quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

UMA ESTAGIÁRIA



Estágio: esta sensação de passagem
(um certo modo de estar).
Ser por um breve tempo.
Ficar: seu modo mais certo.

Como ela, sem o peso dos anos.
Oca e leve.
Arremedo de funcionária:
maravilhosamente bela.

Uma estagiária sem amanhã.
E que no entanto brilha,
anunciando a manhã.

Lá vem ela, lépida e fagueira.
Pudesse lhe perguntaria...
Mas tudo passa pelos seus desvãos.


(do livro "Debaixo das Rodas de Um Automóvel", editora Rocco, que publiquei em 2006, à venda pelo site: http://www.rogerioskylab.com.br/rogerio_skylab_discografia_comprar_livro.html#comprar)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ROBERTA SUDBRACK




Ao ser acomodado no segundo andar, numa grande mesa com capacidade para seis pessoas, meu campo de visão adentrou a cozinha. Mas essa visão era restringida aos limites de uma janela de vidro, de maneira que podia ver apenas a movimentação dos que trabalhavam no seu interior, sem que pudesse deslindar o que estavam a fazer nem o que estavam a falar. Essas pessoas eram todas jovens, oriundas da classe média – e isso me pareceu uma primeira singularidade. Porque os trabalhadores de cozinha, mesmo em restaurantes burgueses, são oriundos, em sua grande maioria, de classe menos abastadas. Nesse sentido, seria interessante analisarmos a presença nordestina nos grandes restaurantes do eixo Rio-São Paulo.

Mas os jovens, impecavelmente vestidos de branco e um comprido chapéu, continuavam suas performances, quando, de repente, ela apareceu no meio deles. Era Roberta Sudbrack, aquela mesma que despontou no cenário nacional como a chefe de cozinha do Palácio do Planalto, na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

Era uma noite de terça-feira, dia em que ocorre o menu-especial: por apenas R$ 59,00, você degusta uma entrada e o prato principal. Um expediente que o restaurante criou para se abrir a um público maior, imagino, já que o menu completo chega a custar o triplo desse valor, sem incluirmos a bebida.

O ambiente é refinado e informal, o que não deixa de ser uma marca carioca. Podemos ser informais e elegantes: é a lição que o Rio exporta.

Assim que fomos acomodados, o garçon nos mostrou o menu. Se não fosse Madame Funérea alertar para o fato de que tínhamos feito reserva para o menu-especial, eu poderia cair no erro de achar que, o que me era oferecido pelo simpático garçon, era o que eu tinha reservado. Não era. Mas podia me conduzir ao erro de pedir o menu completo, que era o triplo do valor do menu-especial.

Tudo esclarecido, fomos brindados, logo de início, com uma pão de queijo gruyere, preâmbulo auspicioso do que estava por vir.

Aquela era uma situação especial. Tivemos o deslumbre que seria uma experiência, sobretudo, sensorial. Pelo vidro, acompanhávamos a performance dos meninos. Eram tão jovens. Mas a salada já estava à nossa frente.

Chicória crespa com pedacinhos de abóbora assada e que mais pareciam aerados, tamanha a maciez por dentro ( a que técnica obedecia aquilo, nem eu, nem Madame Funérea, com toda sua experiência gastronômica, fazíamos idéia). A salada era também acompanhada de queijo de cabra, ralado bem fininho, e sementes de abóbora tostados, o que dava à entrada uma miríade de texturas.

O meu pressentimento se confirmava: uma experiência, sobretudo, sensorial. O vinho, um Catherine & Pierre Breton, do ano de 2006, da região de Val de Loir, França, de uvas cabernet, nos trazia suavidade e odor característico.

O prato principal ficou por conta de um risoto de galinha d’angola e pedacinhos de aspargos, confirmando o quanto havia de rigor, exigência e, ao mesmo tempo, leveza, no conceito de Roberta Sudbrack. Sua cozinha me lembrou um laboratório.

