remédios".

terça-feira, 18 de outubro de 2011

BOLSA DE VALORES, AUTOMÓVEL E ACADEMIA

A homofobia contribui com seu anti-exemplo para entendermos outros fenômenos que, à sua luz, readquirem novos significados.

O excesso denuncia a falta. É a própria forma como essa se expressa. Como se tivéssemos uma imagem em negativo. Quem mata viado, mata, sobretudo, o imenso viado que lhe acua por dentro. O homofóbico não é só um viado enrustido: é um viado imenso com chifres pontiagudos a lhe espremer as costelas; um viado cheio de viço, como um bezerro maluco dando coice pra todos os lados.

Um homossexual pode ser um advogado, um médico, um professor de matemática. O homossexual é o sujeito mais correto que existe na face da terra. Eu sempre imagino um homossexual de bigode, usando terno e falando três idiomas. O fato de dar a rosca não lhe tira a dignidade. Eu gostaria de ter um presidente homossexual. E se meu filho fosse homossexual, eu teria por ele o mesmo amor que tenho pelo meu.

Quando se assume a homossexualidade é bonito. Porque um grande contingente permanece no armário. Se fôssemos computar os assumidos, não assumidos e enrustidos, passava da metade.

Os não assumidos preservam a imagem, trabalham em lugares públicos e convivem com sua sombra. Essa duplicidade não lhes provoca nenhum mal-estar. Acostumaram-se a dubiedade e seguem pela vida a fora separando o público e o privado.

A questão está no enrustido. Quando o seu desejo de “dar o cu” é sublimado, transformam-se em grandes artistas. Tornam-se muitas vezes assexuados. Enrustiram tanto, recalcaram tanto, que chegam a sofrer de prisão-de-ventre.

Outros enrustidos são tão viados, que ao custo de muita repressão, viram assassinos. A cada viado abatido, vangloriam-se. Uma sensação de alívio toma seu corpo. É um matador em série. A crise recrudesce quando, depois de passar o dia todo com o dedo no cu, saem à noite pra matar baitolas.

Mas o último caso de enrustido, motivo dessas mal alinhavadas linhas, refere-se aos que jogam na bolsa, têm carro do ano e fazem academia. São vaidosos por natureza e estão sempre bem acompanhados. É o nosso velho playboy. Todo o mundo feminino, do qual a vaidade é sua maior expressão, explode dentro dele. Redirecionam então para signos masculinos. Não são assassinos mas estão sempre se dando bem. Basta um dos três signos para o identificarmos. Mas caso abrace os três de uma só vez (bolsa de valores, academia e carro do ano), aí então sua viadagem chega a graus elevadíssimos. Só não é matador em série por um triz (naturalmente, muitos acumulam a função de matador, playboy e artista).

É por essas vias indiretas que podemos compreender a bolsa de valores, o automóvel e a academia.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

UM FURO

Havia um furo bem no meio.
Pelas bordas podia se ver,
senão imaginar, o inimaginável:
o furo ali estampado.

Imaginam-se as vísceras, as tripas,
as convulsões, a hemorragia...
porque tudo isso é possível.
Até mesmo o olhar absorto

de um homem que vai morrer,
a gente pode imaginar.
Por exemplo: ele foi à padaria

e nunca mais voltou pra casa.
Mas aquele furo não dizia nada.
Era um furo fora da História.

(do meu livro DEBAIXO DAS RODAS DE UM AUTOMÓVEL, editora Rocco, à venda nas melhores lojas do ramo, ou diretamente pela editora, ou pelo meu site www.rogerioskylab.com.br)

domingo, 9 de outubro de 2011

ABEL BRAGA - TÉCNICO DO FLU



Uma coisa me preocupou, e falo isso como tricolor carioca, no final do FLA X FLU de hoje. Não foi a derrota porque essa foi um acidente. Jogamos melhor e podíamos ter ganho. Só que futebol não é matemática.

O FLU tem um problema crônico que não foi resolvido pelo Muricy e muito menos pelo Abel. Chama-se DEFESA. Com o Muricy esse problema foi maquiado, com o Abel veio à tona. Desde a saída do Thiago Silva, essa questão se arrasta, sem que a diretoria de futebol do clube tenha tido a sensibilidade de contornar. Não há time que se candidate ao título sem um jogador de categoria atrás. Esse jogador, nós não temos. Gun (ou Digão, ou Márcio Rosário), Leandro Euzébio, Diguinho, Edinho, Diogo, estão longe de exercer tal função. Nós temos esse problema crônico no miolo da zaga e isso se reflete diretamente no resultado das partidas. Ou ganhamos ou perdemos. Temos pouquíssimos empates.