Madame Funérea sem negar a excelência do risoto, o contrapôs ao seu, mais cremoso e de sabor mais pronunciado. Mas tudo são maneiras de fazer.

A sobremesa, uma tortilha com recheio de chocolate amargo e quente, completou o menu-especial, que ficará para sempre em nossa memória.

Rua Lineu de Paula Machado, 916 - Jardim Botânico - Rio (RJ) - fone: 3874-0139

MOLLOY - SAMUEL BECKETT





“Sempre tive a mania da simetria”
Beckett


Escrito em 1947, Molloy e Moran são as duas partes da novela de Beckett. A primeira parte contém apenas dois parágrafos, o primeiro bem curto em comparação ao segundo. O narrador está no quarto da mãe morta e abastece com novas folhas escritas um indivíduo que semanalmente vai até sua casa em busca de mais textos.

A simetria começa aí. Porque Moran também se encarrega de fazer o relatório ao seu chefe. Mas uma simetria não composta de identidade, guardando, entre si, variações.

O próprio Molloy, segundo Moran, tem cinco versões diferentes: o real; o das entranhas do próprio Moran; a sua caricatura por este; o de Gaber (mensageiro); e o de Youdi (o grande chefe, que não teria apresentado todos os aspectos de Molloy à Gaber, por uma questão prática).

Neste texto de Beckett, sobretudo, vai se propor imagens que nunca serão idênticas entre si. Assim como uma das pernas de Molloy é mais curta.

Se Molloy procura a mãe, Moran procura Molloy; se o primeiro apóia-se num par de muletas, o segundo, num guarda-chuva; se o primeiro obedece ao imperativo, o segundo, às ordens de Youdi; se a primeira parte tem uma estrutura dual (Molloy e a mãe), a segunda é triádica (Moran – o filho – a empregada; Moran- o mensageiro – o chefe).

Tudo é desdobramento, inclusive no nome “Jacques”, o mesmo do pai e do filho. Desdobramento até do narrador, quando o relatório na primeira pessoa se desloca para a terceira pessoa: “Foi então que (eu, Moran) vi este fato sem precedente: Moran se preparava para partir ignorando em que coisa ia se aventurar”. Também no primeiro relatório, a mesma espécie de deslocamento narrativo: “(Eu, Molloy) tinha vontade de voltar para a floresta. Oh, não uma vontade verdadeira. Molloy podia ficar ali onde estava”.

O que gera a idéia de série é que as duas partes do romance, não são absolutamente diferentes; guardam entre si elementos comuns. A diferença, por sua vez, se dá de forma simétrica. A mesma simetria entre o mundo dos fenômenos e o mundo subterrâneo:

“É deitado, bem quentinho, no escuro, que penetro melhor na falsa turbulência do exterior, situo melhor a criatura que me entregam... Tudo é obscuro, mas daquela obscuridade simples que descansa dos grandes desmembramentos. Massas inteiras se põem em movimento, nuas como lei... Esse é o efeito que às vezes sobre mim têm o silêncio, o calor, a penumbra, os odores do meu corpo. Levanto-me, saio, e tudo mudou. Minha cabeça se esvazia de sangue, de todas as partes me assaltam os ruídos das coisas que se evitam... meus olhos buscam em vão semelhanças, naufrago na escuma dos fenômenos. É prisioneiros destas sensações, mesmo sabendo que são ilusórias, que devo viver e trabalhar. É graças a elas que encontro em mim um sentido... E no entanto não é desagradável, antes de se meter no trabalho, retemperar as forças neste mundo maciço e lento, onde tudo se move com a triste gravidade dos bois, pacientemente, por caminhos imemoriais, e onde evidentemente seria impossível qualquer trabalho de pesquisa. Mas para a ocasião, digo bem, para a ocasião, tinha outros motivos mais sérios e que diziam mais respeito ao agradável que ao útil. Porque era apenas com o deslocamento nessa atmosfera, como dizer, de finalidade sem fim, por que não, que ousava considerar o trabalho a executar... Porque lá onde Molloy não podia estar, Moram também não, Moran podia se curvar sobre Molloy. E se deste exame nada devia sair de particularmente fecundo nem útil para a execução do mandato, teria pelo menos estabelecido uma espécie de relação e relação não forçosamente falsa. Porque a falsidade dos termos não conduz, ao que eu saiba, fatalmente à falsidade da relação” (pág. 108).

Esse longo trecho traz à tona uma espécie de hierarquia na estética de Beckett. Acho curioso, inclusive, a ordem da apresentação das duas partes do romance. Ao adentrarmos na segunda parte, somos tomados pela sensação de terra firme. Voltam os parágrafos e algumas pistas nos são dadas quanto à forma de abordá-lo. E os objetos são esses índices.

II

Há uma espécie de regressão de traz para frente: do guarda-chuva à muleta; do pai de família ao celibatário; de Molloy à Mollose. Essa mesma regressão que faz diminuir a rede, a qual é definida como o desejo de que a partilha diminua o sofrimento. O segundo relato apresenta já suas suspeitas, ainda que formalmente revestido do que chamamos por rede: “lucidez que chegava a duvidar do próprio Gaber... chegaria até a escamotear o chefe e me acreditar o único responsável pela minha infeliz existência”. O final do livro expõe o engodo e o desvio: “Então entrei em casa e escrevi, É meia-noite. A chuva fustiga os vidros. Não era meia-noite. Não chovia”.

A linguagem como desvio: “A raiva me levava, às vezes, a ligeiros desvios de linguagem. Não me culpava por eles. Me parecia que toda linguagem era um desvio de linguagem”.

Esse desvio essencial, da qual faz parte a própria traição do filho de Moran. Desvios entre a primeira e a segunda narração: o pastor, com o cachorro e as ovelhas, no primeiro relato, não chega a entender nem a ouvir Molloy, mas, no segundo relato, o pastor responde com um gesto à Moran; a ausência do barbante no chapéu de Molloy e a fenda em um dos buracos no chapéu de Moran; a muleta em Molloy e o guarda-chuva em Moran.

Os desvios são como cálculos de possibilidades, aos quais nos remetem as pedras de chupar. Entre as páginas 68 e 70, Beckett desfila diante de nossos olhos uma questão espinhosa: como procede a fim de que as 16 pedras de chupar que tenho em meus quatro bolsos possam ser chupadas sem que venham a ser repetidas? Ele encontra a solução, sem garantir a mesma ordem de chupação nas diferentes séries – uma solução imperfeita, portanto, ainda que houvesse método, e este, segundo ele, chega a ser uma necessidade física. Ao final, tudo isto lhe é indiferente porque pouco se lixava para a perspectiva de ficar sem pedras – isso não o faria se sentir melhor, nem pior. O que o leva a jogá-las todas fora, com exceção de uma, que acaba por perder.

Esse episódio nos leva a entender os dois níveis que perpassam a poética de Beckett.

O primeiro nível é da ordem dos objetos e suas relações (a combinatória entre eles): a variação entre os episódios sucedidos com Molloy e Moran, variações que são desvios, inclusive nas formas do primeiro e do segundo relato, sem esquecer que neste primeiro nível estamos à mercê dos desvios e fugas (a traição do filho de Moran, o esquecimento da lição aprendida, o desencontro entre Moran e Molloy, tal e qual acontece entre Molloy e a mãe); tudo é objeto, e, enquanto tal, resiste-se ao espírito de sistema. Objetos que chegam ao ápice de encobrir suas funções: “Esse estranho instrumento ainda o tenho em alguma parte, acho, não tendo nunca me resolvido a trocá-lo por dinheiro, mesmo no extremo da necessidade, pois não chegava a compreender para que poderia servir, nem mesmo esboçar uma hipótese a esse respeito. E de tempos em tempos o tirava do meu bolso e o observava, com um olhar atônito e não diria afetuoso, pois era incapaz de afeto. Mas durante esse tempo ele me inspirou uma espécie de veneração, acho, pois tinha certeza de que não era um objeto virtuoso, mas que tinha uma função das mais específicas e que ficaria para sempre escondida de mim”. (pág 60).