O terceiro gol rubro-negro foi o maior exemplo. O cara pega a bola na intermediária, escolhe o canto e livre de marcação, chuta. Não importa o maior volume de jogo do FLU. Nem que o nosso ataque fosse soberano, como era o Santos de Pelé. Não tem esquema tático que dê jeito a essa situação.

Ainda que o Abel tenha raízes tricolores, e nesse caso mil vezes ele ao Muricy, parece também que não tem conseguido fazer bem a leitura dos jogos. Hoje, entre tirar o Rafael Sobis e o Rafael Moura, deveria tirar o último que não fez nada. Quanto à saída do Deco, só se justificaria se ele pedisse. Por fim, insistir com o Souza entre as opções do banco, eu prefiro não comentar.

Porém, pior que a sua leitura dos jogos, só mesmo o seu destempero. Que foi aquilo no final do jogo? O juiz não foi responsável pelo resultado. Esse negócio de botar o dedo na cara, essa empáfia de quem não reconhece a derrota, é , na verdade, o que mais me preocupa. Que coisa bizarra foi aquela no final do jogo?

Perdeu, bola pra frente.

O campeão tá longe de ser definido, ainda temos chances e faltam muitos jogos. Enfim, uma derrota que pode ser remediada lá na frente. O que não pode ser remediado foi o papelão do Abel, interferindo no próprio ânimo dos jogadores.

Deve estar com vergonha agora, vendo os lances pela TV.

Não é mau caráter como o anterior.

Mas muito passional. E isso mais atrapalha que ajuda.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

BAZZAR RESTAURANTE



A passagem dos anos pode ser devastadora para alguns. As rugas, as varizes, o ressecamento.
Para outras pessoas, no entanto, o envelhecimento é benéfico. Amadurecem e ficam mais jovens.

O Bazzar, de Cristiana Beltrão, entra na segunda categoria: os anos deram ao restaurante de Ipanema não só renome, mas garantia de qualidade. Fazia tempo desde a última vez que lá estive. Mas o Bazzar permanece sólido e fiel aos seus princípios. O tempo lhe foi benfazejo.

Uma característica, que o difere dos demais, são os seus produtos: o molho de damasco, a mostarda rústica, o molho curry, o açaí mix, entre outros. Outra diferença, em relação aos demais restaurantes, é sua opção de cardápio: o prato principal é oferecido também em meia porção.

Madame Funérea se sentiu incomodada com o som um pouco alto. A boa medida é sempre difícil de ser obtida. Mas conseguimos uma mesa mais ao canto e longe das caixas de som.

O ambiente é naturalmente descontraído. O vidro e a madeira revestem o ambiente, o que lhe dá muita claridade. Não tem o aconchego de um bistrô, até por suas dimensões e um pé direito alto.

Rejeitamos o TAPAS (outra característica do cardápio, que se mostra quão afinado é aos novos tempos ) e a ENTRADA. Madame Funérea foi logo ao prato principal: filé mignon com molho acridoce de damasco e arroz cremoso de queijo brie. Cozinheira de mão cheia, vislumbrou a possibilidade de repeti-lo em casa, fazendo pequenos reparos. O molho lhe pareceu muito doce.

Eu fui contrariado em meu pedido e esse é meu primeiro senão: pedi escalopes de cavaquinha (tinha acabado); então fui de peito de pato grelhado com banana-da-terra, couve frita, cebolas crocantes e panquequinhas de baroa.

Estamos no coração da gastronomia contemporânea. Nesse caso, a apresentação do prato conta e como conta: além do pato e seu molho sobre a panqueca de batata baroa, veio acompanhando um copo, dentro do qual os pedacinhos de banana, as cebolas fritas e um fiapo de couve frita. Estranhíssima aquela apresentação. Tudo decorativo. Tudo asséptico. E o pato muito fibroso: meu segundo senão.

Para acompanhar, um tinto francês: Les Hauts de Janeil 2008, da região Languedoc Roussillon (sul da França). Composto por 20% de uva Syrah e 80% de uva Grenache, François Lurton é o responsável por um vinho suave, vermelho escuro, com perfume de frutas pretas e especiarias.