Chega-se a fazer do próprio corpo um estranhamento: “E os confins de meu quarto, de minha cama, de meu corpo estão tão longe de mim quanto os confins de minha região... E o ciclo continua aos solavancos, ciclos de fugas e acampamentos, num Egito sem limites, sem crianças e sem mãe. E quando observo minhas mãos... elas não me pertencem... Mas isso não dura muito, pouco a pouco reconduzo-as em direção a mim, é o repouso” (pág 62).

III

Mas há um segundo nível de profunda indiferença aos objetos. E que leva tanto Molloy quanto Moran ao mesmo destino de perda. Neste nível, nem a vontade, nem a consciência e nem o poder são responsáveis por fazê-lo prosseguir, apesar de tudo. Mas apenas o imperativo, a cuja ordem, não mais de natureza individual, é dado seguir. A questão é que nada se inventa, acredita-se inventar, evadir-se, e balbucia-se apenas a lição, fragmentos de um castigo aprendido e esquecido” .

O esforço descomunal em prosseguir, obedecendo assim ao imperativo, em busca da grande derrocada, é ao mesmo tempo, seu trunfo. Porque subtraindo-se aos objetos e à utilidade, o personagem beckettiano respira a atmosfera das finalidades sem fim, onde os termos, ainda que falsos, dão margem à relações sempre verdadeiras. Em outras palavras, o que Moran efetua, ao desencalhar Molloy, isto é, ao construí-lo imaginariamente, e certamente em defasagem com a realidade, ele não o faz por Molloy (leitor), a quem pouco se lixava, e nem por ele mesmo (autor), a quem renunciava: “... mas no interesse de um trabalho que, mesmo tendo necessidade dos dois para se realizar, era anônimo em essência, e subsistiria, habitaria, o espírito dos homens quando seus miseráveis artesãos já não mais existissem” (pág. 111).

Esse anonimato é o que funda a morte do autor e terá consequências irreversíveis ao que chamaríamos de pós-modernismo. Não existe mais intenção. Nem eu, nem ele. Apenas o neutro, “com uma inexorável lançadeira, a comer minha página com a indiferença de um flagelo”.

Molloy - Samuel Beckett - tradução: Leo Schlafman - Editora Nova Fronteira - 1988

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

POESIA SEMPRE



Eu, que sempre frequentei a Biblioteca Nacional, quando a vejo imponente hoje, imune ao tempo, me vem logo a sensação de que sou sangue do seu sangue. Porque existe a laia dos escritores obscuros, alheios à luz dos holofotes. Para quem a escrita é comida e todo dia precisam de ração. Esses escritores que ninguém conhece porque escrevem pra gaveta.

No hall da Biblioteca Nacional, existe uma lojinha que comercializa seus produtos. E, pela primeira vez, adentrei aquele espaço – há sempre uma primeira vez em nossas vidas. Minha relação ali foi sempre com a sala de leituras.

Então, comecei a folhear “Poesia Sempre”, o produto da Biblioteca Nacional de maior visibilidade. E me interessei porque cada volume dedicava-se a um assunto diferente: poesia romena, poesia da Sérvia, poesia de Moçambique... Achei curioso e passei a examinar o índice de alguns volumes.

Eis que me deparo, então, com os mesmos, “surpreendentemente”, os mesmos: Eucanaã Ferraz, Francisco Bosco, Marco Lucchesi, Antônio Cícero, Armando Freitas Filho (funcionário da casa)... E uma profunda depressão me abateu naquele instante. Porque vi que aquela instituição, imune ao tempo, só o era de fachada. Dentro, imperava a política com suas benesses, áreas de influência, lutas de poder, e o “toma lá da cá”.

Ao escritor obscuro, pois, não cabia outra atitude senão retirar-se. Cheguei, inclusive, a cogitar, quando ali me adentrei, em comprar algum volume de “Poesia Sempre”. Mas desisti a tempo.

E voltei à sala de leitura de sempre. O único espaço imune ao tempo e à política.

À poesia sempre.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Alquimistas do Som

Esse documentário maravilhoso, eu estruturo da seguinte maneira:
Ponto Fraco: Lenine
Ponto Alto: Koellreutter
Divergência: Arrigo Barnabé X Arnaldo Antunes
Para ser visto, revisto, transvisto.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O "AUTOR" PARA RICHARD RORTY




Qual seria a função do “autor” para Richard Rorty?

Com ele fechamos a trilogia dos filósofos que trataram do tema.

Em Benjamin, temos a perspectiva marxista. Em seu texto-palestra, “O Autor como Produtor”, datado de 1934, a mudança tem como alvo a forma de produção. Ao "autor", como produtor, caberia esse papel, se não quisesse ver-se reduzido a uma peça da engrenagem capitalista. Sua intermediação na revolução proletária era de suma importância.

Já em Foucault, o "autor" passa a ser função do discurso, conforme seu texto-palestra “O que é um Autor?”, datado de 1969. Uma vez que os discursos se articulam nas relações sociais, a melhor forma de ver como essa articulação se dá, seria através da função-autor e sua modificações. Essa articulação se evidencia com muito maior nitidez na função-autor do que nos temas ou conceitos que os discursos operam. Daí porque as noções de obra e de escrita, ao bloquearem o privilégio concedido ao "autor", tivessem escamoteado o que deveria ser destacado: o "autor" como função do discurso, e não como presença invisível.

Mas na décado de 80, uma terceira imagem do "autor" será esboçada através dos textos de Richard Rorty, neo-pragmatista americano, que por sua posição intermediária, que ele próprio denominaria liberal-ironista, viria chamar a atenção para um importante aspecto do "autor", qual seja, a sua contribuição para o alargamento de nossa auto-imagem.

Caberia principalmente aos jornais e romances trabalharem com o diferente, no sentido de apresentarem variedades de dor e humilhação, para que, através de nossa identificação imaginativa, possamos alargar nossa identidade.

É nessa perspectiva de progresso moral, que Rorty vai se contrapor aos pós-estruturalistas franceses, inclusive Lyotard e Foucault.

Em relação a esse último, sua insistência de pensar em algo profundo dentro dos seres humanos, que viria a ser deturpado pela aculturação, é o que o levaria a não fazer nenhuma espécie de concessão. A redução do sofrimento não compensaria os problemas decorrentes da aculturação. E o seu desejo de autonomia, como o que há de mais relevante, é levado ao ponto de Foucault querer vê-lo encarnado nas instituições. Contra essa síntese do público e do privado, Rorty vai propor um outro esquema: o privado como um instrumento do público, mas ambos perpetuando-se em esferas diferentes.