Na sobremesa, fui de torta de cupuaçú com castanha de caju e fio de chocolate. Seria ironia afirmar aquele o ponto alto. Mas foi.
Já Madame Funérea pediu Café Gourmand (um expresso que vem acompanhado de: petit gateau de chocolate e calda de goiaba; mini bolo de laranja e calda de chocolate; musse de chocolate branco com calda de framboeza – todos, naturalmente, em pequenas porções).

A mistura de doce e salgado em alguns dos pratos principais, o aproveitamento de produtos genuinamente nacionais como o cupuaçú, a banana-da-terra, o maxixe... e a aventura de novas experimentações, dão o tom a um restaurante que permanece jovem, ainda que sujeito a pequenos equívocos.

O atendimento é classe A.

Bazzar Restaurante – Rua Barão da Torre, 538 - Ipanema - Rio

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

BOLETIM ROCK IN RIO - CONCLUSÃO

Acabou o Rock in Rio 2011.

Os meus boletins impressionistas são cheios de lacunas, preconceitos.
Mas não quis esconder isso.
Não acredito num olhar neutro, objetivo, como a Imprensa tenta nos fazer engolir. Ao vermos e ouvirmos uma coisa, sempre vemos e ouvimos outra. Nesse sentido, somos eivados de preconceitos e nosso olhar é sempre subjetivo.
Quando a Cláudia Leite se pendurou numa corda, por exemplo, eu sinceramente queria poder estar ali.
Pra cortar a corda.
Mas não sou contra a mistura de estilos. O Festival foi muito criticado por causa disso. Acredito, no entanto, que tem uma simbologia a ser preservada nessa mistura e que está ligada ao próprio futuro.
O que não pode acontecer é a curadoria do palco Sunset ficar prisioneira do que se convencionou chamar de “nova música brasileira”; se não abrir o leque de alternativas, o Rock in Rio não cumpre o seu conceito abrangente. Ou seja: eu não sou contra a mistura, longe disso; gostaria que ela realmente fosse a palavra de ordem do festival.

Shows que não vi e não gostei: Capital Inicial e Detonautas
Shows que não vi e me arrependi: Janelle Monaé, Motorhëad
Shows que vi e amei: Coldplay e System of a Down
Shows que vi e detestei: Frejat e Marcelo Jeneci

A grande novidade foi realmente a cobertura do Multishow. Ininterrupta (só faltou cobrir a primeira atração do palco Sunset), câmera nos bastidores, o camarote vip (né, bebe?), a Luisa Micheletti e a Didi Wagner firmes no comando, o Beto Lee dando informações do ponto-de-vista da platéia (quando ele falou sobre o P.A no show do Lenny Kravitz por exemplo), a Érika Mader (linda e simpática, cobrindo o Sunset), enfim... tudo legal. Só faltou mesmo alguém mais opinativo. Para Luisa e Didi, todas as atrações foram legais. Senti falta de uma opinião mais avalizada, mais independente, durante o show, entre uma música e outra.

No mais, que 2013 seja melhor.

E Zé Ricardo, se liga, hein !!!!!

domingo, 2 de outubro de 2011

6- BOLETIM ROCK IN RIO

O último dia foi marcado mesmo pelos californianos do System of a Down.
Podia terminar aí o festival e seria lá em cima. Junto com Coldplay, que tocou no dia anterior, foram os momentos máximos do evento. Com a diferença de que o SOAD não havia estado no Brasil antes. Nesse sentido, o dia de ontem revestiu-se de uma importância maior.
Acho também que ambas as bandas se diferenciam esteticamente: o Coldplay está calcado em belas canções, sendo, muitas delas, tristes e melancólicas; já o SOAD faz uma música experimental, originalíssima, inclassificável e nada melancólica, muito pelo contrário (mudanças de andamento, dinâmica, fusão de estilos, música armena)
Essa duplicidade estética, que perpassa todo o festival, esteve presente também no dia de ontem. Nesse sentido, foi legal que o Evanescence precedesse ao SOAD na ordem de apresentação.
Amy Lee foi a voz feminina do festival. Ter-se apresentado logo após a PITTY foi maldade porque fez a baianinha recolher-se à sua insignificância. Deu pena.
Mas o Evanescence representa o lado melancólico, romântico, atormentado, em contraste com a ironia do SOAD. O ponto em comum é que a voz de ambas as bandas está em primeiro plano: o que a dupla Daron Malakian e Serj Tankian cantam é de impressionar, principalmente Tankian pelo malabarismo vocal (me fez lembrar Jello Biafra; além do mais, não tem aquela viadagem do Arnaldo Antunes de ficar se produzindo no figurino); já Amy Lee é cantora lírica de primeira grandeza.