Seu texto, “Cosmopolitismo sem Emancipação – uma resposta a Jean-François Lyotard”, que faz parte do livro “Objetivismo, Relativismo e Verdade” – Escritos Filosóficos I”, empreende uma crítica implacável ao que se convencionou chamar de pós-modernismo. Contrários às metanarrativas de emancipação cristã, iluminista ou marxista, cuja sujeito metafísico trans-histórico acaba por julgar as práticas através de critérios antecedentemente existentes, os filósofos pós-estruturalistas são anti-utópicos por excelência. O trauma kantiano os leva, no entanto, a pensar a investigação filosófica ainda a partir do modelo judicial. Incorrem no mesmo erro da Filosofia Analítica ao se posicionarem contra a noção de conhecimento e a noção de mente, datadas do século XVII: ao argumentarem contra essas noções e fornecerem teorias do conhecimento alternativas ou filosofias da mente alternativas, continuavam no mesmo território. Richard Rorty sublinha a importância de “deixar de lado”, “mudar de assunto”, apresentar novos mapas de território, novos vocabulários que tenham a ver com novas formas de vida. Nesse sentido, o "autor" teria sempre uma função revolucionária. Foi o trauma kantiano que levaria Lyotard a desconfiar da história universal nos moldes empreendidos por Rorty: uma narrativa edificante, no sentido de livrar-se de vocabulários e atitudes gastas, e não no sentido de proporcionar sustentação para instituições e costumes; e sobretudo, de caráter utópico, visando a uma comunidade democrática social cosmopolita, cujo etnocentrismo é inevitável, porém, se dedicando a um ethnos cada vez maior e mais variado. É o “nós” (segunda pessoa do plural) das pessoas que foram criadas para desconfiar do etnocentrismo.

A posição intermediária de Rorty é que, assim como o Homem é construído, ou seja, é histórico e contingente, isso não o impede, a ele, Rorty, de buscar uma cola para as sociedades, em analogia com a fé religiosa: ao invés da esperança pessoal no paraíso, a esperança referente aos nossos netos (muda-se a retórica, mas continua existindo cola). Essa cola não é mais baseada no que há de comum na natureza dos homens, mas é construída, via consenso, através da livre discussão e por persuasão, nunca pela força.

Seguindo a lógica de Rorty de que a função do "autor" seria de servir para a mudança histórica do homem através de novos vocabulários, uma vez que os antigos vocábulos emperram novas práticas, a questão estaria, portanto, em proceder a novas redescrições, via transições terminológicas e mudanças de Gestalt. Nesse sentido, a literatura teria um papel mais decisivo do que a Filosofia. A comparação entre Proust e Nietzsche serve como exemplo.

Para Rorty, Nietzshe, assim como Hegel e Heidegger, é um típico caso de teórico ironista: ironista porque busca a autonomia e a criação de si mesmo, sem filiação a outro poder, ao contrário dos metafísicos; entretanto, não só redescreviam temas grandes (a Europa em Heidegger, o Ser em Hegel, e a Vontade em Nietzsche), como também buscavam compreender a ânsia de teorizar dos metafísicos, para ficar livre deles ( o tema da teoria ironista acaba sendo a teoria metafísica). E novamente estamos diante de um confronto, tal e qual acontecia com os filósofos analíticos diante de Kant e Descartes.
Proust, diferentemente, é o que Rorty chama de romancista ironista: redescreve coisas pequenas (ao invés de temas grandes, seus alvos são pessoas). E mais que isso, a forma como se livrou do julgamento dos poderosos do seu tempo, foi transformando-os em companheiros de sofrimento. Com isso, criou um novo padrão, a partir do qual pôde julgar a si mesmo. Foi uma forma de desmascarar a autoridade, sem se colocar como autoridade. Esse rearranjo é como denominaremos “perspectivismo”.

O problema em Nietzshe , e todo seu dilema e dualidade, é que, ainda que não faça o jogo kantiano das possibilidades, e, portanto, não retirando o Sublime do tempo, ainda assim, na medida em que afirma ver mais fundo e não de maneira diferente, na medida em que afirma ser mais livre e não meramente reativo, ele acaba por trair seu próprio perspectivismo e nominalismo.

Foi essa junção de perspectivismo e vontade de poder em Nietzsche, em sua tentativa de síntese entre público e privado, que, segundo Rorty, marcou a teoria ironista.


II


É curioso como tanto em Benjamin quanto em Rorty, a função do "autor" é de mediatização. Se no filósofo alemão, cabe ao "autor" não só uma função pedagógica, no sentido da socialização das formas de produção, como também a criação de um aparelho mais perfeito, como era o teatro épico de Brecht, tendo sempre em vista o confronto final entre proletários e capitalistas, no filósofo americano essa mediatização se cumpria na concessão da linguagem ao humilhado. Portanto, a tarefa de transformar a situação deste, teria que ser executada por outras pessoas, tais como o poeta, o jornalista e o romancista.

A identificação imaginária só pode transcender a vizinhança e ampliar o elo da solidariedade, através desse trabalho preliminar da literatura e do jornalismo.

Essa idéia de mediatização, à qual os franceses pós-estruturalistas teriam uma certa alergia, é no fundo a base da réplica de Rorty à Lyotard. Não a ilhota isolada, mas os passadiços que a ligam ao continente, visando uma comunidade cosmopolita.

A idéia de progresso traz, implícita, o desenvolvimento do que nos foi legado como crença, e não ruptura. Daí a idéia de reforma e não de revolução no pensamento de Rorty. Para tanto, ele vai recorrer a outro americano, John Rawls. Segundo este, o equilíbrio reflexivo é a estrutura da política democrática; não existe fundamento filosófico para a referida prática, assim como não há nada que a justifique na ordem dos direitos humanos naturais. O que a estrutura de fato são os princípios gerais em que fomos criados e as reações instintivas à problemas contemporâneos (não podemos esquecer que estamos dentro do pragmatismo americano: o que não responde à nossos problemas, deve ser posto de lado).

Outro teórico lembrado por Rorty é Wilfrid Sellars e suas “intenções-nós”. Segundo este, a moralidade é constituída pela localidade – quanto mais próximos de nós, mais fácil a identificação imaginária; o próximo a nossa localidade se torna então “um de nós” e a ele nos tornamos solidários. Naturalmente, essas semelhanças, que vão gerar a ação generosa, serão destacadas por um vocabulário final historicamente contingente.

Portanto, essa moralidade não está ligada a um respeito racional, universalista. O que novamente nos leva a uma idéia de construção, mudança e progresso, mas, sobretudo, a uma utopia universalista a partir de crenças contingentes: algo construído e não outorgado; e que pode agregar outros valores, reformado e ampliado.


III


A função do "autor" estaria mais ligado à poesia que à teoria. Porque sua atividade é produzir metáforas que venham a sobrepor-se a antigos vocabulários(ver blog -
http://godardcity.blogspot.com/2010/04/richard-rorty.html#links). Enquanto tais, não têm um lugar no jogo da linguagem. Funcionam mais como mutações que podem vir ou não a encontrar nichos, conforme o pensamento darwinista. Em si, são forças cegas, não teleológicas. Mas podem servir de instrumento a uma possível nova forma de vida. É quando as metáforas se tornam literais. É nessa perspectiva que Proust é mais importante que Nietzsche.

Diferentemente desse último, que sempre está a expressar algo via imaginação, como se mantivesse um vínculo com algo que não nós mesmos, como uma prova de que estamos aqui como se viéssemos de outro mundo, Proust tece narrativas idiossincráticas, voltando-se ao particular. E ao descrevê-lo, acaba por nos redescrever. Essa é a dupla via entre a descrição e a redescrição metafórica, contingência e ironia, linguagem e identidade, o outro e nós mesmos. Harold Bloom, em seu livro “Angústia da Influência”, trabalhou à exaustão esse processo: adotar parcialmente e modificar parcialmente os vocabulários lidos de outros autores, com vista à criação de nossa auto-imagem (ver blog: http://godardcity.blogspot.com/2010/07/angustia-da-influencia.html#links).

Daí que talvez valha a pena ressaltar que, mesmo não tendo sentido, isto é, não expressando nada, a metáfora, ainda assim, não é gratuita; ela é causada por algo que existiu antes, o que nos leva sempre à idéia de rede. Conforme Wittgenstein, não existem linguagens privadas.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011