Em tempo: a expectativa que guardei para Os Mutantes e Tom Zé foi frustrada; o tempo é irreversível.

5- BOLETIM ROCK IN RIO

O penúltimo dia do festival já teve uma melhora.
Ao que tudo indica, Coldplay foi mesmo a banda que a organização do festival resolveu jogar suas fichas. Acho pouco. Ainda mais se tratando que o quarteto inglês já esteve mais de uma vez aqui. De qualquer maneira, é banda de gente grande, no mesmo nível de U2, REM e Radiohead (ter sido precedida pelos molequinhos do MAROON 5 só me fez aumentar essa impressão) .
Hoje vou falar dos figurinos.
Que estória é essa de terninhos? Um calor de rachar o bico, e toda a turma do Arnaldo Antunes de terno e paletó. Por mais que queiram fazer uma referência ao iê iê iê, não justifica. Esse excesso de produção do Arnaldo Antunes me soa estranho. É como se quisesse camuflar uma ausência. Que o FREJAT tenha feito o mesmo, tudo bem: ele já nasceu brega. Mas não foi o tom do festival e nem poderia ser em se tratando de um festival de rock no Brasil. Quanto mais produção no figurino, Ivete que o diga, mais cafonice e mais provincianismo.
Ser a primeira atração do palco Sunset não é uma boa. A web não substitui a televisão. E o meu querido Júpiter acabou sendo prejudicado. Mas aviso aos navegantes que o RJ TV escolheu sua música e não a do Cidadão para um flesh. Outra coisa: o Júpiter é que tinha que estar com a sua banda. É uma questão de justiça. Basta comparar a trajetória do Cidadão e do Júpiter. Por fim, vou iniciar aqui uma campanha: que o Cidadão Instigado siga o exemplo do Macaco Bong e se transforme numa banda instrumental. Porque é dose ouvir o Catatau cantando.

Em Tempo: descobriram Erasmo Carlos. Vão fazer dele um novo gênio. Como é fácil ser gênio no Brasil !

sábado, 1 de outubro de 2011

CONTEÚDO LIVRE: ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR - É proibido criticar

Foi uma das coisas mais lindas que li ultimamente. Volta e meia vou publicar textos que não são de minha autoria, mas dos quais assino embaixo.

CONTEÚDO LIVRE: ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR - É proibido criticar: O "NME" faz um tipo de jornalismo e tem uma relação com artistas impensáveis no Brasil atual Por uma boa causa, quebrei uma escrita de m...

4- BOLETIM ROCK IN RIO

Ontem foi a noite mais brega.
Se Lenny Kravitz tornou-se a única coisa a sobressair, é porque a coisa tava mal mesmo.
Mas se provou o poder da Indústria. Tocar em rádio é fundamental, né Rogério Flausino?
Outra coisa: nunca vi a bandeira nacional tão em evidência. Nossa República das Bananas realmente tá na moda.
Mas vamos avacalhar (faz tempo que não ouço essa palavra; a última vez que a ouvi foi no Bandido da Luz Vermelha). Leitor hipócrita, mon semblable, mon frère, quem é pior, Ivete Sangalo ou Shakira?
Ivete na cabeça.
Parece um travesti.
Pesada, dura (nunca soube dançar) e nervosa – a cobertura dos bastidores no Multishow provou isso. Tanto que, antes de entrar no palco, uma de suas asseclas falou assim: relaxa, Ivete, você vai arrasar.
Não arrasou, pulou. É a única coisa que faz.
E tocou mal violão.
Já a colombiana de Barranquilla disse ao que veio. Com graça, com remeleixo, leveza e uma simpatia arrasadora (a sua relação com as meninas da platéia que subiram ao palco, prova que o estrelato não lhe subiu à cabeça). Eu levava pra casa.

Em tempo: no palco Sunset nada prestou, a não ser João Donato, meu rei.